domingo, 30 de março de 2014

Música é emoção


Zuleica Maria O.A.Batista

Costumo, dizer que música é igual a “carrapicho”: quando gruda, custa para sair. Assim, acontece com certas músicas que ficam martelando em nossa cabeça que, às vezes, chegam a incomodar. Em compensação, tem outras que adoramos cantar, assoviar e nos traz lembranças maravilhosas. É quando precisamos nos lembrar, recordar para não esquecer.

Conheço várias pessoas que tem uma música que marcou um momento, período ou a vida toda em suas existências. Comigo não é diferente. Ao longo dos meus 67 anos, tem uma música que me acompanha.

Por essa razão, resolvi falar de uma música que aprendi na infância e que até hoje é muito especial para mim e toda minha família por vários motivos.

Primeiro, porque quando criança e na adolescência, minha amada e querida mãe assoviava para mim. Parênteses: nunca ouvi minha mãe cantar, só assoviar. Tenho gravado em minha mente até hoje aquele sonoro assovio.

Depois, bem mais tarde, já mulher feita, em momentos de aconchego e muito carinho durante meu namoro com meu atual marido, eu a cantava para ele no romantismo só.

Casamos, e a música continuou presente em nossas vidas. Vieram os filhos e eu a cantava para eles, lembrando minha infância. E, atualmente, ainda emocionada, canto para meus netos, recordando para não esquecer.

Além dos motivos acima citados, tem um episódio “sui generis” com esta música, que marcou mais ainda minha vida familiar.

Por ocasião dos preparativos do meu casamento, meu noivo e eu fomos até a Igreja marcar a data e escolher as músicas para a cerimônia. Sabe aquele repertório de músicas para a entrada do noivo, padrinhos, daminhas, marcha nupcial da noiva, benção das alianças e saída? Então, escolhemos todas, detalhadamente, com a ajuda da organista e cantora da Igreja. Ótimo!!!

Ótimo, se para minha surpresa, no dia do casamento na hora de minha entrada a Marcha/ Nupcial escolhida – (Clarins de Roma) não tivesse sido trocada por uma Cantiga Popular. É isso mesmo,... Cantiga Popular.

Meu noivo voltou à Igreja escondido de mim e fez a troca.

Com as pernas bambas, entrei olhando para ele lá no altar e consegui chegar ao ponto máximo de minhas emoções. Ficou registrado ali, naquele momento especial e com aquela música também especial para nós, que nossa união estava consolidada. Não precisava de padre e nem testemunhas.

Para os convidados ali presentes, pareceu que foi uma escolha peculiar, mas para nós ela trazia nossa marca. Portanto, música é emoção, é preciso lembrar, recordar e não esquecer. A música é...

Se Essa Rua Fosse Minha

Se essa rua
Se essa rua fosse minha
Eu mandava
Eu mandava ladrilhar
Com pedrinhas
Com pedrinhas de brilhante
Só pra ver
Só pra ver meu bem passar

Nessa rua
Nessa rua tem um bosque
Que se chama
Que se chama solidão
Dentro dele
Dentro dele mora um anjo
Que roubou
Que roubou meu coração

Se eu roubei
Se eu roubei teu coração
Tu roubaste
Tu roubaste o meu também
Se eu roubei
Se eu roubei teu coração
Foi porque
Só porque te quero bem

sexta-feira, 28 de março de 2014

Ler: difícil ou apenas desafiador?




Zuleica Maria de O.A.Batista

Estou sentada aqui diante do computador, e acabo de repetir o ritual de sempre: ligar o computador e o ar-condicionado. Apesar de estarmos na primavera, hoje está um dia muito quente. Está um calor sufocante.

Não tem ninguém por perto, exceto minha calopcita ali na gaiola. E, com isto, me veio à memória uma frase que mamãe costumava dizer e que não sei de onde ela a tirou, mas que dizia o seguinte: “passarinho na gaiola não canta, reclama”.

Aproveito para deixar registrado aqui que minha calopcita não canta, mas assobia. Acreditem ou não, ela assobia a primeira estrofe do Hino Nacional Brasileiro (Ouviram do Ipiranga às margens plácidas...) e ainda faz fiu-fiu!

Por que escrevo? Porque o professor Hélio Alves, na Universidade Aberta da Terceira Idade (UATI), sugeriu que escrevêssemos um texto, que ficará à disposição na biblioteca da faculdade.

Tentarei dar uma forma coerente, clara, verdadeira e, se possível, inteligente ao texto. Tentarei aguçar a curiosidade de cada um, que diz respeito à iniciação e ao prazer da leitura.


