terça-feira, 22 de abril de 2014

Os argumentos para viver


Caro leitor, este é o 17º texto da série de crônicas escritas por minha mãe, falecida em 23 de julho de 2013. Restam somente dois textos: um dela e outro sobre ela, escrita por uma amiga de longa data. 

Zuleica Maria de O.A.Batista

Eu, abaixo assinado, venho por meio deste, requerer permissão para viver alegremente por mais algum tempo.

Prometo recomeçar, como se fosse meu primeiro dia de vida e não fazer cobranças.

Prometo ter sempre em meus lábios palavras de amor para todos os que vivem ao meu lado.

Prometo ser sempre a alegria de minha casa, com o coração grande e nunca cansada, embora, às vezes, tenha ímpetos de chorar.

Prometo limpar, arrumar a casa, preparar as refeições, lavar e passar.

Prometo guardar minha língua a toda maldade.

Prometo cerrar meus ouvidos a toda calúnia.

Prometo reciclar o lixo, não usar sacolinhas de plástico e contribuir para a sustentabilidade do planeta.

Prometo me filiar ao PV (Partido Verde).

Prometo não cair na folia no Carnaval enquanto eu viver.

Prometo não passar da conta na bebida.

Prometo me tornar torcedora do Corinthians.

Prometo no réveillon pular sete ondas, conversar com Iemanjá, acender uma vela ao anjo da guarda e comer lentilhas antes da ceia.

Aí estão meus argumentos.

Espero que se revertam em mais alguns anos de sobrevida.

Nestes termos, peço deferimento.

Atenciosamente,

Zuleica. 19/05/11

sexta-feira, 11 de abril de 2014

Posso fazer um discurso?


Zuleica Maria O.A.Batista

Vou ficar emocionada. Bom, já estou.

Pergunto: Beth (namorada do Marcus Vinicius), quanto tempo você está na família? Ela responde: um ano.

E continuo... Vinicius, três anos; Mariana, 10 anos; Catarina, 34 anos; e Marcus Vinicius, 38 anos. E Ramos e eu, hoje, estamos fazendo 40 anos de casados. Na realidade, estamos juntos há 48 anos, pois foram oito anos de namoro e noivado.

Durante todo esse período, apesar das encrencas e defeitos (quem não os tem?), estamos aqui reunidos neste almoço, comemorando esta união. E aproveito para agradecer a todos e dizer que o esteio de nossa família é o Ramos.

Lembro que há 40 anos, quando estava para entrar na igreja para me casar com ele (Ramos) e vendo o lá no altar a minha espera, soube que ali estava concretizado nosso amor. Não precisava de padre e nem testemunhas.

Obrigada.

terça-feira, 8 de abril de 2014

Carta aberta sobre minha mãe (Carta aos mineiros)


 Zuleica Maria de O.A.Batista


Olá,

Inicialmente quero dizer que esta carta é endereçada a você com cópias para outras pessoas igualmente especiais e queridas. É uma carta aberta, razão pela qual usarei o termo (vocês e/ou todos vocês).

E o motivo dela é agradecer o que fizeram pela mamãe, tia e amiga de vocês, durante o período de enormes dificuldades que ela enfrentou quando esteve hospitalizada aí em Luz (interior de Minas Gerais) com pancreatite. Na primeira vez, Ramos e eu estávamos presentes e pudemos acompanhá-la. Mas depois, quando já tínhamos vindo embora, foram mais dez dias no hospital.


Entrada da cidade de Luz, interior de Minas
Gerais, terra natal de Norvina e Zuleica

Graças a Deus, na época, tudo foi amenizado com a presença incansável de vocês que estiveram ao lado dela todos os dias, dando lhe carinho, sempre com uma palavra de conforto, transmitindo lhe serenidade e, ao mesmo tempo, dando-lhe muita força com energias positivas. Foi vital para ela receber estas energias.

Não tenho palavras para dizer o quanto vocês foram especiais e importantes na vida dela. Ela sempre falava de todos com muito carinho. Bom, é do conhecimento de todos vocês, mas gostaria de destacar a minha preocupação com mamãe morar sozinha em Luz, com 82 anos de idade, e estando com problemas de saúde. E, para completar, tem também a distância que dificultava e muito para dar uma assistência pontual.

Em agosto de 2008, quando estive ai em Luz e trouxe a mamãe para Santos com a finalidade de ela operar a vesícula, mamãe e eu fizemos um trato. Ela viria fazer a cirurgia em Santos e depois, já recuperada, eu a levaria de volta. Uma pena, cumpriu-se a vontade DELE, não a nossa.

