quarta-feira, 25 de setembro de 2013

O Alasca é aqui!


Thaís Fernandes, na Ilha de Urubuqueçaba
(Foto: Marcos Piffer)

Texto publicado originalmente na revista Guaiaó, na seção Praia e Eu, número 5. 

Quando pensam em cinema, pessoas comuns sonham em estar na pele dos personagens preferidos. Quando respiram cinema, pessoas incomuns transportam o filme para suas histórias. Thaís Fernandes poderia ser a versão feminina de Chris McCandless, o jovem de “Na Natureza Selvagem”, dirigido por Sean Penn, mas incorporou a essência do filme ao próprio roteiro de vida. 

O primeiro sinal está na coxa direita dela. É uma das oito marcas que contam cenas da trajetória desta mulher que saiu do Brasil aos 26 anos para aperfeiçoar o inglês. As letras esculpidas na pele indicam que fronteiras são meras descrições em mapas de viagem.

Após cinco anos na Austrália e mochilão pela Ásia e Europa, Thaís sossegou por um mês na Argentina. Ficou na casa de familiares de Quilmes Romina, amiga que vive na Oceania. Em terras portenhas, Thaís não resistiu às lições de McCandless. Resumiu sua forma de ver o mundo na oitava tatuagem: “rather than love than faith than fairness give me the true.” A frase pode ser traduzida como: “melhor do que o amor, do que a fé, do que a justiça, me dê a verdade.”

A tatuagem, porém, foi editada. A palavra dinheiro sumiu da versão original por ser figurante no modo de vida dela. Todos na família têm tatuagens. Thaís fez a primeira aos 18 anos, o nome dos pais em japonês.

Desenhar no corpo também marca a relação com as irmãs Cynthia e Priscila. As três tatuaram uma pimenta no braço direito. Cynthia enfrenta um momento delicado de saúde, motivo essencial para segurar Thaís no Brasil.

Thaís descobriu há cinco anos – assim como McCandless - que precisava procurar seu próprio Alasca. Quando encontrou o paraíso, já estava viciada na vida solitária na estrada. “No Brasil, o ônibus é minha cama.” Poucas vezes viajou acompanhada. A rota pela Ásia foi feita sozinha. “Minha companhia é muito boa.”

No Vietnã, hospedou-se em um albergue com 26 rapazes. O único obstáculo foi a infecção intestinal que pegou no Cambodja. “Fui para o hospital de mototáxi. Fiquei três dias internada.”

Thaís, hoje com 31 anos, alimenta uma certeza: a Austrália é o Alasca dela. O endereço é Cotteshoe, com 200 mil habitantes, onde morou por três anos e meio. Lá, fez faxina, lavou louça e trabalhou como garçonete. “Tenho mais amigos lá do que aqui.”

Uma semana antes de deixar a Austrália, conheceu um novo personagem. O casamento com o mar se deu via prancha de três metros de comprimento e remo. Quando chegou ao Brasil, Thaís usou uma prancha emprestada por três meses, até comprar a sua, azul e roxa.

Remar é também um ato quase solitário. Mas a prancha pode ser um palco flutuante, com repertório de Bob Marley a Djavan. No início do ano, cruzou com um senhor num caiaque. “Você fala sozinha?” Thaís respondeu que cantava. O senhor repetiu o clichê de quem canta os males espanta.

Formada em Direito e Marketing, Thaís trabalha hoje como agente de carga em Santos. O stand-up paddle é o passaporte para flertar com a natureza selvagem, três vezes por semana. Como um longa-metragem, as sessões terapêuticas duram três horas, com início às 18h30. É uma viagem a outro paraíso, na praia do Sangava, às vezes estendido à Ilha das Palmas ou ao Saco do Major. “É da água que eu apreendo paz de espírito.”

No cinema onde a tela é o horizonte, o mar interpreta o desfecho para esta mulher que adora reprisar os capítulos de intimidade com a natureza. Sem este roteiro, o corpo e a mente reclamariam do final trágico, protagonizado pelo mau humor. “Aí, nem eu me suporto. Sou 2 mil volts.”


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