terça-feira, 22 de dezembro de 2015

O som do berimbau



Marcus Vinicius Batista

Raimundo Pimentel reclamava na esquina da avenida da praia com o Canal 6, enquanto esperava a abertura do semáforo. Misturava a pressa dos motoristas que ignoravam a luz vermelha com as queixas que ouvira no quiosque ali perto.

Baiano de Salvador, Raimundo é caçula de 12 irmãos. "Minha mãe era ótima em fazer filhos." Carrega uma mochila preta nas costas, veste-se com aprumo, camiseta para dentro, calça jeans e tênis. O rosto, por outro lado, é castigado pelo sol, típico de quem caminhou centenas de léguas sem pensar em proteção. Até porque se proteger do sol custa o dinheiro que ele nunca teve. A barba completava as feições que elevavam a idade em quase 15 anos. Um homem de 50, com marcas e experiências de 65.

Embora calejado, Raimundo caiu na armadilha dos desesperados e veio para Santos com a velha esperança do migrante: fazer dinheiro, ganhar a vida. Ouviu de algum mentiroso que aqui sobravam oportunidades. Desembarcou há seis meses.

O emprego virou trabalho. O berimbau que conheceu a partir das rodas de capoeira virou a ferramenta profissional. A desilusão virou serenidade na hora de me dizer onde se abrigou. "Moro ali na avenida Epitácio Pessoa." O olhar de final de frase respondia o resto do endereço. Ao lado de árvores ou embaixo de marquises não traz CEP ou complemento de ficha cadastral.

A rotina no sul implica em trabalhar à noite, percorrendo a orla da praia para animar casais, turmas de amigos ou qualquer sujeito por uns trocados depois de ouvir o som do berimbau. Na caminhada de algumas quadras, a melodia era constante, saborosa, ritmada. A trilha sonora que começou numa esquina, enquanto eu e minha irmã esperávamos para atravessar a avenida do semáforo-enfeite.

Enquanto me contava sua história, Raimundo voltava a mencionar o quiosque. Parecia me pedir a pergunta, que entreguei de bandeja: "O que aconteceu?" Eis os fatos:

"Você acredita que estava tocando meu berimbau ali, nos quiosques, quando uma mulher, encostada numa moto, teve a coragem de chiar:

— Para com esse barulho!

Olhei bem para ela, para o namorado dela, para as pessoas nas mesas perto e respondi:

— Você anda nessa moto, com esse escapamento, e vem falar que meu som, do meu berimbau, é barulho!

Ninguém falou nada. Só alguns sorriram amarelado. Peguei minhas coisas e vim embora."

Depois de quatro quadras, paramos em outra esquina. Ele me falou de restrições alimentares, falou de dinheiro sem falar dele. Ajudei como pude, minha irmã também. Refeição garantida. Agradeci pela apresentação e nos despedimos.

Ele atravessou a rua sem olhar para trás. Fiquei com o som e com a boa história de quem nunca mais encontrei.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

Prazer, Cleóbulo


Escola Cleóbulo Amzonas Duarte, em Santos. Foto: G1/Santos
 Marcus Vinicius Batista

Caros estudantes,

Escrevo para agradecer a vocês. A espiritualidade me ensinou desde que parti, em 1979, a dispensar ou relevar certas vaidades. Uma delas é virar nome de escola. Na prática, isso de nada vale no andar de cima. Mas reconheço o esforço de algumas pessoas que buscaram me homenagear pelo (bom) professor que fui. Perdão pelo adjetivo, algumas vaidades ficam.

Não acreditem no festival de bobagens que se fala por causa da ocupação. Semântica é uma delas. É ocupação sim. Como vivi da palavra, sendo jornalista e professor, sei o quanto vale, o quanto pesa. Ocupação e invasão são situações bem diferentes, como muitos jornalistas, políticos e burocratas teimam em emburrecer. Lamento que juízes e desembargadores - não tenham medo! Sabemos mais do que imaginam aqui em cima - não se entendam. Reintegração de posse para uns, manifestação para outros. Retórica que afeta vocês, principais interessados numa escola melhor.

A ação de vocês é política, claro. Nada mais redundante do que as bravatas do Governo. Ocupar uma escola para evitar que outras sejam fechadas é uma atitude cidadã, de quem conhece as mazelas. E olha que a que leva meu nome não é das piores. Sorte minha!

Política se combate com política. Ainda mais quando a política é mal explicada. A tal da reorganização de ensino veio de cima para baixo (não saiu daqui não!!!), como quase tudo na educação, sem consultas, sem debates, sem explicações aprofundadas sobre causas, critérios e consequências. Agora, o Governo pede conversa. Nunca quis. Em alguns endereços, mandou a Polícia, para a qual palavra diálogo aparece quase no final da cartilha. Ou na ponta do spray de pimenta.

Confesso que, observando à distância, do alto, estou feliz por ver a escola melhor. Finalmente, a escola voltou a respirar Cultura. Melhor do que o fracassado projeto Escola da Família, que teve mais de um nome "engana-bobos" em duas décadas. Soube de colegas que também viraram nomes de escolas, envergonhados porque suas biografias estavam associadas à professores que viraram cozinheiros, bolas de meia para prática de futebol, doações obrigatórias de lápis, papel e canetas para que as aulas acontecessem.

Convenhamos, a escola é muito chata. O autoritarismo cercado por muros, professores no piloto automático por uma série de motivos. Do vale-coxinha - apelido coerente - aos salários de fome, que não pode contida pelas coxinhas que se compra com o vale. Desculpem-me! Na espiritualidade, também não se perdem as piadas, mesmo as ruins.

Cuidem da escola! Cuidem, de certa forma, do meu legado como professor de História. Retoquem a história da educação. Mas não permitam somente maquiagem. Mostrem que a escola pode ser mais do que paredes descascadas, bebedouros quebrados, fios à mostra, uma lista de problemas que se encostam na vida após a morte de muitos colegas. Que o diga a Dona Escolástica, por exemplo.

Tenho muito orgulho de vocês, estudantes! Um abraço,

Cleóbulo Amazonas Duarte

terça-feira, 24 de novembro de 2015

Café Rolidei, a casa de todas as gentes




Marcus Vinicius Batista

A cada vez que entro lá, sinto que é a primeira vez. O acolhimento é o mesmo de sempre, seguro, confortável, que inserem todos, simultaneamente, no centro do palco. As pessoas permanecem interessantes e atentas, mas sempre descubro um personagem intrigante, algum item novo, uma imagem antigamente inédita que me leva a pensar.

Estive no Café Rolidei na semana passada. Era uma conversa sobre minhas crônicas. Nada mais elogioso do que pessoas com vontade em conversar sobre literatura, sobre seus textos, sobre sua forma de pensar e enxergar o mundo.

O problema é que, toda vez que entro lá, me pego esquecendo do que fui fazer naquele espaço. O Café Rolidei me faz lembrar do tempo das casas na árvore. A última vez que entrei numa delas já era adulto, numa das antigas edições da Casa Natal. Uma casa foi construída nos fundos de um prédio de três andares, na rua Pernambuco, no bairro do Campo Grande. Casas nas árvores foram extintas e deram lugar para fortalezas com acessórios gourmet.

O Café parece uma casa na árvore porque, não apenas fica no poleiro do Teatro Municipal, sua fachada expõe um ar misterioso, daqueles que brilham os olhos de criança diante do contador de histórias. Atiram-me para um mundo paralelo, sem idade, escolaridade, renda e outros freios. Olho para as cortinas vermelhas que encobrem a entrada e tenho a sensação de que sairá dali uma surpresa, um novo caminho a partir das mesmas pedras, um coelho que nos convida para um buraco sem fundo. 



Quando entro no Café Rolidei, renovo a fascinação pelas paredes. Na última visita, descobri o Che Guevara ao lado do Papa Francisco. Eles convivem com antigas bonecas, com flâmulas, como fotos de um passado recente, de um passado reconfortante. Gente de tudo que é jeito, cor, origem, perspectiva, qualidades e defeitos. Gente verdadeira, gente de ficção. A mistura que comprova nosso mosaico cultural, que teimamos em encaixar em compartimentos.

As paredes, levei algum tempo para perceber, são o símbolo do que significa aquela torre de uma Rapunzel cultural. Agarramos nas tranças para aguentar o tranco dos lances de escada que nos leva ao pé de várias sementes em cima das nuvens.

Ali dentro, vimos um cenário versátil, adaptável aos espetáculos teatrais, festas, aulas, confraternizações, diálogos literários, entre outras formas de produzir humanidade. E, no final da trilha, o baú de onde saem os tesouros, personificados em todas os rostos e cicatrizes, visíveis ou não.

O Café Rolidei é um endereço político, de dificuldades econômicas e riquezas culturais. É um CEP multipartidário, sem siglas, referências institucionais ou status de marcas. As paredes do Rolidei têm vida própria porque todos por aqueles cantos transpiram autonomia. Lema e independência para criar, para se expressar, com a obrigação de ser crítico perante o mundo, com juras de fidelidade a si mesmo.

Na última visita ao Rolidei, conheci o ouro escondido atrás de uma cortina branca, fininha, que protege do pó, mas se escancara para o conhecimento. Tomava café e conversava com a escritora Regina Alonso quando fiz o que deveria ter feito há meses. Puxei a cortina e degustei a biblioteca do grupo TamTam. Pensei em qual crime poderia cometer para ser condenado a meses de prisão domiciliar no Rolidei, ao lado da biblioteca. Na suíte presidencial, crônicas, romances, poesia, dramaturgia, teorias da filosofia ao meio ambiente.

