terça-feira, 21 de janeiro de 2014

Dia de culto




Satanás, diabo, demônio, satã, tinhoso, caramunhão, sete peles, cão, mochila de criança, capeta, belzebu, lúcifer. As expressões eram repetidas como um mantra para que ele não caísse em tentação, principalmente no domingo. Domingo era dia de culto. Era dia de celebração à prosperidade.

O rapaz, aos 16 anos, dava orgulho à família. Estudava, fazia uns bicos que ajudavam em casa. Não usava tóchico, com ch, na pronúncia e crença da avó. E passava o dia todo se preparando para o ritual noturno. Tomava banho duas horas antes. Colocava a melhor roupa. Exalava o perfume genérico do camelô, que prometera a fragrância do Oriente Médio de dois mil anos atrás.

O irmão mais velho chamava de roupa de missa. O caçula não ligava. Um dia, o irmão teria a mesma fé que ele. Descrente, jamais subiria na vida. Aos 16 anos, sabia que Deus tinha dado os instrumentos para se comunicar com a salvação. Estavam ali, em cima da cômoda, parcelados em 10 vezes no cartão.

Pelo smartphone, avisava o primo sobre o ponto de encontro, em frente à igreja. No celular, falava com dois amigos, que vieram do interior e hoje conheceriam o templo. “O maior da região”, queria impressionar os turistas. No Facebook, trocava mensagens com um colega da escola. Era hoje, início de mês, que eles seriam alcançados pelo milagre. Pontualmente às 20 horas.

O rapaz mal comeu em casa. Precisava se preservar para o culto. O caminho estava trilhado, como todos os domingos. Era essencial seguir os ensinamentos que recebeu dos mais velhos.

Às sete e meia, beijou a mãe, ouviu a recomendação da avó e tomou a rua. Andou três quadras e parou em frente ao templo. Estava sozinho, tempo suficiente para meditar e admirar o tamanho da graça de Deus.

Os dois amigos do interior desceram do táxi em cima da hora. Haviam se atrapalhado com o itinerário. “Coisa de gente nova, mas um fiel nunca erra a morada”, pensou o garoto.

O trio entrou no templo, lotado como todos os domingos. Gente de todo jeito. Dava para apostar em rolêzinho. Eles atravessaram o corredor, subiram pela escada rolante, cruzaram a passos duros outro corredor e quase trombaram com o resto da turma.

O grupo fez as apresentações de praxe. Os moleques do interior estavam de boca aberta. “Realmente é grande!”, falou um deles. Sentaram-se em volta de uma mesa. “Poderia ser a santa ceia”, soltou o garoto. “Deixe de heresia e escolha onde vamos comer!”, rebateu o amigo, coçando a barriga.

Dois deles ficaram tomando conta dos lugares. Os demais rodearam a área principal da igreja, balançaram a cabeça e escolheram o de sempre. Ao encostarem no balcão, veio a obreira: “Boa noite, vamos de número 1? E tem a promoção da batata grande!”

O coral respondeu em tom religioso. “Cinco lanches número 1. Todos com batata grande. Três são cocas, dois são guaranás.” Pagaram e correram para as mesas. Devoraram tudo, em comunhão. Sorriam e arrotavam como se estivessem no paraíso.

Depois, um deles sugeriu. “Vamos dar um rolêzinho? Tem liquidação de bonés. E o shopping só fecha às dez.” O rapaz começou a recitar em silêncio: satanás, diabo, demônio ... Parou na terceira palavra e se levantou para não ficar para trás. Se o cartão de crédito abençoava a gula, por que não a vaidade?

sábado, 18 de janeiro de 2014

Entre as mãos, o essencial



Nunca acreditei no insubstituível. As experiências me castigaram com a profecia de que nascemos para substituir e sermos trocados; nada pessoal. Optamos pelo autoengano como carapaça para conter os vazamentos do sofrer. Sermos essenciais nos alimenta com a falsa exclusividade e nos protege do que nos espera na próxima curva: a porta de saída, com ou sem despedidas, com ou sem reconhecimento.

