quarta-feira, 25 de setembro de 2013

O aniversário


Hoje é meu aniversário e resolvi me dar um presente. Descartei mulheres de camiseta molhada em jaulas, carros off-road, viagens ao paraíso, livros proibitivos e outros desejos incontidos de consumo. A prudência e a culpa se uniram e derrubaram o calor juvenil. As dores no bolso latejaram ao primeiro sinal de fraqueza. O regime é de avareza forçada. 

Dispensei loucuras de comportamento. Nada de substâncias em pílulas, por inalação, por seringas, copos e outros objetos mais convencionais. Nada de maratonas sexuais ou relações da dar inveja ao Circo du Soleil.

A racionalidade derrotou a nostalgia de tempos que iludem a mente e entristecem o corpo. O prazer é cada vez mais curto – embora selecionado e profundo -, mas a recuperação caminha como um paquiderme em capítulos derradeiros.

A idade, vítima da ditadura do relógio e das convenções sociais, insiste em me colocar numa encruzilhada. Não se trata de pavor diante da velhice que a matemática é incompetente em medir. Equações numéricas são dispensáveis aos olhos e aos conteúdos que calças e camisas se esforçam em esconder.

Não escondo os números. São 39 anos. Poderia dar a volta olímpica, acenar para a torcida, pegar um tufo do gramado como lembrança e pendurar as luvas furadas na porta do armário. “Fui desistido” do futebol na metade deste caminho. Mesmo assim, perguntas óbvias reaparecem, como se feitas ao jogador em final de carreira:

— Qual é a diferença?

— Como é ficar mais velho?

— Você se prepara para a crise dos 40?

As respostas flutuam entre o não e a ausência de significados. Fugir da idade para quê? Até porque não posso explicar a crise dos 30. Não a tive. A tempestade dos 35 é teoria para as revistas de comportamento. Projetar os próximos anos com gráficos econômicos é ótimo que fique com os economistas. A diferença entre estes marcos (perdoe o trocadilho) é zero, para me aproveitar dos números antes de descartá-los.

Também não vou me agarrar nos clichês de que a cabeça é jovem dentro do corpo em processo de mumificação. A mente se adapta, a identidade se modifica, o sujeito é outro, com resquícios e influências do passado. Aproveito-me desta concepção para manter a lucidez. E por uma questão de prazer, mesmo. Mais vantajoso.

Durante muitos anos, em meu aniversário engoli a besteira de que era data de balanço. Hoje, deixo para as Lojas Americanas, Casas Bahia e outros que podem baixar as portas uma vez por ano, lamber as feridas e sorrir com os lucros. Aprendi que é mais saudável encarar balanço contínuo. O namoro com a psicologia, dentro e fora do consultório, me ensinou a necessidade de discutir a relação comigo em freqüência maior. Poupa surpresas e acelera dividendos.

O dia de balanço implicava em permanecer sozinho. Escrever este texto é uma prova em contrário. Dividir com outros, conhecidos ou não, tem a vantagem de construir novas portas, abertas para interpretações múltiplas. E com o filtro adequado no ato de que escrever é também reescrever a partir da escrita presente na leitura do outro.

O aniversário é uma data das desculpas esfarrapadas e necessárias. Fortalece meus próprios acordos, recria amizades queridas, reaproxima afetos que se distanciaram com a escravidão do tempo galopante. É o dia das boas notícias, das gargalhadas, dos abraços e beijos em quem te quer bem.

É também o dia dos cumprimentos de obrigação, das lembranças oportunistas, dos apertos de mãos de quem te tolera no lugar errado na data errada. Ossos do ofício dos relacionamentos entre seres estranhos que se intitulam humanos.

O aniversário não me força a aderir à felicidade full-time, a ânsia de bem-estar contínuo e artificial. Mas posso me aproveitar para alimentar uma guerra civil com o modelo de prazer contínuo, de desprezo dos sentimentos. O aniversário, como bomba H, é a transgressão calculada, vivida sem a culpa impetrada pelas regras jamais estabelecidas por nós.

Entendo a data como uma recusa às promessas. Não é possível transgredir – de leve, de leve – e montar um rosário de metas. É a culpa em formato de lista estéril. As promessas de segunda-feira, nascidas para morrer no dia seguinte.

Aproveito o dia para me cercar de quem merece meu afeto e que doam o seu mundo sem a obsessão do utilitarismo. Amor e amizade são incompatíveis com objetivos racionalmente calculados. A ida sem a volta.

Em aniversários anteriores, tinha o ritual de ir à praia sozinho. Ou melhor, acompanhado de um livro. Abandonei a tradição. Enxerguei – em um lapso de maturidade – que a tradição é combustível essencial ao ponto de merecer seguidas repetições. Esvaziei e remontei, sem perceber, a origem do ritual, com prazer.