O Café Rolidei é a (re)descoberta de gente e da gente. Entre o banheiro com cara de exposição fotográfica e decorado com uma cadeira vermelha de barbeiro e os figurinos que enfeitam o bar, que abriga a biblioteca, mas também ponto de encontro para debates acalorados, conheci pessoas como o Alexandre, capaz de escrever poesias, de fazer perguntas desconcertantes sobre crônicas e contar sua admiração sobre uma colega escritora. A arte como remédio de uso contínuo, enquanto a maioria receitaria a ele omissão para que Alexandre cumprisse o destino de estar à margem. 



Esta casa não têm portas. Ela possui preocupações e responsabilidades. Arte não é fanfarronice de celebridade. Não são tensões somente com o papel da arte, do teatro, do ator, do encenador, dos produtores culturais. As cortinas vermelhas da entrada balançam para que entre o mundo lá fora, como um aviso de que a veia cultural não aceita egocentrismo, isolamentos e ataques narcísicos. A cultura é uma escultura conjunta, de diversas mãos, de variados modelos de cérebro, condenados ou não por uma sociedade que se finge diversa.

Vou ao Café Rolidei com prazer e curiosidade acesa. Sei que ali haverá o abraço, a boa conversa, mas também a necessidade de inflar o pensamento, de renovar o entendimento de que somos minúsculos, pequenos demais para ignorar histórias que se recriam pela arte, que mapeiam o próprio corpo com injeções de solidariedade e humanismo.

Na última visita, soube de um novo problema. Gente pensante é assim: sofre, luta e nunca descansa perante obstáculos que rolam da montanha todos os dias. É a maldição de empurrar a pedra a cada amanhecer. Hoje, a pedra se chama a campanha de brinquedos para o Natal. Poucas doações, muita gente à espera. Por trás do palco, as contas que não fecham mês a mês.

O Café Rolidei e o grupo TamTam precisam de ajuda. A pedra, às vezes, fica muito pesada, mesmo para braços musculosos. De todas as gentes.

Obs.: Texto publicado, originalmente, no site Juicy Santos, em 19 de novembro de 2015.

Desconfiança



Marcus Vinicius Batista

Jornalistas, dizem os ingênuos, são sujeitos desconfiados. Sempre duvidei desta premissa, que creditaria mais desconfiança sobre um ofício em fase de descrença. Creio, na verdade, que a dúvida é minha mesmo, pela maturidade - peço perdão pelo auto-elogio -, embora só a reconheçamos quando duvidar vira um flerte com a ranhetice.

Desconfio que somos um projeto em curto-circuito, camuflado pela pretensão de quem se colocou no topo da cadeia. E filosofa como se estivesse sentado no trono de rei da selva por caridade à natureza.

Tenho suspeitas, por exemplo, sobre a fé em forma de religião institucionalizada. É a crença sob o manto da hierarquia e do poder político, alicerçadas por interpretações favoráveis ao próprio umbigo, com o apoio da transferência de responsabilidade. Tudo em nome de Deus, não importa sua cor ou idioma. A fé institucionalizada comercializa almas e vende, cedo ou tarde, intolerância via sorriso frouxo e fala mole.

Somos uma espécie violenta. Reside em nossas células a conquista e satisfação de desejos à força. De um tênis a territórios. Impomos nossa forma de vida, fingimos senso civilizatório e transformamos - historicamente - paz em exceção. O terror está em nós, não é exclusividade de uma religião, com sua parcela fanática. Apenas damos outros nomes, como colonização, expedição, modernização e outros aumentativos.

Desconfio de que nós, seres produtores de cultura, estamos por este motivo um passo à frente dos outros animais. Somos capazes de obras belíssimas, enquanto plantamos preconceito, irrigamos estigmas e colhemos intolerância. Somos esforçados em negar machismo, racismo, sexismo, entre outras manifestações, para pregarmos falsa solidariedade em forma de bandeiras coloridas, lacinhos, palavras fofinhas em redes onde prevalece a imagem construída para nos vender a nós mesmos. Tagarelamos para controlar!

Nas aulas teóricas mais simples, aprendemos - com a pretensão da bondade escondida - que somos seres sociais. Por que não trocar por dependentes? Adoramos uma tutela, amamos que outros decidam o que fazer por nós, quando as ações escapam ao nosso conforto, à nossa margem de segurança. Queremos que outros resolvam os problemas coletivos - dos quais somos especialistas em reclamar - para que possamos cultuar nossa própria individualidade. Olhamos o outro porque tememos (e fugimos) a nós mesmos.

Construímos uma imagem socialmente aceitável, baseada no senso comum e no politicamente correto. Encenamos sensibilidade diante da tragédia alheia, desde que não precisemos sair de casa. Doamos e bradamos nossa capacidade solidária. Reforçamos, assim, a arrogância de quem sente pena, de quem se coloca um degrau acima para lamentar a melancolia que nos faz melhores.

Desconfio (quase) sempre que, no fundo, não somos confiáveis. Até porque tenho certeza de que os testemunhos diários do mundo lá fora confirmam esta hipótese. Não?

quinta-feira, 19 de novembro de 2015

Afogado em papéis


Marcus Vinicius Batista

Não consigo fugir deles. Guardo cada vez menos. Imprimo o mínimo necessário. Repasso cada vez mais. Um país cartorial como o nosso, quando a papelada chegou nas caravelas antes da nação, não perdoa: tudo precisa de papel. E, com ele, vem os "donos" das pilhas de folhas, os reis do frente e verso: os burocratas.

A burocracia é um esporte cotidiano brasileiro. Tudo passa por um carimbo, um código, um número, uma assinatura, uma sigla, um registro que se sobrepõe a outro registro, que anula o registro anterior, que renova o registro para que tudo esteja devidamente registrado. Por quem? Para quê?

Sempre desconfiei da burocracia. Você aprende com o tempo que, quase sempre, é uma cena para qual você foi convocado, jamais convidado. Seu papel é providenciar e entregar papéis. Folhas que cumprem protocolo, que se avolumam e ganham importância pelo tamanho, quase nunca pelo conteúdo. Poucos leram ou lerão a papelada. Prevalece a conferência, olhar que a ordem é a correta, se os carimbos e assinaturas estão nos devidos lugares.

O burocrata é o símbolo da desconfiança. Antes de dificultar para facilitar, ele te olha de cima abaixo. A mesa ou balcão são seus escudos. Assim, evita-se o contato corporal que vai desnudar a fragilidade de quem "só trabalha aqui", de quem responsabiliza o "sistema", a "fiscalização" pela lista de papéis que tem que ser entregues. Para ontem! O burocrata almoça urgência, janta emergência.

Depois de te medir, o burocrata sorri. O sorriso procura amaciar a carne alheia, antes de bater nela com um formulário, um ofício, uma xerox, uma nova regra em outro formulário, ofício - você já sabe o caminho. Burocracia é, claro, repetição. A segurança da mesa, aliada à pilha de documentos que viraram estátuas. Quanto maior a pilha intocável, mais sagrado será o discurso de que há muito serviço a fazer. São os tempos modernos de Chaplin, versão inércia.

Depois do sorriso falsamente afetuoso, nasce a fala mansa. Um burocrata faz de tudo para evitar o conflito. Berros, só em último caso, e ainda assim quando a hierarquia lhe é favorável em absoluto. Sem riscos de ser apanhado em flagrante delito de estelionato como operário-padrão.

A fala cadenciada traduz o poder concedido. As palavras são mecânicas, próximas de um atendente de fast-food. No combo, a tríade "sanduíche-batata-refrigerante", ou seja, documentos pessoais, as taxas e a nova "velha" documentação que dá novos ares àquele número que você já é. Um novo documento, atualizado esteticamente, para confirmar que você está na lista.

Um burocrata nunca confia em você. Até porque ele não é confiável. Ele só cumpre ordens e, portanto, não pode medir consequências de seus atos. O combustível é a impessoalidade, que contradiz e confirma a frase "Aos amigos, tudo; aos inimigos, a lei." Burocracia é punição para quem não pertence à turma, para quem não pode dizer "você sabe com quem está falando".

O burocrata nos pune pela sua própria desorganização, travestida de mais informações inúteis que - ele mesmo sabe porque geralmente a pratica - cumprem protocolos, mas se posicionam bem distantes da verdade dos fatos. Burocratizar mascara pessoas, esconde dados e pouco representa o papel de cada envolvido no processo que levou à multiplicação da papelada.

A burocracia é a nossa forma de dizer que não acreditamos em nós mesmos, embora digamos que a culpa é sempre do outro. Pudera: vivemos num país onde a palavra vale pouco ou menos daquela registrada, carimbada e homologada no papel, que costuma nascer arquivo morto.

quinta-feira, 12 de novembro de 2015

Tempos de luto




Marcus Vinicius Batista

Perdi uma pessoa importante em tempos recentes. Amigos perderam pessoas essenciais em suas vidas. Colegas se foram; ex-chefes, também. Todos em um mês. Quando a morte nos visita aos trancos, sem avisos, ela nos força à reflexão sem direito de escolha.

Vivemos numa época em que o luto pouco recebe atenção. Precisamos dele como instrumento de libertação, de conversa definitiva com quem se foi e, principalmente, como bússola para compreensão de um relacionamento e dos próximos passos.

O luto é retrato das contradições de um período histórico no qual nos soterramos em imagens, enquanto escapamos da serenidade das experiências. Transformamos o luto, como tudo na vida, em ato intenso, porém oco. Em vivência intensa, com olhos de quem enxerga, mas não avalia, pondera ou tenta localizar o próprio lugar diante de quem partiu. Inserimos pessoas em estantes para exibição, e não em gavetas definitivas, para que possamos abri-las.