A crença no insubstituível é a cortina de fumaça para a ausência de reconhecimento ou de gratidão. Esperamos como mortos de sede pelo apoio, pela palavra conveniente, pelos tapinhas que queremos ouvir estalar, pelo curtir do instantâneo virtual.

Ser insubstituível carrega no fígado a arrogância de ser incontestável, de estar sentado sobre o cofre que guarda todas as respostas. O incontestável cristaliza com o tempo, com a mentalidade de que experiência é a última variável da equação chamada verdade absoluta.

Agradeço por ter recebido o choque da substituição quando moleque. Tinha 16 anos e estava no auge como atleta. Faltavam poucos dias para a estreia no Campeonato Paulista de Futebol quando fui trocado por outro goleiro, filho de um diretor do clube. Nenhum dos dois se profissionalizou, mas o episódio me fez atravessar todas as fases do luto, da negação ao entendimento.

A lição me bastou para sobreviver sem angústias à vida profissional. O papel de jornalista sempre incluiu distância segura dos patrões para não se ferir com os cortes eventuais nas redações. A lição também afogou a arrogância de que uma empresa ou uma equipe ficariam à míngua com minha saída. A linha de montagem sempre segue e dói menos quando você se percebe engrenagem.

Comecei a desconfiar desta teoria em julho de 2002, na maternidade do Hospital São Lucas, em Santos. Mariana me dizia, entre choros e mamadas, que esta forma de pensar talvez tivesse furos.

Preocupado com a vida prática, traduzida em códigos de barras de supermercado, cartões de banco e boletos, adormeci qualquer reflexão sobre o assunto. Pelo contrário, ao me tornar professor no ano seguinte, conclui que Freud me diria se nos esbarrássemos na rua: “garoto, você tem obsessão por atividades de baixo reconhecimento.”


Numa primeira camada, professor e alunos se dispensam. Trocam de papéis. Atravessam vidas alheias. Muitos até levam a sério este mantra quando cruzam com você na calçada depois de anos. Olham no horizonte infinito para carimbar que nunca te viram mais novo, quanto mais de giz ou caneta nas mãos.

Confesso que me tornei, recentemente, mais flexível. Todas as teorias podem se desenhar radicais sem não forem contestadas. Nem todos os papéis sociais são passíveis de troca ou de devolução depois das datas comemorativas. A resposta reside nos detalhes, no microcosmo das relações humanas.

Na última semana, Vinicius, meu filho de 4 anos, dormiu várias dias comigo. Cismou que o escuro dava medo – olha a desculpa! - e que eu precisava dormir ao lado dele. Como qualquer pai (sem tanta certeza na generalização), me deitava ao lado dele e fingia adormecer até que ele apagasse como o ursinho da propaganda quando a pilha acaba.

Numa das noites, de sábado para domingo, coloquei o colchão dele ao lado da cama de casal. Não dormimos no mesmo espaço. Dormimos de mãos dadas. Quando soltava minha mão, ele a entrelaçava outra vez, sem dizer palavra.

Ali, naquela luta do detalhe mínimo da vida comum, estava o essencial. Ali, entre eu e ele, me senti insubstituível, como em 2002 e em 2009, no nascimento de Vinicius, quando senti de vez que amar dói fisicamente.

Na manhã seguinte, Vinicius também se materializava incontestável. A primeira frase que disse foi: “pai, dormimos de mãos dadas, como dois super-heróis.”

quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

Nem sempre...



Nem sempre exaustão é stress.

Nem sempre melancolia é depressão.

Nem sempre perda é também depressão.

Nem sempre ansiedade é crise de pânico.

Nem sempre a empolgação é bipolaridade.

Nem sempre a frustração posterior é outra polaridade.

Nem sempre falar sozinho é múltipla personalidade.

Nem sempre escutar os detalhes do mundo é esquizofrenia.

Nem sempre ter imaginação é delírio.

Nem sempre ser teimoso é TOC. 


Nem sempre irritação é TPM.

