quinta-feira, 31 de julho de 2014

O ouro de Cloanto

Beth Soares

Gosto de gente. De gente que aparentemente não tem nada de diferente para merecer um olhar mais profundo. São justamente essas pessoas que possuem as histórias mais formidáveis.

Foi assim que olhei aquele senhor de cabelos quase brancos. Apresentou-se a mim e às minhas amigas chamando-nos atenção para seu nome. Deixou escapar de seus olhos o orgulho de nunca haver conhecido um homônimo. 




Ao nascer, os pais, que achavam já ter gasto quase toda a criatividade nomeando outros onze filhos com a letra C, descobriram que as profundezas da originalidade não haviam sido totalmente vasculhadas. Inventaram “Cloanto”.

Não nos deu tempo para dizermos nossos nomes, que agora pareciam excessivamente comuns. Não por desinteresse, mas porque certamente seus 72 anos lhe permitiram viver muitas histórias. Precisava usar todo o tempo que dispuséssemos para conosco degustá-las. Sabia que nossa passagem por seu caminho seria breve, então teria que usar aquela tarde para contar, ao menos, as narrativas mais especiais.

Tratou logo de emendar uma pergunta à sua apresentação. Estava diante de universitárias e queria testá-las. Torceu para que não soubessem as respostas. Apostou, inclusive. E perdeu. No fundo, sabia que ganharia muito mais que os dez reais da aposta. A sabatina prosseguiu e o tio-avô de nossa amiga aniversariante demonstrava contentamento, tivéssemos sucesso ou não com as réplicas. Para ele e para nós não eram as respostas que tinham importância. Mas as perguntas.

Elas nos conduziram pela vida do nordestino de Natal, desenhando na atmosfera umedecida pela chuva fina, cenas da aventura extraordinária que tem sido sua vida. Ouvíamos atentas como espectadoras de radionovelas.

Aos 18 anos, Cloanto mudou-se para Santos apenas com o que chama de “PPI”. Diante da interrogação exibida em nossas testas, tratou logo de traduzir a sigla: Pré-Primário Incompleto.

Do trabalho braçal passou, por esforço próprio, ao trabalho intelectual. O medo de perder o emprego que lhe garantia um bom salário fez Cloanto voltar a estudar. Terminou o colegial sem intenção de cursar a faculdade. Mudou de idéia rapidamente quando um amigo lembrou-lhe que o caminho para a universidade não lhe traria apenas um diploma, mas possibilidades incalculáveis de conhecer, superficial ou profundamente, muitas mulheres. Escolheu o curso de educação física, pois julgou ser o mais apropriado para suas intenções. Formou-se, mas não chegou a exercer a profissão.

Quanto às possibilidades com as mulheres, não usufruiu. Seu coração foi roubado, sem chance de resgate, por uma “princesa” de olhos azuis. Mas, como em todo roteiro de histórias de amor, havia um empecilho: ela era namorada de um amigo. Lembrando das palavras de sua mãe, “insistiu, persistiu e não desistiu”. Não sossegou até fisgá-la. E até hoje, 46 anos depois de dizer sim no altar, ainda mantém o mesmo olhar apaixonado de rapaz ingênuo. E é com a mesma paixão e com uma irreverência ímpar que fala de todas as coisas que seus olhos lhe permitiram ver e que a vida lhe permitiu experimentar.

Fala de seus filhos, netos e inúmeras conquistas com o orgulho de quem usou na construção de sua história apenas o suor do rosto e a honestidade. Com emoção, lembra dos dizeres pai, homem talhado na aridez do sertão nordestino, que sabiamente recomendou ao caçula de seus doze filhos ao vê-lo partindo para o sudeste: “Nunca pegue o que não lhe pertence. Ainda que trabalhe numa mina de ouro, antes de ir embora, limpe-se de modo a devolver até o último resquício do metal amarelo que tenha ficado sob suas unhas”. E assim Cloanto fez, por toda vida.

O ouro de Cloanto, muito mais nobre, vem de sua sabedoria. As palavras que saem de sua boca corretas e certeiras não felicitam apenas os teóricos de nossa língua mãe, quando faz questão de deixar claro que “advogado” não é “adevogado”, “cérebro” não é “celebro” e que as “irmãs” nunca poderão ser “irmães”, ainda que já tenham filhos. Seu verbo felicita seus ouvintes pelo conteúdo intenso e próximo de todos nós.

A história de Cloanto poderia ser a minha, a de um amigo, a de um parente ou a sua, apesar de ser só dele. Ela nos faz perceber que a singularidade de uma trajetória pode caminhar junto à sua capacidade de proporcionar identificação. E essa é uma característica marcante da vida de quem, como ele, trama sua experiência com o fio do incomum, e a transforma em algo extraordinário.


Obs.: Texto publicado, originalmente, no blog Poesia Cotidiana, em 1º de julho de 2011. 

quarta-feira, 30 de julho de 2014

O batismo do avião

Beth Soares

Hã? Como assim? Perguntei ainda sonolenta. Eu não tinha organizado nada, nem meus pensamentos, mal sabia onde estava.

Minha amiga, com uma voz que transbordava entusiasmo, pareceu nem prestar atenção à minha confusão mental e continuou a enumerar, com seu jeito extremamente eloqüente de argumentar, todas as dezenas de vantagens que uma viagem rápida nos traria. Além dos dias distantes do estresse, ela havia conseguido uma promoção imperdível de passagens aéreas. Não gastaríamos com estadia, já que os familiares dela estariam prontos para nos receber. Informou o dia, o horário e quase não me deu tempo para raciocinar. Na verdade, eu não estava mesmo em condições de pensar. E disse sim.

Dias depois, não sei por que, lembrei repetidamente das cenas de um filme sobre premonição, que retratavam um desastre aéreo. As cenas eram tenebrosas. Apaguei-as rapidamente antes que ganhassem vulto. Foi quando caiu a ficha: era a primeira vez, em 29 anos, que viajaria de avião. Senti um frio na barriga. Mas já estava feito.





Chegou o dia. No caminho para o aeroporto tentei relaxar. Cantei músicas para mim mesma... E nada. Tentei lembrar de coisas engraçadas que pessoas me disseram nos últimos dias, ou de alguma piada... Branco total. A cada minuto que se aproximava da hora marcada para a decolagem minha tensão aumentava. E eu não me sentia capaz de mudar esse quadro. Minha amiga e o marido dela se divertiam com o que chamavam de meu “batismo aéreo”.

No salão de embarque a ansiedade era tanta que prendi tudo: a respiração, os pensamentos, até a vontade de ir ao banheiro, que sempre aparece em ocasiões de medo.

Comecei a caminhar. Meus próximos passos me levariam ao avião. Tentei disfarçar, mas acho que estava escrito “SOCORRO” em neon vermelho e letras garrafais na minha testa. Meus amigos riam da minha aflição.

Entrei no avião. Após um cordial boa noite dos comissários de bordo, sentei. Me espantei com o menor metro quadrado por pessoa que já tinha visto em um meio de transporte. Reparei que todos os outros passageiros olhavam para seus minibancos com muita naturalidade, como se o mundo fosse light e todos tivessem acabado de sair de um comercial de adoçante.