Fui alfabetizada aos sete anos. Na minha infância, nunca tive a oportunidade de ler um livro. Não tenho na memória as professoras incentivando a leitura na escola. Talvez por morar em uma pequena cidade no interior de Minas Gerais, onde nem biblioteca existia. Naquela época, lá também não havia televisão, cinema, shopping e livrarias.

Quando era muito pequena e ainda não sabia ler, lembro que as famílias se sentavam à calçada enquanto a criançada da vizinhança brincava pela rua. Lembro também de brincar no quintal subindo em árvores e muitas vezes brincando com brinquedos feitos por mim. Penso que naquela época o livro não encaixaria como instrumento de lazer.

Vim me interessar e descobrir o prazer pela leitura depois dos meus 16 anos, quando estava cursando o segundo ano ginasial, já morando aqui em Santos. A partir daí, virou costume. Continuo sendo uma leitora apaixonada. Adoro ler e sempre tenho comigo um livro.

Tenho em minha casa livros, revistas e jornais espalhados por diversos cômodos para serem lidos sem pressa, fora os já lidos que estão na estante para eu reler ou para compartilhar com os amigos. E só empresto meus livros para quem eu tenho certeza que os devolve. 



Sou muito apegada aos meus livros. Há muitos dos quais não conseguiria me separar; por isso, não consigo fazer uma limpeza. Com isso, as estantes ficaram cheias. Alguns são especiais, mas outros já cumpriram seus destinos: foram lidos.

Confesso que, muitas vezes entretida na leitura, me perco no tempo. Deixo de fazer minhas obrigações e, na maioria das vezes, cometo o ato falho de atrasar para meus compromissos. É viciante. Na realidade, sou dependente da leitura. Ainda tem uma particularidade: mania de ler vários livros ao mesmo tempo. Quando perco o interesse por um, pego outro e assim vou revezando.

Não faço escolha ou tenho preferência por esta ou aquela leitura. Leio tudo que cai às mãos. Mas, atualmente, a escolha das minhas leituras está focada especialmente em textos que me levam à autorreflexão e inspiração para a mudança de hábitos pessoais.

Sinto que esse tipo de leitura me torna capaz de gerenciar melhor os pensamentos e, quando necessário, ajuda a mudar o roteiro de minha vida. Faz parte dos ganhos, pois costumo viajar pelos livros.




No meu dia a dia, se não consigo ler algo, sinto um grande vazio. A leitura me mantém alimentada como se fosse uma sopa de letrinhas. (Já li isto em algum lugar). Sempre incentivei meus filhos Marcus Vinicius e Catarina a ler, e consegui passar esse hábito para eles.

Desde pequeninos, comprava revistinhas, depois livrinhos apropriados à idade. Eles herdaram o hábito da leitura e assim é hoje com minha neta Mariana e certamente será também com o Vinicius.

Num gesto simples, leio para eles para despertar desde cedo o gosto pela leitura. Vale à pena esse incentivo, pois os benefícios da leitura são enormes, eles se identificam com os personagens e situações nos livros.

Esta paixão pela leitura trouxe-me não apenas novos conhecimentos, mas também transformou minha vida. Neste mundo tão acelerado e com tanta tecnologia, lamento não ter tempo para ler tudo o que desejo. Ando lendo pouco ultimamente. A pilha se acumula. Preciso encomendar mais prateleiras.

Direciono e sugiro a você que conseguiu chegar até aqui lendo este texto simplesmente por curiosidade, a mudar o roteiro e introduzir diariamente pequenas leituras em sua vida. Comece com algo do seu interesse e se deixe escravizar com outras, outras e outras leituras. Podem parecer atitudes meramente repetitivas, mas servirão para levar o pensamento para uma nova direção. 




Experimente, você vai se surpreender com a ajuda que a leitura pode lhe prestar. Isto não é teoria, digo por experiência própria. À medida que mudamos hábitos e procuramos interesse à leitura, vamos nos surpreendendo com novos conhecimentos. Cada livro lido é uma experiência.

Quando aceitar e colocar em seu cotidiano o desafio de se beneficiar com a leitura, vá em frente, mesmo que outras pessoas, de seu convívio ou não, possam duvidar desse interesse, não importa. Importa é que você com o propósito de mudar seu projeto de vida, dará um significado singular à sua vida do ponto de vista construtivo. A leitura lhe trará retornos surpreendentes e gratificantes.

Convido você, leitor, a testar na leitura um novo jeito de viver e tirar suas próprias conclusões. Na leitura, você enxergará o mundo com outros olhos e terá coragem, por exemplo, de aceitar a diversidade, melhorando relacionamentos pessoais e profissionais e contribuindo para beneficiar até mesmo o outro que o incomoda.