Nem sempre falar o que pensa é síndrome de Tourette.

Nem sempre a crença profunda é paranoia.

Nem sempre a explosão é surto psicótico.

Nem sempre estar distraído é déficit de atenção.

Nem sempre a vida sexual é performance rígida do macho.

Nem sempre ser bagunceiro ou curioso é hiperatividade.

Nem sempre a maldade é psicopatia.

Nem sempre a felicidade mora na farmácia.

Nem sempre o comportamento humano é caso de pílula, com todas as cores do arco-íris.

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

Na cachoeira, a conversa entre pai e filho




Vinicius, de 4 anos, é uma criança normal. Talvez meu filho seja um pouco mais tagarela do que a maioria, ainda impregnado de curiosidade. Tento desacelerar a vida para ouvi-lo. A curiosidade, salvo em pessoas sensíveis, será diluída até o desaparecimento à beira do absoluto na fase adulta.

Vinicius adora tomar banho; aliás, outro aspecto que pode sumir na proporção inversa do crescimento. E o chuveiro é um dos lugares preferidos para perguntas imprevistas e respostas cuidadosas, com certa dose de didatismo paterno.

Dar banho nele é um momento que exige ginga para escapar das questões que dançam entre super-heróis, xampus, desenhos animados, colegas da escola, diferenças entre meninos e meninas, uma loteria em que ganhamos juntos, eu e ele.

Com o calor de janeiro, coloquei uma cadeira de praia no box. Antes que me acusem de “consumo inesperado ou elevado”, uso o tempo necessário para o banho. A cadeira é mero instrumento de quem não tem dinheiro para instalar uma banheira, comprar um ofurô nem espaço para uma piscina, mesmo que seja de plástico, modelo engana-classe-média.

Para brincar com meus filhos, chamei a instalação artística contemporânea de A Cachoeira. Mariana deu de ombros, natural para quem tem 11 anos, mas encarou as novas dependências do resort quando a temperatura apertou.

Quando Vini abriu o box e viu a cadeira, resumiu com um UAU! Aproveitei e disse a ele: “Filho, vem para a cachoeira. Quer tomar banho?” “Claro, pai, vai ser muito divertido!”

Fiquei sentado na cadeira e Vini se acomodou em um banquinho em frente. Enquanto dava banho nele, as perguntas começaram. Do xampu do Homem-Aranha à lembrança do amiguinho da igreja, de quem estava com saudades.

Logo depois de lavar a cabeça e tirar o sabonete do corpo, Vini me pediu para brincar mais um pouco no chuveiro. Concordei, claro, e passei a observá-lo sem a preocupações operacionais de quem procura sujeira debaixo do braço, nos dedos do pé, em meio aos cabelos encaracolados.

Observava Vini e pensava em como amo este garoto. Sem notar, duas lágrimas se sentiram à vontade. Assim como no dia 28 de novembro de 2009, quando o vi pela primeira vez na maternidade.

Enquanto ele jogava água na minha barriga, eu o olhava. Olhei não sei por quanto tempo, até que veio a pergunta, com o dedo indicador apontado para o alvo da dúvida.

“Pai, este é seu saquinho?”

“É, filho, que nem o seu.”

“E que nem o do vovô!”

“Isso mesmo, Vini!”

“Pai, os meninos têm saquinho e bumbum. As meninas têm periquita e bumbum também.”

“Isso mesmo, filho.”

“Pai, é no saquinho que fica o cocô, que depois sai pelo bumbum?”

Não havia tempo para divagações filosóficas, consultas em manuais, visitas a bibliotecas, entrevistas com especialistas em pais e filhos. A dúvida impõe reflexo. Sem reflexão. A cachoeira continua desaguando no peito do pai agora acuado. Nesta hora, não há encruzilhada. É compromisso com a verdade.

“Não, filho, no saquinho ficam duas bolinhas.”

“Duas bolinhas?”

E agora, se ele perguntar para que servem? Nada como um filho de 4 anos que nunca transforma um diálogo em entrevista.

