quarta-feira, 7 de agosto de 2013

Saudades do bar democrático

Uma noite de Vitrolada

A sinceridade de meu filho de 3 anos é impregnada, muitas vezes, de sabedoria singela, de quem descreve o detalhe com requintes de normalidade. Sempre que andamos de ônibus, fato frequente, gosto de perguntar a ele algo que luto para preservar com quase 40 anos. Quando pergunto o que ele está vendo pela janela, a resposta é direta: “Pai, estou vendo a cidade.” E começa a descrevê-la para mim. 

O momento de orgulho paterno deságua em melancolia quando caminho pelo Canal 4, bem perto da orla da praia. Não consigo explicar, mas tenho a mania de olhar para a direita e procurar pelo Bar Torto. Tenho comigo que deve ser saudade. Saudade dos amigos, saudade da juventude, saudade das experiências.

Dói olhar para a placa, aquela que indica a atração da noite, e engolir silêncio. A nostalgia machuca para quem mastiga a escuridão que envolve um pedaço pequeno – mas profundo – da história cultural de Santos. Olho para aquele espaço, tombado pela engenharia arenosa, e não pelo patrimônio arquitetônico, e enxergo lembranças deste e do século passado, da minha biografia, dos meus amigos, de grandes músicos.

Nunca fui frequentador assíduo do Torto. Imaginei que pudesse ser uma vantagem, pois me apegaria menos ao vê-lo sofrer em praça pública. Estupidez a minha, porque vivência não se mede em quantidade de acordes. Em todas as ocasiões há enredos especiais, que ganham mais corpo ao tentar entender porque um bar agoniza pela intransigência, pela burocracia, pela falta de vontade política.

Entrei no Bar Torto pela primeira vez há cerca de 20 anos. Era quase um ritual universitário, de passagem etílica-musical, de transgressão ao senso comum da cultura pasteurizada, de revolução individual com a exposição a novos repertórios e novas linguagens. Os mais velhos em idade musical arrastavam os novatos, num ato de solidariedade, traduzido em injeções cavalares e sem antídoto de cultura brasileira.

Ali, não aconteciam censuras ou restrições. O Brasil musicado, multifacetado e contraditório se espalhava pelas paredes e canalizava pelo palco apertado, pelas conversas de pé de ouvido, pelas referências lado B, lado C dos riscados vinis, e tão preciosas naquele esconderijo entre imobiliárias e academias de ginástica.

O Torto sempre foi múltiplo e versátil como qualquer banda que mereça respeito. E assim tratava seus visitantes. Lembro-me, por exemplo, do amigo que abriu os olhos para a cultura caiçara depois de três horas lá dentro. De cabelos quase até a cintura, camiseta preta e barba longa, ele se enquadrava voluntariamente como representante do figurino rock pesado.

Saiu de lá como novo rebento do matrimônio entre seu gênero preferido e a arte dos Secos e Molhados, casamento celebrado pelo sacerdote Ney Matogrosso em voz e ausência física. Nunca mais voltou. Mergulho ainda mais no metal, por outros motivos. Só que nunca mais deixou de ouvir grupos nacionais.

Voltei ao Torto no ano passado. Uma terça-feira à noite, dia em que Santos – após a meia-noite – se aproximava de terra arrasada dos filmes apocalípticos. Naquela portinha, quase na orla da praia, entrei para ver o projeto Futuráfrica, maternidade de ícones circunstanciais de uma democracia musical, sintetizadas em DJs por acidente. Naquela terça-feira, o crítico Chico Marques, velho amigo de outras enseadas, era o criador.

Para mim, mais uma noite de saudades. Encontrei amigos. Dancei com minha namorada pela primeira vez. Não poderia prever que, meses depois, os burocratas resolveriam fazer seu trabalho. Corrigindo, exercitar o poder pela caneta que os emprega.

Na semana retrasada, o Sesc abrigou três shows que reforçam a resistência do Torto em morrer pelas mãos da inanição política. Ingressos esgotados por gerações diferentes, com instrumentos em mãos ou de olho no palco, desta vez menos acanhado, mas não menos combativo ou dispersivo.

Testemunhei uma das passagens de som. Ao ver os músicos, voltei ao canal 4 sem passar por lá. Depois de alguns segundos, meus filhos me disseram: “Pai, vamos!” Bem que poderia ser para olhar a cidade. Uma cidade que, muitas vezes, dá saudades em seus detalhes essenciais.

Obs.: Texto publicado originalmente na coluna Entrelinhas Caiçaras, no site Culturalmente Santista. 

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