quinta-feira, 4 de setembro de 2014

O dia em que Luzia enxergou Woody



Beth Soares

Ver nunca foi motivo de reflexão para Luzia. Aliás, Luzia não era mesmo muito afeita à reflexão. Era daquelas mulheres do fazer, do agir, muito mais do que das elucubrações filosóficas, o que não significava, claro, menos inteligência.

Luzia via longe. Mas via longe no sentido figurado, o que representava uma poesia sem nenhuma graciosidade, sem aquele tom natural e inspirador, comum a quase toda metáfora. Luzia, havia algum tempo, enxergava menos a luz. E nem se dava conta disso.

Até que veio aquele sábado fatídico. Diazinho preguiçoso e solitário. Uma solidão nascida justamente da preguiça, que não permitiu sequer chamar Nice, a vizinha e amiga de infância que desde que decidiu se embrenhar pelos livros e passou quatro anos na capital estudando arte, adorava um tal de Woody Allen. Onde já se viu gostar de um cara com um nome estranho desses? Luzia decidiu ir sem Nice ao cinema, porque estava mesmo é com preguiça de ouvir tietagem.

E lá foi ela. Tomou o ônibus na praça. Sentou no último assento disponível e se sentiu sortuda por isso. Desceu trinta minutos depois. Apertou embaixo do braço a bolsa comprada do camelô, que era igualzinha à da moça da novela, esticou a blusa de linha e arrancou com os dentes o fio puxado pelo anel da mulher supermaquiada que estava parada na porta do ônibus, atrapalhando a descida dela e de mais uns três. Quase passam do ponto. Andou depressa o meio quarteirão que a separava do homem de nome esquisito. Fez cara de dondoca, jogou o cabelo para trás e olhou com desprezo para os baldes de pipoca que alguns casais faziam questão de exibir. Para ela não passavam de um exagero fedido.

Depois de entregar o ingresso para o menino de bigodinho ralo vestido no nada discreto uniforme do cinema, que parecia ser pelo menos uns dois números maior que ele, Luzia escolheu o melhor lugar, no meio da sala.

Ao primeiro sinal de diálogo, percebeu que as letras da legenda dançavam na tela, num borrado amarelo igual ao seu sorriso, quando todos ao lado, à frente e atrás riam como loucos. Desequilibrados, para Luzia. Não tinha graça não ver as letras. Forçou a vista o máximo que pôde. Fechou as pálpebras um pouco, como se assim pudesse aumentar o alcance da visão, e projetou a cabeça para frente, até ficar corcunda. Não se importava com sua autoimagem àquela altura. Queria ler a legenda. Tudo em vão.

Será que foi praga da Nice? Será que ela viu Luzia indo para o ponto de ônibus e deduziu o pecado? Não, não foi isso não. Luzia, escolada, havia se certificado da inexistência de testemunhas para seu crime perfeito. Era mesmo coisa pior. Miopia. Recusou-se a acompanhar as imagens do filme e correr o imenso risco de não entender nada, ou pior, entender pouco e estragar tudo. Estava decidida: não iria olhar para a tela

Desolada e sem querer se resignar com o prejuízo da compra do ingresso de final de semana, sempre mais caro, decidiu prestar atenção em alguns vizinhos momentâneos, os mais próximos, porque sua necessidade de graus só permitia que distinguisse a fisionomia de uns poucos. E eram ridículos. Riam como se houvessem saído de casa dispostos a se refestelar na gargalhada a qualquer custo, ainda que não achassem a menor graça. Sacudiam-se, abrindo a boca cheia de dentes, enquanto jogavam a cabeça para trás. Mesmo ela, míope, naquele escuro, podia jurar que conseguia ver até as obturações. Que triste! Por um segundo, ponderou que não ter dentes bons é pior que não ter olhos bons. Deu graças a Deus por nunca ter precisado ir ao dentista mais do que meia dúzia de vezes na vida. Antes míope que banguela. 


Na verdade, uma Luzia míope era uma piada pronta. Que ironia: justo ela, que a mãe havia obrigado a se tornar devota da santa protetora da visão, que lhe emprestou o nome, era míope. Protetora da visão de quem? Dela é que não era.

