segunda-feira, 26 de maio de 2014

Adeus ao jardineiro


Quando entrei na garagem do prédio, o lugar estava vazio. Mas a obra mais recente de Reginaldo de Oliveira falava por ele. Quinze vasos descansavam pelas laterais da garagem. Eram cinco espécies diferentes de plantas. Alguns vasos foram decorados por pedras brancas. Outros, com sapos de madeira, atraíam a atenção das crianças do prédio, meu filho incluído.

Todos os vasos foram pintados de branco, a mão, por Reginaldo. Durante os meses de trabalho, ele reclamava sempre de duas coisas. Reginaldo se queixava de ter escolhido errado a tinta para os vasos suspensos na parede. Teve que pintá-los quatro vezes, mas – assim como os outros materiais – as tintas eram fruto de doações do comércio no bairro. Cabia a ele resolver o problema.

Aposentado da Codesp há mais de uma década, Reginaldo também protestava contra o comportamento de muitos moradores da região onde morava, a avenida Pedro Lessa, perto da faixa portuária, em Santos. “O pessoal joga muito lixo, móveis, no canteiro central”, repetia sempre que eu elogiava os vasos.

Decorar a garagem significava uma reação previsível de Reginaldo. Para evitar brigas, mudar de lugar era o caminho para a vivência em paz. Ele ficou famoso na Ponta da Praia pela mudança no cenário onde vivia. Incomodado com a sujeira e o quadro cinzento de um trecho de três quadras da avenida Pedro Lessa, o aposentado (e paisagista amador) replantou todo o canteiro central.

A rotina de jardineiro se transformou em crônica nesta coluna de jornal. A história chamou a atenção da TV Tribuna. A TV o elevou à condição de celebridade local e garantiu mais estrutura para o projeto dele. Reginaldo pouco se importava com a fama instantânea. Estava contente com as doações dos comerciantes.

Terra, mudas, ferramentas, madeira para o cercado protetor das plantas, material suficiente para dobrar a área do replantio. Um vizinho, solidário à causa, virou auxiliar de jardinagem.

Ser conhecido não alterou nossas conversas. Sempre me recebia na garagem com diálogos sobre o clima. Rendeu-me outra crônica, “O Guarda-tempo”. Além de meteorologista de garagem, com o perdão do trocadilho, ele passava as manhãs e tardes no prédio. Trabalhava na redecoração do lugar – decepcionado com a volta do lixo ao canteiro central da avenida – ou puxava conversa com visitantes e vizinhos.

Quando a garagem o entediava, Reginaldo se sentava na Padaria Barcelona, a cem metros de casa, na esquina da própria Pedro Lessa com a rua Cypriano Barata. Largara a cerveja há três anos. Só o cigarro o vencia várias vezes ao dia.

Na última quarta-feira, o aposentado-paisagista estava sentado numa cadeira vermelha de plástico, do lado de fora da padaria. Às 17h20, dois rapazes chegaram de bicicleta, encostaram na calçada e perguntaram por ele. A dupla mencionou o apelido “Pisa”, que Reginaldo ganhara por conta de uma pequena cirurgia que o fazia temporariamente mancar.

Assim que Reginaldo se identificou, um dos rapazes fez quatro disparos. Dois tiros atingiram a parede. Outros dois feriram o aposentado. O motivo da violência é desconhecido. Enquanto a dupla fugia em direção ao cais, Reginaldo viajava de ambulância para a Santa Casa de Santos. Morreu na mesa de cirurgia, após duas paradas cardíacas.

Na quinta-feira, um cartaz indicava o luto na padaria. Outro cartaz anunciava a venda do ponto. Quando entrei no prédio onde Reginaldo morava para buscar meu filho, a garagem estava tão cheia quanto vazia.

Não havia alguém que me perguntasse sobre o sol, o frio, ou a chance de chover. Mas os vasos estavam em seus postos, vivos para me dizer que eram a obra de Reginaldo de Oliveira, um jardineiro de 65 anos que não pode virar mais um número nas estatísticas de insegurança.

Obs.: Nas demais crônicas, alterei o nome de Reginaldo por conta da timidez dele. Outra crônica foi O Jardineiro Fiel, publicada originalmente no site Culturalmente Santista. 

terça-feira, 13 de maio de 2014

Despedida


Este é último texto da série, iniciada em fevereiro deste ano. Foram 17 crônicas de Dona Zuleica e, como encerramento, a homenagem de uma antiga amiga. 

