terça-feira, 8 de julho de 2014

Entre a senzala e o castelo

Beth Soares


Sempre achei que com quase 30 anos as pessoas estariam mais prontas para o amor. Cheguei lá e já não tenho tanta certeza assim. Maturidade no amor talvez não tenha relação com o número de aniversários ou de namorados que se teve, mas com a maneira de lidar com cada experiência. Não é fácil porque não existem receitas contendo um modo de fazer que garanta felicidade. E estamos sempre aprendendo.

Já tive amores que me fizeram sentir uma escrava. E rompi. Rompi porque descobri que o amor, para valer a pena, precisa contribuir para humanizar, fortalecer pessoas, engrandecê-las. E a escravidão enfraquece, desumaniza, diminui e, em casos extremos, aniquila. Ninguém é tão fraco que mereça ser anulado. A servidão não me atrai.

Outros amores me fizeram sentir como uma rainha. Tinha a atenção primordial, a soberania. E também rompi. Constatei que dominar é pesado. Ver alguém dependendo de suas iniciativas, atitudes e raciocínios, no fundo, é muito triste. Dói perceber que você não contribui para o crescimento desta pessoa, mas para sua fragilidade. Ninguém é tão forte para suportar o peso da culpa de aleijar o outro para o mundo e depois ter que carregá-lo nas costas a vida toda. O domínio já não me seduz.



Ser colocada no mesmo patamar que o amado, traz insegurança para a escrava. Ela se pergunta se vai conseguir satisfazer a todas as suas expectativas. A mesma insegurança sente a rainha, quando vê seu amado colocá-la num plano semelhante ao das outras dezenas de pessoas que fazem parte da vida dele. A questão para ela é se vai conseguir um espaço em seu mundo para compartilhar planos, segredos, sonhos e aspirações.

Olhei para um lado e descobri que a escrava perdeu o abrigo confortável dado por seu senhor e não será mais protegida. Olhei para outro e descobri que a rainha perdeu o trono dado por seu súdito e não será mais celebrada como figura central. Olhei para dentro e percebi que, embora sinta falta dos benefícios da tutela e da coroa, essas posições nunca me fizeram feliz. E eu escolhi abrir mão delas.

Olhando para trás, vejo que havia criado uma fantasia: idealizei o relacionamento amoroso como algo romântico... e utópico. Achava que ele só geraria benefícios como paz e tranqüilidade. Mas somos feitos de carne, osso e milhares de sentimentos e emoções. Não seria humano viver somente este amor ideal. As relações estão sempre permeadas de egoísmo, orgulho, ciúmes... Mas também de respeito, compreensão, carinho, tolerância...


Percebi que relacionamentos podem ser fonte de inspiração, aprendizado e alegria. Mas também entendi que não dá para ser só isso o tempo todo. Muitas vezes a pessoa que amo vai me inquietar. Às vezes vai me deixar insatisfeita, ansiosa, insegura, com saudade... e isso tudo vai doer. Mas faz parte da construção do amor.

Não sei se o amor sabe distinguir maturidade e imaturidade, tampouco se precisa escolher um dos dois lados para ficar. Sei é que nem sempre os caminhos que resultam das nossas escolhas são exatamente do jeito que esperávamos. Ninguém opta por sofrer, no entanto, todos acabam recebendo sua dose de sofrimento. Aprender a amar requer de cada um algum sacrifício. O meu é demolir, com as próprias mãos, a senzala e o castelo.

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