terça-feira, 8 de abril de 2014

Carta aberta sobre minha mãe (Carta aos mineiros)


 Zuleica Maria de O.A.Batista


Olá,

Inicialmente quero dizer que esta carta é endereçada a você com cópias para outras pessoas igualmente especiais e queridas. É uma carta aberta, razão pela qual usarei o termo (vocês e/ou todos vocês).

E o motivo dela é agradecer o que fizeram pela mamãe, tia e amiga de vocês, durante o período de enormes dificuldades que ela enfrentou quando esteve hospitalizada aí em Luz (interior de Minas Gerais) com pancreatite. Na primeira vez, Ramos e eu estávamos presentes e pudemos acompanhá-la. Mas depois, quando já tínhamos vindo embora, foram mais dez dias no hospital.


Entrada da cidade de Luz, interior de Minas
Gerais, terra natal de Norvina e Zuleica

Graças a Deus, na época, tudo foi amenizado com a presença incansável de vocês que estiveram ao lado dela todos os dias, dando lhe carinho, sempre com uma palavra de conforto, transmitindo lhe serenidade e, ao mesmo tempo, dando-lhe muita força com energias positivas. Foi vital para ela receber estas energias.

Não tenho palavras para dizer o quanto vocês foram especiais e importantes na vida dela. Ela sempre falava de todos com muito carinho. Bom, é do conhecimento de todos vocês, mas gostaria de destacar a minha preocupação com mamãe morar sozinha em Luz, com 82 anos de idade, e estando com problemas de saúde. E, para completar, tem também a distância que dificultava e muito para dar uma assistência pontual.

Em agosto de 2008, quando estive ai em Luz e trouxe a mamãe para Santos com a finalidade de ela operar a vesícula, mamãe e eu fizemos um trato. Ela viria fazer a cirurgia em Santos e depois, já recuperada, eu a levaria de volta. Uma pena, cumpriu-se a vontade DELE, não a nossa.

Mesmo assim, quero enfatizar a importância da colaboração de todos, fazendo um trabalho de “formiguinhas”, para convencê-la a mudar de ideia e vir fazer a cirurgia em Santos. Vocês foram muitos solidários e sei que não tenho como pagar, mas em minhas orações peço por todos. Peço aos Anjos lá do Alto para abrirem as Asas e protegerem vocês, iluminando-os e enchendo-os de energia e de coisas boas.

Sei que o momento já passou, e não pretendo aqui justificar, mas quero dizer que mamãe estava bem e parecia superfeliz. Acho que a companhia dos netos e da bisneta estava lhe fazendo muito bem. Toda manhã ia à igreja aqui perto e na parte da tarde costurava. Estava sempre disposta, inclusive costurou para todos aqui de casa e falava em passar o Natal e Réveillon aqui. Chegou a comprar presentes de Natal para todos da família.

Infelizmente, a realidade foi outra.

Embora eu esteja sofrendo muito e com minha alma e coração inquietos, tenho que admitir e aceitar, acima de tudo, que a mamãe morreu como muitos idosos morrem: um probleminha no pulmão aqui, outro no rim ali, e depois aparece uma infecção, um sangramento, e o coração não está mais tão bem.

Não foi um problema só, foi a somatória de uma série de problemas que acabaram levando-a a morte. É difícil dizer, mas o mais importante é que isto ocorreu de forma indolor, em casa, cercada dos entes mais queridos, em silêncio e em paz, com dignidade e respeito.

Este tipo de morte tem acontecido cada vez menos, e é uma pena que seja assim. A morte é e sempre será para nós um mistério. Não conseguimos entender, parece um absurdo que ela tenha de ocorrer e nossa cultura não favorece a aceitação dela, pois vivemos evitando a todo custo pensar e falar deste momento que é o destino final de todos nós.

Apesar de saber que isso tudo é normal e que estou fazendo as coisas da forma certa, ou seja, não negando o sofrimento e procurando enfrentá-lo, transformando-o em uma vivência que faz parte da vida de todos nós e que necessariamente nos fortalece, ainda está muito difícil falar sobre isso sem chorar.

Dizem que pensar e falar na morte nos ajuda a viver melhor. Como tenho uma família maravilhosa e quero todos por perto e bem, há muita alegria ainda a ser vivida!!!

Quatro meses já se passaram. Fui posta a essa dura prova e não sei ainda como consegui sobreviver. Tenho andado meio fora de órbita, sentindo-me tipo nau sem rumo, sabe como é? Acho que é a revolta natural do “por que comigo?” Mas lutando bravamente para sair deste recolhimento sofrido, tentando reajustar as coisas, procurando aceitar o inaceitável e não ser infeliz demais.

É a circunstância que hora vivo. Um momento só meu e sei que é preciso um tempo para me acostumar a essa separação, porque o vínculo e os laços ficarão para sempre. Talvez seja o que mais tenhamos de verdadeiro nesta passagem tão precária: as lembranças e a saudade. Sinto que depois dessa (perda) separação, nunca mais serei a mesma.

Nossa! Desculpem-me se alonguei demais, desabafando e compartilhando com vocês minha dor. Mas este meu desassossego me levou a escrever, expondo com extrema sinceridade o que sinto, tentando assim suavizar este meu momento de tristeza.

Estou escrevendo (digitando) com os olhos marejados. Não consigo deter as lágrimas. Penso sempre em todos, relembrando cada telefonema de vocês quase que diários durante a permanência da mamãe aqui.

E novamente, quero reforçar meus agradecimentos. Obrigada pelo carinho que dedicaram à minha mamãe.

Finalizando, em coro com todos aqui de casa, dizer: como é bom lembrar-se das pessoas queridas e de boa alma. Saibam que amo todos vocês e quero que sejam muito felizes. Fiquem com Deus.

06 de julho de 2009.

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