terça-feira, 27 de janeiro de 2015

A maldição do guarda roupa


Beth Soares*

Isabel precisava de um guarda-roupa. Pesquisou na internet para não ir a campo totalmente cega com relação aos preços. Passou por cinco lojas de móveis antes de chegar àquela, no centro da cidade. Mas o preço do móvel que caberia no espaço de seu quarto era absurdo.

O vendedor, um cara baixinho, cheio de esperteza no andar e na lábia, transmitida em tom incômodo aos ouvidos mais sensíveis, mostrou um outro armário, que estava em promoção. Isabel descobriu que, embora mais barato que o primeiro, não era tão promocional assim. Quando viu as medidas do armário, teve certeza que não seria ele: era dez centímetros mais largo que sua parede.





Ignorando a lógica matemática, o vendedor insistiu em empurrar a mercadoria pela goela de Isabel. Prometeu dividir em 24 vezes. Imagina! Dois anos pagando era demais para ela. Ele riu e disse que dois anos passavam rapidinho.

O vendedor de ilusões confessou, agora em meio a gargalhadas, que havia acabado de atender um casal que comprou vários móveis. Marido e mulher saíram com um volume de carnês debaixo dos braços, que pareciam um bíblia. “Aqueles sim, vão morrer pagando...”, divertiu-se o homem que oferecia pactos.

Isabel achou um desrespeito aquele comportamento com os clientes, tanto com o casal, quanto com ela. Era muita cara de pau falar isso de pessoas como ela, para ela! Ainda assim, fez as contas rapidamente e percebeu, ao somar as 24 vezes, que se caísse na armadilha (e mudasse de casa para conseguir colocar o móvel em um lugar que coubesse), o guarda-roupa sairia pelo dobro do preço.





À medida que repetia nãos às sucessivas tentativas inflamadas do vendedor, a violência, até então velada, saiu do armário (com perdão do trocadilho). Sentiu, naquela hora, que até os demônios se desesperam.

“Você quer um que seja dez centímetros menor? Então espere um pouquinho, vou falar com meu colega entregador... ele mostra o dele para a senhora... o dele é bem menor que o meu!” Diante das gargalhadas de outros dois funcionários que presenciaram a ‘piada’, um deles o gerente, Isabel levantou-se, confusa entre a humilhação e a indignação. Sem se despedir, procurou a saída.

O vendedor, inconformado por não ter sua vontade satisfeita, continuou o trágico espetáculo em forma de profecia: “Se a senhora sair daqui sem comprar, vai ser enganada na próxima loja que entrar! Vai comprar uma porcaria qualquer e, em três meses, o móvel vai virar pó!”

Isabel ainda tentou dizer a ele que estava enganado. Ela sabia dizer não à má-fé. Inútil tentativa. O vendedor gritava por toda a loja, perseguindo-a até a saída e, mesmo quando ela já estava na calçada, os gritos continuaram: “Vai se arrepender e vai voltar chorando o prejuízo! Faço em 36 vezes!” Isabel resistiu à tentação e sem precisar de carnês bíblicos ou citações religiosas.





Ao longo do tempo, a repetição de certos comportamentos abriu caminho ao desrespeito. Humanizamos coisas e coisificamos pessoas, como advertiu o escritor George Orwel, há quase 70 anos. Todos nós permitimos e contribuímos para que aquele vendedor se sentisse no direito de ofender e humilhar Isabel, e quem quer que não satisfaça sua sede de bons negócios, ainda que apenas um lado seja o favorecido, o dele.

Histórias como esta são indignantes, mas nos fazem pensar em qual tipo de relações buscamos e se nossas atitudes concretas e rotineiras estão de acordo com o objetivo que queremos alcançar: ser ou ter?

Obs.: Texto publicado, originalmente, no blog Poesia Cotidiana, em 17 de abril de 2014.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

20 dias em Cuba


Ricardo Rugai*

Viajei a Cuba com um grupo de amigos por 20 dias. Quis o destino que partíssemos no mesmo dia em que Raul e Obama anunciaram a retomada das relações diplomáticas entre os dois países, rompidas desde 1961. A série que se inicia com Ilha sem medo não tem pretensões acadêmicas ou literárias e nem mesmo estilo padrão definido. O único objetivo é compartilhar impressões de viagem que fujam dos clichês e maniqueísmos que rondam a maior parte dos relatos sobre Cuba.

Ilha sem medo

3 horas da madrugada. A rua não tem mais que um poste de luz piscando. Não há policiamento à vista. É o centro velho de uma cidade cujas construções “novatas” datam de 1950. Algumas teimam em pé; outras, de fato, desabam aos poucos. A comparação visual mais próxima seria a “Cracolândia” paulistana.

Nesse cenário, imagine-se turista, condição que não pode ser disfarçada para o perspicaz olhar dos cubanos que ainda circulam pela madrugada de Havana.

Nesse exato lugar, caminha-se com toda tranquilidade do mundo, sem nenhuma pressa, embora o turista não escape da abordagem de alguns cubanos conversadores e bem-humorados. Uns em busca de alguma propina; outros, simplesmente de um papo interessante com um gringo.

Medo é um sentimento ausente, seja no centro de Havana, seja nos bairros ou no interior do país; a qualquer hora do dia ou da noite, com ou sem luz. A sensação de perigo, ou de ter que “ficar esperto”, vai desaparecendo dia pós dia e termina esquecida ao final de 20 dias na Ilha.

Até hoje, o assunto Cuba garante debates acalorados em clima de Fla-Flu e qualquer viajante leva uma bagagem ideológica de informações e desinformações a respeito da Ilha socialista. Ditadura ou democracia? A qualidade da saúde, da educação, o bloqueio econômico, o esporte, a pobreza são temas recorrentes e merecem atenção. Porém, é intrigante o pouco destaque para o clima de paz que se sente em Cuba. Talvez porque não seja algo palpável, visível ou quantificável em estatísticas.

