quinta-feira, 28 de novembro de 2013

O velho e o garoto


Tenho 39 anos. Sou jornalista desde 1992, quando cobri uma eleição para a Prefeitura de Santos, cidade onde moro, no litoral de São Paulo. Sempre me considerei um profissional de sorte, não apenas por trabalhar em bons lugares e ter ficado desemprego somente por 15 dias neste período, mas também por estar cercado de jornalistas talentosos, muitos deles meus professores, dentro e fora da universidade. 

Ultimamente, tenho me sentido um jornalista velho. Não se trata de biologia, muito menos de mentalidade, o pior dos sintomas que cercam a velhice. Aprendi, desde a graduação, a necessidade de atualização constante e a busca por solidez e renovação cultural. O estudo se tornou diário, de certa maneira um vício prazeroso que serve como entendimento para a sobrevivência na profissão.

Velho não significa obsoleto. Velho significa que enfrento dificuldades cada vez maiores para exercer minha profissão, o que demanda esforços mais agudos para superá-las. São obstáculos que transitam entre os valores clássicos que norteiam o Jornalismo e a observação de práticas cotidianas.

A profissão enfrenta uma fase difícil, de sucateamento da atividade, em parte por nossa responsabilidade, porque não soubemos lidar com as mudanças no tratamento da informação. Permitimos que nosso papel comprasse uma passagem rumo à substituição, à dispensa nos processos vorazes de mídia.

A outra parte do que me incomoda fica na conta das empresas, que açoitam seus profissionais na corrida por fazer mais com menos gente. A trajetória de informatização das redações – inevitável dentro de um contexto muito mais amplo, claro – resultou na industrialização definitiva da notícia, na padronização de conteúdos, na perversidade do jornalismo copia-e-cola e na ditadura da superficialidade justificada pela ilusão do tempo real.

Neste caso, multiplicam-se relatos de colegas que adulteram o horário da publicação para justificar o furo de um, dois minutos. Talvez tenham que reaprender o que seria furo jornalístico. 



Neste cenário, vejo jornalistas recém-formados com salários de R$ 800 a R$ 1300 em assessorias de imprensa. Produtores de TV que recebem R$ 1500, em média. Assisto também a colegas que, depois de 20, 25 anos de profissão, ainda lutam – com risco à saúde - para pagar as contas, rebolam diante do gerente da agência bancária e se arrastam exaustos por dois, três empregos.

Sinto-me velho porque olho para os lados e não enxergo sequer discussões sobre a sobrevivência da profissão. Viramos o personagem de Chaplin, que parafusa sem pensar na linha de montagem? Testemunho jornalistas acomodados, satisfeitos com a “morte” da reportagem. Muitos veteranos lavam as mãos diante de focas que insistem em produzir matérias sem se levantar da cadeira. Isso me lembra a briga de profissionais da Folha de S.Paulo com Paulo Francis que, certa vez, escreveu um texto apenas observando da janela. Hoje, talvez falte até a janela.

Sinto-me, eventualmente, como se fosse um dinossauro diante do inverno glacial que se aproxima quando me queixo da metamorfose das entrevistas. Entrevistas que são, na verdade, questionários, listas de perguntas enviadas por e-mail, in box de Facebook ou quaisquer outros recursos tecnológicos semelhantes.

A ironia é que nunca tivemos tantas possibilidades de entrevistar. As distâncias caíram a zero. Basta usar um simples programa como Skype para conversar com um sujeito em qualquer endereço. O telefone, antes um símbolo da preguiça jornalística, virou mérito em várias redações porque possibilita a réplica do repórter, o debate como qualquer entrevista merece e exige.

O sucateamento do trabalho jornalístico perfura a entrevista em sua essência. A velhice que traz a rabugice de quem procura – e por vezes não encontra – os detalhes sensoriais do repórter. A matéria que nos indica cheiros, detalhes visuais, gestos e demais características corporais da fonte, a profundidade que bons repórteres nos dão de presente, como analistas técnicos de perfis e biografias. 