“Isso, filho, duas bolinhas. O cocô fica na barriga e depois vai para o bumbum.”

“Ah, tá bom, pai. Olha a cachoeiraaaa!” E voltou a jogar água, desta vez para cima. “Vini, para com isso. Vai molhar o banheiro.”

Dois minutos depois, terminamos o banho. Enxuguei os cabelos encaracolados do moleque e mal deu tempo de passar a toalha no corpo dele. Vini saiu correndo. “Mari, mari, tomei banho na cachoeira. É muito divertido!”

Poderia desejar que meus filhos nunca crescessem. Que nunca extinguissem a curiosidade sobre o mundo, sobre eles mesmos. Aprendi que, com o tempo, as fases apenas nos prometem novas experiências. Com ou sem perguntas.

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

Ele, o felino


Um dia de fúria

Nunca tive uma relação convencional com animais de estimação. Nunca dei nome de pessoas. Nunca os considerei bipolares, hiperativos, deprimidos, neuróticos ou em surto. Nunca pensei em gastar dinheiro com escovas de dente, perfumes de griffe, spas, casamentos e aniversários para convidados bípedes que não foram domesticados.

No fundo, de uns 10 anos para cá, passei a me incomodar com o cativeiro. Prefiro peixes em rios e pássaros no ar. Até tolero cães e gatos em apartamentos, desde que a área seja proporcional ao tamanho do bicho. Já vi pitbulls e boxers espremidos em apertamentos de um quarto.

Minha história com animais de estimação começa na década de 90. O primeiro bicho se chamava Anjinha. Nome dado pela minha irmã, Catarina, diga-se de passagem. Era uma periquita australiana – sem duplo sentido malicioso e exótico -, comprada pelo meu pai. E a gaiola? Comecei minha petbiografia com uma ave encarcerada?

Fechávamos as janelas e deixávamos a periquita solta (novamente, a tentação do trocadilho infame). Ela dormia no meu tornozelo. Um dia, escapou por uma fresta da janela. Consegui achá-la no prédio ao lado com pequenas escoriações.

Infelizmente, ela e sua sucessora – de mesmo nome, num arroubo de criatividade fraterna – morreram da mesma causa: parto. Ou ovo entalado. Eu e minha irmã fizemos o funeral na praia, quase em frente ao Aquário. Cavei um buraco de meio metro. Uma caixinha serviu de caixão. Poucas vezes, testemunhei Catarina chorar tanto.

Inconscientemente, troquei seres alados por outros terrestres. Ganhei de presente, anos depois, um esquilo. Nada de primo de Tico e Teco e paixão por nozes. Era outra espécie, uma parente do hamster. E o presente veio com nome: Alaor, para deleite do colega jornalista Luciano Faccioli que, a cada vez que me via, gritava: “Cadê Alaor, o esquilo do amor?” Alaor morreu no verão seguinte, de velhice, como deveria ser com a maioria de nós.

Optei por nova troca. Continuei com seres de pés presos ao chão, mas reduzi a velocidade. A tartaruga veio por conta de uma colega jornalista, que produzia um programa de animais de estimação. Eu namorava a mãe dos meus filhos, que também escolheu o nome pomposo para o jabuti: Maricota.

Quando casamos, fizemos mais do que juntar escovas. Juntamos tartarugas. Ela tinha a Quica. As duas conviviam bem, em ritmo alucinante. Como dizia uma amiga: “tartaruga é um bicho empolgante. É ótimo quando você chega do trabalho. Ela corre até a porta, leva o jornal, sobe nas suas pernas, faz festa para você.” Quica e Maricota até tentavam me recepcionar de maneira efusiva, desde que avisadas uma semana antes.

As tartarugas foram embora, assim como o casamento meses depois. Doamos a dupla para uma escola, onde estudavam dois filhos de um casal de amigos. Lá, havia terrário e gente para tratar bem delas, além de que as tartarugas ajudavam nas aulas.