Com um pouco da força que havia em meus pulmões (não usei toda para não espremer ainda mais a passageira ao lado, no caso, minha amiga) respirei fundo e tentei esquecer qualquer aproximação mental com a claustrofobia que poderia reforçar ainda mais a imagem de medrosa que eu estava prestes a confirmar para sempre, sem chance de retratação.

A primeira coisa que fiz foi tentar afivelar o cinto. E não tive como evitar o pensamento: isso não vai resolver nada em uma situação de emergência... Situação de emergência, leia-se: queda. Pronto, conectei. Tentei afastar esse pensamento, fazendo o exercício de projetar na mente o oposto. Impossível. Droga de psiquê! Maldita hora que eu pensei na palavra “queda”. 


Agora, ela não saía da minha mente, ao mesmo tempo em que as imagens de vários desastres (agora não só aéreos, mas também naturais), dançavam na minha frente. Tornados, trombas d´água, tempestades eletromagnéticas, seja lá o que isso signifique, me faziam suar frio. Tentei respirar fundo de novo. Não consegui.

Descobri que não sabia afivelar o cinto. Minha amiga, prevendo meu desespero, calmamente me mostrou como fazer. A calma dela me deixou ainda mais nervosa. Olhei para os lados e vi crianças, jovens, adultos, idosos... todos pareciam tranqüilos. Será que ninguém ali estava na mesma situação?

De repente, ouço a voz do comandante. Ele começa um discurso que parecia decorado, ou lido em algum manual. Em certo momento diz que, em caso de pouso no mar, devemos usar os assentos para flutuar. Que bom! Isso significava que, caso eu fizesse parte da ínfima parcela dos passageiros de avião que sobrevive a um pouso de emergência no mar, eu teria uma pequena chance de sobreviver boiando em cima daquele acento, no qual eu mal conseguia me encaixar. Ótimo, porque, apesar de ter nascido numa cidade praiana, não sei nadar. Agora sim, me sentia totalmente segura! Sorri de pânico.





Quando estava quase me convencendo que ficaria tudo bem, ouvi o barulho das turbinas. Pensei em sair correndo, abrir a porta de emergência e pular. Mas eu estava paralisada.

Decolamos. Por instantes pensei: deu tudo certo! Consegui até admirar a beleza das luzes alaranjadas das ruas de São Paulo. Mas a tentativa de relaxar durou apenas alguns minutos. Tudo começou a balançar. Olhei para minha amiga e ela, como se lesse meus pensamentos (ou, quem sabe, novamente o letreiro havia se acendido em minha testa?) automaticamente me disse que estávamos passando por uma turbulência. Obviamente ela disse isso mantendo o mesmo tom de voz e exalando uma calma insuportável.

Ouvi a voz do comandante repetindo, com a mesma tranqüilidade, a frase dela. Olhei pela janela. Péssima idéia. Só consegui enxergar uma densa nuvem acinzentada. Percorri meus arquivos mentais e descobri que mantinha um sem-número de cenas trágicas de filmes que vi ao longo da vida, muito bem guardadas e conservadas em excelente estado. Impressionante como de vez em quando tenho boa memória!

Aos poucos, a calmaria no ar foi voltando até parecer que o avião deslizava suavemente pelas nuvens. Respirei. Não sei se por causa dos seqüentes disparos de adrenalina que agora cessavam, senti um torpor que, aos poucos, foi se transformando em sonolência. E, para minha imensa felicidade, adormeci. Mas não tive tempo de sonhar.

Acordei sentindo uma pressão em todo corpo. Era o momento do pouso. Parei de respirar de novo. Travei todos os músculos, até aqueles que nem imaginava que tinha. Um tranco, e finalmente pousamos.

Pronto! Terra! Agradeci a todos os santos que lembrava e a alguns que, na hora do horror, tratei de inventar. Minha aventura havia terminado e tudo correu bem, apesar de todo esse meu drama.

É, tenho que confessar, sou dramática. Talvez isso justifique a calma da minha amiga, que me conhece como poucos, durante o voo.

Na verdade, desde o início ela suspeitava que, no fundo, eu mal podia esperar pela próxima vez que aquele delicioso pânico me absorveria novamente.

E ela acertou.


Obs.: Texto publicado originalmente no blog Poesia Cotidiana e no site Jornalirismo, em junho de 2011. 

terça-feira, 29 de julho de 2014

O envelope e a nova seleção


Marcus Vinicius Batista

O envelope passou por baixo da porta. Não ouvi o barulho, pois estava concentrado em minhas tarefas cotidianas de homem do lar. Lavar roupas, pendurá-las, lavar a louça (e não secá-las), arrumar camas, serviços rotineiros que ignoram férias, folgas e outros benefícios.

Não havia remetente ou destinatário. A primeira certeza: não era conta. Contas, de cara, se definem como tais ao sorrir pelo envelope timbrado. Olhei contra a luz e vi que havia somente um papel dentro dele, bem menor do que o envelope. Peguei uma tesoura na cozinha, cortei uma das pontas, tirei o papel, sem identificação de origem, e o desdobrei.

Daqui em diante, por temer represálias ou pelo desejo de recompensa no além, vou reproduzir exatamente o conteúdo, salvo se foi entregue no apartamento errado. Mas não me arrisquei a perguntar ao vizinho. Ele é meu amigo em rede social, mas não me cumprimenta no prédio. Entendi que só existo na vida virtual dele. 



Eis a carta:

“Caro amigo semidescrente,

Você foi escolhido para ser o semeador destas palavras. Sei que, como crente descrente, você vai desconfiar deste texto padronizado. Mas o que não é padronizado hoje em dia? Não tenho tempo e paciência para personalizar as palavras diante dos protestos e das lamentações da última semana. Até porque o assunto desta missiva é importante, mas estou ocupado demais com outros problemas de ordem étnica em outros endereços.

Outros como você receberam este texto. É um pedido, creia ou não. Poderia utilizar meus representantes por aí, mas confesso que não sei quem acredita na palavra, quem a compra, quem a vende, quem a reinventa como paródia.

Vou ser direto. Vocês perderam quatro pessoas importantes em 10 dias, na contagem de vocês, e me senti na necessidade de justificar estas medidas. Temos uma partida importante. Coisa do Dante, alegre e encantado com o futebol. Para ele, uma partida é capaz de levar qualquer um de cima a baixo, sem escalas. A ironia é que o jogo vai acontecer no purgatório. Campo neutro, sabe?

Como o mundo corre de forma atemporal por aqui, nosso time envelheceu, se é que me entende. Os mesmos atletas: Manuel, Machado, Drummond, Cabral, Guimarães, Alencar. Nossos adversários já conhecem de cor as táticas, as características, os trejeitos de cada um dos jogadores. Mesmo criativos, eles têm limites.

Contratações eram fundamentais. O lado de lá, com a ganância que lhes marca, traz sempre atrações novas. São gurus de autoajuda, ícones do mundo corporativo, filósofos que venderam suas ideias por uns tostões. Não temos como competir com a agilidade financeira do andar de baixo.

