segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

Professora faz campanha para publicar livro infantojuvenil


A professora Ana Rosa Zuffo esperou 11 anos, mas agora está próxima de publicar o primeiro livro. “Vermelha é a cor da esperança” é um livro infantojuvenil que nasceu em 2003. Desde então, Ana Rosa escreveu outros textos, entre contos, poesias e fábulas, mas nunca conseguiu publicá-los. 

Para realizar seu sonho, a escritora iniciou, em novembro, uma campanha de financiamento coletivo (crowdfunding), dentro do site Kickante. Em 49 dias, ela alcançou 77% da meta, estabelecida no valor de R$ 5.500. Até o momento, Ana Rosa recebeu apoio de 70 pessoas, que adquiriram cerca de 200 exemplares da obra. A campanha acaba em duas semanas. Ela criou, inclusive, uma página do livro no Facebook, que possui cerca de 330 seguidores. (ver link no final do texto)

“Vermelha é a cor da esperança” conta a história de uma rosa, que sonha em se libertar do jardim onde vive. A flor crê que este é o pedido mais valioso que poderia ter, até conhecer uma menina chamada Mariana. A obra, dividida em sete capítulos, possui oito ilustrações, criadas por Isabela Silva, que também preparou a capa e a contracapa.

O livro, que pode ser adotado por escolas, trabalha valores tão caros nos dias atuais, como generosidade e solidariedade. “Acredito, acima de tudo, que a literatura é sinônimo de liberdade. A reflexão e as ideias precisam ser divididas, degustadas em conjunto. Nada melhor que as escolas, as crianças, os amigos e os leitores para que a história deste livro seja compartilhada”, explica a escritora. 



A autora – Ana Rosa Zuffo tem 43 anos e é uma leitora compulsiva. Ela mora no bairro do Campo Grande, em Santos. Tem uma companheira, a Pucca Serena, uma cachorrinha shitzu, de 6 anos. Ana se formou em Pedagogia e possui pós-graduação em Psicopedagogia e Administração Escolar. Ela trabalha na Prefeitura de Santos há 23 anos.

sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

Amor precioso até o fim


Beth Soares*


Ontem foi um dia de adeus. Mas não foi um dia triste, apesar da chuva fina que chorou durante horas sem parar. Uma grande mulher partiu.

Há menos de um mês Eguimar completou 61 anos. Quando liguei para lhe dar os parabéns, ela estava feliz, embora confessasse estar com muitas dores por causa do avanço da doença. Ainda sim, ouviu com paciência e carinho minha voz eufórica.

Eu estava agitada porque queria descrever para ela todas as emoções da apresentação do meu trabalho de conclusão de curso: um livro-reportagem escrito a quatro mãos, em parceria com a agora jornalista, Jessika Nobre. Nele, contamos um pouco da bela história de vida de Eguimar Mendes, uma carioca corajosa que, depois de superar um mar de dificuldades, ainda teve que encarar um câncer.

Jessika e eu aguardávamos a melhora de Eguimar, para levarmos o exemplar do livro reservado a ela, justamente porque não pôde comparecer à apresentação, devido aos problemas de saúde. Nossa personagem disse que se redimiria dessa ausência preparando um almoço especial para nós. A morte, um dos eventos da vida, não permitiria.

Ontem fui acordada pelo toque do celular. Era Jessika. Quando ouvi a voz dela, ouvi também a de Eguimar. A de Jessika falava em meus ouvidos, enquanto a de Eguimar vibrava em algum lugar na minha alma. E antes que Jessika pudesse concluir a frase, depois de me preparar com um “tenho uma notícia ruim para te dar...” Eguimar, com seu jeitinho meigo e carinhoso, já havia me contado: eu parti.

Em um segundo, meu contato direto com aquela mulher que aprendi a respeitar e admirar profundamente, me deu uma tranquilidade, uma paz, que até então eu não havia experimentado em nenhuma vivência diante da morte de alguém querido.

Preparei-me para ver sua figura pela última vez. No caminho, fui rememorando nossas conversas, suas frases marcantes, seus gestos, a vida que descreveu com tanta intensidade.




Ana Paula, uma das filhas de Eguimar, me recebeu com um olhar sereno e um abraço forte, que eu retribuí com afeto. Eu estava tão grata por elas terem compartilhado comigo aquela história, e por me deixarem fazer parte dela. Não sei se consegui, em algum momento, deixar isso claro para elas. Nem sempre as palavras são leais e alcançam a profundidade dos meus sentimentos, embora eu me esforce bastante.

Alexandre e Leonardo, também filhos de Eguimar, me receberam com um aperto de mão afetuoso que logo virou abraço. Exalavam paz de espírito. Alexandre lamentou não haver conseguido dar seu depoimento para o livro-reportagem, mas decidiu fazer isso naquele instante.

Entre as belíssimas palavras com as quais me presenteou naqueles minutos de conversa, estas me encantaram pela profundidade por trás do óbvio aparente. “Minha mãe me ensinou milhares de lições, mas uma considero a mais importante: o amor não depende de dinheiro, de saúde ou de escolaridade. Ele basta, por si só. E minha mãe era PhD no que se refere ao amor”.

Eguimar estava linda. Rodeada por margaridas, que Alexandre escolheu sem saber que era assim que ela queria. E eu disse a ele que tinha acertado na escolha, porque ela me falou, durante uma de nossas longas conversas, que em sua partida não queria crisântemos. Nem choro. E assim foi. Todos estavam mergulhados numa atmosfera delicada de paz. Só havia saudade. E amor.

O silêncio me fez pensar no samba que certamente Eguimar estava levando para o outro plano, como prometeu uma vez em tom de brincadeira: “do lado de lá vou fazer uma festa! Até São Pedro vai querer saber quem é essa negona, quando eu chegar fazendo bagunça. E eu vou responder: sou eu, Eguimar, carioca de Jacarepaguá!”.

Sorri intimamente ao imaginar a cena. A chuva parou. Impossível não se render ao sorriso da Preciosa Eguimar.


* Texto publicado, originalmente, no blog Poesia Cotidiana, em 14 de janeiro de 2013. 

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Vento Noroeste traz poesias a Santos


O jornalista André Argolo lança no próximo sábado, dia 15, a partir das 18 horas, o livro de poesias Vento Noroeste. A primeira obra do autor, nascido em Santos e radicado em São Paulo, será lançada na Realejo Livros, no Gonzaga. 

Vento Noroeste foi publicado pela Editora Patuá e nasceu durante os dois anos da pós-graduação em Formação de Escritores e Especialistas em Produção de Textos Literários do ISE Vera Cruz, em São Paulo. O livro leva esse título porque, assim como o fenômeno do Vento Noroeste, bem conhecido da população da Baixada Santista, traz o incômodo que precede grandes mudanças. Mas em vez do tempo, da sociedade.

A maior parte dos 42 poemas tem alto teor crítico. Cenas ou situações são construídas beirando o absurdo, abrindo para as mais diferentes interpretações - poesia que forma imagens, querendo dizer o que está efetivamente escrito, mas também carregando outros significados possíveis.

O leitor não encontra nesse livro vida fácil. Ele precisa estar disposto a trabalhar, ler com mente aberta, pensar junto, perguntar a si mesmo: "que raios isto quer dizer?". Afinal, respostas prontas e preguiça de raciocínio não estão levando a humanidade a bons caminhos, estão?

O livro será vendido diretamente, por R$ 35,00, e os interessados deverão pagar em dinheiro ou cheque. A Realejo Livros fica na rua Marechal Deodoro, 2.

O autor

André Argolo é jornalista e pós-graduado em Formação de Escritores pelo ISE Vera Cruz (São Paulo). Nasceu em Santos, em 1974. Ganha a vida produzindo vídeos sobre livros e autores para o Grupo Editorial Global, com parcerias também com o site Publishnews, a Editora DSOP e o Grupo Editorial Record. Mantém o blog Incurável, dolorida, crônica
(http://incuravelcronica.blogspot.com.br) e escreve resenhas de livros para o Jornal Rascunho, de Literatura.

Formado em Jornalismo pela Universidade Católica de Santos, André Argolo trabalhou em emissoras como ESPN, Cultura e Globo. Na Baixada Santista, atuou na TV Tribuna, TV Mar (ex-afiliada da rede Manchete) e no jornal Expresso Popular.

quinta-feira, 4 de setembro de 2014

O dia em que Luzia enxergou Woody



Beth Soares

Ver nunca foi motivo de reflexão para Luzia. Aliás, Luzia não era mesmo muito afeita à reflexão. Era daquelas mulheres do fazer, do agir, muito mais do que das elucubrações filosóficas, o que não significava, claro, menos inteligência.

Luzia via longe. Mas via longe no sentido figurado, o que representava uma poesia sem nenhuma graciosidade, sem aquele tom natural e inspirador, comum a quase toda metáfora. Luzia, havia algum tempo, enxergava menos a luz. E nem se dava conta disso.

Até que veio aquele sábado fatídico. Diazinho preguiçoso e solitário. Uma solidão nascida justamente da preguiça, que não permitiu sequer chamar Nice, a vizinha e amiga de infância que desde que decidiu se embrenhar pelos livros e passou quatro anos na capital estudando arte, adorava um tal de Woody Allen. Onde já se viu gostar de um cara com um nome estranho desses? Luzia decidiu ir sem Nice ao cinema, porque estava mesmo é com preguiça de ouvir tietagem.

E lá foi ela. Tomou o ônibus na praça. Sentou no último assento disponível e se sentiu sortuda por isso. Desceu trinta minutos depois. Apertou embaixo do braço a bolsa comprada do camelô, que era igualzinha à da moça da novela, esticou a blusa de linha e arrancou com os dentes o fio puxado pelo anel da mulher supermaquiada que estava parada na porta do ônibus, atrapalhando a descida dela e de mais uns três. Quase passam do ponto. Andou depressa o meio quarteirão que a separava do homem de nome esquisito. Fez cara de dondoca, jogou o cabelo para trás e olhou com desprezo para os baldes de pipoca que alguns casais faziam questão de exibir. Para ela não passavam de um exagero fedido.