No entanto, Quica e Maricota foram vítimas da violência urbana. As duas foram sequestradas, com intervalo de uma semana. Resgate nunca foi pedido. A polícia nunca foi procurada. Os sequestradores seguem impunes. Nunca mais as vi.

Depois de três mortes e dois crimes sem solução, decidi me manter solitário na selva. Foi assim por anos, até maio do ano passado. Beth, minha mulher, vem de uma família cuja linhagem é felina. Há dois gatos na casa dos pais dela. Havia uma terceira, mas faleceu de velha. Nina, nome de gente, saiu do filme Cemitério Maldito ou da série The Walkind Dead, de tão esquálida. 

Olhar Gato de Botas

Beth conseguiu – via doação – um gato ainda filhote. Tentou dar um nome bem classe média, com ares gringos: Lui. Meu filho Vinicius, de 4 anos, tentou uma variação fonética, puxando para o francês: Luen. Mas o próprio gato se recusou a atender pelo nome burguês. Acatou minha sugestão, diante do óbvio.

Felino, sua alcunha mais popular, é temperamental. De vez em quando, alguém diz: “ele é bipolar ou hiperativo.” Felino é o parceiro perfeito. Somos indiferentes um ao outro a maior parte do tempo. Ele dorme, eu trabalho em casa. Não há vice-versa. E quando eu durmo, ele também.

Come a mesma comida todos os dias e se contenta com água. Não precisa passear. Não gastamos com coleira. Não pede escovas de dente, spas ou roupas de griffe. Ainda não fez aniversário e, castrado, preferiu não se casar.

Às vezes, penso que ele merece nome e sobrenome. Poderia ser Lui Felino, mas me vem à cabeça Lui Ferrigno, o ator que fazia o Hulk na série de TV. Animais e seus trocadilhos.

A melhor solução talvez seja a proposta por Vinicius. Andando no calçadão da praia, ele me falou: “Pai, queria ter um cachorro. E o nome dele será Felino.”

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

Perca peso, mas não me pergunte como!




Na primeira segunda-feira após as festas de final de ano, tenho certeza que você se sentiu amargurado, arrependido, culpado pela colher a mais de creme de milho, pelo pote extra de sorvete, pelo pedaço maior de tender, chester, peru, todos juntos e misturados no mesmo prato de quem teria trabalhado em construção por 12 horas.

As dores físicas foram curadas com pílulas mágicas ou líquidos em tubinhos coloridos. Mas as dores da alma não passaram. Você prometeu – talvez em público, talvez durante uma foto de si mesmo na rede social – que entraria numa dieta militar a partir de segunda-feira. E aposto que descumpriu a promessa mais rápido do que político quando sabe o resultado das urnas.

Não faço mais promessas de segunda-feira. Não peço mais milagres de réveillon. Mas posso te ajudar. Mais do que fórmulas, trarei exemplos. Resultados. Mudanças de vida. Com 20 anos de experiência no mercado culinário, me tornei especialista em obesidade. Entendo de picanha, pizzas, fast food, sorvetes, refrigerantes, pães, salgadinhos e chocolates.

Como chef de cozinha, sou especialista em brigadeiro. De colher, que exige o artesanato gastronômico. No mundo do sal, meu pai, minha mulher e meus filhos imploram pelo prato principal: duas fatias de presunto, duas de queijo dentro de um pão, que será assado em um tostex curtido 20 anos. É a sofisticação a serviço de uma cultura alimentar exclusiva.

Conheço regimes como poucos. Às vezes, me faço de burro, com cara de magro, quando aparece algum profeta das dietas. Transformo a barriga em ilusão de ótica. Derrubo as falácias do emagrecimento, uma a uma. Dos cogumelos à sopa, das proteínas aos carboidratos presentes na sopa de cogumelos, da alimentação de luz às proteínas das formigas saúvas, das pílulas xixi-o-dia-todo ao detox, flores e esteiras.


Sou mais magro do que há um ano. Estou mais fino do que há dois anos. Sequei mais do que em 2008. Mas jamais vi método tão eficiente quanto aquele que me foi apresentado em julho do ano passado.