Confesso que duvidei do que me sugeriram depois dos 7 a 1. Quase virei minhas escolhas para a literatura alemã. Eles têm diversos craques, como Mann, Goethe, Hesse. Mas também entendi que os brasileiros escrevem, no momento, melhor do que jogam. Foi o ponto que fechou minha decisão.

Só que precisava de diversidade. Versatilidade e jogo coletivo são mantras até por aqui. Não posso contradizer o que outros pregaram em meu nome quando falavam em solidariedade, generosidade, lealdade, mesmo aqueles sujeitos que, por trás de gravatas e versículos, defendem o nosso rival. 



Comecei com o João. Nordestino, ele tinha a acidez dos centroavantes. Pense o jogo politicamente incorreto, com a ironia de quem conquista o zagueiro para depois deixá-lo sentado. Ao mesmo tempo, pode conquistar a torcida e os colegas com o jeito festivo e a fala arrastada dos falsos lentos baianos.

Mas os auxiliares Pedro e Paulo ponderaram sobre a carência de um companheiro de frente. Sangue novo também, de postura semelhante, com execução distinta nos passes. Acho que fui na mosca quando recrutei Ariano. O homem é ligeiro, ainda que treine de chinelas.

Ariano quase me enganou na fala. Quando entrou em campo, lembrava João Grilo, espevitado que só ele nas laterais. Deu trabalho para Bilac, lateral-direito parnasiano até na forma de marcar. Ariano não tem adversário, encara até o mais miserável treino como uma aula-show, daquelas que costumava dar por aí até ontem (outra vez, o tempo estranho a mim, que não é respeitado pelas palavras).

Pensei comigo e concluí que tinha direito a mais dois para reforçar o miolo da equipe. Puxei um meia de ligação (veja como já engano tal qual os professores da beira do campo) com alma de poeta, um sujeito que adorava ipês, crianças, educava com sorrisos. O nome dele é Rubem.

O rapaz está meio resistente. Foi um seguidor meu na juventude, que me abandonou diante das bobagens dos homens. Mas deve jogar. Percebi que os olhos dele faiscaram quando viram quem dividiria as camisas e o mesmo lado do campo. Todos aqui falam que ele é um meia criativo. O único problema é se apegar demais aos detalhes, o velho problema dos poetas e cronistas que formam nosso elenco. Teve um que se distraiu tanto com a bandeira, que elaborou um texto e se esqueceu de cobrar o escanteio.

Para conduzi-lo em campo (jamais controlá-lo), completei a cesta com um meia cerebral, científico no falar, no correr, no passar, no deslocamento no gramado. Ronaldo Mourão é especialista em lidar com quem olha para as estrelas e as vê como versos em dança. Ele era um desses astrônomos que se escondia no rigor e na elegância com que tratava as palavras.

Sei que vocês, recebedores desta carta, são (ou foram) descrentes. É por isso que rezo para que, de uma forma ou de outra, propaguem a palavra. Nada de outra face. Desta vez, precisamos ganhar. Até porque o adversário, maldoso que é, vai entupir o time de volantes-brucutus, para usar um jargão de vocês. Falam que são jogadores modernos, mas correm e batem como o fizeram nas teclas na vida humana.

Atenciosamente,

ELE

P.S.: Estou ciente de que vocês oram pela vinda do coronel. Mas, como acontece quando milhares de vozes falam simultaneamente, não consigo ouvir. Ele não tem o perfil do meu time, queridos. É tão imortal como um marimbondo de fogo, saltitante de vários e incertos rumos, autojulgado o dono do mar, do céu e da terra, pelo menos onde vive. Uma confissão (ou sacrilégio): meu rival disse que sonha com ele vestindo a dez! E do Maranhão, já me basta Aluizio Azevedo.

segunda-feira, 28 de julho de 2014

O carinhoso


Beth Soares

Cheguei sem saber quem ele era. Sabia apenas o nome e a idade. Fui recebida por Maria, sua irmã que, como ele, tinha os cabelos tingidos pelo tempo. Apresentei-me com um sorriso. Sem qualquer expressão, o olhar de José me atravessou, como se eu fosse uma alma penada, invadindo seu espaço sem lhe perguntar se era bem-vinda. 

Pintura de Paul Tiberio

Precipitadamente, julguei aquela atitude como desprezo. Alguns minutos depois, após breve conversa com Maria, percebi que havia me enganado. “Ele vive no seu próprio mundo”, ela explicou num tom de profundo pesar. Ali fiquei sabendo que José tinha breves momentos de lucidez, ao longo das demoradas horas de reclusão em seu universo interior, que preenchiam seu dia.

Segundo ela, esses rápidos instantes lhe emprestavam um brilho diferente no olhar. O brilho que só a sabedoria dos anos de vivências nos caminhos do mundo pode nos dar. “Nestes momentos, tenho meu irmão de volta. Pena que duram somente alguns segundos”, lamentou com um suspiro.

Fiquei pensando como deve ser profunda a dor de perder um ente querido que permanece vivo. Olhar para ele e saber que não se encontra mais ali, naquele corpo, ocupando aquele espaço. Respira, come, dorme, mas não exala nada do que era no passado. Pelo menos não com a freqüência que mataria as saudades dos que o amam.

Olhei novamente para ele ali, na minha frente, sentado em sua cadeira de balanço, vestido de maneira simples. Tentei imaginar a dor de ter um corpo que não suporta mais a alma, um cérebro que não traduz mais os pensamentos e os transforma em palavras. Mas quando tentava imaginar como seria ter um coração que bate, mas não é mais passível de sentir, por algum motivo que só a vida, com seus milagres maravilhosos, poderia explicar, fui surpreendida com um som que atravessou meus pensamentos e os calou.

Olhando profundamente em meus olhos, como se lesse minha mente e quisesse responder meu questionamento silencioso, ele deixou sair de seus lábios trêmulos uma canção que me fez abandonar a tristeza que aqueles pensamentos recentes haviam me trazido: “Meu coração, não sei por quê / Bate feliz quando te vê...”



Cantou a música inteira, sem perder o ritmo ou esquecer uma letra sequer. Naquele instante todas as minhas conjecturas sobre seu estado emocional e físico perderam a importância. Ele estava ali, sim. Ainda que por alguns segundos, era José, novamente. Agradeci à vida por me presentear com aquele momento.

A poesia daquela cena ficou gravada em mim, não sei se no cérebro, no coração ou na alma. Talvez em todos ao mesmo tempo.

José estava me ensinando que o ser humano é capaz de amar e poetizar, mesmo quando perdido no mundo obscuro da própria mente. Somos capazes de sobreviver enquanto seres de pensamento e sentimento, mesmo quando açoitados pelos limites que o tempo implacavelmente se encarrega de imprimir em nosso corpo.

Respirei fundo, procurando absorver daquele ambiente toda a atmosfera poética que se desenhava sob meus olhos. Sorri novamente. Desta vez, ele correspondeu ao meu sorriso, para logo em seguida recolher-se novamente em seu mundo sombrio. Não fiquei triste, ao contrário. Estava inebriada pelos segundos intensos de melodia e beleza. Era esta sensação que importava, era o que ficaria.

