terça-feira, 21 de janeiro de 2014

Dia de culto




Satanás, diabo, demônio, satã, tinhoso, caramunhão, sete peles, cão, mochila de criança, capeta, belzebu, lúcifer. As expressões eram repetidas como um mantra para que ele não caísse em tentação, principalmente no domingo. Domingo era dia de culto. Era dia de celebração à prosperidade.

O rapaz, aos 16 anos, dava orgulho à família. Estudava, fazia uns bicos que ajudavam em casa. Não usava tóchico, com ch, na pronúncia e crença da avó. E passava o dia todo se preparando para o ritual noturno. Tomava banho duas horas antes. Colocava a melhor roupa. Exalava o perfume genérico do camelô, que prometera a fragrância do Oriente Médio de dois mil anos atrás.

O irmão mais velho chamava de roupa de missa. O caçula não ligava. Um dia, o irmão teria a mesma fé que ele. Descrente, jamais subiria na vida. Aos 16 anos, sabia que Deus tinha dado os instrumentos para se comunicar com a salvação. Estavam ali, em cima da cômoda, parcelados em 10 vezes no cartão.

Pelo smartphone, avisava o primo sobre o ponto de encontro, em frente à igreja. No celular, falava com dois amigos, que vieram do interior e hoje conheceriam o templo. “O maior da região”, queria impressionar os turistas. No Facebook, trocava mensagens com um colega da escola. Era hoje, início de mês, que eles seriam alcançados pelo milagre. Pontualmente às 20 horas.

O rapaz mal comeu em casa. Precisava se preservar para o culto. O caminho estava trilhado, como todos os domingos. Era essencial seguir os ensinamentos que recebeu dos mais velhos.

Às sete e meia, beijou a mãe, ouviu a recomendação da avó e tomou a rua. Andou três quadras e parou em frente ao templo. Estava sozinho, tempo suficiente para meditar e admirar o tamanho da graça de Deus.

Os dois amigos do interior desceram do táxi em cima da hora. Haviam se atrapalhado com o itinerário. “Coisa de gente nova, mas um fiel nunca erra a morada”, pensou o garoto.

O trio entrou no templo, lotado como todos os domingos. Gente de todo jeito. Dava para apostar em rolêzinho. Eles atravessaram o corredor, subiram pela escada rolante, cruzaram a passos duros outro corredor e quase trombaram com o resto da turma.

O grupo fez as apresentações de praxe. Os moleques do interior estavam de boca aberta. “Realmente é grande!”, falou um deles. Sentaram-se em volta de uma mesa. “Poderia ser a santa ceia”, soltou o garoto. “Deixe de heresia e escolha onde vamos comer!”, rebateu o amigo, coçando a barriga.

Dois deles ficaram tomando conta dos lugares. Os demais rodearam a área principal da igreja, balançaram a cabeça e escolheram o de sempre. Ao encostarem no balcão, veio a obreira: “Boa noite, vamos de número 1? E tem a promoção da batata grande!”

O coral respondeu em tom religioso. “Cinco lanches número 1. Todos com batata grande. Três são cocas, dois são guaranás.” Pagaram e correram para as mesas. Devoraram tudo, em comunhão. Sorriam e arrotavam como se estivessem no paraíso.

Depois, um deles sugeriu. “Vamos dar um rolêzinho? Tem liquidação de bonés. E o shopping só fecha às dez.” O rapaz começou a recitar em silêncio: satanás, diabo, demônio ... Parou na terceira palavra e se levantou para não ficar para trás. Se o cartão de crédito abençoava a gula, por que não a vaidade?

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