quinta-feira, 29 de agosto de 2013

A bela e a fera

Wanessa Simons - foto: Marcos Piffer

Texto publicado originalmente, na seção Praia e Eu, na revista Guaiaó, número 4. 

O tamboréu é um esporte de hipóteses. A primeira delas indica que a modalidade, trazida por imigrantes italianos no pós-guerra, é um terreno masculino. A suposição seguinte nos aponta para um jogo praticado por ex-atletas, muitos com vitórias e derrotas também acumuladas na região abdominal.

O tamboréu também costuma ser visto como um esporte que se aproxima da recreação, em que competitividade é personagem coadjuvante. E a quarta hipótese se constitui no comportamento que você, leitor, manifestou até o momento: paciência. Longas trocas de bola e pontos com minutos de duração marcam as partidas à beira da praia ou no saibro (terra batida) de clubes como Portuários, Internacional, 2004 e Portuguesa Santista.

A moça na foto acima está realmente em seu habitat. Ali, ela vem demolindo – há quatro anos – adversários de ambos os sexos, assim como derruba na areia todas as premissas que cercam o tamboréu.

Wanessa Alonso Teixeira Simons, de 39 anos, é uma dona-de-casa que descobriu o esporte genuinamente santista durante o treino numa academia. Convidada por uma amiga, ela resolveu conhecer o mundo dos tambores, que mal prestava atenção enquanto corria na beira do mar. No primeiro dia, um sábado, o desempenho foi um desastre. “Não acertava uma bola na quadra. A única coisa boa é que mostrei aptidão por jogar com os dois braços”.

Em duas semanas, ela foi inscrita no primeiro torneio. Ficou em segundo lugar. “No começo, era difícil. Chorava de raiva, em casa, quando perdia.”

Hoje, é uma das melhores jogadoras da região. Em 2010, terminou o ano como primeira colocada no ranking da categoria B. No ano seguinte, promovida à categoria A, fechou a temporada também no topo da lista.

A partir de 2013, jogar entre mulheres deixou de ser prioridade. Ela e a parceira Simone Almeida disputam as categorias D e C, no masculino. “É mais fácil lidar com homens. Não tenho a mesma paciência com elas.”

Paciência é palavra-chave para entender Wanessa e a forma dela jogar tamboréu. Ela joga como fundista, normalmente responsável por bolas defensivas e por cadenciar a partida. Wan, como é chamada pelos colegas, se tornou “fundista atacante”, pela força dos golpes e pela velocidade com que deseja concluir os pontos. “Se pudesse ganhar só no saque, estaria bom.”

A performance a levou à França, para participar do Mundial, em 2011. O Brasil faturou o título na categoria B. Na França, as quadras têm 80 metros de comprimento por 20 de largura, o dobro da versão brasileira. O tamboréu é maior, com alça e de nylon. “Não gostei. Não houve tempo de adaptação.”

Wanessa é perfeccionista. Treina às terças e joga nos finais de semana e feriados, inclusive machucada. Numa partida recente, jogando com homens, machucou o tornozelo e permaneceu até o final. “Deixar a quadra reclamando de dor, entre eles? Não quero ser meia boca. Quero ser a boca inteira.”

Os exercícios diários cobraram o preço. Wanessa passou a temer por lesões por stress. Ao procurar um profissional especializado, no final de 2012, a vida e o jogo mudaram. Ganhou em equilíbrio e paciência na quadra. Reduziu a carga de treinos diários, que incluíam corridas e duas horas de academia.

O tamboréu significa, para ela, a extensão de casa. A filha Gabriela, de 13 anos, e o sobrinho Victor, de 14, praticam o esporte. O marido Paul Simons se tornou jogador e também disputa torneios. Ele, por sinal, é o pior adversário. “Paul acerta bolas impossíveis quando joga contra mim. Na quadra, não há casamento.”

Em 2011, os dois se enfrentaram, em duplas, no Ipê Open, em São Paulo. A partida valia vaga para a semifinal. Quando conta sobre os jogos, Wanessa usa gestos para reproduzir os golpes. “Quadra lotada. Todo mundo quer ver marido e mulher como adversários.”

Até hoje, não se conforma que, após vencer o primeiro set e com 8 a 6 no segundo, ela e Simone permitiram que o marido e o parceiro virassem a disputa. Final: 2 sets a 1. A indignação aumentou porque Paul e o parceiro foram eliminados na fase seguinte. “Ainda bem que meu marido é calmo.”