Dona Zuleica, a vovó Zuzu

Daisy Simões

De todo o amor que eu tenho
Metade foi tu que me deu
Salvando minh'alma da vida
Sorrindo e fazendo o meu eu

Se queres partir ir embora
Me olha da onde estiver
Que eu vou te mostrar que eu to pronta
Me colha madura do pé

Salve, salve essa Zuzu
Que axé ela tem
Te carrego no colo e te dou minha mão
Minha vida depende só do teu encanto
Zuleica, Minha mãe pode ir tranquila
Teu rebanho tá pronto

Teu olho que brilha e não para
Tuas mãos de fazer tudo e até
A vida que chamo de minha
Zuleica, minha Mãe, te encontro na fé

Me mostre um caminho agora
Um jeito de estar sem você
O apego não quer ir embora
Uai, ele tem que querer

Ó meu pai do céu, limpe tudo aí
Vai chegar a minha Zuzu
Precisando dormir
Quando ela chegar
Tu me faça um favor
Dê um manto a ela, que ela me benze aonde eu for

O fardo pesado que levas
Deságua na força que tens
Teu lar é no reino divino
Limpinho cheirando alecrim

Certa vez um velho amigo me disse que a orfandade é dolorosa e injusta em qualquer idade. Mães não deveriam morrer. Sempre me lembro dessas palavras quando vejo ir embora uma mãe tão dedicada e cuidadosa, que viveu para a família.
Minha amiga Zuleica, de tantos anos e confidências, partiu esta semana, deixando comovidos todos os seus familiares e amigos.

Compreendo que nada será como antes, já que os filhos não mais poderão recorrer aos ensinamentos e abraços calorosos. Mas será possível sim preencher o vazio do coração com as lembranças lindas que ela deixou. As pessoas partem, mas as suas histórias ficam. E Zuleica, que adorava livros e filmes, que se encantava com belas histórias, também deixou a sua muito bem escrita.

terça-feira, 6 de maio de 2014

O último capítulo de uma mãe


Caro leitor, este é o 17º e penúltimo texto da série de crônicas escritas por minha mãe. Na verdade, é o último texto dela, pois ainda falta publicar uma crônica escrita por uma amiga. O título é propositalmente ambíguo. Tenta simbolizar o último texto dela, mas também o último relato que Dona Zuleica escreveu sobre a mãe dela.

Zuleica Maria de O.A.Batista

Agora, se vocês tiverem um pouco de paciência, vou contar o acontecido quando aqui chegamos. Consegui colocá-la (a mãe, Norvina) como dependente em meu plano de saúde e ficamos só aguardando a carência de um mês para providenciar a ida dela ao médico.

Durante este período, mamãe não teve nenhuma crise de vesícula, estava bem e parecia super feliz. Acho que a companhia dos netos e da bisneta estava lhe fazendo muito bem. Costurava quase todos os dias na parte da tarde e já falava em passar o Natal e réveillon por aqui. Mas a realidade foi outra e sei que o momento também já passou, mas quero relatar mais ou menos o que ocorreu. Só peço um pouco mais do seu tempo.

No começo de outubro de 2008, ela fez a consulta com o médico cirurgião daqui (Santos/SP), que pediu uma série de exames pré-operatórios, inclusive que passasse em um cardiologista para ver como estava o coração e, então, operar. Ela consultou também uma ginecologista, que indicou a retirada do útero, pois havia sangramento uterino desde fevereiro. Ela vinha escondendo de mim.

Bom, feito todos os exames e entregues em 12 de dezembro de 2008, o tal cirurgião não tinha data na agenda, e a cirurgia ficou para janeiro de 2009. Aguardar então.

Em 22 de dezembro de 2008, mamãe passou mal, teve uma queda violenta de pressão, não dizia coisa com coisa, e a levamos para a Santa Casa de Santos, onde ficou internada quase dois meses, exatamente 56 dias.

Internou-se com um quadro clínico indefinido. O coração estava muito fraco, aí surgiu um coagulo no pulmão, fora a hemorragia uterina que ela vinha escondendo e mais a febre diária por causa de uma infecção urinária que exigiu mais de 15 dias de tratamento com antibióticos fortíssimos.

Em todo esse período, sempre estive muito tranquila. Em nenhum momento pensei o pior, pois testemunhava toda a assistência médica que ela vinha tendo. Só que as complicações foram tantas, que costumo dizer que virou um “samba de crioulo doido”.

Quanto à cirurgia da vesícula, o médico não quis operar por causa da febre constante e também o coração, que não ajudava, estava muito fraco.

Por isto tudo, passamos o Natal e réveillon no hospital, mas graças a Deus na quarta-feira antes do Carnaval, o médico deu alta a ela e voltamos para casa. Dona Norvina ficou muito feliz e todos nós, aqui de casa, é claro. Até parece que íamos cair na folia.

Mesmo com alta e em casa com a família, sentia que mamãe não tinha melhorado quase nada, apesar de ter mudado de ambiente. Ela estava contente, mas dizia se cansada. Ficava só na cama, não queria se movimentar e apresentava comportamento muito arredio. Acho que muitos dias hospitalizados contribuíram para uma pequena confusão mental. Às vezes, não dizia coisa com coisa.

