quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

Lembranças que meus sapatos me trazem


O sonho de consumo não chegou a tanto para esta cronista 
Zuleica Maria O.A.Batista

Entre as manias que tenho, uma delas é gostar de sapatos. As vitrines de sapatos me atraem como um ímã. Infelizmente, confesso cometer o pecado do consumismo que me leva a comprar sem necessidade.

Penso ser algo meio genético. Minha avó adorava sapatos. Sua filha, minha mãe, também.

E essa genética já chegou até minha filha.

Tarefa difícil falar dos meus sapatos. Foram tantos. Incontáveis ao longo de minha vida. Tive sapatos de todos os tipos e cores imagináveis. Saltos altos, médios e baixos. Apertados e folgados. Abertos, fechados e forrados. 

De repente, a moda dita novas tendências e, com pesar, acabo me desfazendo dos meus queridos sapatos, simplesmente por estarem fora de moda. Uma pena, às vezes, sapatos finos e pouco usados.

Levada pelas lembranças que meus sapatos me trazem, teria inúmeras histórias para contar. Algumas alegres e outras desagradáveis. Não pensei especificamente em um ou em outro sapato, mas nas qualidades dos que se tornaram diferentes, naquilo que fizeram deles únicos e queridos. Nos que me ajudaram nos momentos difíceis e protegeram meus pés. Nos que me deixaram com os pés no chão e necessitaram de reparos. 

Nos que foram capazes de me suportar qual fosse meu estado de espírito. Nos que me meteram em grandes rolos, na hora da raiva. Nos que estavam sempre ali para qualquer ocasião. De um jeito ou de outro, todos foram muito importantes.

Analisando melhor, sinto que meus sapatos foram todos muito explorados por mim. Aliás, continuo explorando-os até hoje, e espero por muito tempo continuar a usá-los com a firmeza que demonstram ser, permitindo que eu vá, ainda, a muitos lugares sonhados e que ande por muitos caminhos “nunca dantes conhecidos”.

Várias vezes senti vontade de fotografar meus pés, para mostrar meus sapatos, pois eles registram o meu dia-a-dia. É tanto tempo junto, dividindo cada momento, que meus sapatos parecem fazer parte de mim mesma. 

Não posso falar dos meus sapatos sem associá-los aos meus pés. Meus pés são parte muito importante do meu corpo. São eles que sustentam meu peso, e que levam meu corpo em busca de novos caminhos, de novas belezas, mas sempre amparados pelos meus queridos sapatos.

Quero deixar em destaque apenas meu chinelinho forrado de pele de ovelha. Este, sim, é meu preferido. Ele é minha tábua de salvação para esquentar meus pés, quando chega o inverno.

Sim, tenho que dar graças por poder andar com meus próprios pés, mas também agradecer aos meus sapatos que os protegem todos os dias durante as quatro estações do ano.

Obrigada a todos meus sapatos. A todos!

28/04/2011

domingo, 23 de fevereiro de 2014

Totó e a tela branca


Foto: Paula Cristina Cagnani Fernandes

Enquanto tudo não estava acomodado, ele cruzava a sala com ansiedade. O sol lá fora atravessava a tela branca; na verdade, um simples lençol, o que impedia o início da exibição do filme. Meia dúzia de espectadores conversavam alheios ao problema, sem perceber que ele e um dos funcionários da Gibiteca de Santos quebravam a cabeça para solucionar um imprevisto que não dependia da estrutura do lugar. 

Depois de meia hora e alguns sacos plásticos pretos como isolante para a luminosidade, todos se acomodaram para assistir ao filme “Uma História de Amor e Fúria”, animação brasileira de 2012 dirigida por Luis Bolognesi e vozes de Selton Mello, Camila Pitanga e Rodrigo Santoro.

Não vou me ater à sinopse da história, à qualidade da produção, ao desempenho dos atores, ao gênero do filme, entre outras obrigações de uma resenha cinematográfica. O que me importa aqui é a travessia, o caminho que nos leva ao cinema-oásis. O filme, perdoem-me, representa mera figuração.

