quinta-feira, 24 de julho de 2014

As palavras que me fogem

Marcus Vinicius Batista

Estávamos à mesa eu, Beth, Marcelo e Mariana. Tínhamos acabado de degustar (quando o prato é sensacional e a ocasião, incomum, mudamos o verbo) um macarrão com lingüiça, temperado com salsa, cebola e uma mostarda importada. Perdoe-me pela descrição. Por não me lembrar do nome sofisticado da iguaria, pensei que seria negligente se o resumisse a macarrão e lingüiça. Marcelo cozinha com a genialidade dos simples, mas um pouco de marketing gastronômico não causa indigestão.

Conversávamos sobre uma crônica e o impacto dela nas pessoas. Daí, partimos para discutir sobre o ato de escrever e como as palavras ideais nos aparecem em momentos inoportunos. Inoportunos porque nos impedem de anotá-las. Textos maravilhosos brotam nas águas do chuveiro, por exemplo. Inoportunos porque nos fazem crer que a memória seria capaz de armazená-las com fidelidade. 


As palavras ideais sempre nos escapam. Não vejo saída a não ser adotarmos barreiras de contenção, que permitam uma ação rápida e evitem a fuga em massa. Anotá-las é a aspirina paliativa. Escrever o texto de uma vez pode ser a cura, desde que tenhamos consciência de que lidamos com um cenário utópico, de que o artesanato do texto vai redesenhar o vocábulo perfeito.

Quem sofre com a perda da palavra sabe o quanto ela tem peso, cheiro e significado únicos. Um sinônimo é como um irmão, que jamais será o sujeito em si. Quem escreve anda armado de papel e caneta. A vigilância é paranoica, pois o motim de verbos, substantivos, conjunções, adjetivos e outros membros da quadrilha pode ocorrer já, ontem ou amanhã.

O escritor Ignacio de Loyola Brandão sempre anda acompanhado de cadernetas. No carro, nos bolsos. Ele possui caixas de cadernetas com anotações. Palavras que se uniram e viraram crônicas. Palavras que constituíram família e amigos e se transformaram em romances. Palavras rabugentas e solitárias, que acabaram mortas onde nasceram, engolidas pelo branco das páginas das cadernetas.

O filósofo Christian Godoi, um amigo de longa data, dormia com um caderno ao lado da cama. O despertar de um sonho tinha o mesmo valor literário das expressões que pulavam durante a sonolência. Ou que retornaram como fruto das reflexões sobre os compromissos do dia seguinte, como uma aula a ser dada na universidade.

Ando com uma caderneta a tiracolo, mas confesso que a preguiça de abrir e escrever é maior. Ainda confio na memória e na repetição, esperançoso porém ciente de que as palavras mudam de humor, de endereço, constroem novos relacionamentos quando me sento diante do caderno ou do computador para escrevê-las. 


Dizem que as crônicas sobre o escrever surgem quando os autores estão sem ideias ou algo para dizer. Costuma ser uma verdade. As entrelinhas do texto denunciam o estelionato criativo ou a licença para transgressão de linguagem.

Não é o caso desta crônica. Quando acordei, comecei a pensar na coluna semanal para o jornal. Pensei em um texto sobre política e desenhei o último parágrafo na cabeça. Esculpi as palavras com cuidado, mas adormeci.

Duas horas depois, o horror previsível do esquecimento. Pensei na profecia do meu amigo Marcelo, cravada ontem à noite. Ele gesticulava com veemência para descrever a morte de um texto único. Doze horas depois, virei vítima do mal sobre o qual ponderei e ele amaldiçoou.

Mas, nos escombros da amnésia literária, nasceu esta crônica. Corri para o computador com o desejo de alcançar as palavras ideais para expressar meu luto textual. Bobagem. As palavras se esconderam em algum lugar entre a cama e a cadeira que me sustenta agora no escritório. Nem adianta procurá-las porque nunca mais saberei quem são (ou foram).

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