segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

20 dias em Cuba


Ricardo Rugai*

Viajei a Cuba com um grupo de amigos por 20 dias. Quis o destino que partíssemos no mesmo dia em que Raul e Obama anunciaram a retomada das relações diplomáticas entre os dois países, rompidas desde 1961. A série que se inicia com Ilha sem medo não tem pretensões acadêmicas ou literárias e nem mesmo estilo padrão definido. O único objetivo é compartilhar impressões de viagem que fujam dos clichês e maniqueísmos que rondam a maior parte dos relatos sobre Cuba.

Ilha sem medo

3 horas da madrugada. A rua não tem mais que um poste de luz piscando. Não há policiamento à vista. É o centro velho de uma cidade cujas construções “novatas” datam de 1950. Algumas teimam em pé; outras, de fato, desabam aos poucos. A comparação visual mais próxima seria a “Cracolândia” paulistana.

Nesse cenário, imagine-se turista, condição que não pode ser disfarçada para o perspicaz olhar dos cubanos que ainda circulam pela madrugada de Havana.

Nesse exato lugar, caminha-se com toda tranquilidade do mundo, sem nenhuma pressa, embora o turista não escape da abordagem de alguns cubanos conversadores e bem-humorados. Uns em busca de alguma propina; outros, simplesmente de um papo interessante com um gringo.

Medo é um sentimento ausente, seja no centro de Havana, seja nos bairros ou no interior do país; a qualquer hora do dia ou da noite, com ou sem luz. A sensação de perigo, ou de ter que “ficar esperto”, vai desaparecendo dia pós dia e termina esquecida ao final de 20 dias na Ilha.

Até hoje, o assunto Cuba garante debates acalorados em clima de Fla-Flu e qualquer viajante leva uma bagagem ideológica de informações e desinformações a respeito da Ilha socialista. Ditadura ou democracia? A qualidade da saúde, da educação, o bloqueio econômico, o esporte, a pobreza são temas recorrentes e merecem atenção. Porém, é intrigante o pouco destaque para o clima de paz que se sente em Cuba. Talvez porque não seja algo palpável, visível ou quantificável em estatísticas.

Fotos: Ricardo Rugai
Nas três semanas que ficamos no país não presenciamos nenhuma cena de violência em locais públicos, mesmo a agressividade era rara. Não vi crianças tendo chilique nem pais descontrolados. Assalto à mão armada, nenhum. Acidentes ou brigas no trânsito também não. Para ser exato, a única briga que ouvimos foi a de um casal borracho pela madrugada.

Podem existir muitas razões para esta tranquilidade, mas uma coisa é certa: ela não se deve à presença policial ou militar ostensiva, que nem de longe sugere um clima ditatorial. O efetivo nas ruas é sensivelmente menor do que no Brasil e a atuação bem discreta. Assistimos a dois ou três “enquadros” em toda a viagem, nenhum deles violento ou com arma em punho.

O fato é que mesmo nos anos mais duros de carência econômica - o chamado “período especial” por volta de 1991-1994 -, quando a ajuda soviética cessou e os cubanos viveram sob rigoroso racionamento de tudo quase possa imaginar, não explodiu nenhuma onda de violência.

Enfim, de alguma forma Cuba desenvolveu uma cultura não violenta. Por quê? Talvez a educação? A relativa igualdade? Não sei...

Seja como for, apesar do vários e grandes problemas que Cuba possui, é muito bom perceber que o ser humano é capaz de criar outras formas de sociabilidade onde a vida transcorre sem medo. E como é bom viver absolutamente sem medo alguns míseros dias! Andar por qualquer parte a qualquer hora é uma liberdade difícil de descrever e da qual já sinto saudade.

* Ricardo Rugai é historiador e professor universitário. É autor de "Um Partido Anarquista - O anarquismo uruguaio e a trajetória da FAU" (Ascaso, 2012).

Um comentário:

Zé Claudio Pimentel disse...

Ricardo, feliz post. Estive em Cuba há dois anos para fazer meu trabalho de conclusão para a minha graduação em jornalismo. Visitei mais de 20 cidades com o intuito de entender a relação do povo com os veículos de comunicação locais. Na verdade, o trabalho, que resultou numa monografia (com ares de livro reportagem), tinha o objetivo de desvendar a comunicação (jornalística ou não) cubana e saber, de fato, se as pessoas tinham acesso à informação em uma realidade um "pouco mais passível" de ser manipulada.

Fui só até a ilha. Passei pouco mais de 20 dias. Procurei chegar lá livre de qualquer preconceito. Conheci diversas pessoas e tive a oportunidade de entrevistar outras tantas, desde meros desconhecidos até polêmicos líderes opositores (na lista também está a famosa blogueira Yoanni Sanchez e o político e jornalista Tubal Hernández, que atua como uma espécie de diretor de imprensa do Governo). Fui surpreendido dia após a dia não só pelas respostas que escutava, mas também pelo modo em que a vida transcorre nesse país.

Sem querer me prolongar, digo que fiquei contente ao ler o que você escreveu. Tive a mesma impressão. E nas minhas reflexões, atrevi-me a acreditar (e não concluir!) que o cubano, por essência, é mais feliz do que qualquer outro povo (pelo menos entre os quais eu já visitei). Sabe aquele conceito de felicidade que lemos no dicionário? Então, eles o praticam na realidade da maneira mais pura e simples - muito mais do que possamos acreditar. Talvez por isso os problemas quanto à violência não existam por lá. Brecha mais do que suficiente para destacar os feitos na saúde e educação.

Minha experiência ultrapassou o contexto jornalístico e isso foi bastante interessante. Ao voltar, não pedi a oportunidade de fazer o convite e estimular os interessados a visitarem essa tão misteriosa ilha. Mais do que um bom passeio ou um bom campo de estudo, é uma experiência social que precisa ser sentida. Mas logo alerto: vá desprendido de valores pessoais e preconceitos (é difícil, eu sei, mas tente!) para poder, justamente, apreender tudo que é possível e, assim, fazer seu próprio julgamento. Valerá muito a pena.

Ah, e sobre o meu trabalho, tive sucesso (ufa!). E as respostas... Se eles têm acesso à ampla informação? Sim. Se eles podem ver de tudo na internet? Sim. Se eles podem questionar e questionar? Sim. Se há repressão por parte do Governo? Sim, também. Enfim, mas, claro, como uma produção acadêmica tornou-se inconclusivo, uma vez que as transformações nesse lugar, inevitavelmente, estão só começando.

Um abraço, Ricardo. Outro para você, Marcão.