Depois de entregar o ingresso para o menino de bigodinho ralo vestido no nada discreto uniforme do cinema, que parecia ser pelo menos uns dois números maior que ele, Luzia escolheu o melhor lugar, no meio da sala.

Ao primeiro sinal de diálogo, percebeu que as letras da legenda dançavam na tela, num borrado amarelo igual ao seu sorriso, quando todos ao lado, à frente e atrás riam como loucos. Desequilibrados, para Luzia. Não tinha graça não ver as letras. Forçou a vista o máximo que pôde. Fechou as pálpebras um pouco, como se assim pudesse aumentar o alcance da visão, e projetou a cabeça para frente, até ficar corcunda. Não se importava com sua autoimagem àquela altura. Queria ler a legenda. Tudo em vão.

Será que foi praga da Nice? Será que ela viu Luzia indo para o ponto de ônibus e deduziu o pecado? Não, não foi isso não. Luzia, escolada, havia se certificado da inexistência de testemunhas para seu crime perfeito. Era mesmo coisa pior. Miopia. Recusou-se a acompanhar as imagens do filme e correr o imenso risco de não entender nada, ou pior, entender pouco e estragar tudo. Estava decidida: não iria olhar para a tela

Desolada e sem querer se resignar com o prejuízo da compra do ingresso de final de semana, sempre mais caro, decidiu prestar atenção em alguns vizinhos momentâneos, os mais próximos, porque sua necessidade de graus só permitia que distinguisse a fisionomia de uns poucos. E eram ridículos. Riam como se houvessem saído de casa dispostos a se refestelar na gargalhada a qualquer custo, ainda que não achassem a menor graça. Sacudiam-se, abrindo a boca cheia de dentes, enquanto jogavam a cabeça para trás. Mesmo ela, míope, naquele escuro, podia jurar que conseguia ver até as obturações. Que triste! Por um segundo, ponderou que não ter dentes bons é pior que não ter olhos bons. Deu graças a Deus por nunca ter precisado ir ao dentista mais do que meia dúzia de vezes na vida. Antes míope que banguela. 


Na verdade, uma Luzia míope era uma piada pronta. Que ironia: justo ela, que a mãe havia obrigado a se tornar devota da santa protetora da visão, que lhe emprestou o nome, era míope. Protetora da visão de quem? Dela é que não era.

Pensou nos olhos do tal de Woody Allen. Ainda bem que estavam protegidos daquela cena dantesca: as bocas abertas rindo espalhafatosamente. Aqueles pontos pretos que ela jurava ter visto nos dentes daquelas bocas arreganhadas eram um terror. E para piorar, aquele povo todo ria de uma ópera.

Onde já se viu? Não viu, não é, Luzia? Pensou consigo, lembrando de novo da ironia. Luzia achou graça. Riu do seu crime perfeito e do quanto ele era desnecessário. Riu da sua microfelicidade por causa de um último assento vago no ônibus. Riu da mulher supermaquiada e do anel monstruoso, que enroscou na sua blusa de linha. Riu das bolsas de camelô e mais ainda das originais, tão parecidas e tão mais caras. Riu do exagero dos baldes de pipoca e do cheiro ruim que exalavam. 


Riu do mocinho do cinema que achava que aquele bigodinho fajuto o faria aparentar ter mais idade, e do seu uniforme que parecia emprestado de algum defunto maior. Riu do borrão amarelo na tela. Das obturações que já não tinha mais tanta certeza de ter realmente visto e das gargalhadas que as expunham. Riu de si mesma. E enfim gargalhou, junto com a multidão. 

Finalmente entendia Nice. Dividiria com a amiga, a partir daquele instante, a tietagem por Woody Allen.

Obs.: Texto publicado, originalmente, no blog Poesia Cotidiana, em 27 de agosto de 2012. 

terça-feira, 2 de setembro de 2014

Transgressão em gotas


Beth Soares

A manhã era clara. O que não significa que estava ensolarada. Não era este tipo de luz que se podia ver. Era um outro, mais difícil de enxergar e, por isso mesmo, mais especial. 

O velho homem de olhos azuis observava, do alto de seus quase dois metros de cultura e poesia, a menina de olhos de mel. Olhos tristes. Por um momento, no entanto, eles eram só doçura. Não havia lugar para lembranças ruins. 

O pacto entre os dois era sempre respeitado: um dia de alegria, custasse o que custasse. E, por este momento, ela esperava longos dias que se arrastavam pelo chão de seus pensamentos voadores. A sorte é que as almas moldadas na arte sempre se reconhecem. E, ao se encontrarem, podem voltar ao verdadeiro lar por instantes preciosos, ainda que menos longos do que gostariam.

Sua mãe a deixara naquela casa grande com cheiro de avós, derramando sobre ela milhares de recomendações para que evitasse contato com tudo que pudesse ser arriscado. Pobre mãe, parecia não perceber que toda esta precaução era homicida da alegria. Mas na cabeça da menina, arriscado era perder a oportunidade de mergulhar no inesperado. E, para sua felicidade, o avô pensava o mesmo.

E o mergulho incluía desenhos intermináveis e histórias maravilhosas sobre uma tal de França, onde aqueles olhos azuis se abriram pela primeira vez. Fascinada, a menina se sentia em casa, em meio àquela atmosfera que exalava sutileza. O clima de poesia chegou ao ápice quando algumas gotas molharam os vidros da janela. Ambos se entreolharam e compreenderam. A chuva era a contravenção que precisavam. Correram ao encontro dela, que caía gentilmente, como que para confirmar o que dizia o velho francês: ninguém pode passar pela vida sem brincar sob a chuva.

Naquele instante, a menina dos olhos de mel conheceu a felicidade plena. A necessidade de proteger esse segredo das excessivas preocupações da mãe era o condimento que tornava a transgressão ainda mais saborosa. Brincou, encharcou-se, sujou-se, sorriu, gargalhou. Mergulhou naquelas gotas de ventura como se cada uma fosse a única, num deserto feito de nãos. Agora, vivia a profundidade da alegria num outro tipo de negação: o não-limite.

A menina, hoje mulher, viaja nesta cena do passado, talvez a mais bela de toda sua história, enquanto a chuva faz suas lembranças se redesenharem como gravura no presente, tornando-as quase tangíveis. Os olhos se enchem de chuva. Uma chuva doce. Mistura de saudade e de certeza que a alma do velho francês, em algum lugar lá de cima, está derramando felicidade líquida para que ela não construa muros que ceguem os novos e pequeninos olhos de mel, que estão se formando neste instante, pela primeira vez, dentro dela.

Obs.: Texto publicado, originalmente, no blog Poesia Cotidiana, em 28 de dezembro de 2011. 

O dono do elevador

Marcus Vinicius Batista

Ele me encontrava sempre no mesmo dia e horário, ao meio-dia de segunda-feira. Só faltava o relógio de bolso, daqueles de controlador de estação ferroviária. Em dias de frio, ele me dava a sensação de que saíra de um filme antigo por causa das roupas e dos óculos de lentes grossas. Só faltava o apito que avisaria a chegada do trem. Para mim, aquele que saia da Estação Sorocabana, na avenida Ana Costa, e me levaria ao Vale do Ribeira. 

Sala que reúne imagens e objetos antigos da Unisanta
Ao meio-dia, meio-dia e alguma coisa, Seu Ricardo colocava a cabeça na porta da sala M-320B, na Universidade Santa Cecília, em Santos. Seu Ricardo – na verdade, Antônio Ricardo – era prevenido. Olhava para dentro da sala antes de trancá-la. Ao perceber que eu estava dando aula, balançava a cabeça positivamente e me pedia desculpas. A conversa viria mais tarde, em outros dias da semana, no habitat principal dele na universidade.

Um assunto nos unia e sustentava o diálogo de 20, 30 segundos por encontro. A pauta era única, inquestionável por ambas as partes. Eu entrava, o cumprimentava, indicava o andar e perguntava sobre o Santos. O futebol do time preferido dele era a única razão para fazê-lo falar e tirar os olhos do noticiário de esportes do jornal.

Seu Ricardo tinha problemas de audição. Eu tinha que elevar o tom de voz para me aproximar dele. A resposta brotava nos mesmos decibéis. O diálogo virava, então, debate público, que prendia o olhar de todas as testemunhas, apaixonadas ou não pelo esporte, no elevador. Gente que, muitas vezes, desconhecia o nome do velhinho que subia e descia dezenas de vezes numa manhã. Gente, eventualmente, sem paciência para repetir o número do andar, quanto mais para recitar um bom dia ou obrigado.

Seu Ricardo seguia impassível. Como todo aquele que pouco ouve, ele se tornara seletivo à arrogância e ao palavrório inútil. O silêncio permanecia essencial quando eu o encontrava em um terceiro ambiente da universidade. A sala dos professores, um endereço de transição ou de relativo isolamento, era o refeitório dele.

Jamais o incomodei ali. Apenas observava a fragilidade do senhor magro, sentado de costas para a porta, a devorar uma marmita que trouxera de casa. Naquele instante, futebol seria heresia. No máximo, o tudo bem que recebia a contrapartida mecânica de quem se entregava à liturgia alimentar.

Todo ano, Seu Ricardo participava de uma descoberta. Era “achado” por um dos meus alunos de Jornalismo, que percebia nele uma história a ser contada. Pena que uma história quase sempre limitada às paredes de um elevador, a um homem e sua função profissional. “Professor, pensei em fazer uma matéria sobre o tiozinho do elevador. O que você acha?” “Ah, o Seu Ricardo?” “Quem?”, ouvi a pergunta em uma das ocasiões.