Fotos: Ricardo Rugai
Nas três semanas que ficamos no país não presenciamos nenhuma cena de violência em locais públicos, mesmo a agressividade era rara. Não vi crianças tendo chilique nem pais descontrolados. Assalto à mão armada, nenhum. Acidentes ou brigas no trânsito também não. Para ser exato, a única briga que ouvimos foi a de um casal borracho pela madrugada.

Podem existir muitas razões para esta tranquilidade, mas uma coisa é certa: ela não se deve à presença policial ou militar ostensiva, que nem de longe sugere um clima ditatorial. O efetivo nas ruas é sensivelmente menor do que no Brasil e a atuação bem discreta. Assistimos a dois ou três “enquadros” em toda a viagem, nenhum deles violento ou com arma em punho.

O fato é que mesmo nos anos mais duros de carência econômica - o chamado “período especial” por volta de 1991-1994 -, quando a ajuda soviética cessou e os cubanos viveram sob rigoroso racionamento de tudo quase possa imaginar, não explodiu nenhuma onda de violência.

Enfim, de alguma forma Cuba desenvolveu uma cultura não violenta. Por quê? Talvez a educação? A relativa igualdade? Não sei...

Seja como for, apesar do vários e grandes problemas que Cuba possui, é muito bom perceber que o ser humano é capaz de criar outras formas de sociabilidade onde a vida transcorre sem medo. E como é bom viver absolutamente sem medo alguns míseros dias! Andar por qualquer parte a qualquer hora é uma liberdade difícil de descrever e da qual já sinto saudade.

* Ricardo Rugai é historiador e professor universitário. É autor de "Um Partido Anarquista - O anarquismo uruguaio e a trajetória da FAU" (Ascaso, 2012).

sábado, 24 de janeiro de 2015

Flores, fúria e a parede

“A dor vai curar essas lástimas
o soro tem gosto de lágrimas.
As flores têm cheiro de morte
a dor vai fechar esses cortes”.

Flores

(Tony Belloto/ Sérgio Britto/ Charles Gavin/Paulo Miklos)



Beth Soares

Acordou assustada, coração disparado. Seria mesmo a campainha ou o barulho estava só no sonho? Ainda estava tudo confuso, ela nem sabia direito se havia dormido na casa dela ou na dele. Sentiu um peso nos olhos, mal podia abrí-los. A busca pelo espelho revelou que aquela era sua casa. Antes de conseguir se olhar, a campainha soou de novo. Atordoada, desistiu do espelho.

Abriu a porta da sala e o entregador, um rapazinho franzino que pela quantidade de espinhas devia estar na casa dos 16 anos, sorriu. Estendeu-lhe um buquê esperando uma reação positiva do lado dela; a devolução do sorriso, a cara de espanto e, em seguida, a gratidão... coisas que quase sempre aconteciam. Mas o “quase” esconde um abismo nas entrelinhas.

Gestos de docilidade e romantismo podem ser o esconderijo perfeito para pequenas e grandes crueldades cotidianas. Era assim que ela lia. O menino entregador nem imaginava.

Ela segurou o ramalhete e fechou a porta. Não conseguia controlar os tremores. Não lembrava se havia agradecido ao garoto ou ao menos se despedido. Ele não tinha nada a ver com a história, coitado! Se sentiu culpada. Detestava desagradar as pessoas, dizer nãos... quase nunca os fazia. Mas dessa vez, o quase era sua única chance de salvar a si mesma. Era a porta da libertação.

Olhou para as flores e sentiu náusea. Pela primeira vez recebia algo assim. E foi triste. As pessoas dão flores quando querem celebrar as mortes que impõem ao outro. Uma flor para cada sorriso sepultado. Os espinhos vem de brinde. Brindam dores que ainda virão. Agora entendia porque flores são levadas aos sepulcros. E que é possível ser sepultado em vida.

Forçou a abertura dos olhos para enxergar melhor o presente. Viu tons variados e foi inevitável a comparação com os matizes de lilás e roxo de suas pernas, braços, costas e pescoço. O vermelho lembrava o batom que estreou na noite anterior... e o gosto metálico do sangue que logo depois escorreu em seu paladar.

Tomou coragem e voltou a procurar o espelho. Viu que seus olhos castanhos agora eram também vermelhos. Estavam decorados com uma moldura violeta, como aquelas flores miúdas, que morrem rápido.

Olhou de novo o buquê. Ao contrário do que dizia a música que ouvia na adolescência, toda aquela delicadeza era incapaz de fechar seus cortes. Agora, as flores simbolizavam sua dor.

Ela sabia que ele ficaria zangado se pudesse ouvir os pensamentos dela. Ficar zangado, aliás, era usual para ele. Um calafrio percorreu sua coluna dolorida. Queria sair correndo, mas não tinha forças para fugir dali. Olhou o sofá de dois lugares, a tevê antiga, o tapete poído, os quadros amarelados nas paredes que precisavam de uma demão de tinta... Aquilo era tudo que tinha. Teve pena de si mesma. E raiva também. Poderia ter vivido sem ter que comparar flores a hematomas. Poderia ter evitado o medo, evitando aquele homem. Teve vergonha.

Correu para o chuveiro. Água e lágrimas fizeram desmoronar o peso da ruína. Ali, ajoelhada na frieza do ladrilho, deixou-se escorrer ralo abaixo. Estava oca.

Precisava preencher o vazio. Era ela quem decidiria como. Decidiu encher de vida. Retomou o fôlego, as forças, a coragem. Escolheu abandonar o papel de vítima que havia encharcado e dissolvido na água. A única saída era o recomeço como outra personagem.

Não poderia esquecer o passado, mas à sua frente não havia nada. Olhou as paredes e sentiu vontade de escrever todas as frases engolidas, reações contidas e gritos reprimidos desde a infância. Assim o fez. Minutos depois, as paredes estavam cheias dela e de batom vermelho, a caneta que melhor traduziu seu idioma particular: a fúria.