Tomava uma batelada de remédios que só piorava o estômago, pois não se alimentava direito e, com isto, me deixava muito preocupada.

Em 6 de março de 2009, o último dia de vida, ela estava ótima. Passeou no corredor com o Ramos, aliás, toda manhã ela andava um pouquinho no corredor com ele. Almoçou bem, quis comer peixe com molho de camarão, que providenciei. E lá pelas 17h ainda tomou lanche com o Marcus Vinicius, que se despediu dela e foi trabalhar.

Às 19h30, mais ou menos quando o Ramos chegou, fui até o quarto chamá-la para jantar conosco e encontrei minha querida e amada mãe morta.

Foi a vontade DELE, não a minha. Estou em lágrimas e muito emocionada.

Tenho que admitir, aceitar e reconhecer que a mamãe morreu como muitos idosos morrem: um probleminha no pulmão aqui, outro no rim ali, e depois aparece uma infecção, um sangramento, e o coração não está mais tão bem. Não foi um problema só, foi a somatória de uma série de problemas em órgãos vitais que acabaram levando-a à morte.

É difícil dizer, mas o mais importante é que isto ocorreu de forma indolor, em casa, cercada dos entes mais queridos, em silêncio e em paz, com dignidade e respeito. Este tipo de morte tem acontecido cada vez menos, e é uma pena que seja assim.

A morte é e sempre será para nós um mistério. Não conseguimos entender, parece um absurdo que ela tenha de ocorrer e nossa cultura não favorece a aceitação dela, pois vivemos evitando a todo custo pensar e falar deste momento, que é o destino final de todos nós.

Quatro meses já se passaram e ainda está muito difícil falar sobre isso sem chorar. Não consigo deter as lágrimas. Acho que é a revolta natural do "por que comigo?"

Fui posta a esta dura prova e não sei ainda como conseguir sobreviver. Sinto que depois dessa separação, nunca mais serei a mesma. Tenho andado meio fora de órbita, sentindo-me tipo nau sem rumo, sabe como é? Mas estou lutando bravamente, tentando retornar a rotina, procurando aceitar o inaceitável e não ser infeliz demais.

Sei que este é um momento só meu e que é preciso um tempo para me acostumar a essa separação, porque o vínculo e os laços ficarão para sempre. Talvez seja o que mais tenhamos de verdadeiro nesta passagem tão precária: as lembranças e a saudade.

Sei também que isto tudo é normal e que estou fazendo as coisas da forma certa, ou seja, não negando o sofrimento e procurando enfrentá-lo, transformando-o em uma vivência que faz parte da vida de todos nós e que necessariamente nos fortalece.

Nossa! Desculpe-me se alonguei demais, mas este desassossego me levou a escrever, expondo com extrema sinceridade o que sinto, preenchendo assim este meu momento de tristeza, desabafando e compartilhando com vocês minha dor.

Estou com os olhos marejados. Penso sempre em todos vocês e no carinho que dedicaram à minha mãe. Relembro de cada telefonema de vocês quase que diários, durante a permanência dela aqui.

Obrigada! 

sábado, 3 de maio de 2014

O Planeta dos Macacos


Ao acordar, a estranheza começou quando ele passou a mão no rosto. A barba crescera muito rápido, assim como os cabelos. Olhou para o peito, tateou as pernas. A depilação da semana passada, com a nova técnica africana do momento, deveria ser charlatanismo. O sono transformou o deserto em matagal.



Ele se levantou, ainda no escuro, e caminhou até o banheiro. Acendeu a luz, encheu a privada. Os pelos também se multiplicaram. Sorrindo, pensou que, ao contrário do peito e das pernas, mais era sinal de masculinidade. O sorriso foi digerido instantaneamente quando se virou para o espelho. Não enxergava as bochechas. O queixo virara um rascunho. Ele virara um macaco.

Na cozinha, nenhum susto. Mãe e pai sacolejavam da bancada para a mesa, da mesa para o armário. Saltavam com pressa, descascavam bananas. Enquanto o pai as picava e batia com leite no liquidificador, a mãe misturava a outra parte com aveia, produzindo aquela maçaroca calórica idolatrada pelo filho único.

O garoto, na faixa dos 18 anos, não entendia as mudanças. Recorreu ao clichê do sonho. E nada. Lembrou-se da campanha publicitária da escola de inglês, na qual os pais de um rapaz igual a ele se tornaram gringos. Procurou por câmeras. Pegadinha? Nada, o sotaque interiorano da mãe continuava, e em português. Apenas uma ligeira alteração no tom, talvez por ser símia. Era muito cedo para estar chapado. No meio da semana, não cogitava ressaca.