Na última semana, senti falta dele. A insanidade da rotina diária nos faz compreender, sempre com atraso, que os ausentes não são patrimônio do cenário, mas a memória viva que deixa cicatrizes nos espaços após 30 anos de trabalho.

Entrei no elevador e não havia com quem conversar sobre a derrota do Santos. O banco preto estava lá, como sempre, em frente ao painel de comandos. Não percebi que a aula estava na metade, ao meio-dia, porque não houve chacoalhar do molho de chaves ou um olhar surpreso pelo vidro da sala.

Na sala dos professores, ninguém almoçava. Dois funcionários conversavam sobre trivialidades quando um professor entrou e disse sem rodeios: “Seu Ricardo morreu mesmo?”

O câncer o levou aos 86 anos. Entre o diagnóstico e o falecimento, uma semana. Seu Ricardo trabalhou até o final da vida, mesmo depois de se aposentar na Codesp. Por milhares de vezes, foi a ponte entre a pressa, a ansiedade, a euforia e a irritação que desaguariam em salas de aula. Testemunha dentro da caixa e seus botões, era ele quem decidia o número de paradas até o destino provisório de um dia.

sexta-feira, 29 de agosto de 2014

Filha pródiga


Beth Soares

Depois de olhar para ela milhares de vezes, seu cheiro de juventude ainda me fascina. Meus olhos ainda se enchem de alegria ao tocarem suas cores. Todas as memórias da minha vida se misturam à sua história. Mas nada que eu diga, nada que eu sinta é suficiente para fazê-la olhar para mim com um pouco de misericórdia.

Desde o dia em que decidi traí-la, com sua irmã de sangue, ela me deu as costas. Pedi perdão. E senti na pele o silêncio glacial do desprezo, tão distante do calor com que tantas vezes ela me afagou. Tantos anos de cumplicidade, destruídos por um simples deslize. Erro que não cometi por vontade própria, mas por força das circunstâncias. Queria liberdade, independência. Olhei em meus bolsos e não encontrei o suficiente para permanecer em seus braços. Ela exigia demais de mim. Soberba, queria sempre mais ouro, e nenhum esforço que eu fizesse era suficiente para saciá-la. Não pude pagar seu preço. Ainda não posso.




Meu maior castigo é ter que encará-la todos os dias. O destino, irônico, pregou-me uma peça: fez dela minha patroa. Do alto de seu ar esnobe, ela me olha ao mesmo tempo linda e intocável, como uma miragem. E, mesmo assim, dói ter que deixá-la todas as noites, exausta após horas de trabalho e estudo, dedicadas a seu favor. Com um aperto no peito, ressentida pela forma como esta ingrata insiste em me tratar, eu volto para um lar no qual nunca terei seu aconchego. E me levanto amanhecer após amanhecer, com a mesma vontade de lutar para em algum momento voltar a merecê-la.

Sonho com seu perdão, com o dia em que, sob uma chuva fina, ela me receberá novamente, com os braços abertos. Sonho com uma brecha de humildade e gratidão em sua carapaça de concreto, pois sei que lá no fundo existe uma alma de artista, composta de alegria e doçura, com cheiro de maresia. Sonho em poder voltar para ti, Santos, minha terra adorada.

Obs.: Texto publicado, originalmente, no blog Poesia Cotidiana, em 22 de setembro de 2011. 

quinta-feira, 14 de agosto de 2014

A espera de Marina


Beth Soares

“Estou esperando meu filho”, ela repetia. Impossível a quem visitava aquele lugar não reparar em sua expressão de atriz hollywoodiana dos anos 30. Cada centímetro de seu rosto era minuciosamente maquiado. Blush cor-de-rosa nas bochechas brancas como seus cabelos, que se derramavam, sempre de maneira ordenada, em direção à boca miúda, tingida de vermelho. Um rosto meigo e um corpo esguio, trêmulo e talhado pelo tempo. Inesquecível. 



Imagem meramente ilustrativa

Fazia pouco tempo que Marina chegara. Naquele dia estava perfumada, bem vestida. Colar de pérolas, certamente falso, mas que lhe dava um ar aristocrático. Sorria com facilidade e era possível adivinhar em seus olhos o brilho da esperança. Esperança de um dia ser lembrada pelo filho que, sabe-se lá o motivo, havia esquecido, talvez, o caminho para visitá-la.

Quem voltasse ao recanto que abrigava a espera de Marina veria em seus olhos que dia após dia o tempo carregava para longe aquele brilho dos primeiros momentos, como se acompanhasse as andanças do filho. “Ele é muito ocupado”, contemporizava. Seu amor sempre encontrava justificativas para a distração dele.

Um dia Marina despertou para o fato de que o tempo não parava de agir, mesmo contra sua vontade. Primeiro, fez seu batom vermelho perder a cor. Tudo estava em seu lugar, como todos os dias, menos o escarlate peculiar dos lábios.

Depois, o cotidiano implacável soprou de seu rosto delicado o blush cor-de-rosa. Mas as roupas alinhadas e o penteado jeitoso ainda estavam ali, assim como um resquício do fio de luz que ainda tilintava em seus olhos.

Muitas noites caíram. Em uma delas, o perfume de Marina perdeu sua fragrância. E depois das noites, muitos dias vieram. Em um deles também o colar de pérolas falsas parou de sorrir em seu pescoço.

Os enfeites que adornavam sua figura elegante, usados para atrair os olhares do filho querido e, quem sabe, fazê-lo permitir novamente a vida ao seu lado, foram sendo abandonados, um a um. E, esquecidos no canto da mesa de cabeceira, empedraram e se despedaçaram, junto às suas expectativas de retorno ao lar.

A cada semana, doía ver Marina se despindo de suas cores, de sua vaidade, da luz de seus olhos. E de suas esperanças. E como num filme antigo, as imagens saltavam aos olhos em preto e branco. Um dia, sua boca, agora sépia, parou de falar no filho atarefado. E ao parar de mencioná-lo, percebeu que nada mais que pudesse articular faria sentido. Então, o filme se tornou mudo. Porque aquele filho era a razão de continuar discorrendo. E comendo, e respirando, e esperando.

Até que a luz já débil dos olhos de Marina se apagou. Marina desistiu. Não só de esperar, mas de viver. Porque não tinha mais sentido viver sem esperança, presa numa cena tão distante de seus sonhos cansados. Não via mais sentido em recordar a vida sabendo-se esquecida em uma trama que não merecia reprise.

Apagou-se a esperança de rever o filho. Apagou-se a dor. Apagou-se, Marina. Libertou-se.

Obs.: Texto publicado originalmente no site Jornalirismo, em setembro de 2011.

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

Uma dose de realidade

Beth Soares

Hoje tive um pesadelo. Depois do alívio de perceber que tudo não passou de um sonho, concluí que muito melhor é acordar.

Já passei horas da minha vida arquitetando na mente uma casa linda, perto do mar, com a pessoa que amo sempre presente... Então o relógio desperta! São sete horas da manhã e preciso ir para o banho, tomar café, se sobrar tempo, pegar o ônibus – quase sempre lotado - e trabalhar por horas. E, entre os toques estridentes de telefone e as súplicas por escuta e atenção, sempre encontro tempo para deixar minha imaginação me arrancar dali. 


Fazemos isso o tempo todo. Costumamos achar que o sonho é sempre melhor que a realidade, o que é uma injustiça. Pertencer ao mundo real é muito mais interessante que esperar eternamente pela vida feliz e perfeita em um mundo remoto, cheio de “e se”, que talvez nunca seja habitado. Para mim, esperar a hora certa de um relógio imaginário, que teima em contar as horas de maneira incompreensível, é uma tortura.

Ouvir um amontoado de fonemas dizendo que posso contar com eles, nunca me satisfez. Prefiro uma mão para poder segurar quando precisar de ajuda. Uma mão real, com atitudes que falam mais do que qualquer outra coisa. As palavras são importantes, mas não surtem o efeito esperado quando se está no meio da noite tentando conter a própria solidão. Só a concretude aplaca a solidão. Não falo da presença física, mas da alma, da vontade, da ação cotidiana que se repete, repete, repete, até virar hábito e, quem sabe, mudar o medo de realizar.

Ser objeto de sonho e de desejo é relativamente fácil. Não há esforço contínuo. A veracidade por trás da atuação é dispensável. O problema é que para ser ou sustentar uma miragem é preciso vestir a capa da superficialidade.

Ser concreto é um trabalho difícil. Precisa de tempo. De atitude. Requer profundidade. Só com muita coragem se abre mão do holograma em nome do tangível. Só com muito amor à realidade é possível arriscar a própria imagem e assumir uma posição. 


Apesar de todas as belas cenas que meu imaginário é capaz de criar, de todas as vantagens, sensações, prazeres e fantasias do mundo ilusório, prefiro os lugares menos belos, mas reais, o mundo imperfeito, mas que me oportuniza concretizar planos, as pessoas com seus defeitos, mas autênticas, a mão frágil, mas palpável.

Amo sonhar. Mas prefiro realizar.

Obs.: Texto publicado, originalmente, no blog Poesia Cotidiana, em 22 de julho de 2011.

quinta-feira, 31 de julho de 2014

O ouro de Cloanto

Beth Soares

Gosto de gente. De gente que aparentemente não tem nada de diferente para merecer um olhar mais profundo. São justamente essas pessoas que possuem as histórias mais formidáveis.

Foi assim que olhei aquele senhor de cabelos quase brancos. Apresentou-se a mim e às minhas amigas chamando-nos atenção para seu nome. Deixou escapar de seus olhos o orgulho de nunca haver conhecido um homônimo. 