Trocou o segredo da fechadura. Não havia mais lugar para segredos. Todos os “nãos”seriam revelados, libertos, expulsos, se fosse preciso.

Foram eles que receberam o homem quando ele tentou voltar. Ele encarou aquelas negativas com ódio. Ela, com alívio. Ele esperneou, chutou, socou... as paredes do lado de fora. O interior, o cerne, era dela.

Afagou a si mesma. Havia descoberto a melhor companhia. Jamais estaria só novamente.

Obs.: Texto publicado, originalmente, no blog Poesia Cotidiana, em 5 de setembro de 2013.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

O empurrão de Iemanjá


Marcus Vinicius Batista e Drika Lucena

O calor de Saara em plena praia de Santos foi o convite para sair de casa. Paula Macedo cismou que a tarde de quarta-feira era ideal para o banho de mar. Ideal significava se enfeitar para mergulhar e conversar com Iemanjá.

Vestiu o maiô branco com listras pretas, especial para o começo de ano, momento de desapego e de limpeza espiritual. Sentia-se linda. Mas também se sentia incompleta. Ao se olhar no espelho, a resposta estava no rosto. Passou um batom supervermelho, colocou os óculos e duas argolas douradas. Tomar banho de mar é ato exclusivo. Nada de cadeiras ou esteiras. Nada de tostar como lagarto na areia; no máximo, ficar como jacaré na água.

Quando ela chegou à praia, foi direto à beira do mar. Sentiu a água quente nos pés, abaixou-se e pegou algumas conchas. É um ritual, que inclui guardá-las em casa. Desta vez, as conchas serviriam para compor uma tiara. Paula era conhecida entre os amigos como alguém que fazia mágica com adereços. “Por que nunca trabalhou em escola de samba?”, insistia uma prima.

A tiara seria parecida com as que a cantora Clara Nunes usava. Paula estava acompanhada de um amigo e com ele deixou os chinelos, as chaves de casa e as conchas. Comentou com ele que não gostava do mar daquele jeito, puxando, mexido, com muita marola.

Quando chegou no fundo, olhou para ver se não tinha ninguém por perto, segurou os óculos na mão e se jogou. Um mergulho de cabeça sem piedade do cabelo com escova e chapinha. Sabe quando o mar está quente em cima e geladinho embaixo?

Voltou à superfície e passou a mão no cabelo para arrumá-lo. Deu falta de uma das argolas. Era a hora do desapego. Viu quando a argola afundou. Inutilmente, passou a mão na água tentando salvá-la. Não sobrou nem a tarraxa.

Na hora, Iemanjá veio à cabeça. Paula falou sozinha: "Sua graciosa... cansada de ganhar tanta biju da Kavernosa resolveu levar meu brinco lindo e fashion?" Riu enquanto tirava o outro brinco. Deu um beijo na argola e o atirou para o fundo. Pensou: “A argola vai ficar linda no meio daquele cabelão preto de Iemanjá”.

A doação a deixou feliz da vida. Mergulhou várias vezes. Esqueceu dos brincos, esvaziou a mente. Quando estava saindo do mar, não viu uma onda. Sentiu-a como se fosse um empurrão, balançou, mas se manteve de pé.

Paula se virou para o mar e falou sozinha de novo. “Tô saindo, caramba! Te dou um brinco e ainda me empurra?” Ao chegar na beira, o amigo deu falta e perguntou pelos brincos. Ela respondeu: "Iemanjá gostou e pegou um... daí dei o outro para ela fazer o par."

De espírito lavado, mais leve nas orelhas e livre provisoriamente do calor, ela voltou para casa com uma certeza e uma dúvida. O certo é que, na semana que vem, Paula ganhará de si mesma uma tiara, em homenagem à Clara Nunes.

Mas quanto custaram mesmo aqueles brincos?

sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

Réplica perfeita



Beth Soares

Na dúvida, comprou mais um. Agora tinha seis pares de sapato amarelo-gema-de-ovo-mole, cor que foi a sensação da última Fashion Week. Já perdera as contas de quantos Christian Louboutin, com suas solas vermelho-sangue, decoravam a paisagem do seu closet de 20 metros quadrados. 

Dona Valdina, funcionária da casa há mais de 20 anos, sempre repetia que aquele quarto dentro do quarto “dava dois” do quartinho dela, no distante e bem real (surreal era só para a patroa) bairro da Água Preta.

No início, Silvana nem ligava, achava até graça do tom que Valdina usava. Mas, depois de um tempo, achou aquilo até aborrecido. Imagina, ter que pensar nessas coisas?! Dava uma coisa no peito, um mal-estar, sabe-se lá... e não tinha tempo para isso. Era uma mulher de negócios. Os próprios negócios. Perder tanto tempo digitando a droga da senha do cartão de crédito com chip já era o ápice do aborrecimento. Não conseguia entender o porquê da invenção daquela merda!

Sacudiu a cabeça levemente para o lado, tentando livrar os cílios alongados (por um personal eye stylist) das pontas da franja. Bufou irritada. As sacolas ocupavam as mãos, mas, mesmo assim, depois de um contorcionismo até charmosinho, tirou o celular da sua Prada e discou (só tocou a tela, na verdade) para o número de seu personal hair stylist.

“Cruuuuuuuuuuuzeeeeeeessss, querida! Que horrrrróóóóóóóór! Tem uma mata selvagem na sua linda cabecinha!”, foram as primeiras palavras de Jimmi Divo, seu cabelei... ops, personal hair sei lá o quê, quando viu sua cliente preferida (era o que ele dizia para ela e para todas) pôr os pés no chão de mármore de Carrara de seu aesthetic center and personal image care.