A percepção de que muitos de nós, jornalistas, fomos atropelados pelo trem digital cresceu nos últimos anos. Como lição elementar, percebo um processo em curso, a transição que nos tortura com a crueldade da lerdeza. Como antídoto, adaptei-me de várias maneiras para jamais perder o poder de indignação, único combustível que previne contra a morte jornalística.

Deixei o mecanicismo das redações diárias e fui para a docência. Voltei ao mercado como colaborador de várias publicações para combater a repetência de conteúdos que costuma rondar a sala de aula. Diversifiquei modelos de texto e tipos de veículos para refrescar e experimentar.

Hoje, enxergo com clareza que talvez a próxima fronteira seja a criação e a militância no Jornalismo independente. Muitos estudiosos repetem o mantra de que o Jornalismo está fadado à venda de conteúdos, custeados de forma unitária pelos leitores. Uma história por uma moeda, quem sabe?

Estas mudanças conseguem, de tempos em tempos, me rejuvenescer, como cremes milagrosos que enganam paliativamente as rugas e outras marcas do tempo. Um dos remédios de eficácia comprovada é mergulhar no poço de informações e fisgar aqueles colegas que ainda militam no Jornalismo no qual tempo e tamanho do texto servem à importância da história a ser contada. Colegas que compreendem – sem precisar de autopromoção – que o Jornalismo se faz com cutucões e senso críticos aos velhos caciques, coronéis, engravatados e espécies correlatas.

Encontro refúgio em repórteres como Eliane Brum, Daniela Pinheiro, Leonardo Sakamoto, Caco Barcellos, Paulo Vinicius Coelho, Cristian Carvalho Cruz ou em experiências como a Agência Pública e a ONG Repórter Social. Ou nos livros-reportagem, último refúgio do reportariado que habita os galhos mais altos da árvore.

Depois de 21 anos, posso me sentir velho de vez em quando, mas ainda não desejo o coma ou a aposentadoria por invalidez, muito menos esperar para morrer atrás de um computador, após a leitura das últimas em cinco ou dez linhas esculpidas com a pressa mal remunerada.

terça-feira, 12 de novembro de 2013

Livro conta a vida de pessoas com doenças incuráveis

A obra foi publicada pela norte-americana Amazon

Discutir a possibilidade da morte é um tabu presente em inúmeras culturas. Rituais servem para aliviar o temor, mas também para amenizar as dores de quem poderá partir em breve. Numa sociedade que se alimenta do rejuvenescimento e da beleza, falar abertamente sobre doenças incuráveis representa uma barreira para muitas pessoas, inclusive médicos. 

As jornalistas Beth Soares e Jéssika Nobre conseguiram saltar este muro de silêncio e contar a vida de quatro mulheres da Baixada Santista. Em comum entre elas, enfermidades que podem apenas ser tratadas, jamais curadas, e o desejo imenso de viver.

Destas histórias nasceu Até o Fim, livro-reportagem publicado em edição independente, por meio da norte-americana Amazon. Beth Soares e Jéssika Nobre conviveram com as donas de casa Eguimar Mendes, Silvia Gonçalves, Sandra Coutinho e a veterinária Fabíola Perroni, além dos familiares delas.

Das quatro mulheres, uma delas, infelizmente, faleceu antes da publicação do livro. No entanto, todas sempre encararam doenças incuráveis com bom-humor e se negaram a assumir o confortável papel de vítima.

O livro Até o Fim também traz a experiência dos médicos Franklin Rodrigues, Ricardo Tavares e Ana Claudia Arantes que, ao abordarem o tema cuidados paliativos, tiveram que vencer o preconceito e a descrença, e hoje realizam trabalhos de sucesso.

A obra é originalmente um Trabalho de Conclusão de Curso de graduação em Jornalismo, pela Universidade Santa Cecília, em Santos (SP). O trabalho levou um ano para ser escrito, recebeu nota máxima, com publicação sugerida pela banca avaliadora.

Até o Fim teve apoio de três jornalistas: André Rittes, como orientador, Marcus Vinicius Batista, como revisor, e André Azenha, autor do Prefácio da obra.