Ao terminar a leitura deste texto, desejo que você descubra e adquira o gosto pela leitura e também espero que você veja nela a oportunidade de crescimento. Isso eleva o grau de consciência, aguça a sensibilidade, permite agir com base em melhores escolhas, conhecer e se identificar com os personagens e situações. Traz também aprendizados para sua própria história, além de aumentar o repertório cultural. 




Arrume coragem e disposição para mudar sua mentalidade e abandone as zonas de conforto do seu dia a dia. Procure buscar novos caminhos, essenciais para te manter vivo e produtivo em todos os sentidos. Dê-lhe essa chance linda para viver e conhecer.

Quero agradeço seu interesse, mas meus comentários, minhas sugestões não surtirão efeitos sem a preciosa aceitação de sua parte. Você, perspicaz que é, certamente concluirá que as pessoas erram, porque ainda não acertaram, é apenas uma questão de tempo. Como disse Cora Coralina, “feliz aquele que transfere o que sabe e aprende quando ensina.”

14/11/2011

quarta-feira, 26 de março de 2014

Homenagem à Norvina




Zuleica Maria O.A. Batista

"Eu sou aquela mulher que fez a escalada da montanha da vida, removendo pedras e plantando flores"...

Com esta linda frase de Cora Coralina, quero homenagear minha querida e amada mãe Norvina Maria de Oliveira.

Estou sempre me lembrando dela e amanhã faz um ano de sua partida.

Nos últimos dias, tenho andado muito angustiada. A saudade está batendo forte em meu peito sem dó. Na semana passada, sonhei com ela e acordei chorando, mergulhada num sentimento de vazio, muito triste com sua ausência. É a circunstância que ora vivo.

Então resolvi escrever este texto para vocês e falar um pouquinho dela. Talvez isto ajude a me acostumar com essa separação. Estou digitando com os olhos marejados. Não consigo deter as lágrimas. São lembranças guardadas com emoção.

Mamãe e eu vivemos momentos incríveis e inesquecíveis. Juntas, cantamos, dançamos, choramos, sofremos, perdemos, conquistamos, fincamos raízes e fomos felizes. Foi uma vida cheia de amor e muitos amigos.

Ela era uma mãe amorosa e amiga. Foi companheira, leal, gentil, generosa, honesta, digna e demonstrou muitas outras qualidades. Com todo aquele seu "jeitinho minerin", adorava contar piadas e gargalhava. Tive passagens hilariantes em sua companhia.

E jamais vi uma pessoa tão teimosa que, com a idade, só piorou. Mas me ensinou que nunca devemos desistir daquilo que está em nosso projeto de vida.

Entre as manias, uma delas era usar frases feitas, chavões. A preferida era "moral de superfície". Repetia sempre, colocando-a no momento certo com muita inteligência.

Norvina foi um ser humano brilhante e viveu com sabedoria, apesar de seus defeitos (quem não tem?). Sou profundamente agradecida a ela por ter me dado a vida. Obrigada por ser minha mãe, era o eu que sempre dizia pra ela.

Ainda está muito difícil falar sobre ela sem me emocionar. Pronto, já estou chorando de novo! É que me lembrei do momento em que minha netinha Mariana descobriu que a bisavó tinha morrido.

Na ocasião, num gesto carinhoso de consolo, ela me disse:

— Vovó Zuzu, não chora. A "bisa" está bem, ela foi para um lugar onde tem águas cristalinas, campos verdes e não tem bandido".

Não tenho a menor ideia de onde ela tirou isso. Naquele momento, muito emocionada, me abracei a ela e juntinhas choramos. De repente, Mariana e eu, ainda abraçadas, começamos a rir e naquele instante, percebi que aquela situação de desconforto se tornara confortável e alegre. Foi uma experiência muito difícil e inexplicável, que até hoje não consegui entender.

Descobri a mais bela das bençãos, que mamãe estava viva dentro de nós. Ainda está. E desde então, nunca mais fui a mesma. Ficaram o vínculo, as lembranças e a saudade que chega a doer.

Desculpe, fui escrevendo...escrevendo e me alonguei, expondo meus sentimentos. Mas como seria não fossem os desabafos com os amigos. Bom, por tudo isso e muito mais, faço particularmente a cada um de vocês um pequeno pedido... Amanhã, façam uma prece em intenção da alma da mamãe. Pedindo a Deus que ilumine o espírito dela, dando lhe muita luz. (Não vou mandar celebrar missa de um ano).

Carinhosamente, agradeço.

segunda-feira, 24 de março de 2014

No sotão com a vovó




Zuleica Maria O.A.Batista


Com sete anos, eu tive sarampo. E meus pais me levaram para a fazenda de minha avó paterna (como num isolamento). Ficaria por lá até sarar e poder voltar à cidade e para a escola também.