Um profissional molhou os cabelos dela. Outro massageou o couro cabeludo, com xampu de flor de lótus e essência de macadâmia. Outra funcionária enxaguou e outra trouxe a toalha esterilizada. Um quinto elemento secou.

Jimmi finalmente se aproximou com uma tesoura em cada mão, em seu momento Edward... (a personagem de Tim Burton, que Divo achava MA-GA-VI-LHO-SO e em quem se inspirava). Algumas tesouradas depois, Silvana Marineide, ops, só Silvana, sentia-se outra mulher. Uma mulher mil reais mais pobre (ou menos rica), mas uma diva!

Agora precisava se apressar. Estava atrasada para buscar Chloe Marie. A pequena tinha sido submetida a um botox capilar. Silvana não entendera direito para que diabos existia aquilo, mas uma amiga da power yoga recomendou e... pelo preço, tinha de ser bom. Se o resultado saísse como esperado, talvez pedisse para a babá levar Jacqueline, sua outra filha, de 8 meses, para fazer o mesmo procedimento. Claro, em algum personal baby hair stylist renomado.

Chloe Marie aguardava de chapinha, unhas pintadas na cor semente-de-cerejeira-da-manhã-de-verão, e fitas com estampa de oncinha nas laterais da cabeça. O excesso de laquê a impediu de latir quando viu sua dona, digo, mãe, chegar de braços abertos dando gritinhos agudos.

Passava das oito da noite quando Silvana subiu as escadas do seu triplex e parou na porta de uma das muitas suítes. Tirou seus scarpins Gucci e entrou. Sentiu um alívio delicioso, quase indescritível, ao deixar os pés tocarem o tapete macio de pelo de urso. Falso, claro, porque seria politicamente incorreto ter um desses de verdade. Mas, fazia questão de deixar claro, este era o único motivo para não tê-lo. 

E a réplica era perfeita! Trazida da Europa. Não que não soubesse quais países pertenciam à Europa... apenas não lembrava ao certo de qual país ele era. E preferia não arriscar um nome. No fundo, sabia que havia só um lugar no mundo inconfundível para ela.

O sítio Canteiro da Saudade era um lugarzinho tranquilo. Nasceu ali, pisando no chão de terra batida que tingia seus pés de vermelho. Não que sentisse saudades, imagina! Saudade do cheiro da chuva, do leite fresco que não conhece os limites da caixinha, dos ovos das galinhas que nunca bicaram hormônios? Das brincadeiras na jabuticabeira e do cheiro das suas frutas que escalava com a menina Silvaninha os galhos fortes, numa disputa saborosa até o topo? Não! Uma mulher chique, cosmopolita, não poderia sentir falta do cheiro de bosta de vaca, de um fim de mundo, onde o vento faz a curva.

Abriu a porta e olhou a filha (a humana), que dormia quietinha no berço de madeira de lei, assinado por um concorridíssimo designer de móveis. Pensou que talvez os pezinhos de Jackie (fazia questão de grafar o nome e o apelido da filha igualzinho ao da Kennedy Onassis) nunca fossem sentir a maciez do estrume. Nunca fossem tingidos pela cor daquela terra. Nunca subissem jabuticabeiras, macieiras, mangueiras... Talvez ela nunca viesse a imaginar que as frutas não nascessem em supermercados, lustradas, envoltas em papel de seda, tão lindas... e sem história. Graças a Deus!, disse baixinho para si mesma, cerrando os olhos, um pouco antes da crise de choro.

Não se importou com a maquiagem. Era à prova d’água, de uma marca famosa, fabricada em Paris. Num impulso, ligou para seu personal travel agent para agendar a próxima viagem à França. Tinha de garantir que o estoque não chegaria ao fim antes do jantar do Rotary.

Obs.: Texto publicado, originalmente, no blog Poesia Cotidiana, em 1 de setembro de 2013.

terça-feira, 13 de janeiro de 2015

Perdão aos machos



Beth Soares

Ela nunca se achou melhor ou pior do que as outras mulheres. Mas era diferente, disso não tinha dúvida. Tia Leila, do alto de seus 17 anos, era uma revolucionária. Afinal, ouvir Queen, Legião Urbana e Barão Vermelho numa casa que só abria os ouvidos e a censura reminiscente dos anos 60 e 70 aos temas de novela e a algumas baladas do Roberto Carlos podia ser uma atitude ultrarrebelde, quase uma heresia. Falando nisso, uma vez ela ousou dizer que o Papa João Paulo II era a Besta! Foi um bafafá... disso eu me lembro bem...

Lembro-me também dos desenhos que ela fazia na primeira página dos meus cadernos. Eu os achava obras de arte. E a letra dela? Era linda! Eu não entendia como alguém com aqueles traços, com aquela delicadeza de alma, poderia ser um péssimo exemplo, como seus pais, irmãos, cunhados e afins viviam comentando nas festas e reuniões de família. 

Mas como a minha cabecinha infantil era facilmente influenciável, acabei decorando os conceitos que me injetaram no cérebro em doses cavalares. “Mulher que se preza não demonstra que está a fim”; “Se maquiar demais, usar decotes e roupas justas ou curtas é coisa de prostituta”; “Dar no primeiro encontro? Só se você for uma vadia!”.

Mas tia Leila provou que toda mulher poderia ir além, quebrar conceitos, simplesmente não se importar com o que os outros dizem ou pensam a respeito. Na família, ela foi a primeira a levantar a bandeira do feminismo. Todas as atitudes dela diziam aos parentes: “O corpo é meu e eu faço com ele o que eu quiser!”. Foi feliz enquanto pôde. Curtiu a noite, experimentou o sexo com amor ou não, como dizia Cazuza, outro de seus ídolos.

E pagou o preço que todos os precursores pagam. Foi rejeitada, humilhada e agredida. Obrigada a fazer um aborto e logo em seguida expulsa de casa, para dar o exemplo a todas as outras mulheres, que sequer imaginassem seguir sua trilha!