Ao nascer, os pais, que achavam já ter gasto quase toda a criatividade nomeando outros onze filhos com a letra C, descobriram que as profundezas da originalidade não haviam sido totalmente vasculhadas. Inventaram “Cloanto”.

Não nos deu tempo para dizermos nossos nomes, que agora pareciam excessivamente comuns. Não por desinteresse, mas porque certamente seus 72 anos lhe permitiram viver muitas histórias. Precisava usar todo o tempo que dispuséssemos para conosco degustá-las. Sabia que nossa passagem por seu caminho seria breve, então teria que usar aquela tarde para contar, ao menos, as narrativas mais especiais.

Tratou logo de emendar uma pergunta à sua apresentação. Estava diante de universitárias e queria testá-las. Torceu para que não soubessem as respostas. Apostou, inclusive. E perdeu. No fundo, sabia que ganharia muito mais que os dez reais da aposta. A sabatina prosseguiu e o tio-avô de nossa amiga aniversariante demonstrava contentamento, tivéssemos sucesso ou não com as réplicas. Para ele e para nós não eram as respostas que tinham importância. Mas as perguntas.

Elas nos conduziram pela vida do nordestino de Natal, desenhando na atmosfera umedecida pela chuva fina, cenas da aventura extraordinária que tem sido sua vida. Ouvíamos atentas como espectadoras de radionovelas.

Aos 18 anos, Cloanto mudou-se para Santos apenas com o que chama de “PPI”. Diante da interrogação exibida em nossas testas, tratou logo de traduzir a sigla: Pré-Primário Incompleto.

Do trabalho braçal passou, por esforço próprio, ao trabalho intelectual. O medo de perder o emprego que lhe garantia um bom salário fez Cloanto voltar a estudar. Terminou o colegial sem intenção de cursar a faculdade. Mudou de idéia rapidamente quando um amigo lembrou-lhe que o caminho para a universidade não lhe traria apenas um diploma, mas possibilidades incalculáveis de conhecer, superficial ou profundamente, muitas mulheres. Escolheu o curso de educação física, pois julgou ser o mais apropriado para suas intenções. Formou-se, mas não chegou a exercer a profissão.

Quanto às possibilidades com as mulheres, não usufruiu. Seu coração foi roubado, sem chance de resgate, por uma “princesa” de olhos azuis. Mas, como em todo roteiro de histórias de amor, havia um empecilho: ela era namorada de um amigo. Lembrando das palavras de sua mãe, “insistiu, persistiu e não desistiu”. Não sossegou até fisgá-la. E até hoje, 46 anos depois de dizer sim no altar, ainda mantém o mesmo olhar apaixonado de rapaz ingênuo. E é com a mesma paixão e com uma irreverência ímpar que fala de todas as coisas que seus olhos lhe permitiram ver e que a vida lhe permitiu experimentar.

Fala de seus filhos, netos e inúmeras conquistas com o orgulho de quem usou na construção de sua história apenas o suor do rosto e a honestidade. Com emoção, lembra dos dizeres pai, homem talhado na aridez do sertão nordestino, que sabiamente recomendou ao caçula de seus doze filhos ao vê-lo partindo para o sudeste: “Nunca pegue o que não lhe pertence. Ainda que trabalhe numa mina de ouro, antes de ir embora, limpe-se de modo a devolver até o último resquício do metal amarelo que tenha ficado sob suas unhas”. E assim Cloanto fez, por toda vida.

O ouro de Cloanto, muito mais nobre, vem de sua sabedoria. As palavras que saem de sua boca corretas e certeiras não felicitam apenas os teóricos de nossa língua mãe, quando faz questão de deixar claro que “advogado” não é “adevogado”, “cérebro” não é “celebro” e que as “irmãs” nunca poderão ser “irmães”, ainda que já tenham filhos. Seu verbo felicita seus ouvintes pelo conteúdo intenso e próximo de todos nós.

A história de Cloanto poderia ser a minha, a de um amigo, a de um parente ou a sua, apesar de ser só dele. Ela nos faz perceber que a singularidade de uma trajetória pode caminhar junto à sua capacidade de proporcionar identificação. E essa é uma característica marcante da vida de quem, como ele, trama sua experiência com o fio do incomum, e a transforma em algo extraordinário.


Obs.: Texto publicado, originalmente, no blog Poesia Cotidiana, em 1º de julho de 2011. 

quarta-feira, 30 de julho de 2014

O batismo do avião

Beth Soares

Hã? Como assim? Perguntei ainda sonolenta. Eu não tinha organizado nada, nem meus pensamentos, mal sabia onde estava.

Minha amiga, com uma voz que transbordava entusiasmo, pareceu nem prestar atenção à minha confusão mental e continuou a enumerar, com seu jeito extremamente eloqüente de argumentar, todas as dezenas de vantagens que uma viagem rápida nos traria. Além dos dias distantes do estresse, ela havia conseguido uma promoção imperdível de passagens aéreas. Não gastaríamos com estadia, já que os familiares dela estariam prontos para nos receber. Informou o dia, o horário e quase não me deu tempo para raciocinar. Na verdade, eu não estava mesmo em condições de pensar. E disse sim.

Dias depois, não sei por que, lembrei repetidamente das cenas de um filme sobre premonição, que retratavam um desastre aéreo. As cenas eram tenebrosas. Apaguei-as rapidamente antes que ganhassem vulto. Foi quando caiu a ficha: era a primeira vez, em 29 anos, que viajaria de avião. Senti um frio na barriga. Mas já estava feito.





Chegou o dia. No caminho para o aeroporto tentei relaxar. Cantei músicas para mim mesma... E nada. Tentei lembrar de coisas engraçadas que pessoas me disseram nos últimos dias, ou de alguma piada... Branco total. A cada minuto que se aproximava da hora marcada para a decolagem minha tensão aumentava. E eu não me sentia capaz de mudar esse quadro. Minha amiga e o marido dela se divertiam com o que chamavam de meu “batismo aéreo”.

No salão de embarque a ansiedade era tanta que prendi tudo: a respiração, os pensamentos, até a vontade de ir ao banheiro, que sempre aparece em ocasiões de medo.

Comecei a caminhar. Meus próximos passos me levariam ao avião. Tentei disfarçar, mas acho que estava escrito “SOCORRO” em neon vermelho e letras garrafais na minha testa. Meus amigos riam da minha aflição.

Entrei no avião. Após um cordial boa noite dos comissários de bordo, sentei. Me espantei com o menor metro quadrado por pessoa que já tinha visto em um meio de transporte. Reparei que todos os outros passageiros olhavam para seus minibancos com muita naturalidade, como se o mundo fosse light e todos tivessem acabado de sair de um comercial de adoçante.

Com um pouco da força que havia em meus pulmões (não usei toda para não espremer ainda mais a passageira ao lado, no caso, minha amiga) respirei fundo e tentei esquecer qualquer aproximação mental com a claustrofobia que poderia reforçar ainda mais a imagem de medrosa que eu estava prestes a confirmar para sempre, sem chance de retratação.

A primeira coisa que fiz foi tentar afivelar o cinto. E não tive como evitar o pensamento: isso não vai resolver nada em uma situação de emergência... Situação de emergência, leia-se: queda. Pronto, conectei. Tentei afastar esse pensamento, fazendo o exercício de projetar na mente o oposto. Impossível. Droga de psiquê! Maldita hora que eu pensei na palavra “queda”. 


Agora, ela não saía da minha mente, ao mesmo tempo em que as imagens de vários desastres (agora não só aéreos, mas também naturais), dançavam na minha frente. Tornados, trombas d´água, tempestades eletromagnéticas, seja lá o que isso signifique, me faziam suar frio. Tentei respirar fundo de novo. Não consegui.

Descobri que não sabia afivelar o cinto. Minha amiga, prevendo meu desespero, calmamente me mostrou como fazer. A calma dela me deixou ainda mais nervosa. Olhei para os lados e vi crianças, jovens, adultos, idosos... todos pareciam tranqüilos. Será que ninguém ali estava na mesma situação?

De repente, ouço a voz do comandante. Ele começa um discurso que parecia decorado, ou lido em algum manual. Em certo momento diz que, em caso de pouso no mar, devemos usar os assentos para flutuar. Que bom! Isso significava que, caso eu fizesse parte da ínfima parcela dos passageiros de avião que sobrevive a um pouso de emergência no mar, eu teria uma pequena chance de sobreviver boiando em cima daquele acento, no qual eu mal conseguia me encaixar. Ótimo, porque, apesar de ter nascido numa cidade praiana, não sei nadar. Agora sim, me sentia totalmente segura! Sorri de pânico.





Quando estava quase me convencendo que ficaria tudo bem, ouvi o barulho das turbinas. Pensei em sair correndo, abrir a porta de emergência e pular. Mas eu estava paralisada.

Decolamos. Por instantes pensei: deu tudo certo! Consegui até admirar a beleza das luzes alaranjadas das ruas de São Paulo. Mas a tentativa de relaxar durou apenas alguns minutos. Tudo começou a balançar. Olhei para minha amiga e ela, como se lesse meus pensamentos (ou, quem sabe, novamente o letreiro havia se acendido em minha testa?) automaticamente me disse que estávamos passando por uma turbulência. Obviamente ela disse isso mantendo o mesmo tom de voz e exalando uma calma insuportável.

Ouvi a voz do comandante repetindo, com a mesma tranqüilidade, a frase dela. Olhei pela janela. Péssima idéia. Só consegui enxergar uma densa nuvem acinzentada. Percorri meus arquivos mentais e descobri que mantinha um sem-número de cenas trágicas de filmes que vi ao longo da vida, muito bem guardadas e conservadas em excelente estado. Impressionante como de vez em quando tenho boa memória!