Eu havia presenciado uma amostra irrefutável e contundente de como exercitar a verdadeira lucidez. José me mostrou que ao aceitarmos as circunstâncias que não podemos modificar, nos tornamos livres para enxergar as pequeninas, mas formidáveis oportunidades de revelar e saborear a poesia escondida em cada segundo aparentemente comum do cotidiano. E, mesmo em meio às situações mais adversas, é possível encontrar uma brecha de luz, que mesmo durando segundos, pode fazer um coração feliz. Bem feliz.


sexta-feira, 25 de julho de 2014

O silêncio e a solidão


Beth Soares

Mais uma noite. E lá estava Antônio, novamente. Entrou e fechou a porta do seu minúsculo apartamento no centro da cidade. Jogou as chaves sobre o sofá de dois lugares, o único que cabia em sua saleta. O mundo estava lá fora. Ali dentro, estava em um universo paralelo. O seu universo.

Caminhou pelo ambiente quase vazio, ouvindo o som dos seus passos. Lembrou-se do barulho da casa de seus pais. Era de uma família grande, festeira. Antônio nunca se sentira, de fato, um membro dela.

Nas festas, ao longo de toda a infância e a adolescência, conversava com todos, ouvindo de lamentações a surtos de pseudo-superioridade. Divertia-se com a mediocridade dos que se achavam sábios e aprendia com a sabedoria dos que se achavam menores. Mas logo se entediava e desejava ir embora, mesmo sem saber para onde. Queria paz, queria sair dali, refugiar-se.

Voltou exatamente para o presente. Olhou ao redor e enxergou as paredes brancas, que agora pareciam ainda mais pálidas e frias. Pensou que talvez uma outra cor, algum tom pastel, melhorasse aquela aparência. Os poucos móveis na casa davam-lhe a impressão que estava sempre de saída ou que a chegada nunca se dera por encerrada. Era como se não pertencesse a lugar nenhum.

Abriu a geladeira e olhou para os ímãs da porta. Eram presentes de amigos, trazidos de várias partes do país e de fora dele. Pensou que entre os amigos também não se sentia feliz. Divertia-se até onde conseguia, mas nunca o suficiente para poder afirmar que estivesse alegre ou satisfeito, mesmo nos lugares aparentemente mais agradáveis. Em algum momento, sempre sentia falta do silêncio.

Pegou uma garrafa de vinho branco, gelado. Lembrou-se da namorada. Não estava ali porque era muito ocupada. Ele, sempre calado, observava-a invertendo as prioridades da vida. Achava que ela trabalhava muito para ter uma vida melhor, mas se esquecia de que uma vida só é melhor se for vivida.

Em meio a reuniões de trabalho na empresa, ligações importantíssimas e e-mails que precisavam ser respondidos imediatamente, ela nunca teria tempo para esse tipo de conjectura. Estava sempre atrasada, em busca da vida que não percebia já ter, esquecendo-se de apreciar o presente.

No fundo, não fazia questão da presença dela. Os dois eram iguais, concluiu. Riu dela. Um riso pesaroso. Riu de si mesmo. Tentou imaginar algum futuro ao lado dela. Não foi capaz. Bebeu um gole de vinho, na garrafa mesmo, para logo depois deixá-la de canto, como tantas vezes fizera consigo.

Foi até o seu pequeno quarto, abriu a gaveta do criado-mudo, que ainda cheirava a madeira nova, e de lá retirou uma pequena caixa de papelão decorado. Abriu-a e viu algumas pilhas de fotos. Ali estava muita gente que havia muito não encontrava.

Acariciou as imagens felizes daqueles que deixou para trás. Percebeu que não eram poucos. Apertou as fotos contra o peito. Também ele fora deixado para trás. Uma marchinha de Carnaval veio-lhe à mente. Cantarolou até sentir as lágrimas explodirem, pesadas, em seus olhos.

Finalmente conquistara o que tanto queria. Estava só.

Obs.: Texto publicado originalmente no site Jornalirismo e no blog Poesia Cotidiana, em março de 2011.

quinta-feira, 24 de julho de 2014

As palavras que me fogem

Marcus Vinicius Batista

Estávamos à mesa eu, Beth, Marcelo e Mariana. Tínhamos acabado de degustar (quando o prato é sensacional e a ocasião, incomum, mudamos o verbo) um macarrão com lingüiça, temperado com salsa, cebola e uma mostarda importada. Perdoe-me pela descrição. Por não me lembrar do nome sofisticado da iguaria, pensei que seria negligente se o resumisse a macarrão e lingüiça. Marcelo cozinha com a genialidade dos simples, mas um pouco de marketing gastronômico não causa indigestão.

Conversávamos sobre uma crônica e o impacto dela nas pessoas. Daí, partimos para discutir sobre o ato de escrever e como as palavras ideais nos aparecem em momentos inoportunos. Inoportunos porque nos impedem de anotá-las. Textos maravilhosos brotam nas águas do chuveiro, por exemplo. Inoportunos porque nos fazem crer que a memória seria capaz de armazená-las com fidelidade. 


As palavras ideais sempre nos escapam. Não vejo saída a não ser adotarmos barreiras de contenção, que permitam uma ação rápida e evitem a fuga em massa. Anotá-las é a aspirina paliativa. Escrever o texto de uma vez pode ser a cura, desde que tenhamos consciência de que lidamos com um cenário utópico, de que o artesanato do texto vai redesenhar o vocábulo perfeito.

Quem sofre com a perda da palavra sabe o quanto ela tem peso, cheiro e significado únicos. Um sinônimo é como um irmão, que jamais será o sujeito em si. Quem escreve anda armado de papel e caneta. A vigilância é paranoica, pois o motim de verbos, substantivos, conjunções, adjetivos e outros membros da quadrilha pode ocorrer já, ontem ou amanhã.

O escritor Ignacio de Loyola Brandão sempre anda acompanhado de cadernetas. No carro, nos bolsos. Ele possui caixas de cadernetas com anotações. Palavras que se uniram e viraram crônicas. Palavras que constituíram família e amigos e se transformaram em romances. Palavras rabugentas e solitárias, que acabaram mortas onde nasceram, engolidas pelo branco das páginas das cadernetas.

O filósofo Christian Godoi, um amigo de longa data, dormia com um caderno ao lado da cama. O despertar de um sonho tinha o mesmo valor literário das expressões que pulavam durante a sonolência. Ou que retornaram como fruto das reflexões sobre os compromissos do dia seguinte, como uma aula a ser dada na universidade.

Ando com uma caderneta a tiracolo, mas confesso que a preguiça de abrir e escrever é maior. Ainda confio na memória e na repetição, esperançoso porém ciente de que as palavras mudam de humor, de endereço, constroem novos relacionamentos quando me sento diante do caderno ou do computador para escrevê-las. 


Dizem que as crônicas sobre o escrever surgem quando os autores estão sem ideias ou algo para dizer. Costuma ser uma verdade. As entrelinhas do texto denunciam o estelionato criativo ou a licença para transgressão de linguagem.

Não é o caso desta crônica. Quando acordei, comecei a pensar na coluna semanal para o jornal. Pensei em um texto sobre política e desenhei o último parágrafo na cabeça. Esculpi as palavras com cuidado, mas adormeci.