Mesmo assim, quero enfatizar a importância da colaboração de todos, fazendo um trabalho de “formiguinhas”, para convencê-la a mudar de ideia e vir fazer a cirurgia em Santos. Vocês foram muitos solidários e sei que não tenho como pagar, mas em minhas orações peço por todos. Peço aos Anjos lá do Alto para abrirem as Asas e protegerem vocês, iluminando-os e enchendo-os de energia e de coisas boas.

Sei que o momento já passou, e não pretendo aqui justificar, mas quero dizer que mamãe estava bem e parecia superfeliz. Acho que a companhia dos netos e da bisneta estava lhe fazendo muito bem. Toda manhã ia à igreja aqui perto e na parte da tarde costurava. Estava sempre disposta, inclusive costurou para todos aqui de casa e falava em passar o Natal e Réveillon aqui. Chegou a comprar presentes de Natal para todos da família.

Infelizmente, a realidade foi outra.

Embora eu esteja sofrendo muito e com minha alma e coração inquietos, tenho que admitir e aceitar, acima de tudo, que a mamãe morreu como muitos idosos morrem: um probleminha no pulmão aqui, outro no rim ali, e depois aparece uma infecção, um sangramento, e o coração não está mais tão bem.

Não foi um problema só, foi a somatória de uma série de problemas que acabaram levando-a a morte. É difícil dizer, mas o mais importante é que isto ocorreu de forma indolor, em casa, cercada dos entes mais queridos, em silêncio e em paz, com dignidade e respeito.

Este tipo de morte tem acontecido cada vez menos, e é uma pena que seja assim. A morte é e sempre será para nós um mistério. Não conseguimos entender, parece um absurdo que ela tenha de ocorrer e nossa cultura não favorece a aceitação dela, pois vivemos evitando a todo custo pensar e falar deste momento que é o destino final de todos nós.

Apesar de saber que isso tudo é normal e que estou fazendo as coisas da forma certa, ou seja, não negando o sofrimento e procurando enfrentá-lo, transformando-o em uma vivência que faz parte da vida de todos nós e que necessariamente nos fortalece, ainda está muito difícil falar sobre isso sem chorar.

Dizem que pensar e falar na morte nos ajuda a viver melhor. Como tenho uma família maravilhosa e quero todos por perto e bem, há muita alegria ainda a ser vivida!!!

Quatro meses já se passaram. Fui posta a essa dura prova e não sei ainda como consegui sobreviver. Tenho andado meio fora de órbita, sentindo-me tipo nau sem rumo, sabe como é? Acho que é a revolta natural do “por que comigo?” Mas lutando bravamente para sair deste recolhimento sofrido, tentando reajustar as coisas, procurando aceitar o inaceitável e não ser infeliz demais.

É a circunstância que hora vivo. Um momento só meu e sei que é preciso um tempo para me acostumar a essa separação, porque o vínculo e os laços ficarão para sempre. Talvez seja o que mais tenhamos de verdadeiro nesta passagem tão precária: as lembranças e a saudade. Sinto que depois dessa (perda) separação, nunca mais serei a mesma.

Nossa! Desculpem-me se alonguei demais, desabafando e compartilhando com vocês minha dor. Mas este meu desassossego me levou a escrever, expondo com extrema sinceridade o que sinto, tentando assim suavizar este meu momento de tristeza.

Estou escrevendo (digitando) com os olhos marejados. Não consigo deter as lágrimas. Penso sempre em todos, relembrando cada telefonema de vocês quase que diários durante a permanência da mamãe aqui.

E novamente, quero reforçar meus agradecimentos. Obrigada pelo carinho que dedicaram à minha mamãe.

Finalizando, em coro com todos aqui de casa, dizer: como é bom lembrar-se das pessoas queridas e de boa alma. Saibam que amo todos vocês e quero que sejam muito felizes. Fiquem com Deus.

06 de julho de 2009.

sexta-feira, 4 de abril de 2014

Par de olhos a mais




Zuleica Maria de O.A. Batista

Onde você colocará esses olhos? Para que os utilizará? Que mudanças comportamentais aconteceriam?

Desculpe-me, agradeço, mas prefiro ficar com meus olhos originais, mesmo estando bichados. Tenho miopia no direito e estigmatismo no esquerdo. Razão pela qual uso óculos.

Se me permitirem, gostaria de repassar esse par de olhos para uma pessoa que se encontra numa escuridão total. Com uma deficiência visual gritante e está precisando urgentemente de mais olhos para enxergar melhor a realidade atual.

Aliás, nem sei se isso é cegueira, ignorância ou interesse próprio, retrato da atual situação política brasileira.

Quero repassar esse par de olhos para o (então) ministro da Educação Fernando Haddad, que cegamente autorizou a distribuição do livro didático “Por uma vida Melhor” a meio milhão de alunos de escolas públicas. No livro, tem um capítulo intitulado “Falar é diferente de escrever”.