O luto foi esmigalhado pela velocidade da vida prática. Mal suportamos os rituais de morte, que se aproximam de convenções sociais e se afastam de despedidas. Somos pressionados - e pressionamos - a chorar pelo tempo do sepultamento para depois retornamos com a cara lavada para o cotidiano que flerta com a desumanidade.

A vida segue, diz um dos bordões do momento. Vida com a ausência e a saudade sufocadas e entorpecidas na pilha de compromissos que aliviam, mas adiam o inevitável. Adiamos com burocracias o instante de um diálogo entre quem ficou e quem morreu. Adiamos as lágrimas sentidas, duras e necessárias, que deram lugar para espasmos, porém sem tempo para a dor.

O outro lado do luto se faz presente no mundo virtual. Os memoriais se multiplicam em redes sociais, numa tentativa de socializar, como uma comunidade, a dor. O luto, ato particular, se torna coletivo e - por que não? - festivo. Não cabe a mim julgar como cada um deve se manifestar, mas não posso deixar de pensar que ela, a morte, e seu rastro, o luto, viraram ingredientes do mundo do espetáculo.

O lado positivo é que, em parte, se retomou a morte como pauta. Recomeçamos a falar sobre o tema, embora de maneira breve. Conseguimos, no mundo virtual, combater com paliativos a leitura cultural da morte no século passado, que empurrava o luto e a perda para o silêncio e o tecnicismo hospitalares.

Desconfio que o luto, no sentido virtual, não representa exatamente uma experiência, mas um simulacro dela. O teclado e o monitor fingem nos proteger, seja como filtros tecnológicos, seja como a falsa ideia de anonimato e impunidade pelos discursos.

Precisamos pensar mais naqueles que se foram. Conversar com eles e sobre eles. De preferência, sem a velocidade e o pragmatismo utilitário. Este me parece ser o melhor caminho para fazermos o correto no último estágio: acertar as contas.

Se não foram acertadas em vida, que sejam agora com serenidade e sabedoria, remédios com chance de expurgar culpas e arrependimentos. O resto são placebos para, outra vez, fugirmos da morte e endeusá-la como tabu.

segunda-feira, 26 de outubro de 2015

Urgente!!!




Marcus Vinicius Batista


Caro leitor, um aviso: só leia este texto se você tiver certeza de que tem tempo para ele. Perdoe-me se pareço pretensioso, mas não desejo que você destine importância para esta crônica. Desejo que você esqueça as demandas ao redor, sente-se em um local confortável e se prepare para refletir ao final destes parágrafos. Não fui eu que o fiz pensar, e sim sua própria disposição em respirar com prazer.

Ando cada vez mais incomodado com a necessidade de sermos urgentes. São demandas que reforçam nosso egocentrismo ao exigir atenção máxima para ontem. Na verdade, para o minuto anterior ao agora.

O incômodo se mistura com a convicção de que poucas situações são realmente urgentes. Calibramos os relógios para despertar o tempo todo, engolindo o discurso de que assim seremos considerados produtivos, relevantes e – aí sim a pretensão – essenciais. Na prática, a velha utopia da imortalidade, travestida da falsa modéstia de “não somos eternos, mas poderíamos ser insubstituíveis”.

Adoramos a urgência porque a transformamos em remédio paliativo para nossas ansiedades e angústias. Empurramos para o outro a responsabilidade de nos suportar como mimados que batemos o pé para que tudo se resolva no nosso tempo, jamais no tempo do outro.

Inventamos prazos, construímos cronogramas, multiplicamos metas que ruem no primeiro atraso do que é realmente humano. Adiamos o contato com nossas falhas quando impomos resultados que beiram o automatismo de uma máquina sem chance de sentir, de cair, de precisar de um intervalo. O ócio é sinônimo de culpa nessa perspectiva. Só falta pedirmos o açoite para caso de não termos nada para fazer. Melhor sangrar do que se encontrar com o próprio espelho.

Não posso mais comprar a pressão alheia por produtividade de porcelana. Não significa também dizer que só farei o que quiser. A questão talvez seja compreender o tempo próprio e colocar diante do outro a areia movediça e a miragem que representam uma urgência que apenas importa para quem a criou, para quem se escravizou pelo tempo.

Tento, diariamente, dispensar a urgência das informações que nada servem, das imagens que acariciam o narcisismo do prato recém-devorado da vida feliz, dos pedidos acompanhados de risinhos que mascaram a irritação de quem sabe – nas entrelinhas da mensagem – que sua emergência supervalorizada é conto da carochinha. Este conto é, muitas vezes, chamado de correria, mas sem linha de chegada.

sexta-feira, 23 de outubro de 2015

A noite de Valdo


Valdo Soares, à esquerda na imagem. Foto: Arquivo pessoal

Marcus Vinicius Batista

Segunda-feira é dia de trabalho duro na cozinha de casa, na Vila Edna, em Guarujá. As quatro bocas do fogão estão ocupadas. São duas panelas de arroz, uma panela de pressão com feijão até à boca e uma de carne. Mais tarde, no início da madrugada, a comida será distribuída pelas ruas da cidade.

A casa simples na Vila Edna é a residência atual de Valdo Soares e da esposa Alessandra. Os dois, com o auxílio de voluntários, tocam o Projeto Resgatando Vidas. Em menos de dois anos, o grupo retirou das ruas 43 pessoas, muitas delas hoje em tratamento contra dependência química.

Valdo Soares tem 40 anos, mas aparenta mais uns cinco, seis. O rosto apresenta certo desgaste pela vida antiga. Os cabelos daquele tempo também ficaram mais raros. Hoje, a barriga se esconde dentro da calça e aponta a mudança na rotina, no cenário, na própria alimentação. O medo das noites solitárias na casa a céu aberto acabou!

Quando eu o conheci, depois de muito ouvir falar dele, não associei o nome à pessoa. Quem me contou a história de Valdo nunca o descreveu. Não precisava, valia mais o relato. Na minha frente, um sujeito com mais de 1,80 metros, vestido de terno e gravata, delicado nos movimentos, envergonhado ao falar, sorridente com todos nas rodas de conversa, atento aos diálogos.

Depois de uns cinco minutos, Carlos Júlio, um amigo, me disse: "Esse é o Valdo, que dormia embaixo da marquise da loja." A loja é a Pap'Sport, que fica na rua Bento de Abreu, no Boqueirão. Valdo apenas sorriu e agradeceu a Carlos Júlio pelos conselhos. Palavra dele, conselhos. "E tenho que agradecer também ao Gabriel, irmão dele."

Valdo viveu por 25 anos nas ruas de Santos. Viciou-se em crack, chegou a 49 quilos. Os cabelos eram compridos e se misturavam com a barba. Dormia sob a marquise da loja, na época sem portão. Passava até uma semana sem tomar banho. Como qualquer morador de rua, Valdo dormia ao amanhecer e perambulava à noite ou permanecia vigilante durante a madrugada, por medo de tomarem suas coisas e de apanhar das "autoridades".

Um dos donos da loja, Gabriel Pierin, chegava pela manhã e via aquele corpo mal coberto estendido logo na entrada. Gabriel o acordava e dali brotavam algumas conversas, os tais conselhos sobre mudança de vida. Valdo recebia um café e, de vez em quando, ganhava roupas para que pudesse tomar banho - os chuveiros da praia eram o socorro imediato - e continuar o dia. 

Refeição pronta na casa de Valdo, via doações

O estalo veio alguns anos atrás. Valdo fez a curva e escolheu a outra rota da bifurcação. Ele obteve tratamento e largou o crack, conheceu Alessandra e se casou com ela. Passou a frequentar uma igreja no Guarujá e arrumou um emprego que o permite morar na casa onde prepara as refeições para pessoas que hoje refletem o espelho dele ontem.

Batemos papo várias vezes no sábado. Era o lançamento do livro Uma Estrela na Escuridão, do próprio Gabriel. Percebi, durante uma das conversas, que Valdo ainda não tinha o livro em mãos. Encostei na mesa onde Gabriel autografava, cochichei ao ouvido dele e recebi como resposta um sinal positivo de cabeça.

Fui até a outra mesa, apanhei um livro com Margareth, a esposa de Gabriel, retornei ao fundo do salão e entreguei o exemplar para Valdo. "É nosso presente, nosso agradecimento." Valdo ficou mudo, olhava para os lados e se voltava para a mesa de autógrafos. Os olhos se encheram d'água e ele murmurou: "Obrigado."

Meia hora depois, o auditório da Estação da Cidadania estava cheio para ouvir o testemunho de Andor Stern, um senhor de 1,60 metros e 87 anos que falaria dos horrores que sofreu em campo de concentração na Segunda Guerra Mundial. Ele é o "personagem" do livro do Gabriel.

No meio da mini-palestra, aquele sujeito de terno e gravata se levantou, fez sinal de reverência e, bem baixinho, fez uma pergunta a Andor. Tão baixo que teve que repeti-la. Andor o cumprimentou e agradeceu.

Após a mini-palestra, Valdo foi convidado - de surpresa - para o centro do auditório. Falaria sobre si próprio. Tímido, travou diante da plateia. Gabriel o auxiliou com diversas perguntas. Valdo pôde explicar porque sua trajetória havia mudado a partir de curtas conversas logo cedo, pela manhã, e auxílios de um comerciante de material esportivo e também autor de livros de História. Mas, por algum motivo qualquer, ele tomou pé da mudança e soube aproveitar os empurrões que muitos não recebem.

Aplaudido de pé por todos no auditório, Valdo sorriu. O livro debaixo do braço, o terno impecável, a barba feita e o cabelo cortado sem falhas, todas as peças de uma noite de reconhecimento. No dia seguinte, era hora de apertar o orçamento doméstico, colocar as panelas no fogo e trabalhar para não se esquecer daquela marquise e de quem ele era.