Sobreviveu como pôde. Até que se apaixonou de verdade. Engravidou do homem que amava. Descobriu que teria gêmeos. Dois meninos. Estava feliz.

Descobriu que o pai de seus filhos era exatamente igual a todos os homens de seu tempo. Com a demência que acomete os portadores de um mal chamado machismo, doença crônica da alma, ele a esmagou sob seus punhos.

Nos olhos de tia Leila, agora apagados de liberdade, era fácil notar que as dores geradas em seu corpo não se comparavam, nem de longe, às da sua alma.

E lá estava ela novamente na estrada, fugindo do que achava ser o mal do século. Carregava dois pequenos homens no ventre, se perguntando se conseguiria ensinar a eles algo diferente do que o mundo queria.

Nasceram na periferia da cidade, do mundo. Agora, só dependia dela. Quem dera! Nem bem nascido, um deles adoeceu gravemente. Tia Leila, sem fogão, sem geladeira, sem escolha, teve que engolir o orgulho e pedir para voltar à casa que a expulsara. Era isso ou ver um dos filhos morrer de inanição em seus braços. Retornou. Mas a condição era de que apenas ele poderia permanecer ali. Com uma dor que esmagou mais uma vez seu coração, deixou-o lá. Era a única chance que ele teria.

Criou sozinha o outro filho. Desde cedo, este demonstrou que lhe tinha uma admiração incomum. Imitava-a em tudo: trejeitos, voz, preferências. De certa forma, para ela era um alívio. Menos um machista no mundo!, pensou.

Começou a treinar mentalmente para lhe explicar algumas coisas, quando chegasse a hora. Estava disposta a assisti-lo batalhar na contramão. Contra a mão descarada da hipocrisia. Contra a mão pesada do preconceito Ela sabia que, por mais que o preparasse, não conseguiria blindá-lo dos efeitos nocivos causados por esta praga. Mas confiava em que, como ela, ele sobreviveria.

Essa confiança, no entanto, bambeava quando se lembrava do pedaço que havia deixado para trás. Lamentava cada minuto que permanecia longe do outro filho. Lastimava não ter visto os primeiros passos dele. Nem ouvido sua primeira palavra. Soube que foi “mamãe”. Mas não foi para ela. Doeu de novo. E doía todos os dias, uma dor silenciosa. Sabia que ninguém a ouviria, ainda que gritasse. Por muitos anos, desejou secretamente ouvir aquele “mamãe” da voz infantil que soara tão poucas vezes em seus ouvidos.

Até que, um dia, acordou e se viu coagida a jogar o sonho fora. Deu-se conta de que o filho não era dela. Era macho. Era exatamente igual a todos os homens que conheceu. Não a perdoou por nada. Pensava e agia como todos. Humilhou-a enquanto teve chance, assim como ao irmão. Também nunca o chamou assim.

Massacrada pela mão implacável do universo machista, aos poucos, tia Leila foi cedendo às bizarrices dele. Sem nau forte o suficiente para continuar no contrafluxo, mergulhou de vez naquele mar, seco de razão: encontrou na religião seu refúgio. Ou seu ópio. E nessa nova viagem, foi tragada de uma vez por todas.

Já era o século 21. E eu já era como hoje: um tipo de criança que não se deixa iludir tão fácil. Já a via como ela realmente era. Mas era tarde. Ela não era mais ela mesma.

Em seu último dia na Terra, tentou ver os homens que pôs no mundo. Achou que precisava pedir perdão a eles por não conseguir ser, na maior parte de sua vida, uma mulher subserviente às leis que, agora sabia, todas deveriam seguir: “Oprima seu coração! Mate seus desejos!”. Ela assim o fez. Mas era tarde. Não foi perdoada. Nem pelos filhos, nem pelos machos, nem pelas mulheres, nem por seu coração.

Obs.: Texto publicado no blog Poesia Cotidiana, em 13 de junho de 2013. 

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

O comendador


Marcus Vinicius Batista
 

Na Era do Espetáculo, aparecer e parecer são verbos essenciais, nomes de capítulos do manual da fama. De excesso de gel nas coxas a cirurgias plásticas de irmãos que querem ser clones (ou zumbis) do Brad Pitt, a regra é se expor com armamento pesado: paus de selfie, câmeras escondidas ou vida feliz editada em rede social. Quem deseja o anonimato sofre duplamente. Em primeiro lugar, é impossível escapar de flashes, seja no ponto de ônibus, seja na festa da firma. Depois, se você se parece com alguém e tenta fugir da rotina de sósia, isso aumenta a comparação a ponto de, por um instante, você duvidar da própria identidade.

Júlio Amarante é um amigo recente, foi um aluno de longa data. Ele é músico e editor de vídeos dos mais talentosos. Boa conversa, culturalmente antenado, quase sempre sereno. Mas desde o final do ano passado, a vida dele virou uma provação. Júlio foi eleito por velhinhas, crianças, pais de família, amigos e seres desconhecidos o clone perfeito do ator Alexandre Nero, o Comendador da novela das nove.

Minto. Ele seria uma versão mais nova do protagonista, parecido na barba e nos cabelos compridos, rebeldes e, em parte, grisalhos. A comparação é tão incômoda que não tive coragem de perguntar se ele conhecia o ator antes da fama ou se o conheceu quando virou sub-celebridade (uma classificação para aqueles que navegam perto das celebridades, mas nunca serão, o que inclui sósias).

No final do ano passado, Júlio e a mulher Nathália foram descansar em Monte Alegre do Sul, uma cidade paulista como tantas outras. Feira de Artesanato, praça central com igreja, relógio que corre mais lento. Como sempre desconfiei que as pessoas adoram assistir às novelas, embora mintam sobre isso, entendi porque Júlio se transformou na celebridade local. Dedos apontavam o visitante ilustre. Senhoras e crianças colocavam mãos à boca para comentar sobre ele.