Aos poucos, a calmaria no ar foi voltando até parecer que o avião deslizava suavemente pelas nuvens. Respirei. Não sei se por causa dos seqüentes disparos de adrenalina que agora cessavam, senti um torpor que, aos poucos, foi se transformando em sonolência. E, para minha imensa felicidade, adormeci. Mas não tive tempo de sonhar.

Acordei sentindo uma pressão em todo corpo. Era o momento do pouso. Parei de respirar de novo. Travei todos os músculos, até aqueles que nem imaginava que tinha. Um tranco, e finalmente pousamos.

Pronto! Terra! Agradeci a todos os santos que lembrava e a alguns que, na hora do horror, tratei de inventar. Minha aventura havia terminado e tudo correu bem, apesar de todo esse meu drama.

É, tenho que confessar, sou dramática. Talvez isso justifique a calma da minha amiga, que me conhece como poucos, durante o voo.

Na verdade, desde o início ela suspeitava que, no fundo, eu mal podia esperar pela próxima vez que aquele delicioso pânico me absorveria novamente.

E ela acertou.


Obs.: Texto publicado originalmente no blog Poesia Cotidiana e no site Jornalirismo, em junho de 2011. 

terça-feira, 29 de julho de 2014

O envelope e a nova seleção


Marcus Vinicius Batista

O envelope passou por baixo da porta. Não ouvi o barulho, pois estava concentrado em minhas tarefas cotidianas de homem do lar. Lavar roupas, pendurá-las, lavar a louça (e não secá-las), arrumar camas, serviços rotineiros que ignoram férias, folgas e outros benefícios.

Não havia remetente ou destinatário. A primeira certeza: não era conta. Contas, de cara, se definem como tais ao sorrir pelo envelope timbrado. Olhei contra a luz e vi que havia somente um papel dentro dele, bem menor do que o envelope. Peguei uma tesoura na cozinha, cortei uma das pontas, tirei o papel, sem identificação de origem, e o desdobrei.

Daqui em diante, por temer represálias ou pelo desejo de recompensa no além, vou reproduzir exatamente o conteúdo, salvo se foi entregue no apartamento errado. Mas não me arrisquei a perguntar ao vizinho. Ele é meu amigo em rede social, mas não me cumprimenta no prédio. Entendi que só existo na vida virtual dele. 



Eis a carta:

“Caro amigo semidescrente,

Você foi escolhido para ser o semeador destas palavras. Sei que, como crente descrente, você vai desconfiar deste texto padronizado. Mas o que não é padronizado hoje em dia? Não tenho tempo e paciência para personalizar as palavras diante dos protestos e das lamentações da última semana. Até porque o assunto desta missiva é importante, mas estou ocupado demais com outros problemas de ordem étnica em outros endereços.

Outros como você receberam este texto. É um pedido, creia ou não. Poderia utilizar meus representantes por aí, mas confesso que não sei quem acredita na palavra, quem a compra, quem a vende, quem a reinventa como paródia.

Vou ser direto. Vocês perderam quatro pessoas importantes em 10 dias, na contagem de vocês, e me senti na necessidade de justificar estas medidas. Temos uma partida importante. Coisa do Dante, alegre e encantado com o futebol. Para ele, uma partida é capaz de levar qualquer um de cima a baixo, sem escalas. A ironia é que o jogo vai acontecer no purgatório. Campo neutro, sabe?

Como o mundo corre de forma atemporal por aqui, nosso time envelheceu, se é que me entende. Os mesmos atletas: Manuel, Machado, Drummond, Cabral, Guimarães, Alencar. Nossos adversários já conhecem de cor as táticas, as características, os trejeitos de cada um dos jogadores. Mesmo criativos, eles têm limites.

Contratações eram fundamentais. O lado de lá, com a ganância que lhes marca, traz sempre atrações novas. São gurus de autoajuda, ícones do mundo corporativo, filósofos que venderam suas ideias por uns tostões. Não temos como competir com a agilidade financeira do andar de baixo.

Confesso que duvidei do que me sugeriram depois dos 7 a 1. Quase virei minhas escolhas para a literatura alemã. Eles têm diversos craques, como Mann, Goethe, Hesse. Mas também entendi que os brasileiros escrevem, no momento, melhor do que jogam. Foi o ponto que fechou minha decisão.

Só que precisava de diversidade. Versatilidade e jogo coletivo são mantras até por aqui. Não posso contradizer o que outros pregaram em meu nome quando falavam em solidariedade, generosidade, lealdade, mesmo aqueles sujeitos que, por trás de gravatas e versículos, defendem o nosso rival. 



Comecei com o João. Nordestino, ele tinha a acidez dos centroavantes. Pense o jogo politicamente incorreto, com a ironia de quem conquista o zagueiro para depois deixá-lo sentado. Ao mesmo tempo, pode conquistar a torcida e os colegas com o jeito festivo e a fala arrastada dos falsos lentos baianos.

Mas os auxiliares Pedro e Paulo ponderaram sobre a carência de um companheiro de frente. Sangue novo também, de postura semelhante, com execução distinta nos passes. Acho que fui na mosca quando recrutei Ariano. O homem é ligeiro, ainda que treine de chinelas.

Ariano quase me enganou na fala. Quando entrou em campo, lembrava João Grilo, espevitado que só ele nas laterais. Deu trabalho para Bilac, lateral-direito parnasiano até na forma de marcar. Ariano não tem adversário, encara até o mais miserável treino como uma aula-show, daquelas que costumava dar por aí até ontem (outra vez, o tempo estranho a mim, que não é respeitado pelas palavras).

Pensei comigo e concluí que tinha direito a mais dois para reforçar o miolo da equipe. Puxei um meia de ligação (veja como já engano tal qual os professores da beira do campo) com alma de poeta, um sujeito que adorava ipês, crianças, educava com sorrisos. O nome dele é Rubem.

O rapaz está meio resistente. Foi um seguidor meu na juventude, que me abandonou diante das bobagens dos homens. Mas deve jogar. Percebi que os olhos dele faiscaram quando viram quem dividiria as camisas e o mesmo lado do campo. Todos aqui falam que ele é um meia criativo. O único problema é se apegar demais aos detalhes, o velho problema dos poetas e cronistas que formam nosso elenco. Teve um que se distraiu tanto com a bandeira, que elaborou um texto e se esqueceu de cobrar o escanteio.

Para conduzi-lo em campo (jamais controlá-lo), completei a cesta com um meia cerebral, científico no falar, no correr, no passar, no deslocamento no gramado. Ronaldo Mourão é especialista em lidar com quem olha para as estrelas e as vê como versos em dança. Ele era um desses astrônomos que se escondia no rigor e na elegância com que tratava as palavras.

Sei que vocês, recebedores desta carta, são (ou foram) descrentes. É por isso que rezo para que, de uma forma ou de outra, propaguem a palavra. Nada de outra face. Desta vez, precisamos ganhar. Até porque o adversário, maldoso que é, vai entupir o time de volantes-brucutus, para usar um jargão de vocês. Falam que são jogadores modernos, mas correm e batem como o fizeram nas teclas na vida humana.

Atenciosamente,

ELE

P.S.: Estou ciente de que vocês oram pela vinda do coronel. Mas, como acontece quando milhares de vozes falam simultaneamente, não consigo ouvir. Ele não tem o perfil do meu time, queridos. É tão imortal como um marimbondo de fogo, saltitante de vários e incertos rumos, autojulgado o dono do mar, do céu e da terra, pelo menos onde vive. Uma confissão (ou sacrilégio): meu rival disse que sonha com ele vestindo a dez! E do Maranhão, já me basta Aluizio Azevedo.

segunda-feira, 28 de julho de 2014

O carinhoso


Beth Soares

Cheguei sem saber quem ele era. Sabia apenas o nome e a idade. Fui recebida por Maria, sua irmã que, como ele, tinha os cabelos tingidos pelo tempo. Apresentei-me com um sorriso. Sem qualquer expressão, o olhar de José me atravessou, como se eu fosse uma alma penada, invadindo seu espaço sem lhe perguntar se era bem-vinda. 

Pintura de Paul Tiberio

Precipitadamente, julguei aquela atitude como desprezo. Alguns minutos depois, após breve conversa com Maria, percebi que havia me enganado. “Ele vive no seu próprio mundo”, ela explicou num tom de profundo pesar. Ali fiquei sabendo que José tinha breves momentos de lucidez, ao longo das demoradas horas de reclusão em seu universo interior, que preenchiam seu dia.

Segundo ela, esses rápidos instantes lhe emprestavam um brilho diferente no olhar. O brilho que só a sabedoria dos anos de vivências nos caminhos do mundo pode nos dar. “Nestes momentos, tenho meu irmão de volta. Pena que duram somente alguns segundos”, lamentou com um suspiro.

Fiquei pensando como deve ser profunda a dor de perder um ente querido que permanece vivo. Olhar para ele e saber que não se encontra mais ali, naquele corpo, ocupando aquele espaço. Respira, come, dorme, mas não exala nada do que era no passado. Pelo menos não com a freqüência que mataria as saudades dos que o amam.

Olhei novamente para ele ali, na minha frente, sentado em sua cadeira de balanço, vestido de maneira simples. Tentei imaginar a dor de ter um corpo que não suporta mais a alma, um cérebro que não traduz mais os pensamentos e os transforma em palavras. Mas quando tentava imaginar como seria ter um coração que bate, mas não é mais passível de sentir, por algum motivo que só a vida, com seus milagres maravilhosos, poderia explicar, fui surpreendida com um som que atravessou meus pensamentos e os calou.

Olhando profundamente em meus olhos, como se lesse minha mente e quisesse responder meu questionamento silencioso, ele deixou sair de seus lábios trêmulos uma canção que me fez abandonar a tristeza que aqueles pensamentos recentes haviam me trazido: “Meu coração, não sei por quê / Bate feliz quando te vê...”



