segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

Celso Lago, a voz

Celso Lago, em apresentação no Almanaque Bar

Nunca havia derramado uma lágrima com a morte de um artista. Além do sentimento de perda e de luto, sempre soube separar a obra e o autor (ou intérprete). Em muitos casos, porque – independentemente da qualidade – a obra não me aguçava lembranças afetivas ou experiências específicas. Em outros, porque não conhecia a fundo a biografia do artista, embora apreciasse suas criações.

Nunca me senti tão melancólico com a ausência de um artista até saber da morte do cantor Celso Lago, na noite de 28 de dezembro. Celso é, para muita gente, o melhor intérprete de MPB que passou por essas terras caiçaras. O melhor que testemunhei nos últimos 20 anos.

A obra se misturava com o artista. Celso Lago era tão doce e sofisticado quanto o repertório que nos entregava numa noite comum em um bar qualquer. Como todos os sensíveis, o cantor jamais andava pela obviedade.

Celso Lago transformava, durante três, quatro minutos de duração da música, uma composição lado B em clássico instantâneo. Ouvíamos a letra pela primeira vez com o mesmo ar de nostalgia daquele ícone que viria a seguir no repertório.

Como os melhores intérpretes, Celso era um camaleão. Mas um camaleão capaz de imprimir metamorfose com carimbo único, que acrescentava substâncias àquela obra em construção, que sobreviveria pela memória de quem estava sentado à frente dele.

Celso Lago não fazia covers. Era como os clássicos crooners, como foi Milton Nascimento. Celso marcava a ferro a canção que interpretava, nos escravizando com afetividade, bem mais profundo do que aquele pedido em papelzinho de bar (ou de cruzeiro de navio). Ouvir Celso era memorizar quando, onde e com quem estava quando o assistiu.

Acompanhei à distância a trajetória de Celso Lago durante muitos anos. Tornei-me fã por causa de um casal de amigos, Meire e André, que – como muitos admiradores – descobriam onde ele estava e peregrinavam para ouvi-lo. No caso deles, são mais de 20 anos, desde os tempos de namoro.

Passei a entender, com eles (e com o próprio Celso), o sentido de uma música sacra. Aprendi que, dependendo de quem está no palco, o cenário, o cardápio e o endereço pouco importavam. Ali estava a voz.

Ouvi Celso Lago pela primeira numa churrascaria. Estava lá, com pouco menos de 20 anos, para um almoço com amigos. Mal consegui tirar os olhos do palco apertado, diante de um cantor cuja voz engolia as dezenas de desafinados que jogavam conversa fora. Muitos deles acabaram convertidos e, menos de uma hora depois, cantavam junto e obrigavam os envergonhados a admirar em silêncio.

Ouvi Celso Lago pela última vez no extinto bar Pierrot. André e Meire estavam lá comigo. Éramos seis fieis em busca do pastor. Uma de nós, Aracely, também cantora, dividiu com ele duas músicas. E Celso, num dos intervalos, sentou-se à nossa mesa para papear, falar de música e lembrar de pessoas e lugares da cultura de Santos.

Santos perdeu também um professor em gestação. Celso Lago daria aulas de canto na Secretaria Municipal de Cultura em 2014. Fico imaginando como seria um camisa 10 descrever e tentar ensinar os milagres de um gol de placa com estádio lotado.

Santos não pode esquecê-lo. Mais do que um texto em jornal ou dar nome a uma sala, as homenagens tem que acontecer onde Celso Lago se sentia melhor. Por que não um show, com cantores, instrumentistas, poetas, atores, todos os caminhos da arte desaguando no que este intérprete foi em vida? Por que não uma apresentação ao ar livre, de graça, para todos?

De tantas mensagens, comentários e condolências, uma delas melhor definiu o que representou Celso Lago para a música santista. A frase é do músico Julinho Bittencourt e me pareceu tão simples quanto definitiva. “Celso Lago, o maior de todos nós.”

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