Obs.: Texto publicado, originalmente, no site Juicy Santos, em 20 de outubro de 2015. 

quarta-feira, 21 de outubro de 2015

Ouvindo vozes


Araceli Go, no vocal; Walmir Olveira, à esquerda na foto

Marcus Vinicius Batista

Caminhávamos com certa pressa por causa de um compromisso de domingo à tarde. Nada urgente, somente mais um filme em DVD com duas amigas. Seguíamos eu e Beth naquela passada de dia de semana, sem motivo para tanto, por enquanto distraídos.

Na vizinhança, por duas quadras, reinava o silêncio de domingo pós frango de televisão, lasanha ou macarronada com molho de tomate. O silêncio pré-jogo do Corinthians ou pré-gritos do apresentador de nome aumentativo e seus dançarinos quase famosos.

Na terceira quadra, a voz nos empurrou para reduzir o ritmo. Olhamos um para o outro e começamos a procurar a origem. Só casas e uma imobiliária fechada. Era Tom Jobim, não sabíamos a música. Mas era bossa nova numa voz feminina. Ao fundo, bem baixinho, um violão. De vez em quando, atravessando a melodia, uns pássaros.

A segunda hipótese era a escola de inglês do outro lado da rua. No domingo, estaria fechada. Não havia data especial nem reação do público diante de uma voz tão bonita. A música acabou e não houve palmas. A vantagem é que a voz subia o tom, não por causa da cantora, mas porque estávamos perto dela.

De novo, Tom Jobim. De novo, a voz, o violão e um ou outro pio. Atravessamos a rua e descobrimos qual era a casa. Quando paramos no portão, a surpresa. De costas, quem cantava era Araceli Go. De frente para nós, Walmir Olveira ao violão. Os pássaros estavam espalhados em algumas gaiolas, impossível identificar os demais cúmplices da orquestra. 

Araceli e Walmir, em apresentação no Teatro Municipal de Santos

Walmir nos identificou e fez sinal com a cabeça. Em silêncio, admirávamos a voz de Araceli e sorríamos. Quando a música terminou, aplaudimos por instinto. Ela se virou para o portão e perguntou, surpresa:

— Quem é?

— Araceli, é o Marcão. E a Beth!

— Oi, Marcão, tudo bom?

Engatamos uma conversa rápida e seguimos adiante, pois o filme nos esperava e não queríamos atrapalhar o ensaio do dueto. No dia seguinte, feriado de segunda-feira e um churrasco marcado no prédio de amigos comuns. Chegando lá, descobrimos a razão do ensaio. Mais de uma hora de uma enciclopédia de vários momentos da Música Popular Brasileira.

Confesso que nunca tive longas conversas com Araceli. Por outro lado, tenho horas de estrada ao som da voz dela e do violão do Walmir, música suficiente para os dois lados do vinil, bonus track do CD e extras de DVD.

A primeira vez que a ouvi cantar jamais será reprisada e só me resta o saudosismo. Primeiro, estávamos juntos, com os mesmos amigos - André e Meire - em uma das mesas do Pierrot, bar que não existe mais. Segundo, fomos ouvir um craque que também se foi.

No final daquela noite regada a bolinhos de feijoada e chopp, Celso Lago chamou Araceli Go ao palco e, juntos, eternizaram seis músicas. Não me lembro a ordem delas, mas as imagens permanecem adaptáveis às vozes de ambos. Foi a última vez que conversei com Celso Lago antes dele morrer, em 28 de dezembro de 2013.

Araceli e Walmir sempre souberam presentear. Não escolhem hora e lugar à toa. A última vez foi no lançamento do livro do meu irmão André Rittes, na Estação da Cidadania. Com cinco minutos de show, uma senhora me parou na porta.

— É aqui que tem apresentação de chorinho. Eu vi no jornal.

— Não é chorinho. É MPB (como se chorinho não o fosse).

— É de graça?

— É, mas tem lançamento de livro também.

A senhora viu o show e gostou tanto que comprou o livro.

Durante a apresentação, um amigo encostou do meu lado e perguntou o nome da dupla. Depois da resposta, minha idiotice jornalística se manifestou na informação irrelevante:

— Ela é cega!

O amigo olhou para mim e disse: "É... não reparei!"

Realmente ... bastava só ouvi-la cantar e Walmir, tocar.

A rua da comida global


Você conhece esta torta de banana? 

Marcus Vinicius Batista

Qualquer prato de comida por quilo se parece com a Assembleia Geral da ONU. O sushi se senta ao lado da lasanha. A picanha conversa com a batata souté. O yakisoba se mistura com o feijão e o arroz carreteiro. Molho de ervas banha a mandioca frita, quando não o shoyu afoga o ovo de codorna.

Se vamos a uma temakeria, vemos que boa parte dos pratos fala inglês via cream cheese. Já testemunhei, com certa estranheza, a alga e o arroz acompanhadas por doritos. E, para variar o cardápio, pede-se uma porção de hot rolls de nutella e banana.

A rua Tolentino Filgueiras sustenta uma nova forma de globalização gastronômica, com os talheres cravados no tradicionalismo. A convivência é internacional, mas a demarcação é por território.

A Tolentino costuma fazer parte da minha rota entre o bairro do Boqueirão e o Gonzaga. Passo por ali por duas razões principais: trabalhos com colegas da imprensa - muitos veículos de comunicação ficam no Gonzaga - ou para comer.

A rua foi durante boa parte da infância um caminho entre minha casa - ou da minha avó - e a rua Bahia, onde estavam concentradas minhas fontes de energia. Saíamos da avenida Ana Costa - minha avó morava no prédio em cima do restaurante Beduíno -, virávamos a esquina, andávamos uma quadra e chegávamos no paraíso.

Na rua Bahia, minha avó me levava para comprar refrigerantes, chocolates, balas, chicletes e outras quinquilharias alimentícias. Era a rua onde a vizinha de minha avó, Nair, também comprava os chokitos que me dava a cada visita que fazia à amiga.

Hoje, a rua Tolentino Filgueiras é endereço a la carte, de maior permanência, e não de passagem fast-food. Não visitei todos os restaurantes da rua, mas sempre encontro alguma mudança, algum detalhe a cada caminhada rumo ao Gonzaga. Parei até para ler cardápios sem entrar no estabelecimento. Aliás, escrevendo agora que percebi: só passo pela rua no sentido de ida. Na volta, sempre tomo outro caminho, geralmente a Azevedo Sodré ou a Galeão Carvalhal.

Andando é que reparo nos restaurantes. Começo pelo chinês, que me lembra minha mulher e sua paixão por Yakisoba. Ela reclama que nunca incluo este prato no nosso menu. Dívida a ser paga. Do outro lado da calçada, minha perdição, carnes argentinas. Resisto à tentação e sigo em frente, não por moralismo religioso, mas porque o Deus-Mercado não me permite. É desejar a picanha ou o chouriço e se realizar no hambúrguer.

O hambúrguer me aproximou dos Estados Unidos nos tempos do rockabilly. É o complemento do cinema, usualmente com cebola, cheddar, molho, batata frita e Coca-Cola. A trilha roqueira, às vezes, nos empurrava para a década de 60, ainda que artificialmente como o cheddar, por sinal, de origem inglesa. As poltronas de lanchonete americana lembram o Tio Sam e protegem as costas do operariado tupi.

No outro lado da rua, o outro lado do muro da América do Norte. Gosto do Guadalupe e seus pratos mexicanos, apesar de algumas adaptações para o paladar brasileño. Ali, experimentei guacamole, mas prefiro umas batatas, que vem acompanhadas com cheddar - ele sempre - e bacon. Uma concessão à Cultura McWorld. Um brinde com tequila.

O meu endereço preferido fica em frente. A Cantina di Lucca tem o melhor nhoque da cidade. Minha barriga no quinto mês de gestação é a prova ambulante de que a experimentação foi diversificada pelos restaurantes de Santos para se alcançar um veredicto.

O nhoque à fiorentina é nosso modelo de repetição - nosso porque falo também de minha mulher, Beth -, mas já provamos pelo menos uma dúzia de molhos. Fomos, inclusive, cobaias de um experimento científico. Como professor universitário, tinha que renovar meu amor pela Ciência. Como jornalista, tinha que ser solidário ao intercâmbio cultural entre França e Brasil, que pousou na nossa mesa, materializado no petit gateau de goiabada e sorvete de coco.

O nhoque costumava ser nosso ritual mensal para refeições na rua Tolentino Filgueiras. A crise econômica, ré para todos os julgamentos do momento, aumentou um pouco os intervalos entre nossas visitas.

Independentemente do restaurante que frequentamos, a sobremesa que nos atrai por hipnose está do outro lado da avenida Ana Costa. Globalizados ou não, nesta hora prevalece a brasilidade digna de um livro de Darcy Ribeiro. Na lanchonete com nome de cidade espanhola, nasce a melhor torta de banana que já comi.

Eu e Beth nos sentamos nos balcões do Sevilha para renovar nossos votos gastronômicos com a torta de banana, uma receita de família que faz a minha família salivar. Recentemente, arrumei uma desculpa e fui até lá para o almoço. A refeição seria rápida, pequena, que nos poupasse física e mentalmente para a torta.

Descobri, sem querer, que o mistinho deles também é o melhor que já devorei em Santos. Desisti da vitamina, troquei o almoço pelo lanche em definitivo. Dois mistinhos depois me fizeram dizer até breve para a torta de banana. Neste caso, não houve estômago que sustentasse um amor antigo e uma nova paixão. Mentira, a torta sempre nos acompanha até em casa.