Lembro-me de minha avó de estatura baixa, coque e usando roupas longas e escuras. Ela era muito enérgica. Na fazenda, ela tinha o controle de tudo. Ditava as regras e proibições. No casarão, havia um sótão cercado de mistério. Só minha avó tinha a chave e ninguém podia entrar lá.

Os adultos contavam histórias horripilantes do “arco da veia”. Na imaginação da criançada, surgiam medos e dúvidas quanto à veracidade das histórias.

Durante esse período de “quarentena” que fiquei na fazenda, diariamente, via minha avó subir até o sótão. Várias vezes, mesmo estando doente, ia atrás dela, pé por pé, na tentativa de descobrir o grande mistério do sótão.. Mas ela sempre me mandava de volta, recomendando que ali era proibido entrar.

Certo dia, ela me pegou de jeito... “Vem cá, moleca, vou matar sua curiosidade e mostrar-lhe as preciosidades que guardo aqui.” Nossa! Levei um susto. Não esperava que ela fosse me deixar entrar e tive medo. Entramos. O sótão era um quadradão, limpinho, limpinho.

As paredes estavam forradas de fotos. Fiquei ali parada, de olhos arregalados, vendo aquelas pessoas penduradas na parede sem entender nada. Eram fotos antigas de meus antepassados mortos e vivos. Tudo muito bem organizado com molduras antigas. Uma verdadeira galeria.

Lá no fundo, tinha uma mesa enorme, bem grande, e uma cadeira que ela me disse ter pertencido ao pai dela. Embaixo da mesa havia um velho baú que ela explicou que servia de cofre, onde guardava seu rico dinheirinho. “Uau!”

Quando ela abriu aquele baú, fiquei paralisada ao ver tanto dinheiro. Lógico, não sabia avaliar o valor de toda aquela dinheirama, mas foi para mim uma das mais inesquecíveis imagens registradas na minha infância.

A partir daquele dia, fui autorizada a acompanhar minha avó até o sótão. Foram muitas revelações e grandes emoções. Ela mostrava e falava das pessoas expostas na galeria. Contava a história de vida de cada uma. Relatava situações de dor, sofrimento, mágoas, ódio, felicidade etc. Fui entrando na vida das pessoas e deixando as pessoas entrarem em minha vida. Foi ali no sótão com a vovó que aprendi que laços familiares costumam ser complexos.

Ironias da vida. Toda a fortuna de meus avós foi dilapidada pelos herdeiros e todo aquele acervo de fotografias se perdeu com o tempo.

Tenho uma única foto de minha avó que guardo com muito carinho.

Junho/2011

sexta-feira, 21 de março de 2014

Hoje é meu aniversário (que saudade de mim)




Zuleica Maria de O.A. Batista

Quatorze de novembro é o dia do meu aniversário. Ano passado, estava num sono profundo, quando acordei com o toque repetitivo do telefone. Levei alguns segundos para me situar. Sim, estava em Santos. Acendi a luz da cabeceira e atendi. Era minha filha. Ela estava viajando. Cantou o famoso “pic-pic” e me cumprimentou com aqueles chavões de sempre.

Conversamos algumas banalidades – costumo dizer que são (conversas de passarinhos pousados nos fios elétricos das ruas). Despedimo-nos com beijinhos, beijinhos. Desliguei o telefone, recolocando-o no gancho. Por instantes, fiquei ali parada memorizando anos anteriores e vi passar um filme onde praticamente reconheci todos os personagens.

Para começar, não era um filme tradicional e nem linear. Por quê? Porque no dia do meu aniversário, certamente eu sou a protagonista com 65 anos de carreira; e minha filha, a coadjuvante com 32.

Iniciei o filme com a chegada de minha filha Catarina no mesmo dia do meu aniversário. Não foi programado. Nem tinha como, pois ela nasceu de parto normal. Não tenho explicação clara para esse detalhe, a coincidência de a filha nascer no mesmo dia que a mãe.

O fato é que, desde seu nascimento, sempre se comemorou duplamente o nosso aniversário. Na infância reunia a família, meus amigos e os dela. Já na adolescência, depois de comemorar comigo, ela ia para a balada festejar com a turma. Sempre só alegria e muito carinho.

Infelizmente, no decorrer dos anos, ficou desgastante para ambas conciliar as datas. Chegou a hora de termos uma conversa franca, olho no olho para tentar trazer o desejo de cada uma para a possibilidade de libertação das comemorações de nosso aniversário. O jeito, então, foi decidirmos por um acordo em que cada uma comemoraria onde e como quisesse, sem aquela obrigatoriedade de estarmos juntas.

