sexta-feira, 8 de novembro de 2013

O rei é o dono da história?

Roberto Carlos falou, mas não disse nada
(Foto: reprodução/Rede Globo)

Assisti, na semana passada, às entrevistas do cantor Roberto Carlos, no Fantástico, e do escritor Paulo Cesar de Araújo, no Roda Viva, da TV Cultura. Paulo escreveu a biografia “Roberto Carlos em detalhes”, proibida de circular desde 2007, após acordo entre a editora Planeta, que publicou o livro, e o cantor.

Segundo o jornal Folha de S.Paulo, Roberto Carlos teria pedido a entrevista, e não a Rede Globo. O cantor enfrenta uma crise de imagem, associada ao autoritarismo e à censura. Cabe salientar que a jornalista Renata Vasconcelos fez as perguntas necessárias sobre a polêmica em torno das biografias não autorizadas, liberdade de expressão e direito à privacidade.

Roberto Carlos fez o que se esperava dele. Nunca disse não, escorregou por todos os lados e, na prática, manteve a opinião, ainda que dita de maneira mais leve, para enganar os apressados, muitos deles jornalistas.

O cantor disse que não era contra as biografias não autorizadas, desde que houvesse um acordo entre biógrafo e biografado. Se precisa de acordo, é óbvio que se trata de autorização, de salvo conduto para que se escreva sobre pessoas públicas.

Roberto Carlos usou seus colegas medalhões da MPB para atender aos próprios interesses. O Movimento Procure Saber, que reúne Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Djavan e Milton Nascimento, entre outros artistas, nasceu para discutir direitos autorais. No Brasil, o sistema de pagamentos (e de fiscalização) é mais bagunçado do que saída de show.

Roberto Carlos foi quem levou a discussão sobre o artigo 20 do Código Civil para o grupo. Foi ele quem ressuscitou o debate sobre liberdade de informação e privacidade, depois que a Associação Nacional dos Editores de Livros entrou na Justiça para forçar a queda do artigo.

O rei tentou redesenhar os fatos novamente quando disse que proibiu a circulação do livro porque era o único recurso daquela época. E que poderia conversar a respeito. Driblando as palavras, o cantor sabe que o artigo é o mesmo recurso jurídico disponível. Ele não vai liberar o livro.

O escritor Paulo César de Araújo repetiu o que Roberto Carlos dissera anos atrás. O rei é adepto da turma do “não li e não gostei”. O cantor nunca leu o livro que escreveram sobre ele. Aliás, a obra é fruto de 15 anos de pesquisas, pode ser encontrada na Internet, não divulga informações além das já publicadas (muitas presentes em letras do próprio cantor) e, no saldo, valoriza a importância o rei na cultura nacional. O foco da obra é apontar Roberto Carlos como fator de influência em movimentos culturais como a Tropicália.

Paulo César contou que o problema entre os dois era dinheiro, os lucros em torno do livro. Nada mais sintomático. No final da entrevista ao Fantástico, Roberto Carlos disse que começou a gravar depoimentos para uma autobiografia. Faltava alguém para escrevê-la.

O cantor explicou que ele é o único que pode contar a própria história. Ele tem o direito de fazê-la, mas daí entender que o rei é soberano absoluto sobre informações públicas soa arrogante, narcísico e controlador.

A História jamais é única. Mas, às vezes, tenta-se enterrar o óbvio. Nada mais infantil do que acreditar em verdades dogmáticas. Roberto Carlos tem como propriedade a versão da própria vida, o que não o exime de manipulá-la e pintá-las com cores mais fortes ou leves.

Cerca de 11 mil exemplares de “Roberto Carlos em detalhes” descansam há seis anos em um galpão custeado pelo cantor. Ali, reside o exemplo material de como podemos reproduzir a Inquisição. A lista de obras proibidas está aí. Falta apenas acender o fósforo para, paradoxalmente, iluminarmos as trevas à luz da fogueira.

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