Duas horas depois, o horror previsível do esquecimento. Pensei na profecia do meu amigo Marcelo, cravada ontem à noite. Ele gesticulava com veemência para descrever a morte de um texto único. Doze horas depois, virei vítima do mal sobre o qual ponderei e ele amaldiçoou.

Mas, nos escombros da amnésia literária, nasceu esta crônica. Corri para o computador com o desejo de alcançar as palavras ideais para expressar meu luto textual. Bobagem. As palavras se esconderam em algum lugar entre a cama e a cadeira que me sustenta agora no escritório. Nem adianta procurá-las porque nunca mais saberei quem são (ou foram).

quarta-feira, 23 de julho de 2014

O segredo de Zuleica


Marcus Vinicius Batista

Acordei logo cedo, sem motivo. Não havia compromissos, muito menos trabalhar. Resolvi levantar da cama por causa do cheiro que vinha da cozinha. Era impossível crer que aquele aroma reaparecera. A fome, submersa e sonolenta em algum canto do abdômen, saltou como se estivesse tomado uma descarga elétrica.

Cambaleante, esfregando os olhos e arrastando os pés, cheguei à cozinha. Ali, a mesa estava posta sem grandes novidades estéticas. Os pratos de sempre, as xícaras de muitos anos, os talheres do casamento, sempre brilhantes.

O novo residia na travessa no canto direito. Os ovos mexidos, bem temperados, me esperavam. Ao lado dele, o saco de papel abrigava meia dúzia de pães. Brotava o café da manhã. A primeira lembrança do roteiro gastronômico-afetivo.

A manhã transcorreu sem sobressaltos, na rotina preguiçosa de quem está em férias e deseja, sem vergonha, que elas se tornem permanentes. Quatro horas depois, novo cheiro nasce do mesmo endereço. A primeira reação foi de dúvida. A Rússia é aqui? Quase. Era um menu adaptado à cultura tropical, um item tradicional e protegido contra pirataria via panelas.

Da cozinha, vinha um misto de whisky, carne e creme de leite. Os ingredientes se misturavam e seria impossível separá-los no olfato, muito menos no sabor, mas a memória faz o trabalho de descrever as partes que compõem o todo único.

Este prato exige complementos ritualísticos. Almoço com strogonoff de carne é na sala. Toalha branca, forro bordado, pratos, talheres e copos para visitas, ainda que todos sejam de casa. O arroz e a batata frita completam o elenco, como coadjuvantes premiados em diversos festivais internos de gordices.

Neste caso, a figuração pertence à bebida. Para os netos e os adultos-crianças, o líquido doce, negro e gasoso que o mundo inteiro idolatra. Para ela, a exceção, o vinho branco que finge ser de safra ideal e que se perpetua (na verdade, ganha sempre novos irmãos gêmeos) na adega improvisada no gavetão da geladeira. Quando ingerido, o vinho se transforma. O branco corresponde ao tom avermelhado das bochechas dela.

Na segunda etapa do processo de engorda, a refeição não termina na última colherada do terceiro prato de strogonoff ou no arranhar de garfos que raspam o restinho de molho. Como numa partida de futebol, há os 15 minutos de intervalo, quando se comenta o jogo em andamento e surgem as instruções para a sequência da pelada alimentícia.

O segundo tempo começa com velocidade, para derrubar o oponente que finge estar tímido no banquete. Na mesa, o pavê de chocolate, iguaria que mistura o chocolate amargo (chamado de chocolate do padre por causa da embalagem) e as bolachas maisena. A sobremesa, disputada aos tapas e colheradas em eventos da parentada, traz consigo o segredo dos artistas.

Embora escrita e disponível na primeira gaveta da cozinha, é impossível percorrer a distância entre o papel que registra a receita e as mãos dela que ornamentam e finalizam a escultura. Uma obra mal vista pelas testemunhas, obcecadas por fragmentá-la em pequenos pratos. A arte que se desfaz em menos de 30 minutos.

Cumprimos pena domiciliar, incapazes de fugir por conta da vida glutona, por quatro horas. Cochilo, conversa fiada, TV inconsistente. No final da tarde, toca a sirene do terceiro turno. É uma sirene sem badalo, um alarme que vem no silêncio do cheiro, armadilha previsível e sempre eficaz para fisgar os peixes que morrerão você sabe por onde.

Voltamos à mesa da cozinha. Ali, se espalham o doce e o salgado, o yin e o yang do reino dela. Não há vida monástica, moral filosófica ou pudores religiosos para se quebrar a ordem dos cosmos gastronômico. Doce e salgado se alternam, sem brigas, confraternizando entre bocas e sorrisos.

No mundo dos salgados, o pão de queijo reina. Não é aquela borracha elástica que você empurra para dentro, apressado, nas cantinas da vida. O pão de queijo é único, parido artesanalmente com o polvilho escolhido a dedo. É um pão de queijo com queijo, com o perdão da redundância.

O capítulo mineiro da novela alcança o clímax com a nêga. A nêga amalucada ganha como recheio a calda de chocolate, injetada cirurgicamente pelos poros abertos na massa do bolo. A calda deve ser rala e coroada pela cobertura de brigadeiro – eventualmente com chapéu de granulado. São heranças de uma senhora – a mãe dela -, quituteira que costurava ingredientes assim como moldava os vestidos das “freguesas”.

O jantar, para quem ainda tivesse fôlego, era uma experiência recente dela, uma combinação de poucos anos. Uma joia em lapidação constante, sujeita a deslizes mínimos, relevados por todos. A picanha vinha do forno banhada em sal grosso e sustentada por fundações de papel alumínio. Uma arquitetura de rocambole que, por vezes, era substituída pela criação original, também um rocambole – sem ser rocambolesco – recheado de queijo derretido, presunto e ovo cozido. A ordem dos atores nunca alterava o produto final, o prazer multiplicado em progressão aritmética.

Ambos os pratos exigiam, de minha parte, total concentração, de modo que dispensava quaisquer acompanhamentos. O amor, neste caso, impõe total exclusividade e dedicação.

O tour de gulodices descrito acima é fictício. As refeições nunca aconteceram no mesmo dia. Elas foram unidas como forma de organizar as minhas lembranças de Dona Zuleica, que faleceu há exato um ano. Minha mãe, claro, é muito mais do que uma chef de cozinha. Aliás, reclamava muitas vezes – entre o humor e a rabugice – de ter que cozinhar em certos domingos, perspectiva respeitada por todos e acatada quase com continência pelo primeiro a apanhar o telefone para pedir o almoço.

Comer, como todo bom mineiro prega em seus causos, é compartilhar a vida em volta da mesa. Ela era assim. Mais do que o almoço, o lanche ou o jantar, era em volta de pratos e copos vazios, de talheres sujos que colocávamos a conversa em dia ou discutíamos problemas das mais variadas intensidades.

Deixei alguns itens do cardápio de lado. Este texto é uma crônica, e não um tratado filosófico da alimentação. De qualquer modo, comer sempre foi para mim, na relação com ela, como o amor que se nutre a cada reencontro, que dispensa glamour ou falsa nobreza barroca. Comer mata a saudade, ressuscita a nostalgia, compartilha a experiência.