Sem convicção da novidade, ele se despediu dos pais e foi para a rua. Chegaria em cima da hora no emprego e lá pisaria em ovos para ser invisível aos chefes. Sentia-se perseguido por suas posições políticas, boa parte construídas pelas leituras obrigatórias – e hoje livres – em seis meses de faculdade.

Ele batia no peito e sorria de canto de boca quando conseguia irritar colegas ou superiores. Enxergava neles micos amestrados, com correntes coloridas em seus pescoços e os desenhava mentalmente sendo puxados ora por piratas, ora por velhinhos com realejos. Na falta de um periquito, o mico tira a promessa de sorte grande.



O ônibus encostou na calçada na hora de sempre. Lotado a ponto de deixar visível apenas o último degrau. Pulo nele e se espremeu na porta, o que sufocava as dores que a mochila provocava nas costas.

Colocou os óculos escuros sobre a cabeça e percorreu com os olhos aquelas amontoadas como gado rumo ao abate. Hoje não, bois e vacas eram chimpanzés e orangotangos. Os chimpanzés estavam pendurados nos canos gélidos de metal, rostos multiplicados por tédio e cansaço. Pipocavam, na rotina, de uma jaula para outra, da casa para o trabalho, inseguros com a violência de primatas mais fortes, temerosos de perder a vaga nos galhos balançantes das árvores.

Os orangotangos exalavam o tempo de cativeiro. Sentados em bancos inapropriados para qualquer espécie, grudavam as faces no vidro, catatônicos diante de uma paisagem repetitiva, resignados por – dali a pouco tempo – ter que macaquear velhos números para os visitantes de sempre.

Os orangotangos do corredor chacoalhavam sem motivo, que antecipava o piloto automático de várias horas de caminhada sem sair do lugar até o final do expediente. O balanço seria retomado na viagem de volta, que lembrava a peregrinação de ancestrais, acorrentados e vendidos por gorilas negociantes a qualquer preço, menos o da fruta preferida.

Gorila também era seu chefe direto. Respeito pela força, admiração pelo temor, educação pela violência poderiam ser lemas gravados em plaquinha ao lado das imagens dos fundadores, micos-leões-dourados quase extintos. 



Na linguagem da selva, os dourados representavam a delicadeza de tempos poéticos. Hoje, obsoletas lembranças substituídas pela truculência, produtividade e velocidade. Os livros assim disseram, regurgitava o jovem macaco.

Os devaneios revolucionários apagavam, a cada palavra, a surpresa da metamorfose. Ou ressuscitariam uma nova criação? A chama reduzida a cinzas indicava um novo capítulo darwinista? Pensou em Franz Kafka, mas não se sentiu moralmente um inseto. Percebia-se um igual, item de cardápio padronizado em praça de alimentação.

Ser um igual poderia lhe conceder benefícios. Sem discriminação no trabalho, sem olhares tortos de professores e colegas mimados à banana-ouro. A uniformidade era salvo-conduto para pensar o que quisesse e defender, de vez em quando, suas rebeliões. Dependia só da embalagem.

Quando chegou na empresa, a cabeça avoada quase o fez perder o elevador. Travou a porta com o braço e, esbaforido, ocupou um canto da caixa. Olhos para os lados e nunca se sentiu tão acolhido, tão parecido com um macaco.

Desceu no 16º andar, virou à direita, balançou a cabeça para a recepcionista – para ele, sempre no cio – e foi para a máquina de ponto. Não notou que era um novo equipamento, adaptado para coletar a digital de seu polegar limitado.

Cruzou o corredor cercado de baias, onde fêmeas e machos davam a impressão para um novato que dialogavam entre si. Ele não se encaixava, era um veterano de dois meses. Fazia isso oito horas por dia. Atendia espécimes reclamões, bichos que não sabiam apertar os botões certos de brinquedinhos novos financiados em 12 parcelas.

Ele se sentou satisfeito com a nova flexibilidade do corpo. Ligou o computador enquanto conectava o celular à Internet. A primeira imagem era de seu ídolo, que segurava algo nas mãos ao lado do filho. O garoto-macaco via mudanças nas feições do jogador de futebol. Não conhecia detectar a diferença da imagem.

Ele compreendeu o que o ídolo carregava ao ler o título da mensagem: “somos todos macacos”. Desconfiou quando traduziu o objeto. Por que uma banana? Por que seriam todos macacos se ninguém se identificava assim, mas como chimpanzés, orangotangos, micos e gorilas?

O rapaz respirou um pouco e concluiu: só poderia ser brincadeira. Mas o que ele queria com isso?, pensou. Talvez me vender alguma coisa. O garoto focou os olhos no computador, contou a lista de clientes a atender e empurrar novos pacotes de assinatura. Ao primeiro clique do mouse, telefonou para o primeiro chato do dia.

Quando o cliente atendeu, ele empacou. Qual seria a sua espécie, macaco?