segunda-feira, 28 de julho de 2014

O carinhoso


Beth Soares

Cheguei sem saber quem ele era. Sabia apenas o nome e a idade. Fui recebida por Maria, sua irmã que, como ele, tinha os cabelos tingidos pelo tempo. Apresentei-me com um sorriso. Sem qualquer expressão, o olhar de José me atravessou, como se eu fosse uma alma penada, invadindo seu espaço sem lhe perguntar se era bem-vinda. 

Pintura de Paul Tiberio

Precipitadamente, julguei aquela atitude como desprezo. Alguns minutos depois, após breve conversa com Maria, percebi que havia me enganado. “Ele vive no seu próprio mundo”, ela explicou num tom de profundo pesar. Ali fiquei sabendo que José tinha breves momentos de lucidez, ao longo das demoradas horas de reclusão em seu universo interior, que preenchiam seu dia.

Segundo ela, esses rápidos instantes lhe emprestavam um brilho diferente no olhar. O brilho que só a sabedoria dos anos de vivências nos caminhos do mundo pode nos dar. “Nestes momentos, tenho meu irmão de volta. Pena que duram somente alguns segundos”, lamentou com um suspiro.

Fiquei pensando como deve ser profunda a dor de perder um ente querido que permanece vivo. Olhar para ele e saber que não se encontra mais ali, naquele corpo, ocupando aquele espaço. Respira, come, dorme, mas não exala nada do que era no passado. Pelo menos não com a freqüência que mataria as saudades dos que o amam.

Olhei novamente para ele ali, na minha frente, sentado em sua cadeira de balanço, vestido de maneira simples. Tentei imaginar a dor de ter um corpo que não suporta mais a alma, um cérebro que não traduz mais os pensamentos e os transforma em palavras. Mas quando tentava imaginar como seria ter um coração que bate, mas não é mais passível de sentir, por algum motivo que só a vida, com seus milagres maravilhosos, poderia explicar, fui surpreendida com um som que atravessou meus pensamentos e os calou.

Olhando profundamente em meus olhos, como se lesse minha mente e quisesse responder meu questionamento silencioso, ele deixou sair de seus lábios trêmulos uma canção que me fez abandonar a tristeza que aqueles pensamentos recentes haviam me trazido: “Meu coração, não sei por quê / Bate feliz quando te vê...”



Cantou a música inteira, sem perder o ritmo ou esquecer uma letra sequer. Naquele instante todas as minhas conjecturas sobre seu estado emocional e físico perderam a importância. Ele estava ali, sim. Ainda que por alguns segundos, era José, novamente. Agradeci à vida por me presentear com aquele momento.

A poesia daquela cena ficou gravada em mim, não sei se no cérebro, no coração ou na alma. Talvez em todos ao mesmo tempo.

José estava me ensinando que o ser humano é capaz de amar e poetizar, mesmo quando perdido no mundo obscuro da própria mente. Somos capazes de sobreviver enquanto seres de pensamento e sentimento, mesmo quando açoitados pelos limites que o tempo implacavelmente se encarrega de imprimir em nosso corpo.

Respirei fundo, procurando absorver daquele ambiente toda a atmosfera poética que se desenhava sob meus olhos. Sorri novamente. Desta vez, ele correspondeu ao meu sorriso, para logo em seguida recolher-se novamente em seu mundo sombrio. Não fiquei triste, ao contrário. Estava inebriada pelos segundos intensos de melodia e beleza. Era esta sensação que importava, era o que ficaria.

Eu havia presenciado uma amostra irrefutável e contundente de como exercitar a verdadeira lucidez. José me mostrou que ao aceitarmos as circunstâncias que não podemos modificar, nos tornamos livres para enxergar as pequeninas, mas formidáveis oportunidades de revelar e saborear a poesia escondida em cada segundo aparentemente comum do cotidiano. E, mesmo em meio às situações mais adversas, é possível encontrar uma brecha de luz, que mesmo durando segundos, pode fazer um coração feliz. Bem feliz.


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