O livro pode ser comprado pela internet, no endereço eletrônico Create Space.


sexta-feira, 8 de novembro de 2013

O rei é o dono da história?

Roberto Carlos falou, mas não disse nada
(Foto: reprodução/Rede Globo)

Assisti, na semana passada, às entrevistas do cantor Roberto Carlos, no Fantástico, e do escritor Paulo Cesar de Araújo, no Roda Viva, da TV Cultura. Paulo escreveu a biografia “Roberto Carlos em detalhes”, proibida de circular desde 2007, após acordo entre a editora Planeta, que publicou o livro, e o cantor.

Segundo o jornal Folha de S.Paulo, Roberto Carlos teria pedido a entrevista, e não a Rede Globo. O cantor enfrenta uma crise de imagem, associada ao autoritarismo e à censura. Cabe salientar que a jornalista Renata Vasconcelos fez as perguntas necessárias sobre a polêmica em torno das biografias não autorizadas, liberdade de expressão e direito à privacidade.

Roberto Carlos fez o que se esperava dele. Nunca disse não, escorregou por todos os lados e, na prática, manteve a opinião, ainda que dita de maneira mais leve, para enganar os apressados, muitos deles jornalistas.

O cantor disse que não era contra as biografias não autorizadas, desde que houvesse um acordo entre biógrafo e biografado. Se precisa de acordo, é óbvio que se trata de autorização, de salvo conduto para que se escreva sobre pessoas públicas.

Roberto Carlos usou seus colegas medalhões da MPB para atender aos próprios interesses. O Movimento Procure Saber, que reúne Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Djavan e Milton Nascimento, entre outros artistas, nasceu para discutir direitos autorais. No Brasil, o sistema de pagamentos (e de fiscalização) é mais bagunçado do que saída de show.

Roberto Carlos foi quem levou a discussão sobre o artigo 20 do Código Civil para o grupo. Foi ele quem ressuscitou o debate sobre liberdade de informação e privacidade, depois que a Associação Nacional dos Editores de Livros entrou na Justiça para forçar a queda do artigo.

O rei tentou redesenhar os fatos novamente quando disse que proibiu a circulação do livro porque era o único recurso daquela época. E que poderia conversar a respeito. Driblando as palavras, o cantor sabe que o artigo é o mesmo recurso jurídico disponível. Ele não vai liberar o livro.

O escritor Paulo César de Araújo repetiu o que Roberto Carlos dissera anos atrás. O rei é adepto da turma do “não li e não gostei”. O cantor nunca leu o livro que escreveram sobre ele. Aliás, a obra é fruto de 15 anos de pesquisas, pode ser encontrada na Internet, não divulga informações além das já publicadas (muitas presentes em letras do próprio cantor) e, no saldo, valoriza a importância o rei na cultura nacional. O foco da obra é apontar Roberto Carlos como fator de influência em movimentos culturais como a Tropicália.

Paulo César contou que o problema entre os dois era dinheiro, os lucros em torno do livro. Nada mais sintomático. No final da entrevista ao Fantástico, Roberto Carlos disse que começou a gravar depoimentos para uma autobiografia. Faltava alguém para escrevê-la.

O cantor explicou que ele é o único que pode contar a própria história. Ele tem o direito de fazê-la, mas daí entender que o rei é soberano absoluto sobre informações públicas soa arrogante, narcísico e controlador.

A História jamais é única. Mas, às vezes, tenta-se enterrar o óbvio. Nada mais infantil do que acreditar em verdades dogmáticas. Roberto Carlos tem como propriedade a versão da própria vida, o que não o exime de manipulá-la e pintá-las com cores mais fortes ou leves.

Cerca de 11 mil exemplares de “Roberto Carlos em detalhes” descansam há seis anos em um galpão custeado pelo cantor. Ali, reside o exemplo material de como podemos reproduzir a Inquisição. A lista de obras proibidas está aí. Falta apenas acender o fósforo para, paradoxalmente, iluminarmos as trevas à luz da fogueira.