Wanessa, com o novo ritmo de treino, está em metamorfose. Mas ainda cultiva alguns hábitos. Não abandona o tradicional tamboréu de madeira, mais pesado e que exige mais força do que os tambores de rede. E segue na obsessão de decidir os pontos no fundo. É o recado de quem se recusa a matar a fera que existe dentro de si. “Jogo como um ogro. Sou a Fiona deste esporte.”

sábado, 24 de agosto de 2013

A mesa de seis lugares


Texto publicado, originalmente, mas em versão mais enxuta, na revista Sanatório Geral. 

Os 20 anos naquele trabalho esculpiram a imagem de Silvana. Lidar com dependentes químicos e, principalmente, com os burocratas que fingem entender de dependentes químicos a tornaram uma mulher respeitada na repartição. Até os inimigos a respeitam, mesmo que por medo dos gritos, da língua afiada, das relações com os personagens das madrugadas em albergues e abrigos. Os maledicentes a chamavam de mulher de rua, quando na verdade sabiam que ali trabalhava uma mulher das ruas. 

Silvana se alimentava do biótipo de gente independente. Gozava com a tensão alheia. Quase uma feminista de sutiã queimado em praça pública. Com duas filhas pré-adolescentes, mora em casa própria, nunca levou desaforo de chefia, sempre escolheu onde trabalhar.

O pai das garotas, dizem nos corredores, foi expulso de casa, se refugiou na loja. Nas palavras dele. Mas é uma quitandinha bem mequetrefe. Dorme nos fundos e só aparece na casa dela para trepar. Na verdade, ela o come, sussurrou outro dia uma ex do Juarez.

Ontem, Silvana chegou à seção suando frio. Bateu a porta, o que assustou as duas colegas. “Não falem comigo que hoje eu não tô boa!” Já era hora do almoço e Silvana tinha enforcado a manhã toda.

Naquela sala, a ordem é se proteger do mundo lá fora, das intrigas do andar de baixo, das sacanagens de parentes, um mundo de confidências que sustentava a relação de desequilíbrio constante no trabalho.

A verdade é que Silvana estava afogando manhãs, estendendo almoços, saindo mais cedo e chegando mais tarde. As colegas falaram em depressão, pensaram em crise no casamento, cogitaram divórcio, especularam sobre tóxico (sim, para uma delas drogas era isso, e com pronúncia em ch: tóchico!).

Dia de suor frio era o sinal de que o trem chamado Silvana precisava encostar ali. E abrir os vagões para descarregar. A mulher necessitava ligar o megafone emocional e ser exorcizada. Uma das colegas fechou a janela – já conhecia os gritos de desabafo. A outra fechou e passou a chave na porta. Ressuscitou até a velha placa pendurada na maçaneta: reunião!

Silvana foi direto ao ponto. “Quando ia sair para pagar uma conta, Juarez me encheu o saco por causa do meu vestido e comprei uma mesa de seis lugares.” As colegas se olharam e uma delas perguntou: “Pera aí, o que tem a ver, conta, Juarez e mesa de seis lugares?”

Embora esbaforida, Silvana conseguiu explicar a maior parte da história. Juarez passou na casa dela logo cedo. Aliás, descobriram que ele fazia isso todo dia, logo depois que as filhas saiam para a escola. Geralmente, ele encoxava – ou encurralava mesmo – Silvana na pia da cozinha. Queria completar o café da manhã.

Silvana nunca recusava. Temia que ele não voltasse no dia seguinte. Ou que transformasse os fundos da quitanda em sede de aventuras. Juarez, satisfeito, sempre era carinhoso no pós-trepada. Ela entendia como compensação porque o marido nunca pagara uma conta naquela casa. Nem no almoço de domingo o sujeito coçava o bolso.

A briga começou quando ela disse que precisava justamente pagar uma conta. Quando a viu de vestido preto, Juarez vomitou: “tá parecendo uma vagabunda logo cedo. Vai arrumá homi no banco?”

Silvana manteve a coerência e fuzilou como na repartição. Palavrões como aperitivo para o almoço. Marido para fora novamente. E viu quando a vizinha fofoqueira puxou a cortina e se escondeu. A vizinha ajudaria a manter a fama de má da rainha Silvana.

Quando ela respirou, uma das colegas conseguiu, gaguejando, engatar a pergunta: “Tá, Silvana, e onde entra a mesa?”

Silvana abriu a carteira. Separou os documentos básicos como RG e CPF. E despejou na mesa seis cartões de crédito. “Boneconas, já estourei cinco. Hoje, acabei com o último. Cada um deles tem limite de cinco paus.”

