sábado, 24 de agosto de 2013

A mesa de seis lugares


Texto publicado, originalmente, mas em versão mais enxuta, na revista Sanatório Geral. 

Os 20 anos naquele trabalho esculpiram a imagem de Silvana. Lidar com dependentes químicos e, principalmente, com os burocratas que fingem entender de dependentes químicos a tornaram uma mulher respeitada na repartição. Até os inimigos a respeitam, mesmo que por medo dos gritos, da língua afiada, das relações com os personagens das madrugadas em albergues e abrigos. Os maledicentes a chamavam de mulher de rua, quando na verdade sabiam que ali trabalhava uma mulher das ruas. 

Silvana se alimentava do biótipo de gente independente. Gozava com a tensão alheia. Quase uma feminista de sutiã queimado em praça pública. Com duas filhas pré-adolescentes, mora em casa própria, nunca levou desaforo de chefia, sempre escolheu onde trabalhar.

O pai das garotas, dizem nos corredores, foi expulso de casa, se refugiou na loja. Nas palavras dele. Mas é uma quitandinha bem mequetrefe. Dorme nos fundos e só aparece na casa dela para trepar. Na verdade, ela o come, sussurrou outro dia uma ex do Juarez.

Ontem, Silvana chegou à seção suando frio. Bateu a porta, o que assustou as duas colegas. “Não falem comigo que hoje eu não tô boa!” Já era hora do almoço e Silvana tinha enforcado a manhã toda.

Naquela sala, a ordem é se proteger do mundo lá fora, das intrigas do andar de baixo, das sacanagens de parentes, um mundo de confidências que sustentava a relação de desequilíbrio constante no trabalho.

A verdade é que Silvana estava afogando manhãs, estendendo almoços, saindo mais cedo e chegando mais tarde. As colegas falaram em depressão, pensaram em crise no casamento, cogitaram divórcio, especularam sobre tóxico (sim, para uma delas drogas era isso, e com pronúncia em ch: tóchico!).

Dia de suor frio era o sinal de que o trem chamado Silvana precisava encostar ali. E abrir os vagões para descarregar. A mulher necessitava ligar o megafone emocional e ser exorcizada. Uma das colegas fechou a janela – já conhecia os gritos de desabafo. A outra fechou e passou a chave na porta. Ressuscitou até a velha placa pendurada na maçaneta: reunião!

Silvana foi direto ao ponto. “Quando ia sair para pagar uma conta, Juarez me encheu o saco por causa do meu vestido e comprei uma mesa de seis lugares.” As colegas se olharam e uma delas perguntou: “Pera aí, o que tem a ver, conta, Juarez e mesa de seis lugares?”

Embora esbaforida, Silvana conseguiu explicar a maior parte da história. Juarez passou na casa dela logo cedo. Aliás, descobriram que ele fazia isso todo dia, logo depois que as filhas saiam para a escola. Geralmente, ele encoxava – ou encurralava mesmo – Silvana na pia da cozinha. Queria completar o café da manhã.

Silvana nunca recusava. Temia que ele não voltasse no dia seguinte. Ou que transformasse os fundos da quitanda em sede de aventuras. Juarez, satisfeito, sempre era carinhoso no pós-trepada. Ela entendia como compensação porque o marido nunca pagara uma conta naquela casa. Nem no almoço de domingo o sujeito coçava o bolso.

A briga começou quando ela disse que precisava justamente pagar uma conta. Quando a viu de vestido preto, Juarez vomitou: “tá parecendo uma vagabunda logo cedo. Vai arrumá homi no banco?”

Silvana manteve a coerência e fuzilou como na repartição. Palavrões como aperitivo para o almoço. Marido para fora novamente. E viu quando a vizinha fofoqueira puxou a cortina e se escondeu. A vizinha ajudaria a manter a fama de má da rainha Silvana.

Quando ela respirou, uma das colegas conseguiu, gaguejando, engatar a pergunta: “Tá, Silvana, e onde entra a mesa?”

Silvana abriu a carteira. Separou os documentos básicos como RG e CPF. E despejou na mesa seis cartões de crédito. “Boneconas, já estourei cinco. Hoje, acabei com o último. Cada um deles tem limite de cinco paus.”

As colegas, em metamorfose sertaneja, cruzaram as vozes como dupla de sucesso. “Cinco mil? Cinco mil reais?”, disparou uma delas no agudo.

Silvana respirou para explicar. “Este chegou ontem. E comprei uma mesa de seis lugares. Madeira boa. Quatro mil reais. Vou pagar em 24 vezes. Se tô fudida agora, imagina na Copa!”

Enquanto passavam a tarde fazendo contas. Silvana foi desembuchando. Comprou um contêiner de tranqueiras, sabe-se lá por causa das brigas, do sexo mal resolvido ou de um olhar atravessado das adolescentes. Se juntasse tudo, pareceria um daqueles caminhões de prêmios da TV.

Cada filha tinha um tablet. Ela tinha um notebook mais duas mochilas para evitar assédio de ladrões. TV de 42 polegares e outros eletrodomésticos de última geração. A soma de tudo se aproximava de um carro “popular”, como os prometidos nos carnês de capitalização.

Quando a calculadora estava ofegante, saiu o veredito do conselho. Se não fizesse mais dívidas ou qualquer compra no cartão, ou seja, se não comesse mais e deixasse de pagar as contas da casa, ainda assim teria uma prestação de cinco mil reais até o final do ano. O dobro do salário dela.

Ninguém perguntou coisa alguma. Silvana se antecipou. “O que vou fazer? A mesa, não devolvo. E Juarez não vai pagar nada, senão vai pensar que pode mandar no meu quintal. Tem pinto, mas não é galo.”

Uma das colegas se encorajou e disse baixinho. “Quebre os cartões, Silvana.”

Ela catou a bolsa, beijou as duas e abriu a porta. “Gente, preciso sair mais cedo hoje. Falta um arranjo de mesa. Já imaginou se o Juarez ou as meninas reparam que a mesa tá vazia? Vão achar que sou uma vagabunda, uma desleixada em casa.”

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