O auto-presente de aniversário saiu de graça. Escrever sobre o assunto me obrigou a pisar no freio, pensar em pessoas queridas, reafirmar o quanto são protagonistas de um enredo em curso. Sem balanços, auditorias, reuniões internas, memorandos e outros badulaques burocráticos.

A crônica é para mim, hoje, a expressão mais singela do que posso sentir e compartilhar, ainda que faltem o brigadeiro, a cerveja, as bolinhas de queijo, as coxinhas e o bolo. Esta quebra de contrato – que o médico não me ouça – é pessoal e intransferível. A multa? Promessa de segunda-feira.

O Alasca é aqui!


Thaís Fernandes, na Ilha de Urubuqueçaba
(Foto: Marcos Piffer)

Texto publicado originalmente na revista Guaiaó, na seção Praia e Eu, número 5. 

Quando pensam em cinema, pessoas comuns sonham em estar na pele dos personagens preferidos. Quando respiram cinema, pessoas incomuns transportam o filme para suas histórias. Thaís Fernandes poderia ser a versão feminina de Chris McCandless, o jovem de “Na Natureza Selvagem”, dirigido por Sean Penn, mas incorporou a essência do filme ao próprio roteiro de vida. 

O primeiro sinal está na coxa direita dela. É uma das oito marcas que contam cenas da trajetória desta mulher que saiu do Brasil aos 26 anos para aperfeiçoar o inglês. As letras esculpidas na pele indicam que fronteiras são meras descrições em mapas de viagem.

Após cinco anos na Austrália e mochilão pela Ásia e Europa, Thaís sossegou por um mês na Argentina. Ficou na casa de familiares de Quilmes Romina, amiga que vive na Oceania. Em terras portenhas, Thaís não resistiu às lições de McCandless. Resumiu sua forma de ver o mundo na oitava tatuagem: “rather than love than faith than fairness give me the true.” A frase pode ser traduzida como: “melhor do que o amor, do que a fé, do que a justiça, me dê a verdade.”

A tatuagem, porém, foi editada. A palavra dinheiro sumiu da versão original por ser figurante no modo de vida dela. Todos na família têm tatuagens. Thaís fez a primeira aos 18 anos, o nome dos pais em japonês.

Desenhar no corpo também marca a relação com as irmãs Cynthia e Priscila. As três tatuaram uma pimenta no braço direito. Cynthia enfrenta um momento delicado de saúde, motivo essencial para segurar Thaís no Brasil.

Thaís descobriu há cinco anos – assim como McCandless - que precisava procurar seu próprio Alasca. Quando encontrou o paraíso, já estava viciada na vida solitária na estrada. “No Brasil, o ônibus é minha cama.” Poucas vezes viajou acompanhada. A rota pela Ásia foi feita sozinha. “Minha companhia é muito boa.”

No Vietnã, hospedou-se em um albergue com 26 rapazes. O único obstáculo foi a infecção intestinal que pegou no Cambodja. “Fui para o hospital de mototáxi. Fiquei três dias internada.”

Thaís, hoje com 31 anos, alimenta uma certeza: a Austrália é o Alasca dela. O endereço é Cotteshoe, com 200 mil habitantes, onde morou por três anos e meio. Lá, fez faxina, lavou louça e trabalhou como garçonete. “Tenho mais amigos lá do que aqui.”

Uma semana antes de deixar a Austrália, conheceu um novo personagem. O casamento com o mar se deu via prancha de três metros de comprimento e remo. Quando chegou ao Brasil, Thaís usou uma prancha emprestada por três meses, até comprar a sua, azul e roxa.

Remar é também um ato quase solitário. Mas a prancha pode ser um palco flutuante, com repertório de Bob Marley a Djavan. No início do ano, cruzou com um senhor num caiaque. “Você fala sozinha?” Thaís respondeu que cantava. O senhor repetiu o clichê de quem canta os males espanta.

Formada em Direito e Marketing, Thaís trabalha hoje como agente de carga em Santos. O stand-up paddle é o passaporte para flertar com a natureza selvagem, três vezes por semana. Como um longa-metragem, as sessões terapêuticas duram três horas, com início às 18h30. É uma viagem a outro paraíso, na praia do Sangava, às vezes estendido à Ilha das Palmas ou ao Saco do Major. “É da água que eu apreendo paz de espírito.”

No cinema onde a tela é o horizonte, o mar interpreta o desfecho para esta mulher que adora reprisar os capítulos de intimidade com a natureza. Sem este roteiro, o corpo e a mente reclamariam do final trágico, protagonizado pelo mau humor. “Aí, nem eu me suporto. Sou 2 mil volts.”