Júlio chegou a duvidar de si mesmo. Não que se imaginasse como o galã do momento, mas que houvesse risco de assédio. “Perguntei para meus amigos e para a Nathália: vocês estão vendo o que eu estou vendo?”

Numa das tardes, Júlio estava parado em frente a uma loja, enquanto esperava pelo resto da turma. A vendedora tomou coragem e iniciou a cena, os 15 segundos de fama sem câmeras. 




“Moço, você sabia que é parecido com o Comendador?”

Por um motivo desconhecido, Júlio não xingou, como fazia com os amigos. Apenas continuou o diálogo, com resignação. “É o que estão dizendo!”

“Mas você parece mesmo o Alexandre Nero. É a cara do Comendador.”

“Eu percebi.” Não havia o que explicar. Agradecer? Dar corda à fama?

“Olha, moço, o Comendador é muito bonito. Mas você é mais jovem. Isso é uma vantagem.” Segundo o próprio sósia, as frases pareciam conselhos, jamais uma cantada. Na sequência da microtrama, os amigos apareceram e Júlio retomou a vida de celebridade novata, devorado por olhares e risinhos.

Ser amigo de uma celebridade, ainda que cópia, me permitiu ver que Júlio cultiva com fé a honestidade. Que ele não entenda como sugestão, mas ainda bem que não resolveu apresentar baile de terceira idade, aparecer em eventos corporativos ou dançar com a aniversariante em festa de 15 anos.

Fiquei feliz também em saber que o sósia do Comendador jamais pensou em desafinar ao lado de Roberto Carlos, mesmo aquele cover que cantava nas praias de Santos. Como bom baterista, ele pensou que o máximo seria tocar com os amigos na orla da praia ou na Lagoa da Saudade. Até ali, na calma do Morro da Nova Cintra surgiu uma fã carioca. Nem o Comendador genérico escapou do selfie.

sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

Os homens que humilhavam as mulheres



Beth Soares

Quantas vezes, após assistir a um filme de suspense ou terror, você saiu da sala de cinema ou desligou o aparelho de DVD aliviado por se tratar apenas de ficção? Ainda que horas depois tenha se visto no meio de um pesadelo, com algumas das cenas mais dantescas do longa-metragem, chegou a hora da acordar... e você estava, de novo, livre das garras do vilão da história.

Não foi o que aconteceu a Viviane Guimarães, uma jovem de 21 anos, estagiária de um grande escritório de advocacia, em São Paulo. A história dela se aproxima, em muitos pontos, à de Lisbeth Salander, personagem criada pelo escritor sueco Stieg Larrson, que em adaptação para o cinema foi interpretada por Noomi Rapace, na Trilogia Millennium (2009).

Assim como Lisbeth, Viviane era uma jovem talentosa. A estudante de direito da PUC-SP conseguiu estágio em um dos mais conceituados e influentes escritórios de advocacia do país, tendo, inclusive, recebido o prêmio Escritório do Ano no Brasil.

Acreditando que tinha a proteção ou ao menos a benignidade daqueles que se diziam excelentes profissionais, Viviane, a personagem da vida real, teve na ingenuidade o ponto fraco. Lisbeth, personagem ficcional, apesar de calejada pela aspereza da vida, não imaginou que seu suposto protetor cometeria um ato tão bárbaro. Ambas foram vítimas da violência física e emocional mais cruel a que uma mulher pode ser submetida. Foram estupradas. Os responsáveis pela agressão foram aqueles que, teoricamente, deveriam ser seus mentores.

As duas moças, sozinhas, humilhadas e aniquiladas, sabiam o quanto seria difícil provar o delito do qual foram vítimas. Seus executores calcularam milimetricamente cada passo, para que nada saísse do controle, após a concretização do crime perfeito. Eles tinham pleno conhecimento de seu poder. Sabiam que seria palavra contra palavra. E, como profissionais acima de qualquer suspeita, facilmente convenceriam a justiça que sua versão era a verdade absoluta. 

Noomi Rapace (acima) e Rooney Mara (abaixo)

No caso de Viviane, para que o assunto fosse de uma vez por todas enterrado, os criminosos estavam dispostos, na pior das hipóteses, a desembolsar uma voluptuosa quantia em dinheiro para comprar o silêncio dela. A Lisbeth nada foi oferecido, a não ser a liberação de seu próprio dinheiro, refém de um tutor sádico e cruel. Aliás, esses adjetivos também cabem, perfeitamente, aos agressores de Viviane.

Nos dois casos, ter o dinheiro nas mãos garantiria aos criminosos a satisfação de suas fantasias bizarras, sem a preocupação com a possibilidade de punição aos seus crimes. O poder circunstancial que tinham nas histórias era arremessado com requintes de desfaçatez e desumanidade na cara de suas vítimas. Viam-nas como joguetes, incapazes de defender a veracidade dos fatos. Era muito mais simples, para eles, criar outra verdade e vendê-la ao sistema como um elemento mais palatável. Pelas “vias normais” elas jamais conseguiriam justiça.

Lisbeth Salander decide fazer, ela mesma, sua justiça. Arma uma cilada para o seu protetor-abusador e o flagra cometendo, mais uma vez, o crime. Com as provas em mãos, sabe que tem ascensão sobre ele. Usa este trunfo para conseguir o que quer e se sentir mais forte. Nem de longe conseguiu se livrar do trauma, das lembranças atrozes da violência, mas ao menos agora sabia que tinham ficado para trás. Lisbeth usou o ódio e o resquício de amor-próprio para se vingar e iniciar uma nova vida.

Viviane também queria fazer justiça. Mas percebeu que já haviam armado, antes, uma cilada para ela. Testemunhas compradas, colegas de trabalho resignadas e coniventes, e os próprios criminosos de gravata já tinham preparado e decorado um discurso muito eloqüente. Não havia pontas soltas. Nenhuma verdade atravessaria a blindagem do cinismo e da astúcia daquelas raposas fantasiadas de terno, que se assumiram como a voz da justiça.