Pensou nos olhos do tal de Woody Allen. Ainda bem que estavam protegidos daquela cena dantesca: as bocas abertas rindo espalhafatosamente. Aqueles pontos pretos que ela jurava ter visto nos dentes daquelas bocas arreganhadas eram um terror. E para piorar, aquele povo todo ria de uma ópera.

Onde já se viu? Não viu, não é, Luzia? Pensou consigo, lembrando de novo da ironia. Luzia achou graça. Riu do seu crime perfeito e do quanto ele era desnecessário. Riu da sua microfelicidade por causa de um último assento vago no ônibus. Riu da mulher supermaquiada e do anel monstruoso, que enroscou na sua blusa de linha. Riu das bolsas de camelô e mais ainda das originais, tão parecidas e tão mais caras. Riu do exagero dos baldes de pipoca e do cheiro ruim que exalavam. 


Riu do mocinho do cinema que achava que aquele bigodinho fajuto o faria aparentar ter mais idade, e do seu uniforme que parecia emprestado de algum defunto maior. Riu do borrão amarelo na tela. Das obturações que já não tinha mais tanta certeza de ter realmente visto e das gargalhadas que as expunham. Riu de si mesma. E enfim gargalhou, junto com a multidão. 

Finalmente entendia Nice. Dividiria com a amiga, a partir daquele instante, a tietagem por Woody Allen.

Obs.: Texto publicado, originalmente, no blog Poesia Cotidiana, em 27 de agosto de 2012. 

terça-feira, 2 de setembro de 2014

Transgressão em gotas


Beth Soares

A manhã era clara. O que não significa que estava ensolarada. Não era este tipo de luz que se podia ver. Era um outro, mais difícil de enxergar e, por isso mesmo, mais especial. 

O velho homem de olhos azuis observava, do alto de seus quase dois metros de cultura e poesia, a menina de olhos de mel. Olhos tristes. Por um momento, no entanto, eles eram só doçura. Não havia lugar para lembranças ruins. 

O pacto entre os dois era sempre respeitado: um dia de alegria, custasse o que custasse. E, por este momento, ela esperava longos dias que se arrastavam pelo chão de seus pensamentos voadores. A sorte é que as almas moldadas na arte sempre se reconhecem. E, ao se encontrarem, podem voltar ao verdadeiro lar por instantes preciosos, ainda que menos longos do que gostariam.

Sua mãe a deixara naquela casa grande com cheiro de avós, derramando sobre ela milhares de recomendações para que evitasse contato com tudo que pudesse ser arriscado. Pobre mãe, parecia não perceber que toda esta precaução era homicida da alegria. Mas na cabeça da menina, arriscado era perder a oportunidade de mergulhar no inesperado. E, para sua felicidade, o avô pensava o mesmo.

E o mergulho incluía desenhos intermináveis e histórias maravilhosas sobre uma tal de França, onde aqueles olhos azuis se abriram pela primeira vez. Fascinada, a menina se sentia em casa, em meio àquela atmosfera que exalava sutileza. O clima de poesia chegou ao ápice quando algumas gotas molharam os vidros da janela. Ambos se entreolharam e compreenderam. A chuva era a contravenção que precisavam. Correram ao encontro dela, que caía gentilmente, como que para confirmar o que dizia o velho francês: ninguém pode passar pela vida sem brincar sob a chuva.

Naquele instante, a menina dos olhos de mel conheceu a felicidade plena. A necessidade de proteger esse segredo das excessivas preocupações da mãe era o condimento que tornava a transgressão ainda mais saborosa. Brincou, encharcou-se, sujou-se, sorriu, gargalhou. Mergulhou naquelas gotas de ventura como se cada uma fosse a única, num deserto feito de nãos. Agora, vivia a profundidade da alegria num outro tipo de negação: o não-limite.

A menina, hoje mulher, viaja nesta cena do passado, talvez a mais bela de toda sua história, enquanto a chuva faz suas lembranças se redesenharem como gravura no presente, tornando-as quase tangíveis. Os olhos se enchem de chuva. Uma chuva doce. Mistura de saudade e de certeza que a alma do velho francês, em algum lugar lá de cima, está derramando felicidade líquida para que ela não construa muros que ceguem os novos e pequeninos olhos de mel, que estão se formando neste instante, pela primeira vez, dentro dela.

Obs.: Texto publicado, originalmente, no blog Poesia Cotidiana, em 28 de dezembro de 2011. 

O dono do elevador

Marcus Vinicius Batista

Ele me encontrava sempre no mesmo dia e horário, ao meio-dia de segunda-feira. Só faltava o relógio de bolso, daqueles de controlador de estação ferroviária. Em dias de frio, ele me dava a sensação de que saíra de um filme antigo por causa das roupas e dos óculos de lentes grossas. Só faltava o apito que avisaria a chegada do trem. Para mim, aquele que saia da Estação Sorocabana, na avenida Ana Costa, e me levaria ao Vale do Ribeira. 

Sala que reúne imagens e objetos antigos da Unisanta
Ao meio-dia, meio-dia e alguma coisa, Seu Ricardo colocava a cabeça na porta da sala M-320B, na Universidade Santa Cecília, em Santos. Seu Ricardo – na verdade, Antônio Ricardo – era prevenido. Olhava para dentro da sala antes de trancá-la. Ao perceber que eu estava dando aula, balançava a cabeça positivamente e me pedia desculpas. A conversa viria mais tarde, em outros dias da semana, no habitat principal dele na universidade.

Um assunto nos unia e sustentava o diálogo de 20, 30 segundos por encontro. A pauta era única, inquestionável por ambas as partes. Eu entrava, o cumprimentava, indicava o andar e perguntava sobre o Santos. O futebol do time preferido dele era a única razão para fazê-lo falar e tirar os olhos do noticiário de esportes do jornal.

Seu Ricardo tinha problemas de audição. Eu tinha que elevar o tom de voz para me aproximar dele. A resposta brotava nos mesmos decibéis. O diálogo virava, então, debate público, que prendia o olhar de todas as testemunhas, apaixonadas ou não pelo esporte, no elevador. Gente que, muitas vezes, desconhecia o nome do velhinho que subia e descia dezenas de vezes numa manhã. Gente, eventualmente, sem paciência para repetir o número do andar, quanto mais para recitar um bom dia ou obrigado.

Seu Ricardo seguia impassível. Como todo aquele que pouco ouve, ele se tornara seletivo à arrogância e ao palavrório inútil. O silêncio permanecia essencial quando eu o encontrava em um terceiro ambiente da universidade. A sala dos professores, um endereço de transição ou de relativo isolamento, era o refeitório dele.

Jamais o incomodei ali. Apenas observava a fragilidade do senhor magro, sentado de costas para a porta, a devorar uma marmita que trouxera de casa. Naquele instante, futebol seria heresia. No máximo, o tudo bem que recebia a contrapartida mecânica de quem se entregava à liturgia alimentar.

Todo ano, Seu Ricardo participava de uma descoberta. Era “achado” por um dos meus alunos de Jornalismo, que percebia nele uma história a ser contada. Pena que uma história quase sempre limitada às paredes de um elevador, a um homem e sua função profissional. “Professor, pensei em fazer uma matéria sobre o tiozinho do elevador. O que você acha?” “Ah, o Seu Ricardo?” “Quem?”, ouvi a pergunta em uma das ocasiões.

Na última semana, senti falta dele. A insanidade da rotina diária nos faz compreender, sempre com atraso, que os ausentes não são patrimônio do cenário, mas a memória viva que deixa cicatrizes nos espaços após 30 anos de trabalho.

Entrei no elevador e não havia com quem conversar sobre a derrota do Santos. O banco preto estava lá, como sempre, em frente ao painel de comandos. Não percebi que a aula estava na metade, ao meio-dia, porque não houve chacoalhar do molho de chaves ou um olhar surpreso pelo vidro da sala.

Na sala dos professores, ninguém almoçava. Dois funcionários conversavam sobre trivialidades quando um professor entrou e disse sem rodeios: “Seu Ricardo morreu mesmo?”

O câncer o levou aos 86 anos. Entre o diagnóstico e o falecimento, uma semana. Seu Ricardo trabalhou até o final da vida, mesmo depois de se aposentar na Codesp. Por milhares de vezes, foi a ponte entre a pressa, a ansiedade, a euforia e a irritação que desaguariam em salas de aula. Testemunha dentro da caixa e seus botões, era ele quem decidia o número de paradas até o destino provisório de um dia.