sábado, 18 de janeiro de 2014

Entre as mãos, o essencial



Nunca acreditei no insubstituível. As experiências me castigaram com a profecia de que nascemos para substituir e sermos trocados; nada pessoal. Optamos pelo autoengano como carapaça para conter os vazamentos do sofrer. Sermos essenciais nos alimenta com a falsa exclusividade e nos protege do que nos espera na próxima curva: a porta de saída, com ou sem despedidas, com ou sem reconhecimento.

A crença no insubstituível é a cortina de fumaça para a ausência de reconhecimento ou de gratidão. Esperamos como mortos de sede pelo apoio, pela palavra conveniente, pelos tapinhas que queremos ouvir estalar, pelo curtir do instantâneo virtual.

Ser insubstituível carrega no fígado a arrogância de ser incontestável, de estar sentado sobre o cofre que guarda todas as respostas. O incontestável cristaliza com o tempo, com a mentalidade de que experiência é a última variável da equação chamada verdade absoluta.

Agradeço por ter recebido o choque da substituição quando moleque. Tinha 16 anos e estava no auge como atleta. Faltavam poucos dias para a estreia no Campeonato Paulista de Futebol quando fui trocado por outro goleiro, filho de um diretor do clube. Nenhum dos dois se profissionalizou, mas o episódio me fez atravessar todas as fases do luto, da negação ao entendimento.

A lição me bastou para sobreviver sem angústias à vida profissional. O papel de jornalista sempre incluiu distância segura dos patrões para não se ferir com os cortes eventuais nas redações. A lição também afogou a arrogância de que uma empresa ou uma equipe ficariam à míngua com minha saída. A linha de montagem sempre segue e dói menos quando você se percebe engrenagem.

Comecei a desconfiar desta teoria em julho de 2002, na maternidade do Hospital São Lucas, em Santos. Mariana me dizia, entre choros e mamadas, que esta forma de pensar talvez tivesse furos.

Preocupado com a vida prática, traduzida em códigos de barras de supermercado, cartões de banco e boletos, adormeci qualquer reflexão sobre o assunto. Pelo contrário, ao me tornar professor no ano seguinte, conclui que Freud me diria se nos esbarrássemos na rua: “garoto, você tem obsessão por atividades de baixo reconhecimento.”


Numa primeira camada, professor e alunos se dispensam. Trocam de papéis. Atravessam vidas alheias. Muitos até levam a sério este mantra quando cruzam com você na calçada depois de anos. Olham no horizonte infinito para carimbar que nunca te viram mais novo, quanto mais de giz ou caneta nas mãos.

Confesso que me tornei, recentemente, mais flexível. Todas as teorias podem se desenhar radicais sem não forem contestadas. Nem todos os papéis sociais são passíveis de troca ou de devolução depois das datas comemorativas. A resposta reside nos detalhes, no microcosmo das relações humanas.

Na última semana, Vinicius, meu filho de 4 anos, dormiu várias dias comigo. Cismou que o escuro dava medo – olha a desculpa! - e que eu precisava dormir ao lado dele. Como qualquer pai (sem tanta certeza na generalização), me deitava ao lado dele e fingia adormecer até que ele apagasse como o ursinho da propaganda quando a pilha acaba.

Numa das noites, de sábado para domingo, coloquei o colchão dele ao lado da cama de casal. Não dormimos no mesmo espaço. Dormimos de mãos dadas. Quando soltava minha mão, ele a entrelaçava outra vez, sem dizer palavra.

Ali, naquela luta do detalhe mínimo da vida comum, estava o essencial. Ali, entre eu e ele, me senti insubstituível, como em 2002 e em 2009, no nascimento de Vinicius, quando senti de vez que amar dói fisicamente.

Na manhã seguinte, Vinicius também se materializava incontestável. A primeira frase que disse foi: “pai, dormimos de mãos dadas, como dois super-heróis.”

Um comentário:

Ana Rosa disse...

Amar, realmente dói, mas transcende, e o invisível, se faz presente como matéria. Adorei! Parabéns!