segunda-feira, 4 de agosto de 2014

Uma dose de realidade

Beth Soares

Hoje tive um pesadelo. Depois do alívio de perceber que tudo não passou de um sonho, concluí que muito melhor é acordar.

Já passei horas da minha vida arquitetando na mente uma casa linda, perto do mar, com a pessoa que amo sempre presente... Então o relógio desperta! São sete horas da manhã e preciso ir para o banho, tomar café, se sobrar tempo, pegar o ônibus – quase sempre lotado - e trabalhar por horas. E, entre os toques estridentes de telefone e as súplicas por escuta e atenção, sempre encontro tempo para deixar minha imaginação me arrancar dali. 


Fazemos isso o tempo todo. Costumamos achar que o sonho é sempre melhor que a realidade, o que é uma injustiça. Pertencer ao mundo real é muito mais interessante que esperar eternamente pela vida feliz e perfeita em um mundo remoto, cheio de “e se”, que talvez nunca seja habitado. Para mim, esperar a hora certa de um relógio imaginário, que teima em contar as horas de maneira incompreensível, é uma tortura.

Ouvir um amontoado de fonemas dizendo que posso contar com eles, nunca me satisfez. Prefiro uma mão para poder segurar quando precisar de ajuda. Uma mão real, com atitudes que falam mais do que qualquer outra coisa. As palavras são importantes, mas não surtem o efeito esperado quando se está no meio da noite tentando conter a própria solidão. Só a concretude aplaca a solidão. Não falo da presença física, mas da alma, da vontade, da ação cotidiana que se repete, repete, repete, até virar hábito e, quem sabe, mudar o medo de realizar.

Ser objeto de sonho e de desejo é relativamente fácil. Não há esforço contínuo. A veracidade por trás da atuação é dispensável. O problema é que para ser ou sustentar uma miragem é preciso vestir a capa da superficialidade.

Ser concreto é um trabalho difícil. Precisa de tempo. De atitude. Requer profundidade. Só com muita coragem se abre mão do holograma em nome do tangível. Só com muito amor à realidade é possível arriscar a própria imagem e assumir uma posição. 


Apesar de todas as belas cenas que meu imaginário é capaz de criar, de todas as vantagens, sensações, prazeres e fantasias do mundo ilusório, prefiro os lugares menos belos, mas reais, o mundo imperfeito, mas que me oportuniza concretizar planos, as pessoas com seus defeitos, mas autênticas, a mão frágil, mas palpável.

Amo sonhar. Mas prefiro realizar.

Obs.: Texto publicado, originalmente, no blog Poesia Cotidiana, em 22 de julho de 2011.

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