Os encontros são mensais para manutenção do regime. Vigilantes não existem. Não há exigência de corte de alimentos ou obrigação de se matricular em academias. Você fica à vontade. Apenas terá os dentes amarrados. A boca continuará aberta, quase como um abobalhado. Quase. Só precisa se policiar como a densidade da comida. Alimentos duros estão proibidos. Duros significam o que você pode aguentar na mastigação. Líquidos estão liberados, sem controle de teor alcoólico.

Outra noite, inventei de seguir a moda Bundchen. Jantei salada. Muita alface. Muita azeitona. O caroço de uma delas quase exigiu atendimento de emergência. Nada que um alicate, não de unha, mas da caixa de ferramentas, não resolvesse. Uma dieta para fortes.

O acompanhamento profissional dura de um ano a três, dependendo do paciente. No meu caso, o vínculo será de 36 meses. Não é financiamento de carro, mas pretendo levar até o fim. É compromisso com a pessoa que me indicou o milagre da perda de peso.

Não preciso tomar chás, shakes, orar para imagens de elefantes (sem ironias), ou me dobrar em esteiras de palha. A balança pode ficar aonde dorme, embaixo da cama. Passo em farmácias e ignoro os números luminosos ao lado da porta, que se multiplicam quando você pisa no medidor de quilos e gorduras. 



As roupas cabem. Aquela camiseta, que ganhei de aniversário e servia de totem das promessas, hoje entrou no esquema usa-lava-usa. Jogo futebol semanalmente. Fazia isso antes, mas ajuda a compor o quadro messiânico.

Uma amiga me perguntou ontem se eu havia emagrecido. E olha que estávamos num aniversário cujo cardápio era pizza. Comi quatro pedaços. E bolo. Tomei óleo negro gasoso. Eu não estava de preto, a vestimenta do auto-engano. A barriga virou miragem.

Não caia na armadilha de procurar esta solução na Internet. A dieta não tem nome ou gurus. Não induz a leituras de autoajuda. Não existem DVDs que te humilham. Jane Fonda não vai te conhecer. Os dias de bullying terminaram. Prometo que não vou te cobrar por estas dicas preciosas.

A dieta me mantém gordo. Mas cada vez menos. Cinco quilos nos últimos seis meses. O aparelho nos dentes não matou meu amor por comer. Mas cortei outro vício: parei de roer as unhas após 34 anos. Descobri o que inchava minhas calorias. Esta dieta é um milagre!

segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

Celso Lago, a voz

Celso Lago, em apresentação no Almanaque Bar

Nunca havia derramado uma lágrima com a morte de um artista. Além do sentimento de perda e de luto, sempre soube separar a obra e o autor (ou intérprete). Em muitos casos, porque – independentemente da qualidade – a obra não me aguçava lembranças afetivas ou experiências específicas. Em outros, porque não conhecia a fundo a biografia do artista, embora apreciasse suas criações.

Nunca me senti tão melancólico com a ausência de um artista até saber da morte do cantor Celso Lago, na noite de 28 de dezembro. Celso é, para muita gente, o melhor intérprete de MPB que passou por essas terras caiçaras. O melhor que testemunhei nos últimos 20 anos.

A obra se misturava com o artista. Celso Lago era tão doce e sofisticado quanto o repertório que nos entregava numa noite comum em um bar qualquer. Como todos os sensíveis, o cantor jamais andava pela obviedade.

Celso Lago transformava, durante três, quatro minutos de duração da música, uma composição lado B em clássico instantâneo. Ouvíamos a letra pela primeira vez com o mesmo ar de nostalgia daquele ícone que viria a seguir no repertório.

Como os melhores intérpretes, Celso era um camaleão. Mas um camaleão capaz de imprimir metamorfose com carimbo único, que acrescentava substâncias àquela obra em construção, que sobreviveria pela memória de quem estava sentado à frente dele.

Celso Lago não fazia covers. Era como os clássicos crooners, como foi Milton Nascimento. Celso marcava a ferro a canção que interpretava, nos escravizando com afetividade, bem mais profundo do que aquele pedido em papelzinho de bar (ou de cruzeiro de navio). Ouvir Celso era memorizar quando, onde e com quem estava quando o assistiu.