Cantou a música inteira, sem perder o ritmo ou esquecer uma letra sequer. Naquele instante todas as minhas conjecturas sobre seu estado emocional e físico perderam a importância. Ele estava ali, sim. Ainda que por alguns segundos, era José, novamente. Agradeci à vida por me presentear com aquele momento.

A poesia daquela cena ficou gravada em mim, não sei se no cérebro, no coração ou na alma. Talvez em todos ao mesmo tempo.

José estava me ensinando que o ser humano é capaz de amar e poetizar, mesmo quando perdido no mundo obscuro da própria mente. Somos capazes de sobreviver enquanto seres de pensamento e sentimento, mesmo quando açoitados pelos limites que o tempo implacavelmente se encarrega de imprimir em nosso corpo.

Respirei fundo, procurando absorver daquele ambiente toda a atmosfera poética que se desenhava sob meus olhos. Sorri novamente. Desta vez, ele correspondeu ao meu sorriso, para logo em seguida recolher-se novamente em seu mundo sombrio. Não fiquei triste, ao contrário. Estava inebriada pelos segundos intensos de melodia e beleza. Era esta sensação que importava, era o que ficaria.

Eu havia presenciado uma amostra irrefutável e contundente de como exercitar a verdadeira lucidez. José me mostrou que ao aceitarmos as circunstâncias que não podemos modificar, nos tornamos livres para enxergar as pequeninas, mas formidáveis oportunidades de revelar e saborear a poesia escondida em cada segundo aparentemente comum do cotidiano. E, mesmo em meio às situações mais adversas, é possível encontrar uma brecha de luz, que mesmo durando segundos, pode fazer um coração feliz. Bem feliz.


sexta-feira, 25 de julho de 2014

O silêncio e a solidão


Beth Soares

Mais uma noite. E lá estava Antônio, novamente. Entrou e fechou a porta do seu minúsculo apartamento no centro da cidade. Jogou as chaves sobre o sofá de dois lugares, o único que cabia em sua saleta. O mundo estava lá fora. Ali dentro, estava em um universo paralelo. O seu universo.

Caminhou pelo ambiente quase vazio, ouvindo o som dos seus passos. Lembrou-se do barulho da casa de seus pais. Era de uma família grande, festeira. Antônio nunca se sentira, de fato, um membro dela.

Nas festas, ao longo de toda a infância e a adolescência, conversava com todos, ouvindo de lamentações a surtos de pseudo-superioridade. Divertia-se com a mediocridade dos que se achavam sábios e aprendia com a sabedoria dos que se achavam menores. Mas logo se entediava e desejava ir embora, mesmo sem saber para onde. Queria paz, queria sair dali, refugiar-se.

Voltou exatamente para o presente. Olhou ao redor e enxergou as paredes brancas, que agora pareciam ainda mais pálidas e frias. Pensou que talvez uma outra cor, algum tom pastel, melhorasse aquela aparência. Os poucos móveis na casa davam-lhe a impressão que estava sempre de saída ou que a chegada nunca se dera por encerrada. Era como se não pertencesse a lugar nenhum.

Abriu a geladeira e olhou para os ímãs da porta. Eram presentes de amigos, trazidos de várias partes do país e de fora dele. Pensou que entre os amigos também não se sentia feliz. Divertia-se até onde conseguia, mas nunca o suficiente para poder afirmar que estivesse alegre ou satisfeito, mesmo nos lugares aparentemente mais agradáveis. Em algum momento, sempre sentia falta do silêncio.

Pegou uma garrafa de vinho branco, gelado. Lembrou-se da namorada. Não estava ali porque era muito ocupada. Ele, sempre calado, observava-a invertendo as prioridades da vida. Achava que ela trabalhava muito para ter uma vida melhor, mas se esquecia de que uma vida só é melhor se for vivida.

Em meio a reuniões de trabalho na empresa, ligações importantíssimas e e-mails que precisavam ser respondidos imediatamente, ela nunca teria tempo para esse tipo de conjectura. Estava sempre atrasada, em busca da vida que não percebia já ter, esquecendo-se de apreciar o presente.

No fundo, não fazia questão da presença dela. Os dois eram iguais, concluiu. Riu dela. Um riso pesaroso. Riu de si mesmo. Tentou imaginar algum futuro ao lado dela. Não foi capaz. Bebeu um gole de vinho, na garrafa mesmo, para logo depois deixá-la de canto, como tantas vezes fizera consigo.

Foi até o seu pequeno quarto, abriu a gaveta do criado-mudo, que ainda cheirava a madeira nova, e de lá retirou uma pequena caixa de papelão decorado. Abriu-a e viu algumas pilhas de fotos. Ali estava muita gente que havia muito não encontrava.

Acariciou as imagens felizes daqueles que deixou para trás. Percebeu que não eram poucos. Apertou as fotos contra o peito. Também ele fora deixado para trás. Uma marchinha de Carnaval veio-lhe à mente. Cantarolou até sentir as lágrimas explodirem, pesadas, em seus olhos.

Finalmente conquistara o que tanto queria. Estava só.

Obs.: Texto publicado originalmente no site Jornalirismo e no blog Poesia Cotidiana, em março de 2011.

quinta-feira, 24 de julho de 2014

As palavras que me fogem

Marcus Vinicius Batista

Estávamos à mesa eu, Beth, Marcelo e Mariana. Tínhamos acabado de degustar (quando o prato é sensacional e a ocasião, incomum, mudamos o verbo) um macarrão com lingüiça, temperado com salsa, cebola e uma mostarda importada. Perdoe-me pela descrição. Por não me lembrar do nome sofisticado da iguaria, pensei que seria negligente se o resumisse a macarrão e lingüiça. Marcelo cozinha com a genialidade dos simples, mas um pouco de marketing gastronômico não causa indigestão.

Conversávamos sobre uma crônica e o impacto dela nas pessoas. Daí, partimos para discutir sobre o ato de escrever e como as palavras ideais nos aparecem em momentos inoportunos. Inoportunos porque nos impedem de anotá-las. Textos maravilhosos brotam nas águas do chuveiro, por exemplo. Inoportunos porque nos fazem crer que a memória seria capaz de armazená-las com fidelidade. 


As palavras ideais sempre nos escapam. Não vejo saída a não ser adotarmos barreiras de contenção, que permitam uma ação rápida e evitem a fuga em massa. Anotá-las é a aspirina paliativa. Escrever o texto de uma vez pode ser a cura, desde que tenhamos consciência de que lidamos com um cenário utópico, de que o artesanato do texto vai redesenhar o vocábulo perfeito.

Quem sofre com a perda da palavra sabe o quanto ela tem peso, cheiro e significado únicos. Um sinônimo é como um irmão, que jamais será o sujeito em si. Quem escreve anda armado de papel e caneta. A vigilância é paranoica, pois o motim de verbos, substantivos, conjunções, adjetivos e outros membros da quadrilha pode ocorrer já, ontem ou amanhã.

O escritor Ignacio de Loyola Brandão sempre anda acompanhado de cadernetas. No carro, nos bolsos. Ele possui caixas de cadernetas com anotações. Palavras que se uniram e viraram crônicas. Palavras que constituíram família e amigos e se transformaram em romances. Palavras rabugentas e solitárias, que acabaram mortas onde nasceram, engolidas pelo branco das páginas das cadernetas.

O filósofo Christian Godoi, um amigo de longa data, dormia com um caderno ao lado da cama. O despertar de um sonho tinha o mesmo valor literário das expressões que pulavam durante a sonolência. Ou que retornaram como fruto das reflexões sobre os compromissos do dia seguinte, como uma aula a ser dada na universidade.

Ando com uma caderneta a tiracolo, mas confesso que a preguiça de abrir e escrever é maior. Ainda confio na memória e na repetição, esperançoso porém ciente de que as palavras mudam de humor, de endereço, constroem novos relacionamentos quando me sento diante do caderno ou do computador para escrevê-las. 


Dizem que as crônicas sobre o escrever surgem quando os autores estão sem ideias ou algo para dizer. Costuma ser uma verdade. As entrelinhas do texto denunciam o estelionato criativo ou a licença para transgressão de linguagem.

Não é o caso desta crônica. Quando acordei, comecei a pensar na coluna semanal para o jornal. Pensei em um texto sobre política e desenhei o último parágrafo na cabeça. Esculpi as palavras com cuidado, mas adormeci.

Duas horas depois, o horror previsível do esquecimento. Pensei na profecia do meu amigo Marcelo, cravada ontem à noite. Ele gesticulava com veemência para descrever a morte de um texto único. Doze horas depois, virei vítima do mal sobre o qual ponderei e ele amaldiçoou.

Mas, nos escombros da amnésia literária, nasceu esta crônica. Corri para o computador com o desejo de alcançar as palavras ideais para expressar meu luto textual. Bobagem. As palavras se esconderam em algum lugar entre a cama e a cadeira que me sustenta agora no escritório. Nem adianta procurá-las porque nunca mais saberei quem são (ou foram).

quarta-feira, 23 de julho de 2014

O segredo de Zuleica


Marcus Vinicius Batista

Acordei logo cedo, sem motivo. Não havia compromissos, muito menos trabalhar. Resolvi levantar da cama por causa do cheiro que vinha da cozinha. Era impossível crer que aquele aroma reaparecera. A fome, submersa e sonolenta em algum canto do abdômen, saltou como se estivesse tomado uma descarga elétrica.

Cambaleante, esfregando os olhos e arrastando os pés, cheguei à cozinha. Ali, a mesa estava posta sem grandes novidades estéticas. Os pratos de sempre, as xícaras de muitos anos, os talheres do casamento, sempre brilhantes.