As colegas, em metamorfose sertaneja, cruzaram as vozes como dupla de sucesso. “Cinco mil? Cinco mil reais?”, disparou uma delas no agudo.

Silvana respirou para explicar. “Este chegou ontem. E comprei uma mesa de seis lugares. Madeira boa. Quatro mil reais. Vou pagar em 24 vezes. Se tô fudida agora, imagina na Copa!”

Enquanto passavam a tarde fazendo contas. Silvana foi desembuchando. Comprou um contêiner de tranqueiras, sabe-se lá por causa das brigas, do sexo mal resolvido ou de um olhar atravessado das adolescentes. Se juntasse tudo, pareceria um daqueles caminhões de prêmios da TV.

Cada filha tinha um tablet. Ela tinha um notebook mais duas mochilas para evitar assédio de ladrões. TV de 42 polegares e outros eletrodomésticos de última geração. A soma de tudo se aproximava de um carro “popular”, como os prometidos nos carnês de capitalização.

Quando a calculadora estava ofegante, saiu o veredito do conselho. Se não fizesse mais dívidas ou qualquer compra no cartão, ou seja, se não comesse mais e deixasse de pagar as contas da casa, ainda assim teria uma prestação de cinco mil reais até o final do ano. O dobro do salário dela.

Ninguém perguntou coisa alguma. Silvana se antecipou. “O que vou fazer? A mesa, não devolvo. E Juarez não vai pagar nada, senão vai pensar que pode mandar no meu quintal. Tem pinto, mas não é galo.”

Uma das colegas se encorajou e disse baixinho. “Quebre os cartões, Silvana.”

Ela catou a bolsa, beijou as duas e abriu a porta. “Gente, preciso sair mais cedo hoje. Falta um arranjo de mesa. Já imaginou se o Juarez ou as meninas reparam que a mesa tá vazia? Vão achar que sou uma vagabunda, uma desleixada em casa.”

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

Meninas negras não brincam com bonecas pretas

Gravação do clip Falsa Abolição. Foto: Dino Menezes

Joyce Fernandes, com seu nome de certidão de nascimento, é uma anônima no movimento Hip-Hop. É um fantasma entre MCs e compositores de rap. Ninguém sabe quem é ou ouviu falar dela. 

Quando entra em sala de aula diariamente, a professora Joyce é uma celebridade entre seus alunos, não apenas pelas suas roupas, que dançam entre a cultura africana e frases de denúncia ao racismo no Brasil. Joyce altera o cotidiano dos estudantes nas aulas de História, no Colégio Exemplo, no Humaitá, em São Vicente. Lá, ela os presenteia com palavras firmes, politizadas, coerentes com a rapper que aflora além dos muros da escola.

A questão é que, desde maio, tanto a artista como a professora não entendem direito o que está acontecendo. Joyce Fernandes, a Preta Rara, agradece sempre, sorri até para quem não conhece, mantém a serenidade e a educação que a fazem uma dama em um mundo dominado pelos homens.

Entre julho e a primeira metade de agosto, Preta Rara subiu ao palco 15 vezes para shows. Cantou com Criollo, um dos principais representantes do rap atual no país, em maio, no Sesc de Santos. Conheceu, há 30 dias, um de seus ídolos, Afrika Bambaataa, que levou para casa uma versão do Trabalho de Conclusão de Curso (TCC), pesquisa sobre a história do rap na Baixada Santista.

Ao dividir o palco com Criollo, Preta Rara viu o mar se abrir. Recebeu o convite para gravar o primeiro clip, ao lado da parceira Negra Jack. As duas formam a Tarja Preta, a primeira dupla de rap feminina da região. O convite foi cristalizado na apresentação seguinte, em um ato das Mães de Maio.

Em duas semanas, a primeira reunião com a turma da Conceituall Estúdio, responsável pelas gravações. Falsa Abolição, uma das primeiras músicas da Tarja Preta, se transformou em clip após quatro dias de filmagens em vários locais, entre escolas de teatro e casas noturnas. Parte das gravações aconteceu na Zona Noroeste e reuniu cem mulheres. O clip é o filho que ambas aguardaram por cinco anos. 


Escute a faixa Falsa Abolição!

Preta Rara, assim como Negra Jack, tinha várias credenciais para derrapar na curva. Mas ela tem a mania de andar pelos caminhos mais longos. Estes desvios teimosos provam que profecias sociais não passam de charlatanices futuristas.

Joyce trabalhou pela primeira vez aos 13 anos. O emprego não era remunerado. Na prática, um trabalho voluntário para auxiliar a mãe, que limpava banheiros em quiosques da orla da praia. O pai trabalhava para os Correios.