Eu, Zuleica, gosto de experimentar importantes mudanças, mas, particularmente, confesso que essa mudança de roteiro não foi uma experiência boa para mim. O cenário não está completo, pois olhando em volta sinto que está faltando uma peça.

Continuando ... Um ano depois. 




O próximo quatorze de novembro será um replay. Ela irá viajar, novamente. Embora saiba que tenho que cumprir as regras do acordo e que não estaremos juntas, mesmo assim, sinto que haverá um vazio. Não estou entusiasmada. Estou sofrendo antecipadamente. Ainda não decorei o meu papel para a próxima cena. Está difícil de entender e assimilar a circunstância que ora vivemos.

Última cena: a atriz principal enxerga acontecimentos dentro da cronologia inerente ao ser humano. Faz um prognóstico antecipado como uma vidente. Numa estrada onde mãe e filha são caminhantes, há uma bifurcação e, como a vida às vezes não dá escolha, elas terão que se separar. Está aí toda a explicação do enredo. E a legenda é: como será futuramente o aniversário da filha depois da separação? Acendem-se as luzes. Aparece o “The End” e a imagem com os letreiros finais dizendo que esta é uma história real.

Perplexa, constatei um curta metragem que dá espaço para meditação sobre os aniversariantes do mesmo dia, o que é a vida, o amor, a família, os filhos, as relações humanas, a perda, e a razão da existência.

Será que dá para entender tudo? Definitivamente não.

(Impossível sentir saudade de mim, pois sou interação de meus entes queridos).

14/08/2011

quarta-feira, 19 de março de 2014

A charge


Com o perdão do erro de grafia, existem homens assim?

Zuleica Maria O.A.Batista

As charges, na maioria das vezes, nos provocam ataques de risos. São bem engraçadas mesmo. Mas não é apenas isso. Elas nos dão a possibilidade de pensar em algo mais importante quando as olhamos com um olhar mais amplo.

Olhei atentamente a charge que Lourdes e Sônia me passaram. De início, fiquei surpresa e chocada. Só consegui enxergar uma situação excêntrica. Mas deixei a imagem congelada em minha mente para mais tarde tentar, é claro, na minha visão simplista, fazer minha narrativa.

Por algum motivo, a figura ficou dando voltas na minha cabeça. Como me senti desconsertada com a legenda, a imagem perdeu o humor, mesmo tentando ver por uma perspectiva diferente. Dei um sorriso de cumplicidade, e perguntei-me: qual a graça desta caveirinha sentada num banco com o título, MULHER AGUARDANDO O HOMEM PERFEITO?

Não cabe aqui fazer análise dos traumas ou algo não resolvido da caveirinha, ridicularizando suas ilusões. Mas, penso que essa caveirinha guarda um mistério que não revela, e ali tudo é um enigma na complexidade da existência.

Não consigo imaginar uma pessoa sentada no banco da praça, no comodismo, numa atitude de resignação, a espera da pessoa perfeita até a morte. A vida é muito mais aventureira do que imaginamos, voluntariosa e indomável. Razão pela qual, temos que ampliar a visão do viver e valorizar a vida.

Temos que resgatar o que há de melhor em cada um de nós, deixando de lado as fragilidades ou imperfeições. A vida nos dá a possibilidade de viver melhor e não de ficar na espera de “milagres”.

Por outro lado, um ponto importante é avaliarmos que o melhor relacionamento não é aquele que une pessoas perfeitas, mas aquele onde cada um aprende a conviver com os defeitos do outro, e admirar suas qualidades. As pessoas são diferentes, agem diferente e pensam diferente. Portanto, temos que as compreender e não querê-las perfeitas. Ignorar esses fatos significa não ter consciência da própria estagnação.

Penso que devemos evoluir sensivelmente nossa capacidade de observar e entender a vida e nos permitir enxergar a morte de outra maneira.

12/05/11

segunda-feira, 17 de março de 2014

Manequim humano


Ilustração: Antonio Segura Donat

Zuleica Maria de O. A.Batista

Faz tempo, não lembro o dia, mas me recordo que era mês de abril. Logo cedo, lendo o jornal, me deparei com uma nota, que informava que todos os cinemas de Santos exibiriam filmes brasileiros a R$ 2. Telefonei para uma amiga, comentei sobre a promoção, e então resolvemos aproveitar o preço acessível. Pelo telefone mesmo, fizemos um roteiro com três filmes que gostaríamos de assistir (uma sessão após a outra) e combinamos de nos encontrar no shopping.