O novo residia na travessa no canto direito. Os ovos mexidos, bem temperados, me esperavam. Ao lado dele, o saco de papel abrigava meia dúzia de pães. Brotava o café da manhã. A primeira lembrança do roteiro gastronômico-afetivo.

A manhã transcorreu sem sobressaltos, na rotina preguiçosa de quem está em férias e deseja, sem vergonha, que elas se tornem permanentes. Quatro horas depois, novo cheiro nasce do mesmo endereço. A primeira reação foi de dúvida. A Rússia é aqui? Quase. Era um menu adaptado à cultura tropical, um item tradicional e protegido contra pirataria via panelas.

Da cozinha, vinha um misto de whisky, carne e creme de leite. Os ingredientes se misturavam e seria impossível separá-los no olfato, muito menos no sabor, mas a memória faz o trabalho de descrever as partes que compõem o todo único.

Este prato exige complementos ritualísticos. Almoço com strogonoff de carne é na sala. Toalha branca, forro bordado, pratos, talheres e copos para visitas, ainda que todos sejam de casa. O arroz e a batata frita completam o elenco, como coadjuvantes premiados em diversos festivais internos de gordices.

Neste caso, a figuração pertence à bebida. Para os netos e os adultos-crianças, o líquido doce, negro e gasoso que o mundo inteiro idolatra. Para ela, a exceção, o vinho branco que finge ser de safra ideal e que se perpetua (na verdade, ganha sempre novos irmãos gêmeos) na adega improvisada no gavetão da geladeira. Quando ingerido, o vinho se transforma. O branco corresponde ao tom avermelhado das bochechas dela.

Na segunda etapa do processo de engorda, a refeição não termina na última colherada do terceiro prato de strogonoff ou no arranhar de garfos que raspam o restinho de molho. Como numa partida de futebol, há os 15 minutos de intervalo, quando se comenta o jogo em andamento e surgem as instruções para a sequência da pelada alimentícia.

O segundo tempo começa com velocidade, para derrubar o oponente que finge estar tímido no banquete. Na mesa, o pavê de chocolate, iguaria que mistura o chocolate amargo (chamado de chocolate do padre por causa da embalagem) e as bolachas maisena. A sobremesa, disputada aos tapas e colheradas em eventos da parentada, traz consigo o segredo dos artistas.

Embora escrita e disponível na primeira gaveta da cozinha, é impossível percorrer a distância entre o papel que registra a receita e as mãos dela que ornamentam e finalizam a escultura. Uma obra mal vista pelas testemunhas, obcecadas por fragmentá-la em pequenos pratos. A arte que se desfaz em menos de 30 minutos.

Cumprimos pena domiciliar, incapazes de fugir por conta da vida glutona, por quatro horas. Cochilo, conversa fiada, TV inconsistente. No final da tarde, toca a sirene do terceiro turno. É uma sirene sem badalo, um alarme que vem no silêncio do cheiro, armadilha previsível e sempre eficaz para fisgar os peixes que morrerão você sabe por onde.

Voltamos à mesa da cozinha. Ali, se espalham o doce e o salgado, o yin e o yang do reino dela. Não há vida monástica, moral filosófica ou pudores religiosos para se quebrar a ordem dos cosmos gastronômico. Doce e salgado se alternam, sem brigas, confraternizando entre bocas e sorrisos.

No mundo dos salgados, o pão de queijo reina. Não é aquela borracha elástica que você empurra para dentro, apressado, nas cantinas da vida. O pão de queijo é único, parido artesanalmente com o polvilho escolhido a dedo. É um pão de queijo com queijo, com o perdão da redundância.

O capítulo mineiro da novela alcança o clímax com a nêga. A nêga amalucada ganha como recheio a calda de chocolate, injetada cirurgicamente pelos poros abertos na massa do bolo. A calda deve ser rala e coroada pela cobertura de brigadeiro – eventualmente com chapéu de granulado. São heranças de uma senhora – a mãe dela -, quituteira que costurava ingredientes assim como moldava os vestidos das “freguesas”.

O jantar, para quem ainda tivesse fôlego, era uma experiência recente dela, uma combinação de poucos anos. Uma joia em lapidação constante, sujeita a deslizes mínimos, relevados por todos. A picanha vinha do forno banhada em sal grosso e sustentada por fundações de papel alumínio. Uma arquitetura de rocambole que, por vezes, era substituída pela criação original, também um rocambole – sem ser rocambolesco – recheado de queijo derretido, presunto e ovo cozido. A ordem dos atores nunca alterava o produto final, o prazer multiplicado em progressão aritmética.

Ambos os pratos exigiam, de minha parte, total concentração, de modo que dispensava quaisquer acompanhamentos. O amor, neste caso, impõe total exclusividade e dedicação.

O tour de gulodices descrito acima é fictício. As refeições nunca aconteceram no mesmo dia. Elas foram unidas como forma de organizar as minhas lembranças de Dona Zuleica, que faleceu há exato um ano. Minha mãe, claro, é muito mais do que uma chef de cozinha. Aliás, reclamava muitas vezes – entre o humor e a rabugice – de ter que cozinhar em certos domingos, perspectiva respeitada por todos e acatada quase com continência pelo primeiro a apanhar o telefone para pedir o almoço.

Comer, como todo bom mineiro prega em seus causos, é compartilhar a vida em volta da mesa. Ela era assim. Mais do que o almoço, o lanche ou o jantar, era em volta de pratos e copos vazios, de talheres sujos que colocávamos a conversa em dia ou discutíamos problemas das mais variadas intensidades.

Deixei alguns itens do cardápio de lado. Este texto é uma crônica, e não um tratado filosófico da alimentação. De qualquer modo, comer sempre foi para mim, na relação com ela, como o amor que se nutre a cada reencontro, que dispensa glamour ou falsa nobreza barroca. Comer mata a saudade, ressuscita a nostalgia, compartilha a experiência.

A simplicidade afetiva entre nós está no detalhe quase relegado para a nota de rodapé. Está no ingrediente do improviso, mas sem abdicar do talento. Jamais me esquecerei das singelas salsichas de uma noite de sábado, a última refeição infelizmente interrompida porque o coração dela resolveu gritar.


terça-feira, 22 de julho de 2014

Eu, Julie e Julia


Beth Soares

— Você vai adorar este! – ele me disse enquanto estendia, na minha direção, a caixa do DVD. Li na capa: Julie & Julia. Sinceramente, duvidei. Ainda assim, aceitei a sugestão, afinal meu marido até agora nunca me decepcionou quanto à opinião sobre um filme. A favor dele ainda havia o fato de Julia ser interpretada por Meryl Streep, uma de minhas atrizes favoritas.


Trouxe o filme para minha casa. Olhei para aquelas duas mulheres da capa. Além de Meryl Streep, a jovem que interpreta Julie, Amy Adams, pareceu-me simpática. Mal sabia que dali a instantes descobriria que, além de atriz talentosa, a italianinha contaria uma história tão próxima a mim.

O filme narra a história de duas mulheres, Julia Child e Julie Powell, separadas no tempo por mais de 40 anos. Ambas decidiram, através da culinária, transformar suas vidas.

A verdadeira Julie Powell

Motivada pela história de persistência de Julia, Julie, que aos 29 anos acredita não ter conseguido alcançar sucesso na vida profissional, decide investir no antigo sonho de se tornar escritora. Graças à sua admiração por Julia, ela escolhe se debruçar na arte de cozinhar, preparando inúmeras receitas ensinadas por esta. O marido de Julie, Eric (Chris Messina) a incentiva a postar todas as suas impressões em um blog.

Nem é preciso dizer que me identifiquei de cara. Não que eu cozinhe bem, ao contrário. Meu negócio é comer, mesmo. Mas as sensações da vida de Julie, os questionamentos que se faz, as dúvidas e angústias sobre seu papel no mundo e seu desejo de realizar um sonho na vida profissional, traduzem claramente momentos vividos por todas nós.

Julie (Amy Adams) e o marido Eric (Chris Messina)

Obviamente, meu marido sabia que eu me identificaria. Ri ao lembrar o sorriso que ele tinha no rosto enquanto me ofereceu o DVD. O olhar era o que ele sempre tem quando esconde uma intenção mais profunda do que parece, por trás de algum gesto.

Assistindo ao filme passei a pensar no quanto a comida nos une. É ao redor da mesa que nos reunimos aos familiares, aos amigos e colegas de trabalho. Sentado à mesa, comendo, qualquer um de nós, provavelmente, já teve momentos emocionantes, engraçados e felizes que guardará para toda vida.

O prazer de comer é muito mais importante do que a maioria de nós imagina. Quando um ser humano perde, por algum motivo, a capacidade de mastigar e degustar os alimentos, ele sofre profundamente, ainda que não seja um apreciador voraz da boa mesa. Mesmo que a nutrição seja feita de forma eficiente por métodos diversos, seu corpo passa a definhar, pois emocionalmente o prazer que existe no ato de comer não pode ser substituído.

Família no Butão, que dizem ser o país mais feliz do mundo

Mas o filme não agradou apenas meu paladar, ao imaginar o sabor daquelas receitas. Ele me fez pensar em nós, mulheres, e nos diálogos dos quais participamos, voluntariamente ou não, em volta da mesa. Muitas vezes, é neste cenário que os familiares nos fazem aquelas cobranças típicas de quando nos aproximamos dos 30 anos. Se solteiras, perguntam quando arranjaremos um namorado para casarmos. Se casadas, quando teremos filhos.

E quantas vezes com a boca cheia tentamos calar aquela insuportável cobradora interna? Aquela que atira na nossa cara o fracasso de ainda não havermos conseguido a casa própria, o carro do ano, o homem perfeito e, em alguns casos, os filhos lindos, dignos do comercial da Jhonson’s, que imaginamos ou que imaginaram para nós?

