quarta-feira, 30 de outubro de 2013

O rato que se chamava beagle

Imagem cedida pelo entrevistado

Um amigo me apresentou um conhecido que tinha trabalhado perto de onde o autor deste depoimento mora. Depois do que aconteceu no Instituto Royal e do impacto na imprensa, ele resolveu falar sobre sua vida. Entendeu também que era o momento de se abrir, depois de certo distanciamento do calor dos fatos. Mesmo assim, foram dois dias de negociação até que ele aceitasse gravar uma conversa comigo. 

Abaixo, o depoimento do rato que, com medo de represálias de colegas, cientistas, ativistas e até celebridades, pediu para ser chamado de beagle, em homenagem a um amigo que fez durante o período em cativeiro. Preferi publicar em formato de depoimento para ser fiel às palavras dele, entremeadas por crises de choro e sorrisos nervosos.

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“Estava tudo em silêncio. A noite é sempre uma quietude só. Acho que era noite. Parece um cassino ou shopping porque nunca sabemos se é dia ou noite. Moramos num lugar afastado, que permite ouvir e admirar nossos amigos que voam lá fora. Sonhos todas as noites que posso voar. Até as baratas, que saem à noite para comer o que sobra, têm uma vida melhor do que a nossa. Elas podem simplesmente escolher.

Então, quando vi aquele monte de gente estranha entrando no Instituto, pensei: a cavalaria chegou. Não adianta, sempre penso as coisas da vida com os animais como personagens. Assim como as crianças, fico seguro. Alivia minha condição. Um colega de caixa de vidro jura que é maldição. Outro falou na semana retrasada em destino antes de desaparecer no corredor para um novo teste. Nunca mais voltou. Quem sabe está solto por aí?

As fofocas sobre o que fazem conosco variam entre medicamentos para salvar nossos donos das doenças e cremes e xampus para salvá-los da feiura. Estúpidos. Sempre tentam escapar da morte em vez de viver. E me usam, logo eu, que sempre vivi – desde que me conheço por rato de laboratório - exatamente no endereço onde morrerei.

Invejo meus primos dos esgotos. Vivem sujos, são odiados, se escondem para alcançar o amanhã. Mas são livres, comem o que quiserem, transam com quem desejarem, parem as ninhadas de qualquer jeito e convivem com seus filhotes. As marcas e cicatrizes que carregam nasceram das experiências com o mundo. As minhas são escolhidas por outros e suas agulhas.

(Depois de chorar por três minutos, “beagle” volta a falar) Mas não estou aqui para me lamentar. Estou aqui para me ajudar e a meus conterrâneos. Quem sabe alguém se sensibiliza e nos trata como uma espécie, e não como roedores de segunda classe?

Naquela noite, acordei com um barulho ensurdecedor. Havia demorado para dormir porque sabia que, no dia seguinte, levaria injeções, ficaria inchado e cheio de dores. São as experiências em prol da ciência, seja lá o que isso for. Escuto os homens de branco conversando sobre como somos úteis para combater diabetes, câncer e uma série de outras doenças. Eles morrem disso. A diferença é que sabem do que vão morrer. Nós, cobaias, descobrimos em espírito – se é que eles existem. Poderíamos pelos menos receber um aviso.

A barulheira assustou todo mundo. Os beagles, nossos vizinhos simpáticos, dóceis e ingênuos, se agitaram. Muitos latiram de medo. Outras pensaram que era hora de brincar. Para nós, ratos, a pergunta de toda hora: outras experiências?

De repente, vidros quebrados, portas arrombadas, gritos e correria. Rebelião? Fuga em massa? Não entendia. O cara da caixa de vidro ao lado, que chegara um dia antes, olhava para mim com olhos maiores que o formato da cabeça. Estava apavorado. Fiquei em silêncio. Era melhor observar e dar o bote, se possível. Vai que a liberdade me premiava naquela noite.

Era um bando de gente. Mulher, homem, jovem, velho, todo mundo começou a carregar os cachorros. Os beagles faziam aquela cara de sempre. Aqueles rostos bobinhos e aconchegantes de quem é fofinho e amado. Tenho inveja mesmo. Os caras são privilegiados. Também tenho pêlos, rabo, dentes. Posso ser uma gracinha. Se meus primos hamsters ganham rodinhas e correm para ganhar comida, por que não posso ter o mesmo privilégio? Não pedi para ser cobaia.

Ninguém nos pegava. As caixas de vidro pareciam invisíveis. Comecei a correr, guinchar, pular. Por que não me levavam na fuga? Sou mais leve que os beagles. Sou branco, que simboliza pureza e limpeza. Prometo não morder, pensei.

(Nova crise de choro. Soluçava como se tivesse perdido um parente próximo ou um amigo. Passa as patas nos olhos, respira fundo e sinaliza que vai falar novamente) Não me entenda mal. Um ponto não justifica o outro. O mundo não é assim. Branco ou preto. Queria a liberdade tanto quanto os beagles. Por que não tivemos chance? Levei mais de uma semana para entender. Quando entendi, resolvi falar sobre isso publicamente.

A questão não é o beagle pelo beagle. Eles mereceram sair. Mas tudo depende, tudo passa pelos homens, os que nos aprisionam e os que nos soltaram. É a relação emocional deles com os bichos. Ninguém leva um rato para passear. Ninguém fala conosco como se fôssemos seus filhos. Ninguém nos compra roupinhas, casinhas, pastas de dentes e outras invenções. Não somos exibidos por nossos donos em praça pública em dia de caminhada oficial. Não temos status. Não ganhamos nomes, seja Rex ou de gente mesmo, o que explica bastante coisa, acho. Não somos animais domésticos. Muito menos temos apelidos fofuchos como “melhores amigos do homem”.

A relação é de amor e também de egoísmo. Os beagles, afortunados, foram escolhidos como caixa de amor e de carências humanas. Percebi que não tem nada a ver com experiências. A bioética é só um pano de fundo para que os homens falem deles próprios. Se não fosse assim, por que compram xampus e cremes de empresas que nos matam? Por que – quando doentes – tomam qualquer remédio com promessa de milagre, mesmo que tenham custado nossas vidas?

Continuo aqui cumprindo minha pena por um crime que não sei qual é. Uma amiga barata, mais intelectualizada, me contou de um escritor que escreveu sobre elas. Achei pretensiosa. Kafka, eu acho que é o nome do sujeito. Falo isso porque me sinto em outro livro dele. Não li, claro. Dois cientistas falaram dele uma vez e gravei porque o nome do escritor soou engraçado. E gostei da história. Acho que se chama O Processo. Não sei o que fiz.

Meu sonho? Meu sonho é um dia poder ir ao cinema, daqueles de shopping center mesmo. Por razões óbvias, comprar um saquinho de pães de queijo e assistir a um desenho animado. Pode ser a nova versão de Ratatouille (aquele cara come bem!) ou uma reprise do Mickey Mouse. Eles são nossos heróis. Passamos suas sagas e aventuras de pai para filho aqui dentro. É uma forma mais saudável de suportar a vida entre caixas de vidro e agulhas.”

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