Naquela tarde, arrumei-me bem devagar, sem pressa. Olhei-me no espelho, verificando se o colar e os brincos escolhidos combinavam com minha camiseta, dei uma retocada no batom e, por último, coloquei minha aliança.

Como sempre faço antes de sair de casa, fechei janelas e cortinas. Fazendo isso, percebi que armava chuva. Por precaução, coloquei o guarda-chuva na bolsa e lá fui eu ao encontro de minha amiga.

Cheguei ao shopping antes dela. Na tentativa de deixar o tempo passar, resolvi dar uma volta. Na porta de uma loja de lingerie, havia uma pequena aglomeração. Muito curiosa, logo parei, para observar melhor. O motivo de toda aquela “muvuca” era um manequim humano na vitrine.

Aquele manequim humano ali exposto chamava a atenção de todos que passavam. Fiquei em dúvida se era real. Quis ver mais de perto. Coloquei meus óculos de perto para enxergar melhor. Olhei, observei e constatei ser realmente um ser humano. E o que mais me chamou a atenção foram seus cabelos louros/mechados. Lindos!

Ela usava uma lingerie lilás maravilhosa!!! Distrai-me com todo aquele ti-ti-ti que esqueci completamente da minha amiga e dos filmes que pretendia assistir. Quando olhei para o relógio e vi as horas, sai correndo em direção às bilheterias.

Na correria e muito afobada, esbarrei em um jovem que carregava uma mochila. Nossa!!! Espalharam-se caderno, estojo, caneta, apagador e muitos outros pertences dele pelo chão. No meio da confusão, eu e ele, em silêncio, começamos a catar os objetos. No final, mil pedidos de desculpas.

Depois do vexame e com a situação já contornada, consegui chegar às bilheterias e lá estava minha amiga me esperando. Compramos os ingressos e entramos na sala de apresentação. Ufa! Ainda bem que não tinha começado a sessão.

Já sentada e relaxada na confortável cadeirada sala do cinema, resolvi descansar meus pés. Tirei os sapatos, pois meu joanete estava doendo muito.

Terminado o filme, minha amiga e eu fomos para outra sessão e depois mais uma, a última. Conseguimos, assim, assistir aos três filmes programados. Ah! Como é bom ir ao cinema.

Quando saímos, as ruas estavam alagadas, tinha chovido muito. Nós duas, ali dentro do shopping, nem percebemos o temporal. Aquela tarde teria sido bem melhor se não fossem os transtornos ocorridos nesse resumo de uma história verdadeira, mas recheada de ficção.

Abril/2011

sexta-feira, 14 de março de 2014

Quarta-feira de cinzas


Banho da D.Doroteia, em Santos (Arquivo: J.Muniz Jr.)

Zuleica Maria O.A.Batista

Ainda criança e, já adolescente, não me recordo de carnaval. Talvez por morar em uma cidade pequena e pacata lá no interior de Minas Gerais, onde nem clube existia. Carnaval, então, nem pensar.

Naquela época, só os circos que passavam por lá.

Lembro-me que esses circos tinham um serviço de alto falante que tocavam músicas variadas. Foi o que me valeu ouvir essas músicas. Em minha casa, não tínhamos rádio, mas me recordo de que aprendi várias marchinhas de carnaval por meio desses circos que montavam suas lonas em um terreno vazio perto da minha casa.

Nem sabia o que eram marchinhas de carnaval. Aliás, só vim descobri isso, bem mais tarde, com 16 anos, quando me mudei de Luz – MG, onde nasci, para Santos – SP. Eu era ainda uma menina do interior e não foi fácil me adaptar.

Descobri com atraso a folia do carnaval. Foi quando meu horizonte se expandiu. Comecei a frequentar os bailes de carnaval nos clube aqui em Santos. Era um divertimento em família com certa ingenuidade do século passado, com bandas tocando marchinhas carnavalescas simples que são tocadas e cantadas até hoje. Talvez daí venha todo o frescor com relação à simplicidade dos carnavais nos anos 60 e 70.

Percebo diferenças profundas daquela época para hoje. Arisco a dizer que, numa releitura, daria um excelente filme em preto e branco com muito romantismo.


Antigo corso pelas ruas de Santos
(Foto: Fundação Arquivo e Memória)

Atualmente, a grande incógnita está em saber o que é melhor, o carnaval de hoje que é um show de luzes e cores no sambódromo durante os desfiles das escolas de sambas ou os blocos de antigamente com banho de água, buscando só divertimento.

Cheguei à conclusão que sou uma perdedora da folia. Estou atrasada 16 anos. E por conta disso, dou um grito longo, silencioso e interno. Segurem o tempo que eu quero passar! Plagiando... Ó ABRE ALAS QUE EU QUERO PASSAR.