Quem de nós nunca usou a comida como remédio para curar a dor, mesmo sabendo que ela é muito mais saborosa quando usada como desculpa para um momento de comunhão?

É isso: o filme fala da condição humana que nos leva a desejar a satisfação de nossas necessidades físicas e emocionais, de preferência com algum prazer. E isso inclui comida, amor, sexo, amizade e família. Mas “Julie e Julia” fala, especialmente, da condição feminina.

Nossas escolhas podem nos levar a morar em subúrbios, a torcer para que o mês acabe antes do salário, a passar vontade diante daquele vestido da vitrine... mas também nos levam a trilhar caminhos nos quais encontramos pessoas que nos mostram que vale a pena. Vale a pena escolher experimentar, escolher se transformar e trabalhar para isso. Vale a pena desenterrar o próprio talento e, sobretudo, escolher ser leal aos próprios sentimentos.

Uniram-se neste filme duas condições que me compõem. A de ser mulher e a de ser aspirante a escritora. E, mais ainda: de revelar sentimentos e reflexões profundas escrevendo.

Precisei reunir coragem para contar a pessoas cujos rostos talvez eu nunca veja, minha história, meus medos, anseios, dúvidas, tristezas e alegrias. Mas, saber que todas partilham sensações e sentimentos semelhantes diante das inúmeras situações da vida, é algo incrivelmente prazeroso e compensador.

Vendo o filme também refleti sobre o fato de que ser mulher não nos garante sensibilidade. Esta vem da alma, não tem a ver com gênero. Erra quem assiste ao filme e acha que só as mulheres são as grandes estrelas. Os homens ao lado de Julia e de Julie, Paul Child e Eric Powell (interpretados pelos atores Stanley Tucci e Chris Messina, respectivamente) são fascinantes. Doces, amáveis, sensíveis, companheiros no sentido profundo da palavra. Seus personagens definitivamente não merecem ser chamados de secundários. Pessoas assim são, na realidade, essenciais na vida de uma mulher.

Stanley Tucci e Meryl Streep

E, seria injustiça da minha parte esquecer que, como citei no começo deste texto, foi graças a um homem que assisti à bela história de Julie e Julia. Mas antes mesmo da cena da locadora de DVDs, foi por causa da insistência deste homem que resolvi desenterrar meu sonho de escrever. Por sugestão dele criei um blog e publiquei meus escritos. E também foi ele quem deu a ideia de escrever o que senti ao ver o filme.

Sim, foi graças à sensibilidade masculina que criei coragem de me expor através da escrita. E, com isso, me permiti sentir uma satisfação ímpar. Sem ter do que me envergonhar. Sem medo.

Obs.: Texto publicado originalmente no blog Poesia Cotidiana, em 29 de janeiro de 2011 e reescrito para este espaço.


segunda-feira, 21 de julho de 2014

O poeta no olho da rua


Márcio Calafiori

Alex Sakai foi o primeiro poeta de verdade que conheci. Era 1983 e eu tinha acabado de entrar na faculdade de comunicação. Não faz tanto tempo assim, mas a mudança a partir da internet foi tão visceral que parece que estou falando do século retrasado. O fato é que em 1983 ainda olhávamos para um escritor com espanto e reverência. A faculdade promovia concursos literários, havia gente que rodava revistinhas alternativas e poetas que vendiam versos mimeografados na rua, de bar em bar. 

A Coleção Picaré publicou obras de 11 poetas de Santos
na década de 80. Entre eles, Alex Sakai

A revista Mirante, do Valdir Alvarenga, sobrevive até hoje nos moldes desse conceito alternativo. Em suma, no início dos anos 1980 achávamos que a arte ainda era capaz de mudar o mundo ou pelo menos influenciá-lo. Talvez fôssemos jovens demais, mas a missão dos jovens é acreditar.

Sakai tinha a aura do poeta, era o próprio poeta em carne e osso. Ao depará-lo, de pronto me vinha a imagem categórica de algum bardo romântico sobre o qual eu lera nos livros e me assombrara a imaginação. Acompanhei os preparativos de Caosurbanocromia, que completa agora trinta anos. 

Influenciado pelo surrealismo, Alex Sakai cercou o livro de dimensões. Não bastava a palavra impressa no papel, o que para mim já seria um feito. Não, era preciso mais. No bar ao lado da Faculdade de Comunicação de Santos, um tanto quanto performático ao falar da obra que ainda estava na gaveta, Sakai irradiava energia conceitual: “Caosurbanocromia é a dimensão anárquica da matéria onírica.” Mesmo numa conversa casual, ele falava exatamente assim. 


Três décadas depois, Caosurbanocromia permanece como um clássico absoluto desse período em que era importante ser poeta. Mas pensando bem esse sentimento talvez não passasse de mera ilusão. Em dezembro de 1984 — pouco de um mês depois de ter feito o lançamento de Caosurbanocromia na Associação dos Médicos de Santos —, Sakai promoveu uma nova estreia do livro, dessa vez no Torto. Quase ninguém apareceu. O bar tinha um slogan: “Fique torto. Você tem direito.” 

Frustrados, os poucos amigos que compareceram ao evento ficaram tortos demais — pois tinham direito —, mas foram devidamente postos no olho da rua, incluindo o próprio poeta e os exemplares da obra.

P.S. — O poeta Alex Sakai estará em Santos no próximo dia 24 de julho para comemorar os trinta anos de Caosurbanocromia. O evento será no Teatro do Cais, às 20h30. O endereço é avenida Rangel Pestana, 150, na Vila Mathias. 

sábado, 19 de julho de 2014

Rubem, do telão à jabuticabeira

Marcus Vinicius Batista

Soube que ele estava doente há quatro dias. A notícia era cuidadosa, mas os anos de profissão te ensinam que o tom mora nas entrelinhas dos fatos. Tive aquela sensação de que a notícia seguinte seria definitiva.

Quando retornei no final da tarde, li – sem a escolha do adiamento que as redes sociais não permitem – as homenagens à morte dele. A postagem vinha de uma amiga que há dias publicava citações dele. Parecia prever o pior. 




Sujeitos importantes, ao morrerem, nos conduzem a uma reflexão imediata: o dia em que os conhecemos ou os ouvimos falar dele pela primeira vez. Com Rubem Alves, cheguei a um meio-termo. Já tinha ouvido falar dele, mas não o conheci naquela noite de 1999. Apenas o vi ... por um telão.

Era um jornalista com meia dúzia de anos de estrada. Cobria diversos assuntos numa emissora de TV, mas começava a me especializar em educação. Canalizava o dia a dia do tema para o meu trabalho, sem saber que educação me renderia um mestrado e 11 anos como professor.

Naquela noite, em 1999, eu era também um aluno de segundo ano de História. Fazia a segunda faculdade de olho em um Jornalismo melhor, sem prever que a docência me invadiria como o futuro do século que se aproximava.

Rubem Alves era um ícone da educação no país e a principal atração da Fafiana, extinta e saudosa semana acadêmica dos cursos de licenciatura da Universidade Católica de Santos. Foi um ano inesquecível, que envolveu palestra do antropólogo Roberto da Matta e outros estudiosos importantes. Todos dispostos a compartilhar experiência e conhecimento no velho auditório atrás do casarão da rua Euclides da Cunha, na Pompéia. O extinto prédio da Fafis.

Por conta das atividades jornalísticas, cheguei meia hora atrasado. Rubem Alves também. Ninguém imaginava que a noite seria de show de rock. Auditório para 400 pessoas lotado uma hora antes do evento. Dois telões, um em cada lado da rua para acompanhar a palestra. Tive que assisti-lo no prédio da Facos, do outro lado e hoje substituído por um espigão pós-moderno. Fiquei encostado em uma das pilastras do pátio lotado e tive uma das melhores aulas daquela vida universitária.

Suas palavras escritas e ditas me empurraram, ao longo dos anos, para a compreensão absoluta de que a educação necessita da perspectiva humana, mais do que estatísticas, rankings, conceitos de autoajuda, métodos de gurus corporativos e políticas de ocasião. Quando me tornei professor, ler Rubem Alves também me amparou para assimilar que a academia deve ser vista e vivida com a distância segura, com a proteção contra a burocracia, a pequenez e a mesquinharia de quem utiliza a ciência e a docência como enfeites de poder.

Rubem Alves me mostrou, assim como Contardo Calligaris me disse numa entrevista, que a academia pode ser aquela torre inalcançável e mal lida por cinco, seis pares. E que os mesmos conceitos podem ser difundidos e ensinados de formas mais simples e populares, como reza qualquer cartilha progressista de educação.

O rumo inevitável desta postura – adotada por ele e mal traçada por mim – é o flerte com a poesia, com a observação inerente do cronista que transpira personagens urbanos e seus lugares pelos detalhes. Nunca mais esqueci do texto publicado na revista Educação, no qual Rubem Alves fala da urgência da pessoas fazerem cursos de Escutatória, em troca das tradicionais aulas de oratória. Essencial em uma época em que muitos falam, poucos dizem e quase todos fotografam a si mesmos. 


Um livro a ser descoberto
Doze anos depois da noite do telão, eu – como professor da mesma universidade onde me formei – entrei em sala de aula para dialogar com minhas alunas da Terceira Idade. Assim que coloquei minha mochila na mesa, uma das alunas chegou perto de mim e me disse: 

— Professor, trouxe um presente para você!

— Puxa, obrigado, o que é?

— Um livro. Eu acabei de ler e achei que tinha a ver com você.

A obra era de Rubem Alves. O título: Do universo à jabuticaba.

Agradeci de maneira educada e pensei que não poderia haver maior elogio para o curso que dava naquele semestre. Levei-o para casa e – confesso – coloquei-o na pilha das obras a serem devoradas.

Talvez seja a hora de dizer obrigado ao Rubem, descobrindo para que servem certas frutas.