A simplicidade afetiva entre nós está no detalhe quase relegado para a nota de rodapé. Está no ingrediente do improviso, mas sem abdicar do talento. Jamais me esquecerei das singelas salsichas de uma noite de sábado, a última refeição infelizmente interrompida porque o coração dela resolveu gritar.


terça-feira, 22 de julho de 2014

Eu, Julie e Julia


Beth Soares

— Você vai adorar este! – ele me disse enquanto estendia, na minha direção, a caixa do DVD. Li na capa: Julie & Julia. Sinceramente, duvidei. Ainda assim, aceitei a sugestão, afinal meu marido até agora nunca me decepcionou quanto à opinião sobre um filme. A favor dele ainda havia o fato de Julia ser interpretada por Meryl Streep, uma de minhas atrizes favoritas.


Trouxe o filme para minha casa. Olhei para aquelas duas mulheres da capa. Além de Meryl Streep, a jovem que interpreta Julie, Amy Adams, pareceu-me simpática. Mal sabia que dali a instantes descobriria que, além de atriz talentosa, a italianinha contaria uma história tão próxima a mim.

O filme narra a história de duas mulheres, Julia Child e Julie Powell, separadas no tempo por mais de 40 anos. Ambas decidiram, através da culinária, transformar suas vidas.

A verdadeira Julie Powell

Motivada pela história de persistência de Julia, Julie, que aos 29 anos acredita não ter conseguido alcançar sucesso na vida profissional, decide investir no antigo sonho de se tornar escritora. Graças à sua admiração por Julia, ela escolhe se debruçar na arte de cozinhar, preparando inúmeras receitas ensinadas por esta. O marido de Julie, Eric (Chris Messina) a incentiva a postar todas as suas impressões em um blog.

Nem é preciso dizer que me identifiquei de cara. Não que eu cozinhe bem, ao contrário. Meu negócio é comer, mesmo. Mas as sensações da vida de Julie, os questionamentos que se faz, as dúvidas e angústias sobre seu papel no mundo e seu desejo de realizar um sonho na vida profissional, traduzem claramente momentos vividos por todas nós.

Julie (Amy Adams) e o marido Eric (Chris Messina)

Obviamente, meu marido sabia que eu me identificaria. Ri ao lembrar o sorriso que ele tinha no rosto enquanto me ofereceu o DVD. O olhar era o que ele sempre tem quando esconde uma intenção mais profunda do que parece, por trás de algum gesto.

Assistindo ao filme passei a pensar no quanto a comida nos une. É ao redor da mesa que nos reunimos aos familiares, aos amigos e colegas de trabalho. Sentado à mesa, comendo, qualquer um de nós, provavelmente, já teve momentos emocionantes, engraçados e felizes que guardará para toda vida.

O prazer de comer é muito mais importante do que a maioria de nós imagina. Quando um ser humano perde, por algum motivo, a capacidade de mastigar e degustar os alimentos, ele sofre profundamente, ainda que não seja um apreciador voraz da boa mesa. Mesmo que a nutrição seja feita de forma eficiente por métodos diversos, seu corpo passa a definhar, pois emocionalmente o prazer que existe no ato de comer não pode ser substituído.

Família no Butão, que dizem ser o país mais feliz do mundo

Mas o filme não agradou apenas meu paladar, ao imaginar o sabor daquelas receitas. Ele me fez pensar em nós, mulheres, e nos diálogos dos quais participamos, voluntariamente ou não, em volta da mesa. Muitas vezes, é neste cenário que os familiares nos fazem aquelas cobranças típicas de quando nos aproximamos dos 30 anos. Se solteiras, perguntam quando arranjaremos um namorado para casarmos. Se casadas, quando teremos filhos.

E quantas vezes com a boca cheia tentamos calar aquela insuportável cobradora interna? Aquela que atira na nossa cara o fracasso de ainda não havermos conseguido a casa própria, o carro do ano, o homem perfeito e, em alguns casos, os filhos lindos, dignos do comercial da Jhonson’s, que imaginamos ou que imaginaram para nós?

Quem de nós nunca usou a comida como remédio para curar a dor, mesmo sabendo que ela é muito mais saborosa quando usada como desculpa para um momento de comunhão?

É isso: o filme fala da condição humana que nos leva a desejar a satisfação de nossas necessidades físicas e emocionais, de preferência com algum prazer. E isso inclui comida, amor, sexo, amizade e família. Mas “Julie e Julia” fala, especialmente, da condição feminina.

Nossas escolhas podem nos levar a morar em subúrbios, a torcer para que o mês acabe antes do salário, a passar vontade diante daquele vestido da vitrine... mas também nos levam a trilhar caminhos nos quais encontramos pessoas que nos mostram que vale a pena. Vale a pena escolher experimentar, escolher se transformar e trabalhar para isso. Vale a pena desenterrar o próprio talento e, sobretudo, escolher ser leal aos próprios sentimentos.

Uniram-se neste filme duas condições que me compõem. A de ser mulher e a de ser aspirante a escritora. E, mais ainda: de revelar sentimentos e reflexões profundas escrevendo.

Precisei reunir coragem para contar a pessoas cujos rostos talvez eu nunca veja, minha história, meus medos, anseios, dúvidas, tristezas e alegrias. Mas, saber que todas partilham sensações e sentimentos semelhantes diante das inúmeras situações da vida, é algo incrivelmente prazeroso e compensador.

Vendo o filme também refleti sobre o fato de que ser mulher não nos garante sensibilidade. Esta vem da alma, não tem a ver com gênero. Erra quem assiste ao filme e acha que só as mulheres são as grandes estrelas. Os homens ao lado de Julia e de Julie, Paul Child e Eric Powell (interpretados pelos atores Stanley Tucci e Chris Messina, respectivamente) são fascinantes. Doces, amáveis, sensíveis, companheiros no sentido profundo da palavra. Seus personagens definitivamente não merecem ser chamados de secundários. Pessoas assim são, na realidade, essenciais na vida de uma mulher.

Stanley Tucci e Meryl Streep

E, seria injustiça da minha parte esquecer que, como citei no começo deste texto, foi graças a um homem que assisti à bela história de Julie e Julia. Mas antes mesmo da cena da locadora de DVDs, foi por causa da insistência deste homem que resolvi desenterrar meu sonho de escrever. Por sugestão dele criei um blog e publiquei meus escritos. E também foi ele quem deu a ideia de escrever o que senti ao ver o filme.

Sim, foi graças à sensibilidade masculina que criei coragem de me expor através da escrita. E, com isso, me permiti sentir uma satisfação ímpar. Sem ter do que me envergonhar. Sem medo.

Obs.: Texto publicado originalmente no blog Poesia Cotidiana, em 29 de janeiro de 2011 e reescrito para este espaço.


segunda-feira, 21 de julho de 2014

O poeta no olho da rua


Márcio Calafiori

Alex Sakai foi o primeiro poeta de verdade que conheci. Era 1983 e eu tinha acabado de entrar na faculdade de comunicação. Não faz tanto tempo assim, mas a mudança a partir da internet foi tão visceral que parece que estou falando do século retrasado. O fato é que em 1983 ainda olhávamos para um escritor com espanto e reverência. A faculdade promovia concursos literários, havia gente que rodava revistinhas alternativas e poetas que vendiam versos mimeografados na rua, de bar em bar. 

