terça-feira, 29 de outubro de 2013

Os velhos morreram de overdose


Não acredito na expressão Terceira Idade. Não utilizo, por desconfiar da ilusão da má fé, os termos Melhor Idade. Idosos, para mim, é somente mais uma arma politicamente correta, capaz de esconder os problemas reais e maquiar a velhice. 

A vida nos envelhece. Ficamos velhos. Mas envelhecer está além dos muros da redundância biológica. Conheço pessoas com mais de 70 anos que tem uma vida mais agitada do que a minha. E conheço gente que se julga adulta por conta da carteira de identidade, mas que pensa e se comporta como se a Idade Média tivesse acabado ontem.

Tornar-se velho é mais do que tempo maior para recuperação de atividade física. É mais do que falta de fôlego para fazer o que fazíamos na semana passada. A velhice irreversível ataca mentalidade, valores, perspectivas de mundo. A velhice se prolifera pelas palavras e atitudes que indicam o quanto podemos nos agarrar em conceitos antigos e obsoletos.

Chico Buarque, Gilberto Gil, Djavan e Caetano Veloso envelheceram. Ficaram rígidos. Rasgaram parte do passado de lutas, residente em suas criações artísticas. Passaram a brigar pelas migalhas do artigo 20 do Código Civil, rascunho de censura dentro de uma legislação tão frankstein quanto seus argumentos publicados em jornais ou ditos na TV pela porta-voz Paula Lavigne.

Talvez influenciados pelo rei da música e do atraso, e autor desta letra mal escrita, o grupo de artistas provocou a distorção de um problema que inviabiliza a construção da História deste país. Mais do que discutir a privacidade de gente famosa, o artigo 20 pode assassinar o trabalho de historiadores, intelectuais e jornalistas. Pode enterrar qualquer caminho que nos permita se aproximar da veracidade dos fatos, ainda que sempre tenhamos versões e relatos.

É impossível não entrar na vida privada de alguém para conhecermos a personalidade pública. A vida privada é um dos principais indicativos para que possamos compreender os atos públicos, quando não nasce deles. O personagem dos holofotes é composto pelo que se foi e é dentro das torres do castelo. E, neste sentido, vida privada e fofocas são termos incompatíveis.

Dentro deste caldeirão, a turma do Procure Saber – a patota do rei Roberto, acostumado com os agrados de juízes, canais de TV e jornalistas – tenta minimizar as razões financeiras de seus atos. É parte do pacote de construção da imagem de vítimas.

A encenação esconde o que já acontece como rotina no Brasil. Produtores e diretores de cinema, além de escritores e jornalistas, são obrigados a pedir autorização para a realização de filmes e livros. Esta autorização é pedida a herdeiros; em muitos casos, coletores de dinheiro do parente falecido há décadas, com quem mal se relacionaram em vida e hoje defendem com unhas e dentes, como corretores na Bolsa de Valores.

É claro que o jornalismo e sua prima biografia abrigam preguiçosos e maledicentes. Para isso, existe legislação que prevê punições para calúnia, injúria e difamação. Há no Brasil, inclusive, uma indústria de indenizações, especializadas em casos de danos morais e materiais.

A cantora Angela Ro Ro, exemplo de quem foi massacrada pela mídia diversas vezes por conta dos escorregões privados, discordou de seus amiguinhos da MPB. Coerente, não se escondeu e foi direta: “É para isso que existem os escritórios de advocacia”.

Parafraseando Cazuza, que – por sinal – ganhou biografia e filme bajulatórios, alguns dos meus heróis morreram de overdose. Overdose de ganância e intolerância. Ironicamente, esta morte simbólica é pública e, portanto, estará na biografia deles, com ou sem autorização.

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