Com esta cegueira total, ele está prestando um desserviço à educação, tentando desqualificar as regras gramaticais da nossa língua portuguesa, emburrecendo cada vez mais os estudantes pouco predispostos ao estudo da gramática.

É humilhante que nossos jovens brasileiros estejam sendo expostos a esse tipo de lixo. Com tantos analfabetos por esses confins do Brasil, é uma estupidez ensinar aos nossos jovens que é certo falar “nós pega o peixe” e que podem falar “nós vai” ou “os livro...” com o verbo no singular, sem nenhuma concordância verbal. Simplesmente justificando que é uma “norma popular”. E que quando alguém é discriminado por falar errado, estamos cometendo “um preconceito lingüístico”.

Discordo. Não sou professora de português nem de gramática e cometo erros ao falar e escrever, mas defendo um ensino de qualidade para os brasileiros, para que futuramente não tenhamos um presidente falando “menas” – em vez de menos.

Abaixo qualquer preconceito. Ninguém tem o direito de zombar de outro porque ele não conhece as regras gramaticais – ao contrário, deve ajudá-lo a encontrar os meios de aprender corretamente.

Para falar deste jeito, ninguém precisa de escola. O mais indicado seria poupar o desperdício do dinheiro público, nosso suado dinheirinho honesto fechar as escolas e o Ministério da Educação.

31/05/2011

P.S.: O livro discute as variações do idioma, da norma culta à linguagem oral. O assunto é polêmico às décadas no meio acadêmico e entre os professores de Língua Portuguesa. Como sugestão de leitura, indico o livro "Preconceito Linguístico", de Marcos Bagno. (Marcus Vinicius Batista)

terça-feira, 1 de abril de 2014

Nova York


Broadway, local onde se multiplicam os musicais

Zuleica Maria O.A.Batista

Com o número do meu convite de um jantar beneficente, tive a sorte de ser sorteada com uma passagem para Nova York com direito a um acompanhante. Lógico que o escolhido foi meu marido. Programamo-nos e resolvemos ir em dezembro. Escolhemos esse mês com o propósito de pegar neve.

Embarcamos rumo à Big Apple. Nossa!!! Quando o avião sobrevoou a Ilha de Manhattan, tivemos uma visão magnífica. A estátua da Liberdade toda coberta de neve. Deslumbrante! Estava vendo neve pela primeira vez.

Já instalados no hotel, resolvemos descansar um pouco, pois durante a viagem não conseguimos descansar, acho que foi a ansiedade.

Foi quando ouvimos um som diferenciado, e muito estridente. Era o alarme de incêndio. Parecia uma cigarra cantando. Saímos tão apressados que meu marido deixou cair sua bengala no chão de madeira. Resgatada a bengala, continuamos nossa descida. Eram pessoas de todos os tipos e idades descendo as escadas, todos muito assustados e apavorados.

Chegando ao hall de entrada do hotel, cruzamos com a turma dos bombeiros. A ordem era que todos hóspedes fossem lá para fora. E continuava a nevar. Muito nervosa, dei uma de turista louca, ali na rua mesmo, mergulhei na neve e aí começou uma guerra de neve entre os hóspedes. Parece impossível imaginar tão frenética situação. Mas é verdade.

Depois de toda a confusão controlada, ficamos sabendo que foi óleo quente numa frigideira e mais uns papéis rasgados ao lado do fogão que provocaram o princípio de incêndio. Felizmente, nada grave, sobrevivemos ao fogo e também à neve.

Depois do susto, mais calmos e já de volta ao apartamento, meu marido providenciou copos com gelo e um whisky para relaxarmos. Foi aí que pude observar a decoração do apartamento. Em um canto, perto da janela, havia uma árvore de Natal feita de galhos partidos pintados de branco, enfeitados com instrumentos musicais. Muito original. Na cabeceira da cama, tinha um quadro com a pintura de um cavalo galopante. Lógico que não se compara às grandiosas obras de arte vista nos museus que visitamos.

Meu marido e eu passamos dias de encantamentos e enlouquecidos com tantas tentações. As vitrines foram atrações à parte. Estouramos o limite do cartão de crédito. Passeando pelas avenidas e ruas, deixamos a marca de nossos passos na neve.

Claro, não podemos falar de Nova Iorque sem citar da Broadway, tamanha são as opções de espetáculos. Conseguimos assistir a três musicais.

Quero deixar registrado que tudo isso aconteceu um ano antes daquela trágica terça-feira de 11 de setembro/2001, quando as torres gêmeas (World Trade Center) foram destruídas.

Sonho voltar novamente à Nova Iorque, mas durante o verão.

04/04/11