É preciso lembrar, recordar e não esquecer. Não quero perceber nesse último momento que minha vida foi consumida, pois tenho sentido falta de viver o que vivi.

Quarta-Feira de Cinzas me faz lembrar de um retiro espiritual para adultos, onde as pessoas ficavam confinadas durante quatro dias na casa paroquial, isoladas, sem se comunicarem umas com as outras, só rezando. Minha mãe fazia parte desse grupo.

Recordo-me também de ir à missa na Quarta-Feira de Cinzas e participar daquele ritual litúrgico de levar uma cruz de cinzas na testa. A pergunta, então, é: se nas quatro noites anteriores não se pulava carnaval, por que ir à Igreja para pedir perdão dos pecados terrenos e materiais? Desculpa, mas como Católica Apostólica Romana (não praticante) reconheço que não é um sentimento elevado.

22/02/2012

quarta-feira, 12 de março de 2014

Há coisas que nunca mudam




Zuleica Maria O.A.Batista

Entre várias COISAS QUE NUNCA MUDAM, vou incluir o passado, que é uma narrativa, dividida numa ordem cronológica, desde o nascimento até a morte e o enterro.

O passado e a História da Humanidade, nem com a influência da natureza (terremoto, vulcão, água, vento, sol, etc.), mudarão. Pode-se atravessar o oceano, e o passado continuará sendo único, independentemente das maldades dos “seres humanos”.

Individualmente, com o passar dos anos e com a memória fraca, nosso passado vai ficando obscuro. Mas, em geral, surgem com clareza, quando limpando uma gaveta, encontramos fotografias antigas, cartas, recortes de jornal com textos e imagens que foram guardados por algum motivo que na época nos interessava.

Nesses guardados, descobrimos coisas agradáveis, outras nem tanto e até aquelas que nos fazem mal. E muitas vezes é aí que nos deparamos com nossos demônios e também nossa linha de descendência.

A verdade é que, ao testemunhar todos esses achados, a memória volta com lembranças que podem acrescentar detalhes enriquecedores. São informações fascinantes com lembranças que a vida impõe e nossa história revela.

Às vezes, faltam algumas peças, mas vamos relembrando e devagarzinho volta à nossa mente aquele filme já visto, ampliando imagens de nossa história de vida. Tornamos-nos equilibristas num roteiro aonde vão surgindo as perdas, ganhos e danos.

Quando falo de passado, não é somente o passado individual. A História da Humanidade está recheada de fatos incontestáveis e brutais que, infelizmente, é passado e não podemos mudar.

Superficialmente, citarei apenas três:

— II Guerra – Os judeus como vítimas do horroroso Holocausto.

— Bomba Atômica em Hiroshima.

— A ditadura nos governos militares (1964-85), aqui no Brasil.

São acontecimentos passados na história/geografia que, infelizmente, não tem como negar, apagar, rasgar ou mesmo reescrever. É como uma “caixa preta” que, um dia encontrada e aberta, vamos colhendo os pedaços e montando o grande quebra-cabeça. E uma vez descortinado e investigado, descobre-se a verdade, não adianta esconder.

Há passados com camadas recheadas de tamanha complexidade que, quando remexidos, ficamos paralisados pelo impacto já vivido.

É um legado deixado pelos antepassados para juntar com a nova geração de descendentes, formando a espinha dorsal do DNA biográfico de cada pessoa. O passado é um fato incontestável.

Agosto/2012

quinta-feira, 6 de março de 2014

Eu e eu mesma


Se me permitem uma observação inicial, Dona Zuleica escreveu o texto abaixo quando acabara de ingressar na Universidade Aberta da Terceira Idade, na Universidade Católica de Santos. Ela se formou no final de 2012 e continuou no curso de Extensão. Tive o (estranho) prazer de dar aulas a ela por um ano e meio, além de estar ao seu lado quando recebeu o diploma. 

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Santos, 10 de fevereiro de 2011.

Querida Zuleica, 

Carinhosamente usarei “Vovó Zuzu”, pois é assim que você gosta de ser chamada. 

Estou sentada aqui diante do computador, e acabo de repetir o ritual de sempre: ligar o computador e o ar-condicionado. Está um calor sufocante. Não tem ninguém por perto, exceto minha calopcita ali na gaiola. 

Por que escrevo? Porque Lourdes e Sonia, minhas professoras de Oficina de Criatividade, me deram como tarefa de casa escrever uma carta para mim mesma. 

Tentarei fazer um tête-à-tête comigo mesma.

