sábado, 4 de janeiro de 2014

As previsões em sete peles



Virada de ano é quando se abre o mercadão das promessas proibidas. Juramos emagrecer, reduzir as dívidas, transar mais (neste caso, nos esquecemos de avisar o outro; falar por rede social não adianta; o máximo que acontece é ele ou ela curtir e preferir não compartilhar), arrumar novo emprego, estudar mais.

Na prática, são pedidos milagres que nem 700 ondas garantem com Iemanjá usando fones de ouvido. Às vezes, é preciso pedir um atendimento especializado, ou melhor, individualizado. Foi o que aconteceu com um primo, turista do interior de Minas, deslumbrado com o mar, desavisado com as coisas do além.

Quando retornávamos da queima de fogos de artifício em Santos, vimos uma barraca tão colorida quanto uma fachada de artigos místicos. Achei, em princípio, que era uma daquelas que agrupam os farofeiros emergentes, que dormem na praia porque é modinha.

Meu primo, talvez alterado pela Cidra de R$ 10, resolveu entrar na barraca. Como eu estava cansado de ver tantas retrospectivas e o futuro eram só palavras, lavei as mãos e não interferi. Dez minutos depois, ele voltou com a seguinte história.

Uma mulher usava vestido branco, que era ofuscado pelo turbante meio laranja, meio verde limão. Ela estava cheia de pulseiras nos dois braços. Pela descrição do meu primo, deveriam ser daquelas que você paga, no máximo, R$ 5 na feirinha de final de semana e posa de rastafári nórdico, tão transparente quanto um belga na Jamaica.

À frente da mulher, em cima da mesa, descansava uma bola de cristal, ao lado de alguns búzios, uma xícara suja de borra de café, uma imagem de São Jorge e dois vidrinhos de florais. Quando me contou, pensei: “Das duas, uma: charlatã ou ecumênica.”

Ela pediu que meu primo sentasse. Perguntou o nome dele, segurou o pulso e disse:

- Você não é daqui!

- Como a senhora sabe?

- Apenas sei. E te digo: corra para casa.

- Por quê?

- Porque vai faltar água. Em meia dúzia de cidades. Até cinco dias de secura. E da braba. De rachar torneira.

Quando meu primo me falou isso, pensei: charlatã. Como vai faltar água, se a Sabesp inaugurou estações de tratamento e garantiu que não faltaria por 30 anos? O pior é que ela completou:

- Menino, vai faltar por mais 30 anos. E corra logo, senão não chegará a tempo. Isso se você também não ficar no escuro.

- No escuro?

- Trevas! Coisa do caramunhão.

- A senhora quer estragar minhas férias, sá? A senhora que tem pacto com o sete peles, o mochila de criança.

- Se tivesse, não tava aqui, menino!

- Fique tranquila. Pego carona com meu primo ou com minha prima ou tomo um táxi. Na pior das hipóteses, pego um ônibus.

- Vá a pé, meu filho.

Ela chacoalhou a xícara de café, balançou as pulseiras, bufou três vezes, olhou para ele e disse:

- Vá a pé ou pedalando. Chegará mais rápido. Vejo sua vida congestionada. Você dentro de caixas com rodas! Poucos ônibus! Táxis são privilégios. Os motoristas bebem chá de sumiço por aqui.

Meu primo ainda tentou argumentar com uma matéria que leu no jornal.

- Eu li que a empresa daqui diminuiria o número de ônibus nas ruas. A senhora também leu, claro.

- Não leio, moleque! Vejo nas cartas. E você vai passar calor e esperar muito. Menino, você falou na sua prima. Ela mora aqui?

- Não, mora em São Paulo.

- Sabia! Tem um encosto que vai travar a vida dela. Vejo uma estrada, milhares de caixas alinhadas como comboio e ela pagando caro para ficar parada.

- Pelo menos, ela vai aproveitar conosco os dias aqui na praia.

- Não vai, não. Vejo insegurança, medo, coisa ruim, moleque.

- A senhora tá me enganando. Botando medo para pegar dinheiro. Ainda bem que deixei a carteira em casa. A praia tá cheia de policiais. Não vai acontecer nada.

- Mas você só anda na praia, moleque? Te digo, se cruzar a linha do trem, a cor da encruzilhada muda, meu filho. Ali, somem os hómi de farda. Ficam as armas, nas mãos de outros. E não falo só destes cantos, moleque. É a vila mais antiga, a pérola que escureceu, tudo cheio de gente com papel na mão, daqueles de delegacia.

- Senhora, me arrependi de entrar aqui. Só desgraça. De qualquer modo, quanto ficou esta conversinha, sá?

- Nada, não, meu filho, pode seguir.

- De graça. Então, pegadinha? A câmera, onde está?

- Não, moleque, não é nada. Só fale com aquele moleque que tá contigo lá fora. Veja que tudo se repete. A gente é que não percebe. Se engraça com o que é novo. Às vezes, é só o velho arrumadinho.

A mulher respirou fundo, abaixou a cabeça e falou, acenando com a mão para que meu primo saísse.

- Não é nada, não. Até porque, o moleque lá fora precisa economizar. Não porque deu de beber e comer para você. Amanhã, quando ele abrir a caixa do entregador, vai ver um carnê. Este carnê vai doer na alma, filho. Aumentou, meu filho, aumentou. E todo mundo se encostando na pobre da Iemanjá. Fora do mar, ele não pode ajudar a segurar belzebu.

Meu primo agradeceu e deixou a barraca. Corremos para casa. Depois de quatro dias, ele ainda está no meu apartamento, comendo bem. Mas não quer sair. Ao ver o noticiário, ele me falou: “essa velha é vidente, óbvio!”

Nenhum comentário: