domingo, 4 de agosto de 2013

A mulher silenciosa


Visitar uma UTI durante 40 dias te obriga a criar mecanismos que driblem o sofrimento, a angústia da espera, a frieza dos equipamentos que viram extensões do paciente. O principal deles é conhecer histórias de gente que, se compartilham ou amenizam dor, também funcionam como pílulas da humanidade que teima em resistir à neutralidade das paredes, símbolos de um espaço desconectado do tempo. 

Conheci Jaqueline, a auxiliar de enfermagem com dois filhos adolescentes e feliz por vestir suas roupas mais antigas, em combinações que ignoram as acusações de cafonice. Vi médicos como a doutora Karen que, em tempos de virose como palavra de ordem médica, se emociona quando assiste à recuperação ou à morte de seus pacientes.

Tive o prazer de conversar com Dona Eliana, senhora de um metro e meio, peso mínimo e cabelos brancos raspados à máquina dois, que lutava diariamente pela recuperação do marido, cujas pernas foram amputadas.

Quem nos aproximou, neste caso, foi uma das irmãs dela, que se chamava Zuleica, o mesmo nome de minha mãe. Uma semelhança que nos ajudou a resistir à rotina diária de hospital. Triste saber que o marido de Dona Eliana faleceu meia hora depois de mais uma visita. 

Dona Hilma me chamou a atenção no primeiro dia dela na UTI. Não recebeu visitas. A ausência se repetiu pelos três dias seguintes. Sem parentes ou amigos. Uma mulher inconsciente, entubada, com uma história em fragmentos, que não podia ser contada por ela mesma. Seria reconstituída por depoimentos esparsos nas duas semanas seguintes. 

A UTI, por mais dolorosa que seja, sempre está repleta de visitantes. Dois para cada paciente, sem revezamento. Gente que sonha com o quarto do hospital, como um hotel de cinco estrelas que indica o afastamento, mesmo que temporário, da pior notícia possível. Alimentar-se de sopa e assistir à qualquer lixo na TV são luxos dignos de pacotes de viagem. 

A cama sem acompanhantes me aproximou de uma das auxiliares de enfermagem, conversa que se estendeu no dia seguinte, em corredores e elevadores do hospital. Dona Hilma foi encontrada na rua. Sofria de derrame pleural, alteração na membrana que reveste os pulmões. Três dias antes da internação, parecia ser uma gripe forte. 

O que derrubara Dona Hilma era comum em moradores de rua. O frio e os lugares insalubres castigavam os pulmões como o colchão de papelão surra as articulações e a coluna. No caso dela, com o agravante do vício em crack. Vício que a fez vender a casa para pagar dívidas com traficantes. Vício que a afastou dos familiares.

No quinto dia, Dona Hilma recebeu a irmã, que recebera a notícia 48 horas antes. Passaria a visitá-la a cada dois ou três dias. Não era falta de tempo ou excesso de compromissos. Era falta de dinheiro para as passagens de ônibus. Aliás, falta era uma palavra que rondava Dona Hilma. Falta de perspectivas na UTI. Falta de uma moradia se saísse do hospital. 

Quando familiares de um paciente perguntaram a uma das enfermeiras sobre o que Dona Hilma precisava, ouviram de imediato: “Falta tudo! Ela precisa de tudo!” Na tarde seguinte, eles duplicaram os mesmos produtos que levavam para a UTI: fraldas geriátricas, cremes, pasta de dente e outros produtos de higiene pessoal.

Dona Hilma receberia apenas outro visitante nas duas semanas seguintes. Alex vestia roupas simples, geralmente uma bermuda e uma camiseta de mangas compridas. Nos pés, um chinelo gasto, da mesma cor que os calcanhares rachados. Era magro, com barba por fazer e cabelos à moda de Dona Eliana, tão brancos e raspados quanto os dela. 

Alex não encontrava Dona Hilma há meses, depois que ela se tornara nômade. A visita era a gratidão de quem recebera ajuda numa fase da vida. Não se sentia à vontade para dizer algo a ela. Não é que não acreditava num dos conselhos básicos da UTI: a crença de que os pacientes, ainda que sedados ou em coma, ouvem e compreendem as vozes dos visitantes. 

Alex, na verdade, não sabia o que dizer. Estar ali era suficiente para que Dona Hilma entendesse o obrigado tardio. Alex também não falava com os médicos durante os boletins diários. As informações soavam repetitivas e técnicas em demasia para uma paciente sem melhora aparente. As únicas palavras se emendaram em frases curtas, inaudíveis para mim, ao receber a visita da assistente social. 

Encontrei Dona Hilma pela última vez em 23 de julho, quando eu e meu pai entramos na UTI, também pela última vez para ver minha mãe. Deitada, entubada, Dona Hilma permaneceu em silêncio. 

Cinco horas depois, retornamos à UTI para recebermos a notícia de falecimento de minha mãe. Não precisamos entrar. Ficamos no corredor.

Quando a enfermeira trouxe a sacola de pertences, apenas produtos de higiene pessoal, meu pai só pôde dizer: “Deixe para aquela senhora, por favor!”

— Quem?, perguntou a enfermeira. 

— A senhora do Box 10. A Dona Hilma! 

Foi o que consegui completar. Nada de mais nisso, somente o mínimo de humanidade num lugar onde as paredes brancas derrubam o espaço, o tempo ... e as pessoas. 


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