Obs.: Texto publicado, originalmente, no site Juicy Santos, em 13 de outubro de 2015. 

segunda-feira, 12 de outubro de 2015

Amigas para sempre



Marcus Vinicius Batista

Quando minha mulher, Beth, estava internada, eu estava todos os dias na Beneficência Portuguesa. O hospital permitia dois acompanhantes na visita, e meu companheiro de corredores, elevadores e UTI era meu sogro, Lauro.

Ao final da visita, atravessávamos o canal 2 para pegar o ônibus de volta para a Aparecida. Ali, duas linhas como opção: 54 e 194. Num dia, apanhamos o 54 e nos sentamos no fundo do ônibus. Uma mulher, na faixa dos 50 anos, entrou conosco e se sentou dois bancos à frente, ao lado de uma moça com metade da idade.

Gosto muito de me sentar no fundo do ônibus. Não sei exatamente o motivo, mas me permite uma visão mais privilegiada da viagem, embora sem utilidade prática. Talvez somente apreciar a vista e achar outro ângulo no mesmo roteiro arquitetônico.

Levo sempre um livro como distração, mas - neste caso - soaria grosseiro apenas ler com meu sogro ao lado. Aliás, as conversas sobre tempos antigos sempre rendem bons "causos".

A questão é que as viagens de ônibus ficaram silenciosas. Eventualmente, alguém abre a boca para falar, mas não dá para escutar o interlocutor, ausente do local dos fatos. Prevalece a conversa telefônica, uma exceção no silêncio de velório.

A maioria parece estar com torcicolo, com dores no pescoço. Muitos não conseguem olhar pela janela, como se fossem cidadãos exemplares em cumprimento de lei municipal que determina a cabeça somente virada para baixo. Questão de segurança. Os olhos fixos nos celulares e variações eletrônicas, com dedos frenéticos que tocam o teclado ou apenas com o dedo anular para observar o quase nada da rede social.

Na altura do Canal 3, voltei a observar a mulher que subira conosco no ônibus. Ela e sua amiga também passageira teclavam sem parar em seus celulares. As pernas de uma encostadas nas pernas da outra. Ombros que às vezes se chocavam com o ônibus sacolejante. E as cabeças, paralisadas.

Dois pontos depois, a mulher mais velha se levanta e puxa a corda. Quando faz este movimento, esbarra na moça do lado e se vira para pedir desculpas.

— Puxa, desculpe! ... Paula, é você? Tudo bem? Como está sua mãe?

— Maria, tudo. Quanto tempo! Como não te vi ...

— É... Eu também não te vi. Sabe, a correria ... Pena que não deu tempo de conversar. Tenho que descer. Tchau!

— Tchau!

Olhei para meu sogro, também testemunha do não-encontro. Ele apenas sorriu como quem sentira um novo "causo" cair no colo.

sábado, 10 de outubro de 2015

Entre dois séculos


Demolição de parte das instalações do Saldanha
Foto: Tiago Gomes

Marcus Vinicius Batista

Quando soube da demolição de parte das instalações do Clube de Regatas Saldanha da Gama, não consegui evitar a nostalgia que me leva a exercícios de memória. Fui sócio-atleta por dois anos, na virada da década de 80 para os anos 90. Defendi, como goleiro, o time de futsal do clube. O Saldanha chegou a ser o melhor time infanto-juvenil da Baixada em 1990 e até hoje guardo, com carinho, uma das camisas de goleiro que vesti naquela época (e que, claro, não me serve mais como veterano aposentado).

Voltei inúmeras vezes ao Saldanha. Assisti por quatro vezes à festa junina da Mariana, minha filha, nas quadras do fundo do clube. No mesmo lugar, vi a estreia do Vinicius, meu filho, como dançarino caipira, no ano retrasado.

No começo da vida universitária, lá para 1992, passava pelo menos uma manhã por semana jogando tênis com os velhinhos. Eu e meu amigo Paulo Coelho - não o escritor, mas o administrador de empresas - usávamos somente uma carteirinha para entrar no clube. A dele. Até que um dia fomos descobertos porque um dos porteiros achou que o Paulo tentava entrar com uma carteirinha cuja foto não se parecia com ele. Recebi o documento de volta, pelas mãos de um diretor, que recomendou que eu - o então Paulo - parasse de jogar tênis naquele clube de graça.

A única vez que remei na vida foi num caiaque na sub-sede do clube, localizada na praia de Santa Cruz dos Navegantes, em Guarujá. Também fui em diversos aniversários e ensaios de apresentação da escola dos meus filhos no salão de festas, de frente para o mar.

Confesso que soube da venda de parte das instalações do Saldanha há mais de dois anos. O clube não está sozinho. As marretas e máquinas que hoje transformam paredes em ruínas representam uma mudança de mentalidade, tanto do público como dos dirigentes, sobre o papel dos clubes em Santos.

Vender parte do terreno que abrigava a sede foi a maneira de equacionar dívidas trabalhistas, fiscais e bancárias. Ainda sobrou dinheiro para modernizar as dependências, como fez o Vasco da Gama e o Brasil Futebol Clube, que se alimentam de novas fontes de receita. Outros se uniram, como o Caiçara e o Clube dos Ingleses, para compartilhar eventos e custos. 

Foto: Almanaque de Santos
Os clubes, neste século, perderam parte de sua função social. Foram trocados por academias, condomínios fortificados, shoppings e versões parecidas de lazer. Os sócios pagantes são uma espécie em extinção. Quem ficou virou sócio remido, que não paga mensalidade e não gera receita.

Os esportes migraram para escolinhas e o futebol para as quadras de society. Saudades dos torneios internos nas manhãs de domingo, que incendiavam o campo grande com pés descalços, da molecada aos veteranos.

Despedi-me do velho Saldanha no final do ano passado. E da melhor maneira que poderia dizer adeus: jogando futebol no campo grande. Descalços, ralando as pernas a cada defesa ou gol sofrido.

Naquela tarde de sábado, joguei com velhos companheiros de futsal e adversários dos tempos de adolescente. Também pude estar ao lado de amigos de tempos recentes, que dividem as peladas em campos de futebol society, outra modernidade do século XXI.

Depois do jogo, um churrasco no tradicional bar do clube, onde prevaleceram as conversas sobre futebol, de hoje e de ontem. Na hora de registrar a despedida, o paradoxo que simboliza o contemporâneo: um dos jogadores trouxe uma máquina fotográfica polaroid. "Digital é o caralho!", ele disse antes das gargalhadas.

O papel de fotógrafo sobrou para um dos adolescentes que acompanhavam os pais peladeiros. Após o clique, surgiu o problema: como compartilhar a imagem? Os celulares deram conta de fotografar a fotografia.

As contradições entre as ruínas da saudade e a modernidade das marretas estavam ali, na imagem de um clube que entrou em cirurgia plástica para rejuvenescer. O Saldanha ficará parecido com o irmão Vasco, possivelmente. Talvez seja o preço para viver mais um pouco, com ou sem multidões de sócios.

Obs.: Esta crônica foi publicada, originalmente, no site Juicy Santos, em 6 de outubro de 2015.

sexta-feira, 2 de outubro de 2015

Ficando velho


Marcus Vinicius Batista

Envelhecer é coisa da sua cabeça. Envelhecer é perceber que velórios e enterros ficaram mais intensos do que aniversários na agenda. Envelhecer é concluir que compramos remédios na mesma frequência com que comprávamos batatas fritas e doces em décadas passadas.

Percebo a velhice se aproximar ao pensar várias vezes no convite para jogar futebol. Dois dias de recuperação, analgésico no cardápio, dores que trazem os lances de fantasia para a realidade do corpo desobediente.

A velhice manda recado quando sair de casa vira caso diplomático. A improvisação morre. O horário, o dinheiro, o casaco, a chuva, a vida amanhã constroem a pauta que trava negociações.

A velhice sussurra quando o dane-se some do vocabulário e da atitude. Pendurar roupa no varal, comer a beterraba da dieta, espantar o açúcar ou o sal, trocar a areia da caixa do gato deixam de ser detalhes e são gravados na pedra como os Dez Mandamentos.

A velhice se assume quando o passado era melhor; o meu tempo era a melhor época; a saudade se veste como autoridade suprema sobre os julgamentos presentes. As gerações posteriores são vistas como aquelas que não sabem viver.

A velhice sobrevive no alto valor dado ao olhar dos outros, nas convenções sociais como atos de fé, na escravidão de aderir à religião do pensamento único.

Velhice é refletir primeiro sobre o que pode dar errado, os riscos e as culpas que conduzem às apostas pelo que é garantido.

A velhice é uma incerteza que se finge absoluta nos teimosos olhos de quem nunca mais teve dúvidas. Não seria melhor apostar na "maturidade de estar velho"? Pelo menos, é um conceito que jamais saberemos quando chega e só o descobrimos quando já se foi.

A maturidade é aceitar o convite para a pelada de final de semana, com a convicção de que importa é se divertir, aproveitar a resenha depois do jogo, regada a churrasco e cerveja. O placar não vale nada diante das lembranças de uma ou outra jogada que incentivará para a partida da próxima semana.

A maturidade é reunir os amigos mais próximos em casa - não aqueles do oba-oba virtual - para uma sessão de cinema, falar da vida, conversar sobre livros e pessoas interessantes, bebericar, degustar uma comidinha que não está do menu do dia-a-dia. Horário, casaco, dinheiro e chuva ficam para a lista dos chatos.

A maturidade talvez nos visite quando compreendemos que a casa é nosso melhor refúgio. Cuidar dela é essencial, principalmente para nossa saúde mental. As obrigações podem ser executadas com uma boa trilha sonora e uma conversa com quem se ama e vive a seu lado.