A Coleção Picaré publicou obras de 11 poetas de Santos
na década de 80. Entre eles, Alex Sakai

A revista Mirante, do Valdir Alvarenga, sobrevive até hoje nos moldes desse conceito alternativo. Em suma, no início dos anos 1980 achávamos que a arte ainda era capaz de mudar o mundo ou pelo menos influenciá-lo. Talvez fôssemos jovens demais, mas a missão dos jovens é acreditar.

Sakai tinha a aura do poeta, era o próprio poeta em carne e osso. Ao depará-lo, de pronto me vinha a imagem categórica de algum bardo romântico sobre o qual eu lera nos livros e me assombrara a imaginação. Acompanhei os preparativos de Caosurbanocromia, que completa agora trinta anos. 

Influenciado pelo surrealismo, Alex Sakai cercou o livro de dimensões. Não bastava a palavra impressa no papel, o que para mim já seria um feito. Não, era preciso mais. No bar ao lado da Faculdade de Comunicação de Santos, um tanto quanto performático ao falar da obra que ainda estava na gaveta, Sakai irradiava energia conceitual: “Caosurbanocromia é a dimensão anárquica da matéria onírica.” Mesmo numa conversa casual, ele falava exatamente assim. 


Três décadas depois, Caosurbanocromia permanece como um clássico absoluto desse período em que era importante ser poeta. Mas pensando bem esse sentimento talvez não passasse de mera ilusão. Em dezembro de 1984 — pouco de um mês depois de ter feito o lançamento de Caosurbanocromia na Associação dos Médicos de Santos —, Sakai promoveu uma nova estreia do livro, dessa vez no Torto. Quase ninguém apareceu. O bar tinha um slogan: “Fique torto. Você tem direito.” 

Frustrados, os poucos amigos que compareceram ao evento ficaram tortos demais — pois tinham direito —, mas foram devidamente postos no olho da rua, incluindo o próprio poeta e os exemplares da obra.

P.S. — O poeta Alex Sakai estará em Santos no próximo dia 24 de julho para comemorar os trinta anos de Caosurbanocromia. O evento será no Teatro do Cais, às 20h30. O endereço é avenida Rangel Pestana, 150, na Vila Mathias. 

sábado, 19 de julho de 2014

Rubem, do telão à jabuticabeira

Marcus Vinicius Batista

Soube que ele estava doente há quatro dias. A notícia era cuidadosa, mas os anos de profissão te ensinam que o tom mora nas entrelinhas dos fatos. Tive aquela sensação de que a notícia seguinte seria definitiva.

Quando retornei no final da tarde, li – sem a escolha do adiamento que as redes sociais não permitem – as homenagens à morte dele. A postagem vinha de uma amiga que há dias publicava citações dele. Parecia prever o pior. 




Sujeitos importantes, ao morrerem, nos conduzem a uma reflexão imediata: o dia em que os conhecemos ou os ouvimos falar dele pela primeira vez. Com Rubem Alves, cheguei a um meio-termo. Já tinha ouvido falar dele, mas não o conheci naquela noite de 1999. Apenas o vi ... por um telão.

Era um jornalista com meia dúzia de anos de estrada. Cobria diversos assuntos numa emissora de TV, mas começava a me especializar em educação. Canalizava o dia a dia do tema para o meu trabalho, sem saber que educação me renderia um mestrado e 11 anos como professor.

Naquela noite, em 1999, eu era também um aluno de segundo ano de História. Fazia a segunda faculdade de olho em um Jornalismo melhor, sem prever que a docência me invadiria como o futuro do século que se aproximava.

Rubem Alves era um ícone da educação no país e a principal atração da Fafiana, extinta e saudosa semana acadêmica dos cursos de licenciatura da Universidade Católica de Santos. Foi um ano inesquecível, que envolveu palestra do antropólogo Roberto da Matta e outros estudiosos importantes. Todos dispostos a compartilhar experiência e conhecimento no velho auditório atrás do casarão da rua Euclides da Cunha, na Pompéia. O extinto prédio da Fafis.

Por conta das atividades jornalísticas, cheguei meia hora atrasado. Rubem Alves também. Ninguém imaginava que a noite seria de show de rock. Auditório para 400 pessoas lotado uma hora antes do evento. Dois telões, um em cada lado da rua para acompanhar a palestra. Tive que assisti-lo no prédio da Facos, do outro lado e hoje substituído por um espigão pós-moderno. Fiquei encostado em uma das pilastras do pátio lotado e tive uma das melhores aulas daquela vida universitária.

Suas palavras escritas e ditas me empurraram, ao longo dos anos, para a compreensão absoluta de que a educação necessita da perspectiva humana, mais do que estatísticas, rankings, conceitos de autoajuda, métodos de gurus corporativos e políticas de ocasião. Quando me tornei professor, ler Rubem Alves também me amparou para assimilar que a academia deve ser vista e vivida com a distância segura, com a proteção contra a burocracia, a pequenez e a mesquinharia de quem utiliza a ciência e a docência como enfeites de poder.

Rubem Alves me mostrou, assim como Contardo Calligaris me disse numa entrevista, que a academia pode ser aquela torre inalcançável e mal lida por cinco, seis pares. E que os mesmos conceitos podem ser difundidos e ensinados de formas mais simples e populares, como reza qualquer cartilha progressista de educação.

O rumo inevitável desta postura – adotada por ele e mal traçada por mim – é o flerte com a poesia, com a observação inerente do cronista que transpira personagens urbanos e seus lugares pelos detalhes. Nunca mais esqueci do texto publicado na revista Educação, no qual Rubem Alves fala da urgência da pessoas fazerem cursos de Escutatória, em troca das tradicionais aulas de oratória. Essencial em uma época em que muitos falam, poucos dizem e quase todos fotografam a si mesmos. 


Um livro a ser descoberto
Doze anos depois da noite do telão, eu – como professor da mesma universidade onde me formei – entrei em sala de aula para dialogar com minhas alunas da Terceira Idade. Assim que coloquei minha mochila na mesa, uma das alunas chegou perto de mim e me disse: 

— Professor, trouxe um presente para você!

— Puxa, obrigado, o que é?

— Um livro. Eu acabei de ler e achei que tinha a ver com você.

A obra era de Rubem Alves. O título: Do universo à jabuticaba.

Agradeci de maneira educada e pensei que não poderia haver maior elogio para o curso que dava naquele semestre. Levei-o para casa e – confesso – coloquei-o na pilha das obras a serem devoradas.

Talvez seja a hora de dizer obrigado ao Rubem, descobrindo para que servem certas frutas.


Julia, a velha dura


Beth Soares


Julia agora é velha. Completou 80 anos há alguns dias. Não teve festa. Faltavam motivos para comemorar. Não se lembrava de algum dia haver se sentido tão só. Nem quando enviuvou, aos 25 anos. Decidiu não mais se casar ou sequer namorar novamente. Foram tantas surras que ela achou melhor assim. Sem filhos, dedicou-se à irmã temporã que, na época da morte do marido de Julia, era recém-nascida. Doou a essa criança seu tempo, sua herança e seu amor. Ajudou-a a se criar e criar suas filhas. E lá se foram 50 anos.