Nas primeiras cenas, ele se sentou. A bufada me indicou o alívio. Olhei para trás e vi que os olhos dele brilhavam, duros e sem piscar, como o menino Totó a cada filme exibido em Cinema Paradiso, clássica obra italiana de Giuseppe Tornatore.

Seria injusto – e uma demonstração de cegueira – não entender que o cinema acompanha André Azenha, o Totó que cresceu, como uma sombra. Aposto que ele se renova a cada sessão semanal, espalhada por inúmeros cantos da cidade de Santos.

André Azenha é um jornalista. Mais do que isso, encarou como missão profissional – e desejo pessoal – pular o muro da informação que algema muitos colegas de profissão. Para ele, cinema é mais do que um espectador sentado numa tela escura com um saco de pipoca em uma das mãos e um refrigerante na outra.

Cinema é ação social e ato de generosidade. Cinema precisa do ar-condicionado dos shoppings, mas também se exibir em qualquer endereço onde pessoas possam ser reunidas, sejam sentadas no chão, em cadeiras escolares, de bar ou de plástico.

Em meados de 2013, Azenha conseguiu incluir no calendário cultural da cidade o Cine Comunidade. O nome é autoexplicativo. Ele crê – basta um diálogo de cinco minutos sobre cultura em geral ou cinema – que a arte só se faz viva quando itinerante e ecumênica.

O Cine Comunidade não escolhe lugar por conforto. Escolhe por meio da gente que está disposta a uma experiência, eventualmente inédita. Os filmes ressuscitam de suas caixas de DVDs em creches, salões comunitários, auditórios e salas de aulas.

O Cine Comunidade também não opta por faixa etária exclusiva. De crianças a velhinhos, o público só precisa de um requisito: o desejo de comungar em torno da tela branca e de um projetor.

O repertório tem um fundo educativo, sem ser professoral. Educar, no Cine Comunidade, jamais seria ensinar. Soa mais como compartilhar, em que se dividem as impressões e as histórias dos espectadores, intercaladas e em solidariedade à mensagem do filme da semana.

Nas escolhas do cardápio, prevalecem as obras que permitem boa conversa depois, daquelas que sujeito vai carregar as palavras na bolsa a caminho de casa. Não há overdose de enlatados (como dizia a minha avó) norte-americanos, e sim produções com algo a dizer, sejam nacionais, japonesas, europeias e, claro, norte-americanas.

André Azenha é vistos por muitos como jornalista, um assessor de imprensa e crítico de cinema competente. É um erro reduzi-lo a essas qualidades. Outros o enxergam como produtor e agitador cultural. Nada mais ingênuo do que entendê-lo assim. Azenha é um humanista, alguém que gosta de gente e necessita – como trabalho e sacerdócio – conviver com pessoas, dialogar com elas, ouvi-las, independentemente de suas posições políticas e sociais.

Neste sentido, o cinema é o alimento, como uma hóstia que aproxima sujeitos, sem levar em conta seus pecados, heresias, doutrinas e crenças. Mas não caia da armadilha de supor que o Cine Comunidade seja uma espécie de culto. O que testemunhei não foram milagres, pregações, exorcismos ou pedidos de oferta.

Quando estava no Cine Comunidade, me lembrei de uma entrevista que assisti no Roda Viva, programa da TV Cultura. A conversa era com o diretor gaúcho Jorge Furtado, diretor de curtas como “Ilha das Flores” e longas como “Saneamento Básico” e “O Homem que Copiava”. Quando perguntado sobre o futuro do cinema, ele respondeu algo como: “enquanto houver tela branca e pessoas dispostas a assistir a um filme, haverá cinema”.

Naquele sábado à tarde, numa Gibiteca refém do sol e cercada por turistas, vi cinema. Vi uma arte a serviço de qualquer pessoa. As portas abertas para ver um filme e conversar depois sobre a obra e o que aparece sem agenda prévia. Tudo ideia de um sujeito que cresceu como Totó, viciado em histórias em movimento, mas com a diferença de que – ao contrário do Totó da ficção -, André Azenha não foi embora para voltar e perceber o quanto amava seu próprio Cinema Paradiso.

Obs.: Este texto foi publicado originalmente na coluna Entrelinhas Caiçaras, no site Culturalmente Santista. 

