terça-feira, 22 de julho de 2014

Eu, Julie e Julia


Beth Soares

— Você vai adorar este! – ele me disse enquanto estendia, na minha direção, a caixa do DVD. Li na capa: Julie & Julia. Sinceramente, duvidei. Ainda assim, aceitei a sugestão, afinal meu marido até agora nunca me decepcionou quanto à opinião sobre um filme. A favor dele ainda havia o fato de Julia ser interpretada por Meryl Streep, uma de minhas atrizes favoritas.


Trouxe o filme para minha casa. Olhei para aquelas duas mulheres da capa. Além de Meryl Streep, a jovem que interpreta Julie, Amy Adams, pareceu-me simpática. Mal sabia que dali a instantes descobriria que, além de atriz talentosa, a italianinha contaria uma história tão próxima a mim.

O filme narra a história de duas mulheres, Julia Child e Julie Powell, separadas no tempo por mais de 40 anos. Ambas decidiram, através da culinária, transformar suas vidas.

A verdadeira Julie Powell

Motivada pela história de persistência de Julia, Julie, que aos 29 anos acredita não ter conseguido alcançar sucesso na vida profissional, decide investir no antigo sonho de se tornar escritora. Graças à sua admiração por Julia, ela escolhe se debruçar na arte de cozinhar, preparando inúmeras receitas ensinadas por esta. O marido de Julie, Eric (Chris Messina) a incentiva a postar todas as suas impressões em um blog.

Nem é preciso dizer que me identifiquei de cara. Não que eu cozinhe bem, ao contrário. Meu negócio é comer, mesmo. Mas as sensações da vida de Julie, os questionamentos que se faz, as dúvidas e angústias sobre seu papel no mundo e seu desejo de realizar um sonho na vida profissional, traduzem claramente momentos vividos por todas nós.

Julie (Amy Adams) e o marido Eric (Chris Messina)

Obviamente, meu marido sabia que eu me identificaria. Ri ao lembrar o sorriso que ele tinha no rosto enquanto me ofereceu o DVD. O olhar era o que ele sempre tem quando esconde uma intenção mais profunda do que parece, por trás de algum gesto.

Assistindo ao filme passei a pensar no quanto a comida nos une. É ao redor da mesa que nos reunimos aos familiares, aos amigos e colegas de trabalho. Sentado à mesa, comendo, qualquer um de nós, provavelmente, já teve momentos emocionantes, engraçados e felizes que guardará para toda vida.

O prazer de comer é muito mais importante do que a maioria de nós imagina. Quando um ser humano perde, por algum motivo, a capacidade de mastigar e degustar os alimentos, ele sofre profundamente, ainda que não seja um apreciador voraz da boa mesa. Mesmo que a nutrição seja feita de forma eficiente por métodos diversos, seu corpo passa a definhar, pois emocionalmente o prazer que existe no ato de comer não pode ser substituído.

Família no Butão, que dizem ser o país mais feliz do mundo

Mas o filme não agradou apenas meu paladar, ao imaginar o sabor daquelas receitas. Ele me fez pensar em nós, mulheres, e nos diálogos dos quais participamos, voluntariamente ou não, em volta da mesa. Muitas vezes, é neste cenário que os familiares nos fazem aquelas cobranças típicas de quando nos aproximamos dos 30 anos. Se solteiras, perguntam quando arranjaremos um namorado para casarmos. Se casadas, quando teremos filhos.

E quantas vezes com a boca cheia tentamos calar aquela insuportável cobradora interna? Aquela que atira na nossa cara o fracasso de ainda não havermos conseguido a casa própria, o carro do ano, o homem perfeito e, em alguns casos, os filhos lindos, dignos do comercial da Jhonson’s, que imaginamos ou que imaginaram para nós?

Quem de nós nunca usou a comida como remédio para curar a dor, mesmo sabendo que ela é muito mais saborosa quando usada como desculpa para um momento de comunhão?

É isso: o filme fala da condição humana que nos leva a desejar a satisfação de nossas necessidades físicas e emocionais, de preferência com algum prazer. E isso inclui comida, amor, sexo, amizade e família. Mas “Julie e Julia” fala, especialmente, da condição feminina.

Nossas escolhas podem nos levar a morar em subúrbios, a torcer para que o mês acabe antes do salário, a passar vontade diante daquele vestido da vitrine... mas também nos levam a trilhar caminhos nos quais encontramos pessoas que nos mostram que vale a pena. Vale a pena escolher experimentar, escolher se transformar e trabalhar para isso. Vale a pena desenterrar o próprio talento e, sobretudo, escolher ser leal aos próprios sentimentos.

Uniram-se neste filme duas condições que me compõem. A de ser mulher e a de ser aspirante a escritora. E, mais ainda: de revelar sentimentos e reflexões profundas escrevendo.

Precisei reunir coragem para contar a pessoas cujos rostos talvez eu nunca veja, minha história, meus medos, anseios, dúvidas, tristezas e alegrias. Mas, saber que todas partilham sensações e sentimentos semelhantes diante das inúmeras situações da vida, é algo incrivelmente prazeroso e compensador.

Vendo o filme também refleti sobre o fato de que ser mulher não nos garante sensibilidade. Esta vem da alma, não tem a ver com gênero. Erra quem assiste ao filme e acha que só as mulheres são as grandes estrelas. Os homens ao lado de Julia e de Julie, Paul Child e Eric Powell (interpretados pelos atores Stanley Tucci e Chris Messina, respectivamente) são fascinantes. Doces, amáveis, sensíveis, companheiros no sentido profundo da palavra. Seus personagens definitivamente não merecem ser chamados de secundários. Pessoas assim são, na realidade, essenciais na vida de uma mulher.

Stanley Tucci e Meryl Streep

E, seria injustiça da minha parte esquecer que, como citei no começo deste texto, foi graças a um homem que assisti à bela história de Julie e Julia. Mas antes mesmo da cena da locadora de DVDs, foi por causa da insistência deste homem que resolvi desenterrar meu sonho de escrever. Por sugestão dele criei um blog e publiquei meus escritos. E também foi ele quem deu a ideia de escrever o que senti ao ver o filme.

Sim, foi graças à sensibilidade masculina que criei coragem de me expor através da escrita. E, com isso, me permiti sentir uma satisfação ímpar. Sem ter do que me envergonhar. Sem medo.

Obs.: Texto publicado originalmente no blog Poesia Cotidiana, em 29 de janeiro de 2011 e reescrito para este espaço.


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