Viviane não conseguiu se livrar do trauma. As lembranças atrozes da violência infernizavam sua alma, dia após dia, noite após noite. Em uma delas, sabendo que não podia deixar para trás aquelas cenas que se repetiam incessantemente em sua cabeça, usou o ódio para liquidar a própria vida. Já não havia sequer um resquício de amor-próprio. O suicídio foi a maneira que encontrou para tentar acordar do pesadelo.

Versões sueca e norte-americana
Nós, o grande público, somos viciados em finais felizes. Exigimos isso da ficção, ainda que a história seja de terror, porque, no fundo, desejamos o mesmo para a vida real. As histórias de Lisbeth e Viviane se aproximaram em diversos pontos quanto ao horror da agressão que vivenciaram. Mas a arte, até quando conta histórias tristes, pode arquitetar um final que dê ao público uma sensação de que se fez justiça. Aí começa o distanciamento entre as histórias dessas personagens.

Na vida real, a possibilidade de grandes reviravoltas quando a história envolve poder, dinheiro e impunidade, é quase nula. Não se extingue o terror alimentado por esta combinação tenebrosa pela simples vontade de mudar o script. Na maioria das vezes, o roteiro se perde das mãos da justiça – sua detentora por legitimidade e coerência – e cai nas mãos do antagonista.

Infelizmente para Viviane, em algum momento a justiça abandonou de vez seu papel, se é que em algum momento ela o aceitou, ignorando que sua participação era primordial para que essa história tivesse um desfecho menos trágico.

Obs.: Este texto foi publicado, originalmente, no blog Poesia Cotidiana, em 13 de março de 2013.

Obs.1: Para entender um pouco mais sobre o caso, leia a reportagem "Somos todas Viviane", publicada no site Jornalirismo, em 29 de março de 2013.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

Aos pés da gladiadora

Foto: Marcus Vinicius Batista

Marcus Vinicius Batista

(Para Beth)


Estava dentro da arena sem saber exatamente o porquê. Não recebera convite, não me agradava testemunhar violência de qualquer espécie, ainda mais gratuita e regada a pão adormecido. Tampouco me interessava aplaudir ou condenar gente já condenada pela natureza do abate.

Sentei-me perto de uma sombra. Poderia permanecer intocado, camuflado, escondido sem o menor risco de ser convocado para ajudar um morto-vivo de espada na mão. Sombra de uma das ruínas que insistiam em sobreviver de pé e cobertas por pedras com séculos de vísceras e urros.

Quando me ajeitei no piso de pedra, percebi a redundância visual e geográfica. Eu estava sozinho. Ao longe, na curva do círculo quase oval, vislumbrava silhuetas que mais pareciam vultos nascidos na ilusão ótica. Sentia-me de fato sozinho. Mas sentia-me espremido, sufocado, como se a arena palpitasse de gente desejosa de morte. Talvez eu tivesse desejado, em algum momento, levar comigo um cadáver, uma lembrancinha do show.

Gladiadores, concordo, são escravos. Peças para descarte. Bonecos a serem destroçados por crianças mimadas e selvagens. Gladiadores não merecem, pelas regras adotadas como dogmas, rosto, nome, passado, direitos, história ou sentimentos.

Gladiadores são figurantes de um universo machista, onde homens não sofrem, não transpiram dor, apenas cumprem o que foi traçado, de cabeça baixa e sandálias gastas. Assim me foi ensinado. Assim eu pensava até que ela entrou na arena.

O cabelo preso e a roupa indicavam a mancha no espetáculo de cartas marcadas. Um segundo olhar me deu o benefício da correção. O corpo imperfeito era a tradução da mulher perfeita. Uma mulher que existia, resistia, insistia em estar onde não era bem-vinda, sequer convidada.

Eu a conhecia de algum outro endereço, de outra função social, de outro cotidiano menos traumático e secundário para o papel que ela estava provavelmente destinada a cumprir. Na verdade, tinha a sensação de tê-la visto, aquela intuição que não padece de ser analisada ou teorizada. Por isso se chama intuição.

Abandonei a sombra e me aproximei da arena. Acomodei-me no degrau mais baixo para ver de perto. O sol e o calor tornaram-se dispensáveis, imperceptíveis diante da imagem. A imagem. Um par de sandálias brancas, presas em quatro filas de tiras, sustentava a gladiadora.

As sandálias funcionavam como anteparo para um detalhe que cutucou a memória e demitiu a intuição. Os pés me responderam: você a conhece. Os pés, lindos e únicos, eram os últimos sobreviventes daquela mulher que se transformara. Uma metamorfose que, certamente, brotou de dentro, extrapolou poros, epiderme e cicatrizes e a colocou de volta à arena pela quinta vez em mais de uma década e meia. Assim alguém me disse. Assim ela teria me contado.

Ela estava diferente, caminhava e respirava de outra maneira. Mas os pés permaneciam os mesmos. Não posso afirmar que a semelhança se dava pela aparência. Apenas me contaminava com aquela beleza emoldurada nas sandálias brancas.

Quando o portão se abriu, ela recuou. Não houve gritos da plateia. Eu estava sozinho, definitivamente. Das escadas, subiu um lobo, pelo menos no contorno. Ele rosnava, o que me permitia reforçar a adivinhação sobre quem era o bicho. A luminosidade me enganava. Ora ele parecia ser maior do que ela. Ora tinha a impressão de que ela tinha chances diante de um animal que pareceria domesticável.

Não havia introdução ao combate. Entrou na arena, que começasse a sangria. A fera avançou, houve o primeiro choque que confirmava o favoritismo de sempre. A gladiadora perdera o armamento. A espada caíra partida como papel cortado por uma unha mal cuidada.