Estar velho é detectar os atalhos do campo. É relativizar quem te observa, quem adoraria dizer o que você deve fazer, quando e como. Convenções sociais valem para certas circunstâncias; se valer para todas, passaremos os grilhões nos tornozelos.

Estar velho é, por mais que a ranhetice grite por nossa atenção, ter uma única certeza: meu tempo é hoje e ainda há muito por fazer ou admirar, junto com as gerações anteriores a posteriores, dependendo do papel e da hora.

domingo, 20 de setembro de 2015

Esperar ensina ... (Conversas com Beth # 17)


Marcus Vinicius Batista

Estou sentado há três horas e meia na mesma cadeira. Fico na parte mais curta de um corredor em L, onde não há movimento de pessoas, pois a porta de acesso é trancada. Posso esticar as pernas, oscilar entre o sono mal dormido e a leitura do romance policial. Posso curtir relativo isolamento, que corta o efeito de ouvir a conversa alheia sem ser convidado. Um comportamento que sei que não evitarei.

Costumamos entrar no hospital por volta das 9 horas. O lenço na cabeça de Beth afasta quaisquer perguntas por parte dos porteiros e das atendentes. Passamos direto e viramos à direita, na oncologia. Em minutos, uma funcionária destrincha a burocracia e nos pede para aguardar. Ela, em minutos, sumirá em cabines depois da porta de vidro. Eu tenho missão de me sentar e esperar.

Ao meu lado, o filtro d’água alivia a expectativa. Muitos copos para o calor de um corredor quase fechado, sem ventilação ou ventilador. De vez em quando, alguém surge para retirar umas revistas, empilhadas em suportes há muito tempo. Menu eclético, da Caras à National Geographic. Li, no mês passado, uma edição de qualidade da Caminhos da Terra, publicada em 1998 e resistente ao tempo.

A cadeira onde me sentei me deixa a cinco metros de Beth, mas a porta de vidro é o muro que nos separa. Não posso entrar lá. Comunicação via torpedo de celular, mas apenas para informar quanto tempo falta para acabar a primeira aplicação. Beth se protege da quimioterapia com a poesia de Manoel de Barros. Eu salivo pela chance de protegê-la daqui a pouco.

O local não é somente de espera. É de desgaste. O ar é pesado e lento, há poucos sorrisos, conversas curtas, que se resumem a bom dia, por favor e obrigado. Gente que duvidaria que parasse em pé. Gente com dor e olhar de esperança para nunca mais voltar ali. Funcionários que esboçam simpatia e chamam pelo nome para construir uma atmosfera de pessoalidade.

Depois que Beth entra para a primeira dose de medicação, eu saio para a primeira dose de qualquer bebida que me mantenha esperto. Café, água, Coca-Cola, suco, eles se revezam como aditivos para uma preocupação com verniz de impotência.

A impotência também é a ausência de ter para onde ir. Mas por que iria? Espero assinando em branco que Beth está bem. As dores nas costas só desaparecem quando durmo novamente. Sou acordado pela própria Beth, sorridente, mas com a mão direita atrelada a uma seringa.

Temos uma hora para nova sessão. Não podemos deixar o hospital. Só há dois lugares para permanecer. O corredor de espera da oncologia está descartado. A desculpa é lavar o rosto, usar o banheiro. Decido comer algo. A cantina está sempre com movimento, mas prevalece o som da TV, em eterna conexão com a Rede Globo.

Como um sanduíche. Beth tomou lanche durante a quimioterapia. E sua dieta é sal zero, algo quase impossível na cantina. No mês passado, conseguimos um sanduíche de frango grelhado, sem sal, com queijo branco e pão de forma, uma exceção no cardápio, negociada com diplomacia numa conversa com a dona do lugar.

Como a segunda aplicação, desta vez de um remédio contra náuseas, aconteceria em meia hora, pensamos em ir para o jardim. Ali, no mês passado, pudemos conversar sobre assuntos mais amenos, Beth dormiu um pouco encostada no meu ombro. Encontramos colegas da imprensa em serviço.

Desta vez, a chuva nos transferiu para um banco de madeira, daqueles de espera de atendimento. Ficamos em silêncio, eu folheava distraidamente Manoel de Barros. A arquitetura do prédio nos prendia um pouco mais, sem que o relógio nos imantasse a cada três minutos.

A segunda aplicação, ao contrário da anterior, é rápida. Cinco minutos. O problema seria o intervalo até a próxima: quatro horas. A experiência de três sessões de quimioterapia nos permitiu planejar este intervalo. Com um carro emprestado, pudemos esperar na casa da Celi e do Marcelo, um casal de amigos que nem mesmo o sobrenome diferente os tiraria da família.

Ficamos no apartamento deles e pudemos almoçar, às quatro da tarde, uma comida saudável e sem sal. No meu caso, sal a gosto. Conseguimos descansar um pouco e pensar em como resolver detalhes logísticos (devolução de carro, ida para casa e ida para o meu trabalho). Às 17h30, a terceira aplicação. Uma injeção rápida, com um minuto de espera. Só que voltar ao hospital duas vezes no mesmo dia altera a sensibilidade ao tempo. Um minuto de resignação, de tarefa a cumprir. Ressuscita o cansaço, as dores musculares, o receio com os efeitos colaterais.

Nunca fui tantas vezes em um hospital. Estar na Beneficência Portuguesa é uma rotina semanal que se perpetuará até o próximo ano. Entre consultas e exames, assinaturas e guias de atendimento, o dia mais cansativo sempre será o da quimioterapia. É entrar pela manhã e sair ao anoitecer.

Na prática, é a segunda visita na oncologia no mesmo mês. O ritual começa dez dias antes. Primeiro, entregar a guia na sede do plano de saúde. São três ou quatro dias de espera. Recebemos um telefonema, retornamos à sede, retiramos a guia aprovada e seguimos para o hospital. Lá, entramos com a papelada para marcamos a sessão de quimioterapia para a semana seguinte.

Esperar tem nos ensinado que o caminho deve ser aproveitado para que se entenda e valorize a chegada. Esperar por Beth na quimioterapia me ensina que o tamanho de nossos problemas podem ser redimensionados. Esperar ao lado de outras pessoas, quase todas desconhecidas, nos ensina a observar a humanidade em cada pele amarelada, cada rosto cheio de vincos, cada lenço que esconde nova perspectiva. Sem queixas, sem choradeiras; pelo menos, naquele corredor.

Esperar pelos efeitos da quimioterapia é saber que teremos novos testes de paciência, principalmente para Beth, às vezes antes do terceiro dia, como prometem as cartilhas médicas.

sexta-feira, 18 de setembro de 2015

Deuses e homens (Conversas com Beth #16)



Marcus Vinicius Batista

Conheci muitos médicos. Sou amigo de muitos deles. De jogar futebol uma vez por semana, tomar uma cerveja e fazer a resenha da partida. De perceber a humanidade e a responsabilidade a cada dúvida dentro de um consultório. E tive o desprazer de conviver com outros. Daqueles que arrotam falsa sabedoria pelos jalecos. Daqueles que não tocam a mão em pacientes porque podem descer ao nível da mortalidade.

Perdoe-me se pareço simplista, mas se trata de uma divisão pessoal, individual e intransferível. Convivo com médicos quase todos os dias da semana, por conta da doença da minha mulher, além dos acompanhamentos regulares por causa da minha amiga de anos, a diabetes. Assim, entendo que médicos podem ser divididos em duas categorias: os que sofrem pela humanidade que carregam consigo e os que sofrem pelo complexo de Deus que julgam ter se transformado.

Os deuses de consultório são perceptíveis assim que a porta se fecha. Eles olham de cima para baixo, mantém uma distância segura como se todos os pacientes tivessem ebola em ebulição. Mascaram a ignorância nos remédios amostra grátis, que garantem uns passeios de vez em quando, nos exames, dos quais são dependentes, e no palavrório com sufixo químico para afastar qualquer chance de questionamento.

Deuses, no fundo, são sujeitos autoritários. Sentem prazer em decidir seu futuro numa canetada de letra incompreensível. Vi, certa vez, uma médica plantonista não olhar para minha filha, nitidamente doente, e dar o veredicto: virose. A boca cheia para a palavra que encobre a expressão de “não faço a menor ideia do que você tem”.

Em outra situação, minha mulher, Beth, estava com a pressão altíssima – chegou a 23 por 12 – por conta de uma crise de lúpus. O médico, que teve que ser auxiliado por um enfermeiro para pedir a pressão, a classificou como hipertensa. Ignorou a informação de que ela tinha lúpus diagnosticada há 15 anos e não quis saber das orientações da reumatologista que a acompanha há mais de uma década.

Os deuses são filhos do tecnicismo, pregam a desumanização das relações e rezam de joelhos, como servos, à tecnologia dogmática da indústria farmacêutica. Os deuses incorporam doutor a seus próprios nomes.

Prefiro lidar com os médicos que colocam o homem à frente do nome gravado no bolso do jaleco. Essas pessoas compreendem, com relativa clareza, que o conhecimento médico-científico deve servir a quem não está ali para uma visita de cortesia ou uma bajulação gratuita. Médicos sabem que, mais do que o vocabulário de hospital, é preciso falar a língua de quem sofre.

Médicos não existem para curar. Existem para aliviar o sofrimento. Deuses acreditam que só vivem para curar e imagino o quanto devem provocar risada no inevitável, o quanto sofrem com as ilusórias cláusulas de suas doutrinas.

Recentemente, os 20 dias de UTI da minha mulher nos levaram a conhecer mais alguns médicos-humanos. Bruno Vieira é um deles. Ele se armou de uma espada, ao lado dos outros mosqueteiros, Philipe Saccab e Felipe Gannoum e de Rosina del Maso, a Guinevére desta história, para cutucar e ferir a matilha que ameaçava destroçar Beth. Eles ainda enfrentam os lobos (a lúpus), sempre preocupados, disponíveis e sorridentes quando a ocasião permite.