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

Avó não é mãe duas vezes




Zuleica Maria O.A. Batista*


Não tenho nenhum dilema com isso, mas passei a maior parte da vida pensando como seria minha convivência com meus netos. Ser mãe é uma profunda experiência, chega ao limite máximo da dor. Agora, ser avó é um novo roteiro que a vida nos coloca à frente, é outro papel a desempenhar.

Minhas reações e sentimentos se transformaram com a chegada de meus netos, Mariana e Vinícius, em datas diferentes, claro. Para cada chegada, em momentos diferentes da vida, foi uma nova experiência, e meu coração estalava de felicidade como um pão de queijo ao forno, (termo bem mineiro). E fui verdadeira em ambas as ocasiões.

Dentro das possibilidades que me dão, sou uma avó que procuro participar ativamente. Permito-me estar próximo deles o máximo que posso. Brinco, canto, danço e rolo no chão com eles. Não sei contar histórias, o que me salva são os livros que leio com roteiros que nos carregam para além da imaginação. Estou sempre inventando algo diferente, - uma “bagucinha”. Divertimos-nos muito e isso me dá sentido e identidade. 

Quero que meus netos se lembrem de mim nessa descontração bem infantilizada. O importante é nos divertirmos e nos conhecermos. Identificação é algo muito pessoal, quase impossível de acontecer simultaneamente. Tem que haver uma conquista. Ofereço a eles os instrumentos necessários para que possam ter boas lembranças minhas. E gostaria que, quando adultos, possamos ser amigos – se eu não estiver senil, claro.

Se me preocupo em oferecer o melhor para meus netos, acho que está no DNA – pois minha mãe fez história juntos aos netos, meus filhos. Espelho-me nela e tento passar essas características que provavelmente me marcou geneticamente. 

Quando olho para trás, para meus 66 anos transcorridos da minha vida, posso vê-la como um filme se repetindo. Como uma continuidade. Talvez o lado mais hereditário de passar de geração para geração.

Adoro e curto meus netos com muita diversão e intensidade também. Eles fazem rir meu coração e não tenho dúvidas que os amo de paixão, mas também tenho certeza que não quero abrir mão da minha liberdade e assumir responsabilidades que devem ser assumidas por "mãe" e "pai" adultos, saudáveis e vivos!

Mesmo tomando conta de meus netos de vez em quando, compartilho da opinião que filhos devem ser criados pelos pais e que avós não devem passar de coadjuvantes.

Por isso, estou convencida de que avó não é mãe duas vezes.

03/07/2011

Obs.: Esta é a primeira de uma série de crônicas escritas por minha mãe, falecida em julho de 2013. São textos produzidos por razões múltiplas, de uma atividade na Universidade Aberta da Terceira Idade, onde ela estudou por dois anos e meio, a um acontecimento cotidiano que a marcou. Agradeço também a meu pai, José dos Ramos, pela organização do material e por concordar que estas crônicas merecem ser compartilhadas. É, acima de tudo, uma forma singela de homenageá-la. Saudades!

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

O lugar indigesto


Elenco em ensaio geral no Teatro do Sesc-Santos
(Fotos: Matheus José Maria)

No Teatro do Sesc lotado, assisti à estreia da peça “A terra pode ser chamada de chão”. O espetáculo, produzido por Claudia Alonso e dirigido por Renato di Renzo, marca o início das comemorações dos 25 anos do projeto Tam Tam, um dos símbolos da luta antimanicomial e nascido a partir do fechamento da Casa de Saúde Anchieta. 

A peça é um trabalho de formação de ator. Nela, não há espaço para a dramaturgia convencional. A narrativa é colada por tecidos aparentemente frágeis, mas interligados além das cortinas do espetáculo, no mundo lá fora. A peça exige do espectador a capacidade de decodificar não apenas os figurinos e os movimentos corporais, mas traduzir – a partir deles – os fragmentos de um planeta de distâncias reduzidas, tempos conectados e problemas tão globalizados quanto particulares. 