No mês passado, Julia se sentiu cansada. Não só aquele cansaço metafórico, natural da vida, mas o literal. Descobriu uma doença cardíaca grave, sem chance de cirurgia ou algo que se assemelhe à cura. Não sairia ilesa. Chamou três de suas amigas e se despediu. As três mulheres, assim como a família de Julia, acreditaram que era o fim: apenas mais algumas horas na Terra; no máximo, alguns dias.

As sobrinhas de Julia, filhas de sua irmã temporã, aparentemente dedicadas, estavam também conformadas. Informaram às amigas da idosa que não queriam que ela fosse para uma clínica. Preferiam que passasse os últimos dias em casa.

Julia, contrariando o desfecho desenhado pelo misto de medo e ansiedade dos que a cercavam, decidiu continuar viva.

Mas as amigas, embora tentassem, não conseguiam mais visitá-la. Sempre havia uma desculpa ensaiada pela irmã de Julia, do outro lado da linha: num dia Julia estava muito enfraquecida. No outro, longe do telefone. No seguinte, estava dormindo...

As amigas perceberam que as ligações irritavam a irmã e as filhas dela. Descobriram que outros familiares receberam as mesmas desculpas. Infelizmente, outras descobertas surgiram. Julia juntara durante anos uma pequena fortuna – se tomarmos como base sua renda mensal: um salário mínimo - , para pagar velório e caixão. Em poucos dias, R$ 6 mil haviam escoado em roupas de grifes femininas, salões de beleza, sapatos, restaurantes caros e um mundo de frivolidades. 



Julia, acomodada no sofá da sala, tão velho quanto ela, não apreciou nenhuma dessas regalias. Doeu nela. E quem tinha por ela real apreço também lamentou. Foi uma espécie de morte, ainda em vida.

A que ponto pode chegar a necessidade de consumir? Um desejo tão forte, tão urgente, que soterra relações aparentemente profundas, laços antigos, vínculos que até aquele momento haviam resistido a tantas e tantas tempestades ao longo de uma vida.

Não desejo com esta história contribuir com a ideia simplória de que idosos prescindem do mesmo tratamento dado a uma criança. Infantilizá-los é o cúmulo do desrespeito à sua dignidade. É idiotizá-los. E também não acho que todos se tornaram santos porque viveram muito. O jovem mal-humorado, se não quiser se transformar ao longo da vida, vai ser o idoso mal-humorado, pois os comportamentos tendem a se acentuar com o passar dos anos. Com o jovem bonachão, com o mau-caráter, o espirituoso, o agressivo, o contemporizador, o egoísta, o protetor ou o superficial, acontecerá o mesmo. 




Quando conto a história de Julia, quero pensar no valor das relações de raízes profundas, construídas e cultivadas por longos anos, e no seu contraponto: o que o sociólogo polonês Zygmunt Bauman chama de “modernidade líquida”. Nela, as relações são extremamente suscetíveis às pressões e, assim como os líquidos, não conseguem manter a forma por muito tempo, sendo impedidas - pela sua própria dinâmica de obsessão apenas pelo prazer imediato - de se solidificarem.

Julia viu a irmã e as sobrinhas liquefeitas. Quando submetidas à pressão do luto iminente, da possibilidade de não mais ter nenhum dos benefícios trazidos pela existência dela, se agarraram ao prazer momentâneo que Julia poderia ainda oferecer-lhes: o dinheiro, passaporte para a satisfação individual, o consumo. Foi uma reação automática apertar o botão para desligar a censura, a culpa. Nada valeu mais que o próprio bem-estar, a própria felicidade, ainda que fugaz.

A velha Julia desistiu de morrer, só para assistir ao mundo ser diluído. Agora, ela está um pouco mais firme. E bem mais dura. No bolso e no coração.


terça-feira, 8 de julho de 2014

Entre a senzala e o castelo

Beth Soares


Sempre achei que com quase 30 anos as pessoas estariam mais prontas para o amor. Cheguei lá e já não tenho tanta certeza assim. Maturidade no amor talvez não tenha relação com o número de aniversários ou de namorados que se teve, mas com a maneira de lidar com cada experiência. Não é fácil porque não existem receitas contendo um modo de fazer que garanta felicidade. E estamos sempre aprendendo.

Já tive amores que me fizeram sentir uma escrava. E rompi. Rompi porque descobri que o amor, para valer a pena, precisa contribuir para humanizar, fortalecer pessoas, engrandecê-las. E a escravidão enfraquece, desumaniza, diminui e, em casos extremos, aniquila. Ninguém é tão fraco que mereça ser anulado. A servidão não me atrai.

Outros amores me fizeram sentir como uma rainha. Tinha a atenção primordial, a soberania. E também rompi. Constatei que dominar é pesado. Ver alguém dependendo de suas iniciativas, atitudes e raciocínios, no fundo, é muito triste. Dói perceber que você não contribui para o crescimento desta pessoa, mas para sua fragilidade. Ninguém é tão forte para suportar o peso da culpa de aleijar o outro para o mundo e depois ter que carregá-lo nas costas a vida toda. O domínio já não me seduz.



Ser colocada no mesmo patamar que o amado, traz insegurança para a escrava. Ela se pergunta se vai conseguir satisfazer a todas as suas expectativas. A mesma insegurança sente a rainha, quando vê seu amado colocá-la num plano semelhante ao das outras dezenas de pessoas que fazem parte da vida dele. A questão para ela é se vai conseguir um espaço em seu mundo para compartilhar planos, segredos, sonhos e aspirações.

Olhei para um lado e descobri que a escrava perdeu o abrigo confortável dado por seu senhor e não será mais protegida. Olhei para outro e descobri que a rainha perdeu o trono dado por seu súdito e não será mais celebrada como figura central. Olhei para dentro e percebi que, embora sinta falta dos benefícios da tutela e da coroa, essas posições nunca me fizeram feliz. E eu escolhi abrir mão delas.

Olhando para trás, vejo que havia criado uma fantasia: idealizei o relacionamento amoroso como algo romântico... e utópico. Achava que ele só geraria benefícios como paz e tranqüilidade. Mas somos feitos de carne, osso e milhares de sentimentos e emoções. Não seria humano viver somente este amor ideal. As relações estão sempre permeadas de egoísmo, orgulho, ciúmes... Mas também de respeito, compreensão, carinho, tolerância...


Percebi que relacionamentos podem ser fonte de inspiração, aprendizado e alegria. Mas também entendi que não dá para ser só isso o tempo todo. Muitas vezes a pessoa que amo vai me inquietar. Às vezes vai me deixar insatisfeita, ansiosa, insegura, com saudade... e isso tudo vai doer. Mas faz parte da construção do amor.

Não sei se o amor sabe distinguir maturidade e imaturidade, tampouco se precisa escolher um dos dois lados para ficar. Sei é que nem sempre os caminhos que resultam das nossas escolhas são exatamente do jeito que esperávamos. Ninguém opta por sofrer, no entanto, todos acabam recebendo sua dose de sofrimento. Aprender a amar requer de cada um algum sacrifício. O meu é demolir, com as próprias mãos, a senzala e o castelo.