“Vovó Zuzu”, nesses últimos meses tenho andado muito preocupada com você. Principalmente com tudo o que ocorreu e lhe deixou um pouco fora do eixo. Tenho visto você chorando pelos cantos, muito desanimada, vivendo em silêncio a dor da perda, (momentos fortes), e enfrentando situações difíceis. 

Sei que muitas vezes a vida não nos dá escolha, levamos bordoadas de todos os lados. Mas temos que pegar esse limão de vida e fazer uma limonada. Às vezes, exageramos a dose e mela demais, ou então fica meio azedinha, o que não podemos é não fazer nada e apenas reclamar! 

Entendo essa sua revolta positiva, mas complicada e perigosa é esta sua acomodação. Mas como você é uma bruxinha danada e com esse seu jeitinho mineiro, sei que você vai tomar uma atitude e sair da INÉRCIA e alguém bem melhor vai surgir desses atuais escombros! 

Sei também que você estava determinada a isto. Então arruma CORAGEM e disposição para mudar a sua mentalidade e abandonar as "zonas de conforto" do dia-a-dia. Vá buscar novos caminhos, essenciais para te manter viva e produtiva em todos os sentidos. Você precisa sair com firmeza da realidade tradicional rumo ao enfrentamento da superação pessoal, a fim de tornar uma pessoa mais feliz. 

Abaixo qualquer preconceito. Você precisa abandonar esse pensamento negativo com relação a fazer uma Faculdade da Terceira Idade. Achar que “isso é coisa de velho” e jogar sua velhice lá para frente. 

Embora ainda esteja insegura e frágil você precisa fazer a UATI (Universidade Aberta da Terceira Idade). Lá você vai ocupar a mente, terá estímulos, compromissos e resultados que vão preencher as lacunas que ora podem estar ocupadas com "aqueles depósitos de lixo que foi se acumulando em sua mente". Vai fazer bem para o corpo e para alma. 

Você irá cruzar com outras pessoas em seu novo caminho, fazer amigos e aprender coisas novas que, certamente, trará retornos surpreendentes e gratificantes. Adquirir conhecimentos não dói. Dói é a INÈRCIA total, dessa Deus nos livre para sempre! Amém... Não desejo a ninguém! 

Nossa! Iniciei esta carta há sete dias. Ufa! Consegui terminar. 

Fui escrevendo aos pouquinhos, um dia de cada vez e o calor continua insuportável.

Querida “Vovó Zuzu”, precisamos sentar mais vezes e falar muito, muito. Não me abandone, não desista de mim! Ame-me quando eu menos merecer, porque certamente será quando eu mais preciso! 

E, para encerrar, vou citar uma frase do Albert Einstein que sintetiza o que escrevi acima. 

"A mente que se abre a uma nova idéia, jamais volta ao seu tamanho original"

Um beijo grande, 

Zuleica (Vovó Zuzu) 

terça-feira, 4 de março de 2014

Coisas de criança




Zuleica Maria O.A.Batista

Em março próximo passado fez quatro anos que minha querida e amada mamãe faleceu. Na ocasião, pedi aos familiares mais próximos não contarem para minha netinha Mariana o ocorrido. Não queria passar o sofrimento da perda para uma criança de apenas seis anos.

Alguns dias depois, conversando com uma amiga ao telefone, comentando o falecimento de mamãe e relatando os 69 dias passados no hospital com ela, não percebi que minha neta estava brincando ao lado e escutando todo meu desabafo.

Ao desligar o telefone, ouvi a voz de minha neta perguntando.

— A bisa morreu? A bisa morreu? A bisa morreu? (Assim mesmo – três vezes).

Pega de surpresa, fiquei parada sem saber o que responder. E, novamente ela perguntou.

— A bisa morreu?

Realmente, não sabia o que responder naquela situação tão difícil que não tinha mais como esconder. Acabei falando a verdade tão dolorida.

Na ocasião, num gesto carinhoso de consolo, ela me disse:

— Vovó Zuzu, não chora. A bisa está bem, ela foi para um lugar onde tem águas cristalinas, campos verdes e não tem bandido.

Não tenho a menor ideia de onde ela tirou isso. Naquele momento, muito emocionada, me abracei a ela e, juntinhas, choramos. Sugeri que rezássemos um Pai Nosso. E ela concordou...

De repente, Mariana e eu, ainda abraçadas, começamos a rir e, naquele instante, percebi que aquela situação de desconforto se tornara confortável e alegre. Foi uma experiência muito difícil e inexplicável, que até hoje não consegui entender.

Descobri a mais bela das bençãos, que mamãe estava viva dentro de nós. Ainda está.

E desde então, nunca mais fui a mesma. Ficaram o vínculo, as lembranças e a saudade que chega a doer.

10/06/2013