Médicos como eles conversam conosco, pacientes e familiares, na horizontal. Lidam com o conhecimento médico como elemento de solidariedade, sem ar professoral ou pregação do alto da montanha. Dividem dúvidas, procuram outros profissionais e, acima de tudo, sabem dizer “não sei”.

Diferente de muitos na era dos tagarelas, esses médicos costumam ter “escutatória”, como dizia Rubem Alves. Ser médico é ir além da doença, dos sintomas, das taxas, das estatísticas laboratoriais. Ser médico é incorporar, em tudo isso, a vida do paciente, sua rotina, sua história, inclusive seu nome. E olha que estes quatro profissionais passam seus dias entre ambulatório e UTI, aquele endereço em que a morte é o porteiro, mas nem sempre quem dá a última palavra. Agradeço a eles pelo que fizeram e fazem sem cobrar ingresso de entrada no reino de Deus.

Ao contrário dos homens, os deuses precisam, para descerem à terra dos mortais, daquilo que lhes falta: o humano, que ironicamente só se manifesta quando o vemos em outro da mesma espécie.


segunda-feira, 14 de setembro de 2015

Para Zuzu Angel, um som ao saxofone


Museu de Arte de São Paulo - MASP

Maria Rita Paschalis

Há três meses eu, mais cinco professores e dois monitores fomos a São Paulo participar de um projeto cultural. Levamos 92 alunos (a maioria do Ensino Médio) para conhecerem o MASP e o Itaú Cultural, onde havia uma exposição sobre a estilista Zuzu Angel.

Nossa maior preocupação era que nada acontecesse com os alunos até chegarmos ao nosso destino, na avenida Paulista. Era um dia nublado com cara de chuva. A maioria dos alunos não conhecia aquela parte de São Paulo. Eles estavam deslumbrados com o tamanho da avenida mais famosa do Brasil, com muitos bancos, consulados, comércios em geral, o lugar escolhido para manifestações e shows também.

Antes de chegarmos na estação Brigadeiro, passamos em frente a um banco e percebi uma senhora que saia de uma agência bancária. Olhava incrédula e assustada a multidão que percorria a calçada, pensando ser um arrastão e segurava fortemente a bolsa com medo de um assalto.

Ela ficou na porta do banco e dali não saiu até que todos nós tivéssemos passado. Na hora, começamos a rir da situação, mas nos pusemos no lugar dela e creio que nós também ficaríamos receosos por não saber do que se tratava.

Acho prudente o uso de uniforme que identifica quem somos e de onde viemos. Ninguém tinha uma camiseta da escola e nem nós um crachá que identificasse que éramos professores e alunos.

Ao chegarmos na estação Brigadeiro, havia um rapaz muito alinhado trajando um terno e tocando um saxofone. Todos os alunos pararam, maravilhados com o show. Era um mundo bastante novo para muitos deles.

Um grupo ficou no prédio do Itaú Cultural e eu, com o outro grupo, e professores seguimos caminhando até o MASP. Lá, eles conheceram o vão livre, onde havia um escritor desconhecido tentando vender suas obras, falando sobre sua trajetória como escritor, até que liberaram a nossa entrada.

Para quem gosta de arte como eu, foi um espetáculo à parte. Obras que encheram nossos olhos de deslumbramento. Era interessante ouvir os comentários e as críticas dos alunos sobre as obras, aproveitando o que tinham aprendido em Arte e História na escola.

Quando saímos, eu falei a eles sobre o parque Trianon que fica em frente ao museu, um dos parques que visitei muito na minha infância.

Ocupação Zuzu Angel, no Itaú Cultural
Voltamos a caminhar para visitarmos a exposição de Zuzu Angel. Primeiro, conhecemos algumas confecções e tecidos usados por ela, máquinas de costura antiga, botões e aviamentos. Os alunos receberam orientação das monitoras sobre o material que Zuzu utilizou para confeccionar suas obras e também um retalho onde eles puderam deixar uma mensagem a ela e colocar em um painel apropriado juntamente com seus nomes.

Depois descemos para outra sala, onde algumas artistas vestidas como na época e com modelos de Zuzu, interpretavam as cartas que ela escreveu ao filho desaparecido durante a ditadura militar. Ao lado, havia um acervo com as cartas originais do filho e de Zuzu, e também relatos de toda a luta que ela viveu para tentar encontrar o filho, e depois querer resgatar o corpo dele para, ao menos como mãe, poder enterrá-lo.

Todos nós pudemos aprender que a vida muitas vezes nos reserva uma imensa lição e tenho certeza que a experiência ficará marcada por muito tempo na lembrança dos nossos alunos.

domingo, 13 de setembro de 2015

Silencioso domínio



Betty Watanabe

Ele chega... Silencioso, ou pela compra, de troca ou raramente como presente. É a febre do momento, você não precisa falar, nem escrever muito, pois ele faz tudo. Precisa sim, ter habilidades nos dedos.

Ele acorda você e com você, é o seu primeiro bom dia, passa o dia inteiro com você e ainda dorme ao seu lado, quando lhe faz companhia por altas horas da madrugada. É incrível, como para muitos, é imprescindível. Acompanha as pessoas em todos os lugares e momentos.

Acredito que você, como eu, já entrou numa loja e os vendedores estavam distraídos com eles em suas mãos. Nas ruas caminhando ou até na praia, é raro você ver alguém que não o tem nas mãos. A todo momento, selfie de tudo...

E quando ele toca, em lugares silenciosos ou públicos, e o indivíduo começa a falar alto e não se toca? Aliás, o que falar das variedades dos toques, um mais sensacionalista do que o outro?

Já presenciei em palestra a pessoa atendê-lo e sem nenhum constrangimento responder ao chamado, mesmo sendo fulminado pelos olhares presentes. E os acidentes que causa, quando motoristas se distraem em atendê-los, sem falar das muitas mortes.

São muitas as estórias e causos, sobre o tal. Oh!... O meu está tocando, com licença, tenho que atender meu celular.

sexta-feira, 11 de setembro de 2015

Putz, cresci ... e agora?



Juliana Chacon

Durante a adolescência, talvez um dos nossos maiores sonhos seja “virar adulto”. Poder ter a liberdade de fazer o que bem entendemos, sem precisar da permissão de ninguém, mas nunca chegamos a pensar nos lados ruins que essa liberdade traz.

Na virada do ano de 2014, eu já sabia que aquele seria mesmo um ano diferente, tinha completado 18 anos, estava tirando minha carta e ingressaria na faculdade. Tudo parecia estar ótimo até eu me dar conta de todas as responsabilidades que viriam para mim, a começar pela própria faculdade.

Lá, eu era dona de mim, não precisa dar satisfações para ninguém. Se ficasse na aula ou não, se estava prestando atenção, ninguém se importa com isso. Os professores só querem que você entregue tudo na data e tire uma nota satisfatória. Então, um aviso no inicio do ano “dia tal, vai ter trabalho” valia para o semestre inteiro. E como tem coisa viu, perdi as contas de quantas atividades eu fiz.

Fora isso, já assinava tudo com meu nome; então, qualquer problema eu seria responsabilizada. E aí comecei a perceber que independência não é só sobre ir ou não a algum lugar, mas resolver todas as coisas sozinha.

Percebi Isso no dia que faria um exame de sangue e chamei minha mãe para me acompanhar. Ela me respondeu de uma forma tão natural: “Eu preciso ir?” Deu um medo muito grande quando pensei nisso: “Putz, agora eu cresci; logo, logo, vou ter um emprego e ficar cada vez mais autônoma, sem precisar que ninguém tome atitudes por mim”.

Claro que é bom poder ir em shows sem precisar me preocupar se vou ter permissão para isso e dirigir é uma coisa muito legal, mas fiquei lembrando de quando era pequena e meus pais me ajudavam com as lições de casa e falavam para o médico o que eu estava sentindo, quando arrumavam minha comida e o lanche da escola, e a única coisa que eu tinha que me preocupar era se chegaria a tempo de assistir ao desenho.

Eu sei que ainda não tenho nem metade das preocupações que a maioria das pessoas tem, mas é engraçado pensar que talvez, só por um momento, seria bom voltar para o tempo da escola, cinema, clube e televisão.

Obs.: Texto que nasceu do curso "Como escrever crônicas", ministrado na Universidade Católica de Santos (UNISANTOS). 

O grande baile de máscaras



Armando Cândido

Parece que nos últimos tempos os nossos políticos têm confundido Santos com Veneza. Talvez seja por culpa dos nossos canais, mas convenhamos, aqui não precisamos andar de gôndola. Quando não chove. O fato é que eles agem como se estivessem em um grande baile de máscaras ao redor de uma "fogueira das vaidades"! As cenas que têm sido protagonizadas pelos excelentíssimos seriam cômicas se não fosse trágicas.

Os políticos santistas de hoje podem, definitivamente, ser comparados às grandes personalidades do passado como Judas Iscariotes, Nero, Napoleão Bonaparte, Adolf Hitler e por aí vai. Mas triste mesmo é vermos cada vez menos Mahatmas Gandhi, Josés Bonifácio e Saturninos de Brito. Esses sim estão, a cada dia, mais raros. Verdadeiros espécimes em extinção.

E isso não é tudo: o pior que nossos políticos, nos quais já perdemos a esperança, é parte de nosso povo que me remete a trilogia vencedora de 11 Oscars “O Senhor dos Anéis”, e mais parece um exército de orcs ajoelhados diante do grande olho de Sauron. Seguem cegamente suas ordens travestidas de notícia e se indignam apenas com aquilo que o grande irmão seleciona.