Peça marca 25 anos do projeto Tam Tam

O espetáculo está impregnado de sutilezas simbólicas. A cada entrada no palco, atores e atrizes exalavam em suas vestes e corpos sintomas de uma sociedade doente. Na visão do grupo, a reflexão é a alma de um tratamento que prevê a necessidade de simbiose entre chagas sociais – por aparência – isoladas. 

Homens desfilam cobertos de lixo ou com máscaras que nos apontam a poluição do ar. Mulheres se arrastam no solo para nos indicar que a água será o ouro do século XXI. Grupos desfilam sobre pés pesados para expor as migrações de um globo tão castigado quando segregado. Uma caravana de gente de branco cruza o palco como se a plateia não existisse. Seriam pacientes psiquiátricos? Ou seria gente normal entupida de pílulas de felicidade?

Renato di Renzo e elenco no dia da estreia

A peça é a metáfora da ausência. Da falta da discussão pública, da negação do preconceito, do delírio em torno da violência simbólica como se fosse inerente às relações humanas. No palco, cenas que nos esfregam a urgência de pensar sobre racismo, homofobia, xenofobia, temas que caíam como bombas a partir de aviões de brinquedo nas mãos de um dos atores em ares infantis. Nunca bombas H foram simbolicamente tão devastadoras para incinerar e mecanizar corpos, ideais e nobres sentimentos.

O elenco, após seis meses de ensaios no Teatro Rolidei, sede do grupo, se reveza em papéis, sem protagonistas, para talvez nos mostrar a igualdade nos obstáculos criativos, pouco importa o endereço do destinatário. Não há estrelas, não há personalismos. Todos respondem como coral: “A terra pode ser chamada de chão” não deve ser entendida de imediato, numa era de urgências de compreensão e descarte de informações superficiais. 


A produtora Claudia Alonso com o elenco

O espetáculo pede digestão, reivindica a maturação de detalhes de cada cena, impressões mínimas que talvez os próprios atores ainda não absorveram por completo. Que talvez ainda residam na cabeça de Renato di Renzo, na crença de que todo espetáculo sempre será incompleto.

A opção pelo texto mínimo provoca, aposto eu, a vantagem de tornar a peça um camaleão de atualidades, que permitiriam novas inserções e alterações periódicas para rediscutir o cenário que a motiva e move a si mesma.

É injusto estabelecer qualquer escala de valor sobre a peça. Aprová-la ou rejeitá-la. Neste sentido, o espetáculo é mais do que conceitual. É uma aula in loco para atores e atrizes. Muitos ali demonstraram, em cena, que o teatro é a porta de entrada para entender um mundo que insiste em fechar a janela a eles. Passaram a pertencer a um tempo histórico que prega, de forma cínica, o não pertencimento. Comunicaram-se praticamente por sinais num universo que banalizou as palavras em sucessivos monólogos.

A lição da noite foi a última página de um livro de mudança. Para o elenco, em definitivo. Para a plateia, depende de quem testemunhou. Mais do que socialização de parte do elenco, a peça nos ensina que teatro é um ato político. Um ato que gera metamorfose em quem o aceita. Aliás, o espetáculo não acolhe despolitizados. Numa época em que o debate público mais se parece com um Fla-Flu, atores e atrizes colocaram para fora gritos políticos, de quem tenta pela arte compreender a vizinhança e se posicionar diante dela.



O resultado não é terapêutico ou panfletário. É, na verdade, de construção de identidade, de quem está em cena, nas coxias ou na plateia. A construção conjunta de um novo texto, de múltiplos desfechos, cujo ponto de partida são os corpos cênicos e seus olhares que habitam os figurinos provisórios de atores e atrizes.

Como disse o próprio Renato di Renzo após o espetáculo, “os loucos devem fazer mais do que pintar. Os loucos devem desejar e desejar os outros.” Num roteiro de vida real onde a normalidade flerta com o padrão e se aproxima da intolerância, a loucura talvez seja a voz que nos faz pensar, dentro e fora do palco.

Na peça, a terra se mostrou indigesta, mas se torna fértil se alimentada pela diversidade humana. Atores e atrizes do projeto Tam Tam são a prova pulsante de que o teatro pode ser o farol que localiza o chão de cada um.