Acompanhei à distância a trajetória de Celso Lago durante muitos anos. Tornei-me fã por causa de um casal de amigos, Meire e André, que – como muitos admiradores – descobriam onde ele estava e peregrinavam para ouvi-lo. No caso deles, são mais de 20 anos, desde os tempos de namoro.

Passei a entender, com eles (e com o próprio Celso), o sentido de uma música sacra. Aprendi que, dependendo de quem está no palco, o cenário, o cardápio e o endereço pouco importavam. Ali estava a voz.

Ouvi Celso Lago pela primeira numa churrascaria. Estava lá, com pouco menos de 20 anos, para um almoço com amigos. Mal consegui tirar os olhos do palco apertado, diante de um cantor cuja voz engolia as dezenas de desafinados que jogavam conversa fora. Muitos deles acabaram convertidos e, menos de uma hora depois, cantavam junto e obrigavam os envergonhados a admirar em silêncio.

Ouvi Celso Lago pela última vez no extinto bar Pierrot. André e Meire estavam lá comigo. Éramos seis fieis em busca do pastor. Uma de nós, Aracely, também cantora, dividiu com ele duas músicas. E Celso, num dos intervalos, sentou-se à nossa mesa para papear, falar de música e lembrar de pessoas e lugares da cultura de Santos.

Santos perdeu também um professor em gestação. Celso Lago daria aulas de canto na Secretaria Municipal de Cultura em 2014. Fico imaginando como seria um camisa 10 descrever e tentar ensinar os milagres de um gol de placa com estádio lotado.

Santos não pode esquecê-lo. Mais do que um texto em jornal ou dar nome a uma sala, as homenagens tem que acontecer onde Celso Lago se sentia melhor. Por que não um show, com cantores, instrumentistas, poetas, atores, todos os caminhos da arte desaguando no que este intérprete foi em vida? Por que não uma apresentação ao ar livre, de graça, para todos?

De tantas mensagens, comentários e condolências, uma delas melhor definiu o que representou Celso Lago para a música santista. A frase é do músico Julinho Bittencourt e me pareceu tão simples quanto definitiva. “Celso Lago, o maior de todos nós.”

sábado, 4 de janeiro de 2014

As previsões em sete peles



Virada de ano é quando se abre o mercadão das promessas proibidas. Juramos emagrecer, reduzir as dívidas, transar mais (neste caso, nos esquecemos de avisar o outro; falar por rede social não adianta; o máximo que acontece é ele ou ela curtir e preferir não compartilhar), arrumar novo emprego, estudar mais.

Na prática, são pedidos milagres que nem 700 ondas garantem com Iemanjá usando fones de ouvido. Às vezes, é preciso pedir um atendimento especializado, ou melhor, individualizado. Foi o que aconteceu com um primo, turista do interior de Minas, deslumbrado com o mar, desavisado com as coisas do além.

Quando retornávamos da queima de fogos de artifício em Santos, vimos uma barraca tão colorida quanto uma fachada de artigos místicos. Achei, em princípio, que era uma daquelas que agrupam os farofeiros emergentes, que dormem na praia porque é modinha.

Meu primo, talvez alterado pela Cidra de R$ 10, resolveu entrar na barraca. Como eu estava cansado de ver tantas retrospectivas e o futuro eram só palavras, lavei as mãos e não interferi. Dez minutos depois, ele voltou com a seguinte história.

Uma mulher usava vestido branco, que era ofuscado pelo turbante meio laranja, meio verde limão. Ela estava cheia de pulseiras nos dois braços. Pela descrição do meu primo, deveriam ser daquelas que você paga, no máximo, R$ 5 na feirinha de final de semana e posa de rastafári nórdico, tão transparente quanto um belga na Jamaica.