Se for verdade o ditado que diz: "em terra de cego, quem tem um olho é rei", queria eu ser o mais simples dos plebeus apenas para não enxergar tanto descaso, tanto desmando. Essa fogueira das vaidades me queima os olhos mais do que sol do meio dia. Mais do que a visão, me tira a esperança, mina minhas forças, me deixando prostrado, sem reação.

Parece que não quero mais ver isso. Se já não vejo mais motivos para lutar. Talvez deva pegar pelas mãos minha afro-francesinha e refugiar-me em Veneza, pois lá, ao menos, os passeios de gôndola são muito mais românticos.

Obs.: Texto que nasceu no curso de Escrita Criativa, ministrado no Espaço Certo, em Santos. 

sexta-feira, 4 de setembro de 2015

Jamaica, seu Kiko, a Kombi e a galinha




A esquina da rua Vieira de Morais com a avenida Santo Amaro, em São Paulo, é testemunha das idas e vindas de pedestres, ciclistas, motos, ônibus, carros e caminhões. Ela também é o endereço de Jamaica, que impunha respeito – quando não, medo - a quem cruzava seu caminho, sensações até justificadas pelo tamanho e porte dele.

O que a pressa de quem passava por ali não deixava ver eram os olhos grandes e redondos do Jamaica que, junto com o rabo balançando à velocidade da luz, queria mesmo era ganhar carinho.

A gente nunca esquece a primeira vez com o Jamaica.

Eu, pelo menos, não vou esquecer. A esquina do endereço de Jamaica era minha passagem diária para o trabalho e, todos os dias, eu sorria para ele, com vontade de chegar mais perto. Depois de alguns dias e de me investir de coragem, fiz minha primeira parada diante dele. Fui abraçada pelas suas patas fortes depois que ele deu um pulo, ficou de pé e, nessa posição, alcançou quase a minha altura. Levantei as mãos e me rendi às lambidas. Seu Kiko ficou ali, intercalando risadas e broncas no Jamaica.

Seu Kiko e Jamaica são amigos desde que o segundo era um filhote e o primeiro ainda morava embaixo de uma lona, montada de acordo com a conveniência – ou inconveniência – em ruas do Brooklin. Depois de três anos, seu Kiko mudou de casa. Hoje, mora em uma velha Kombi, comprada depois de anos de economia e com a ajuda de uma amiga. Dentro, o espaço é compartilhado por uma cama de solteiro, roupas e outros objetos.

A galinha chegou algumas semanas depois de eu ter conhecido os dois. Seu Kiko contou que um homem, que passava pela esquina com a bichinha nos braços, perguntou se ele não queria ficar com ela. Do lugar que vinha e para aonde ia, seu Kiko não soube me responder, mas disse ao rapaz que ficava com a galinha.

Chiquita, a quem questionasse o que ele faria com ela, daria que um bom prato com quiabo. Mas era brincadeira do homem de coração mole que vivia, todos os dias, em condições duras junto com o companheiro.

Os três se deram bem. Quer dizer, mais ou menos. Jamaica não deixava Chiquita chegar perto da ração e mostrava isso com alguns pulos na direção dela. Chiquita, incansável na busca por comida – condição da sua natureza de galinha – subia no colo do seu Kiko quando ele estava comendo alguma coisa. A familiaridade foi crescendo, e ela já fazia isso mesmo sem que seu Kiko tivesse algum petisco na mão. Fazia porque queria, mesmo.

A Kombi, seu Kiko, Chiquita e Jamaica tiveram que mudar de endereço por conta de uma notificação da subprefeitura de Santo Amaro, amparada na legislação que proíbe o estacionamento permanente de carros em vias públicas. Com a ajuda de um guincho – a Kombi não funciona, serve apenas de casa – e de amigos, o veículo e seus moradores foram para uma outra rua, no mesmo bairro.

Tive que mudar meu percurso de ida ao trabalho para continuar visitando meus amigos. Em uma daquelas manhãs, vi a Chiquita caída enquanto me aproximava da Kombi. O filete de sangue que escorria próximo do seu corpo comprovava que ela estava mesmo morta. Seu Kiko explicou que, bem provavelmente, ela tinha morrido porque o papo tinha estourado.

Na última vez que passei por lá, seu Kiko e Jamaica estavam bem e lidando com as coisas do dia-a-dia: reclamações dos vizinhos que não gostam da Kombi e dos seus moradores, cumprimentos de quem passa por ali todo dia e as saídas em busca de dinheiro. Mais uma história da cidade que nunca dorme.

Obs.: Texto que nasceu do curso de Escrita Criativa, ministrado no Espaço Certo, em Santos.

quinta-feira, 3 de setembro de 2015

Eterno



Matheus Doncev

Existe algo diferente no sentimento amor. Por que tão bom? Por que tão bonito? É algo que precisa ser sentido de forma sincera, na qual você realmente se entrega por aquele que leva a honra de ser amado por você. Não importa quem, só importa como.

Acredito no “para sempre”. O verdadeiro amor te faz mudar a forma de agir, pensar, viver porque o amor é uma adaptação à vida. Você não muda sua essência, apenas aprimora. Ou deveria, pois aqui fica outra dúvida: por que tão doloroso?

O amor sabe ser controverso. Horas ele te ensina que nada dura pra sempre e que somos humanos. Corações podem mudar. Sim, podem. Há frações de segundos que te provam que o amor não é perfeito e que sua companheira (ou companheiro) não é a pessoa que talvez te dê o “para sempre”, pois ela te completou por momento. Seja um momento de mês, anos, décadas. Ué, claro que pode.

Somos humanos. Agimos de formas diferentes, pensamos de formas diferentes, com gostos diferentes e, a cada ano que passa, agimos diferentes porque estamos em constantes mudanças com nós mesmos. E se você achar sua companheira com quem quer se casar, construir uma família e viver o “para sempre” ... Adapte-se! Sinta, mude, pense, prove e DEMONSTRE! Faça que, mesmo que por venturas não seja eterno, seja para sempre enquanto dure.

Com amor, Matheus

quarta-feira, 2 de setembro de 2015

A loira da faculdade





Caíque Stiva*

Conheci uma loira na faculdade. Ela foi amarga comigo no começo, mas com o tempo passei a gostar dela. Esse gosto passou a crescer a cada dia, até que eu percebi que era amor.

Antes mesmo de ingressar no ensino superior, alguns amigos que já a conheciam me alertavam sobre sua capacidade de seduzir um homem. Chegavam a dizer coisas do tipo:

‘’É amor à primeira vista.’’ ou até mesmo ‘’Ela faz o seu tipo. ’’

Achei um exagero e, a princípio, não dei bola, mas aquilo sempre me vinha em mente. Eu pensava se um dia iria realmente gostar dela, em como seria minha vida com ela presente em quase todos os momentos e o que minha família pensaria dessa relação.

Ainda em tempos de escola, comecei a pesquisar sobre ela, ou como costumamos dizer hoje em dia, ‘’estalqueá-la’’. Descobri muitas coisas sobre sua vida com ajuda da internet e me dei conta de que a loira tinha um ‘’tipo’’ bem comum. Seu corpo cheio de curvas e seu suor chamava (e ainda chama) muito a atenção dos rapazes que frequentam a faculdade.

Em fevereiro desse ano, chegou o primeiro dia de aula. Era o dia do trote e eu estava nervoso, pois sabia que naquele dia voltaria mais cedo pra casa e consequentemente estaria careca e fedendo, ou seja, sem chances de conhecê-la.

O trote em si foi até que leve. Cortaram meu cabelo, jogaram todos os tipos de comida na minha cabeça – e no corpo todo também –, mas eu estava contente com a conquista de ter entrado na tão temida faculdade. Minha única preocupação era tomar o ônibus naquele estado, mas foi tranquilo, pois eu não era o único sujo no lotado 934EX das 23 horas.

Mas, se eu voltaria mais cedo, por que eu peguei o ônibus às 23 horas?

Quis o destino que, naquele dia 2 de fevereiro de 2015, eu finalmente conhecesse a famosa loira da faculdade, que não saia dos meus pensamentos há meses.

Nosso primeiro contato foi através de um veterano do meu curso que tinha uma grande afinidade com ela. Ele me chamou logo após o trote e disse:

‘’Bicho, tem alguém que eu quero que você conheça.‘’

Entrei em estado de choque, pois eu não queria que ela me visse naquela situação, e logo tentei recusar:

‘’Não, cara, olha meu estado. Não dá para ir até lá assim.‘’

Após alguns minutos de conversa, ele finalmente me convenceu. O encontro foi no Bico Doce, o barzinho que fica bem ao lado da faculdade, lugar onde me tornei freguês assíduo. Porém, só o frequento após as aulas, porque a faculdade é cara e não dá para ficar faltando e jogando dinheiro fora.

Chegando ao bar, lá estava ela, do jeitinho que me havia sido descrita. Loira, corpo curvilíneo e suado.

Estendi minha suja e fedorenta mão - que nem o sabonete do banheiro da universidade foi capaz de limpar -, agarrei-a e levei até minha boca. Que CERVEJA deliciosa. Foi com certeza amor à primeira vista. O primeiro copo de cerveja, logo após um dia cheio de nervosismo, foi apaixonante.

Não foi a primeira vez que bebi cerveja na vida, mas foi com certeza a mais especial, era a tão falada cerveja da faculdade, e melhor ainda porque foi de graça. Meu amigo veterano foi quem pagou aquela garrafa.

Começava ali uma história de amor que já dura há meses e, com moderação, vai durar uma vida.


Obs.: Texto que nasceu do curso "Como escrever crônicas", ministrado na Universidade Católica de Santos.