A derrota inicial fizera a gladiadora retroceder quatro ou cinco passos. A fera rosnou e caminhou a ponto de reduzir a distância ao cheiro de ambas. Posso ter imaginado o olfato alheio, mas apostaria que ela, a gladiadora, percebera a redução do limite de segurança.

Não houve flerte. Não houve baile. Não houve sangue. Não houve morte. Não houve pão ou circo. Não houve! O previsto jamais aconteceu. Pisquei em temor pelo pior. Era um espectador inoperante para a vítima em potencial. Era um corpo inútil para o predador por natureza.

Olhava para a arena e não conseguia distinguir as duas forças. Onde estava a gladiadora? Onde estava a fera? Havia um só corpo no centro da arena. De onde eu estava, via as sandálias e aqueles pés formidáveis. Movia-me pelas bordas e, de outro ângulo, enxergava sandálias que se encaixavam em patas.

Apertava os olhos e via a mulher. Quando os arregalava, me assustava com a loba de garras em alerta. Repetia o movimento por várias vezes, enquanto as sandálias eram a única vestimenta remanescente daquele espetáculo de tempo incerto, lugar nebuloso como memória.

Voltei a vê-la quando o sol fraquejou. A imagem me absorveu. As sandálias estavam lá, firmes, seguras, renovadas sem mudar de cor. Dentro delas, os pés que poderiam ser o que eu sonhasse. Os pés que ela desejasse ser, quisesse se transformar.

Obs.: Você pode ler a visão de Beth Soares sobre a mesma arena, na crônica Gladiadora.

terça-feira, 6 de janeiro de 2015

Gladiadora


Foto: Beth Soares
Beth Soares

Quando cheguei na arena, não ouvi gritos. Ela estava praticamente vazia. Alguns poucos se dispuseram a sair de suas salas, de seus quartos, da frente de seus computadores e celulares, de dentro de si, para assistir àquela batalha. O que me confortava era saber que a maioria dos que estavam ali, na plateia, torciam por mim. 

Olhei para meus pés, vestidos de gladiadores, assim como minhas mãos, punhos, cabeça e todo resto. Mas aquela sandália me dava uma força descomunal. Eu sabia que quando os portões se abrissem seríamos todos juntos - corpo, mente, alma e coração – contra a fera. Mas meus pés precisariam estar tranquilos, para caminhar com passos precisos, nascidos do silêncio e da serenidade. Um pé de cada vez, se dividindo na tarefa do equilíbrio e da sustentação de um universo. 

Gladiadores são escravos. Não me esqueci disso. Seja qual for o motivo que os tenha levado àquela condição, eles não controlam o próprio destino. E quem controla? O senhor, que possui direitos sobre a vida e a morte do guerreiro? A plateia, que, ao observar de longe e tirar suas próprias conclusões dos fatos que vê, com um grito uníssono decide quem vence a batalha? A fera, que quer ver o guerreiro se ajoelhar e pedir perdão pelo atrevimento de desafiá-la? Ou todos juntos, numa assembleia romana visceral e sem regras, que cede à vontade do bem e do mal, alternadamente, sem muito critério? Não sei. Naquele momento não cabiam reflexões e filosofias. Só me cabia olhar para mim. De dentro. 

Os portões abriram e entrei, tentando disfarçar a ansiedade e o medo. Medo. Gladiadores não têm direito a temer. Quando se dão conta, estão no meio da arena, empunhando poucas armas e uma vontade sobre-humana de viver. Gladiadoras carregam mais um fardo (ou trunfo). São, para muitos, invisíveis. Há quem diga que nunca existiram. Não posso falar das outras. Eu existia. Estava ali. Existo. 

Esperei a fera sair da galeria no subsolo. Não sabia o que iria enfrentar. O pórtico foi aberto e lá estava ela. Sem rosto. Sem nome. Suas formas modificavam-se a cada movimento. Seu perfil direito me lembrava algo parecido com um lobo. O esquerdo, um homem. De frente, era difícil definir. Mas, em alguns momentos, posso jurar que uma luz furtiva refletia meu rosto. Joguei minhas armas no chão. Lutaria com as mãos.

Um amuleto cor de topázio, pequeno como uma pílula, protegia-me de qualquer mal.

O primeiro ataque veio da direita. Defendi com os braços, sangue, dentes, raiva, medo e ciência. Encostei o amuleto de topázio na carne dela. A fera tremeu. Fiz com que o engolisse. A ignorância, que da plateia assistia a tudo indiferente, não fez esforço para evitar. E a fera-lobo se retraiu. Mas não desistiu.


Da esquerda veio a segunda agressão. A fera-humana se aproximou, sedutora. Cantava uma música bonita. Me chamou para dançar. Prevendo o ataque pelas costas, num momento de distração, tentei sufocar-lhe o canto. Mas, com um único movimento, a fera escapou por entre meus dedos. Sorrindo, deu as costas para mim e cantou alegremente para a plateia, que aclamou o seu canto, jogou-lhe flores e lhe deu vivas! Entendi do que se tratava. Com a força de meus punhos, cérebro, garganta e nervos, arranquei meu próprio coração. Ele ainda pulsava em minhas mãos quando a fera caiu de joelhos.

Disforme, ela se arrastava quando veio de frente. Olhei no fundo daqueles olhos castanho-fogo, tão familiares. Levantei-a usando todas as minhas armas; braços, sangue, dentes, raiva, medo, ciência, punhos, mãos, cérebro, garganta, nervos e coração. Um pouco de fúria. Um pouco de amor.

Acredito que ninguém na plateia pôde ver. A fera, transformada em luz, entrou por meus poros. Mora, agora, em mim. Nasce toda manhã e morre toda madrugada. Dia após dia. Mas, entre esses dois momentos, vive, voa, existe. Livre. Para sempre. Venci. Vencemos.