terça-feira, 27 de janeiro de 2015

A maldição do guarda roupa


Beth Soares*

Isabel precisava de um guarda-roupa. Pesquisou na internet para não ir a campo totalmente cega com relação aos preços. Passou por cinco lojas de móveis antes de chegar àquela, no centro da cidade. Mas o preço do móvel que caberia no espaço de seu quarto era absurdo.

O vendedor, um cara baixinho, cheio de esperteza no andar e na lábia, transmitida em tom incômodo aos ouvidos mais sensíveis, mostrou um outro armário, que estava em promoção. Isabel descobriu que, embora mais barato que o primeiro, não era tão promocional assim. Quando viu as medidas do armário, teve certeza que não seria ele: era dez centímetros mais largo que sua parede.





Ignorando a lógica matemática, o vendedor insistiu em empurrar a mercadoria pela goela de Isabel. Prometeu dividir em 24 vezes. Imagina! Dois anos pagando era demais para ela. Ele riu e disse que dois anos passavam rapidinho.

O vendedor de ilusões confessou, agora em meio a gargalhadas, que havia acabado de atender um casal que comprou vários móveis. Marido e mulher saíram com um volume de carnês debaixo dos braços, que pareciam um bíblia. “Aqueles sim, vão morrer pagando...”, divertiu-se o homem que oferecia pactos.

Isabel achou um desrespeito aquele comportamento com os clientes, tanto com o casal, quanto com ela. Era muita cara de pau falar isso de pessoas como ela, para ela! Ainda assim, fez as contas rapidamente e percebeu, ao somar as 24 vezes, que se caísse na armadilha (e mudasse de casa para conseguir colocar o móvel em um lugar que coubesse), o guarda-roupa sairia pelo dobro do preço.





À medida que repetia nãos às sucessivas tentativas inflamadas do vendedor, a violência, até então velada, saiu do armário (com perdão do trocadilho). Sentiu, naquela hora, que até os demônios se desesperam.

“Você quer um que seja dez centímetros menor? Então espere um pouquinho, vou falar com meu colega entregador... ele mostra o dele para a senhora... o dele é bem menor que o meu!” Diante das gargalhadas de outros dois funcionários que presenciaram a ‘piada’, um deles o gerente, Isabel levantou-se, confusa entre a humilhação e a indignação. Sem se despedir, procurou a saída.

O vendedor, inconformado por não ter sua vontade satisfeita, continuou o trágico espetáculo em forma de profecia: “Se a senhora sair daqui sem comprar, vai ser enganada na próxima loja que entrar! Vai comprar uma porcaria qualquer e, em três meses, o móvel vai virar pó!”

Isabel ainda tentou dizer a ele que estava enganado. Ela sabia dizer não à má-fé. Inútil tentativa. O vendedor gritava por toda a loja, perseguindo-a até a saída e, mesmo quando ela já estava na calçada, os gritos continuaram: “Vai se arrepender e vai voltar chorando o prejuízo! Faço em 36 vezes!” Isabel resistiu à tentação e sem precisar de carnês bíblicos ou citações religiosas.





Ao longo do tempo, a repetição de certos comportamentos abriu caminho ao desrespeito. Humanizamos coisas e coisificamos pessoas, como advertiu o escritor George Orwel, há quase 70 anos. Todos nós permitimos e contribuímos para que aquele vendedor se sentisse no direito de ofender e humilhar Isabel, e quem quer que não satisfaça sua sede de bons negócios, ainda que apenas um lado seja o favorecido, o dele.

Histórias como esta são indignantes, mas nos fazem pensar em qual tipo de relações buscamos e se nossas atitudes concretas e rotineiras estão de acordo com o objetivo que queremos alcançar: ser ou ter?

Obs.: Texto publicado, originalmente, no blog Poesia Cotidiana, em 17 de abril de 2014.

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