À frente da mulher, em cima da mesa, descansava uma bola de cristal, ao lado de alguns búzios, uma xícara suja de borra de café, uma imagem de São Jorge e dois vidrinhos de florais. Quando me contou, pensei: “Das duas, uma: charlatã ou ecumênica.”

Ela pediu que meu primo sentasse. Perguntou o nome dele, segurou o pulso e disse:

- Você não é daqui!

- Como a senhora sabe?

- Apenas sei. E te digo: corra para casa.

- Por quê?

- Porque vai faltar água. Em meia dúzia de cidades. Até cinco dias de secura. E da braba. De rachar torneira.

Quando meu primo me falou isso, pensei: charlatã. Como vai faltar água, se a Sabesp inaugurou estações de tratamento e garantiu que não faltaria por 30 anos? O pior é que ela completou:

- Menino, vai faltar por mais 30 anos. E corra logo, senão não chegará a tempo. Isso se você também não ficar no escuro.

- No escuro?

- Trevas! Coisa do caramunhão.

- A senhora quer estragar minhas férias, sá? A senhora que tem pacto com o sete peles, o mochila de criança.

- Se tivesse, não tava aqui, menino!

- Fique tranquila. Pego carona com meu primo ou com minha prima ou tomo um táxi. Na pior das hipóteses, pego um ônibus.

- Vá a pé, meu filho.

Ela chacoalhou a xícara de café, balançou as pulseiras, bufou três vezes, olhou para ele e disse:

- Vá a pé ou pedalando. Chegará mais rápido. Vejo sua vida congestionada. Você dentro de caixas com rodas! Poucos ônibus! Táxis são privilégios. Os motoristas bebem chá de sumiço por aqui.

Meu primo ainda tentou argumentar com uma matéria que leu no jornal.

- Eu li que a empresa daqui diminuiria o número de ônibus nas ruas. A senhora também leu, claro.

- Não leio, moleque! Vejo nas cartas. E você vai passar calor e esperar muito. Menino, você falou na sua prima. Ela mora aqui?

- Não, mora em São Paulo.

- Sabia! Tem um encosto que vai travar a vida dela. Vejo uma estrada, milhares de caixas alinhadas como comboio e ela pagando caro para ficar parada.

- Pelo menos, ela vai aproveitar conosco os dias aqui na praia.

- Não vai, não. Vejo insegurança, medo, coisa ruim, moleque.

- A senhora tá me enganando. Botando medo para pegar dinheiro. Ainda bem que deixei a carteira em casa. A praia tá cheia de policiais. Não vai acontecer nada.

- Mas você só anda na praia, moleque? Te digo, se cruzar a linha do trem, a cor da encruzilhada muda, meu filho. Ali, somem os hómi de farda. Ficam as armas, nas mãos de outros. E não falo só destes cantos, moleque. É a vila mais antiga, a pérola que escureceu, tudo cheio de gente com papel na mão, daqueles de delegacia.

- Senhora, me arrependi de entrar aqui. Só desgraça. De qualquer modo, quanto ficou esta conversinha, sá?

- Nada, não, meu filho, pode seguir.

- De graça. Então, pegadinha? A câmera, onde está?

- Não, moleque, não é nada. Só fale com aquele moleque que tá contigo lá fora. Veja que tudo se repete. A gente é que não percebe. Se engraça com o que é novo. Às vezes, é só o velho arrumadinho.

A mulher respirou fundo, abaixou a cabeça e falou, acenando com a mão para que meu primo saísse.

- Não é nada, não. Até porque, o moleque lá fora precisa economizar. Não porque deu de beber e comer para você. Amanhã, quando ele abrir a caixa do entregador, vai ver um carnê. Este carnê vai doer na alma, filho. Aumentou, meu filho, aumentou. E todo mundo se encostando na pobre da Iemanjá. Fora do mar, ele não pode ajudar a segurar belzebu.

Meu primo agradeceu e deixou a barraca. Corremos para casa. Depois de quatro dias, ele ainda está no meu apartamento, comendo bem. Mas não quer sair. Ao ver o noticiário, ele me falou: “essa velha é vidente, óbvio!”