Antes de ser Preta Rara, a aluna Joyce Fernandes passou por escolas públicas e se tornou a primeira da família a alcançar o ensino superior. Formou-se em História na Universidade Católica de Santos, em 2011. Sua apresentação de TCC alterou o cotidiano da instituição por uma noite. Mais de 60 pessoas se espremiam na sala 315, muitas de pé, para ouvir a trajetória do rap caiçara, com direito à música no final da apresentação.

Preta Rara e a parceira Negra Jack se conheceram numa locadora que frequentavam, na Área Continental de São Vicente. A rivalidade fruto da desconfiança hoje é uma relação fraterna, umbilical. E as escolhas de ambas as uniram para contornar um cardápio de preconceitos e intolerância.

As duas residem em bairros de periferia, cercadas pela ausência de infra-estrutura e, por vezes, reféns de surtos de violência. Ambas são negras e vieram de famílias pobres. Optaram por demonstrar sua identidade cultural nas roupas e nos cabelos. Eram cartões de visita que agiam, involuntariamente, como para-raios de gente que se julga civilizada.

Preta Rara, certa vez, aguardava para atravessar a rua em São Vicente, quando um carro parou perto dela. Ela se aproximou do veículo, na certeza de que seria alguém em busca de informação. Com cabelos dread e vestida com roupas de origem africana, ouviu da passageira: “Macumbeira!”

O rosário de preconceitos também aconteceu no mundo do rap. Elas integram uma lista restrita de mulheres que começam a desbravar um terreno controlado por homens. Muitos artistas do movimento Hip-Hop, aliás, ainda insistem em exercícios contínuos de machismo em seus clips e, principalmente, em suas letras.

Preta Rara e Negra Jack também sofreram com provincianismo. Se Preta hoje coleciona apresentações dentro e fora da Baixada Santista, ainda recebe – eventualmente – convites nos quais cachê é palavra proibida. Música como sinônimo de caridade, não para movimentos sociais, que elas atendem com prazer, mas para pessoas que lucram na bilheteria. Em São Paulo e no interior do Estado, o rap complementa a renda de professora. 

Preta Rara e Negra Jack, a Tarja Preta

Depois de conseguiram espaço no palco, as duas tiveram que provar que as temáticas de suas letras também eram importantes manifestos sociais. Discutiam o passado histórico da mulher brasileira, falavam de amor, colocavam na parede o machismo, o consumismo e a exploração do corpo feminino. Nadavam na corrente contrária à ostentação material e, por vezes, à violência urbana.

Preta Rara, neste momento, voa sozinha. Negra Jack teve uma filha, Isadora, e está em licença maternidade. A menina, inclusive, faz uma participação especial no clip Falsa Abolição, envolvida nos braços da mãe.

O reconhecimento de anos de trabalho estará materializado em dezembro, quando Preta Rara colocará na rua seu primeiro CD solo, Audácia. A primeira música de trabalho, Conto de Fadas, está disponível na Internet. Nos próximos 30 dias, Preta se apresenta em São Paulo, Santos, Campinas e Marília.

Preta Rara, durante a semana, permanece Joyce Fernandes, a professora de História. Nos finais de semana e eventuais noites de segunda à sexta, Joyce cede o lugar à rapper preta em sua plenitude.

O dinheiro, apertado para as contas do mês, ainda está no ensino, mas a satisfação de ter voz e o discurso de lucidez social não desgrudam da mulher que, independentemente do nome, reverteu um rosário de prognósticos que insistiam em tentar derrotá-la.

Obs.: Texto publicado originalmente na coluna Entrelinhas Caiçaras, no site Culturalmente Santista. 

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

Saudades do bar democrático

Uma noite de Vitrolada

A sinceridade de meu filho de 3 anos é impregnada, muitas vezes, de sabedoria singela, de quem descreve o detalhe com requintes de normalidade. Sempre que andamos de ônibus, fato frequente, gosto de perguntar a ele algo que luto para preservar com quase 40 anos. Quando pergunto o que ele está vendo pela janela, a resposta é direta: “Pai, estou vendo a cidade.” E começa a descrevê-la para mim. 

O momento de orgulho paterno deságua em melancolia quando caminho pelo Canal 4, bem perto da orla da praia. Não consigo explicar, mas tenho a mania de olhar para a direita e procurar pelo Bar Torto. Tenho comigo que deve ser saudade. Saudade dos amigos, saudade da juventude, saudade das experiências.

Dói olhar para a placa, aquela que indica a atração da noite, e engolir silêncio. A nostalgia machuca para quem mastiga a escuridão que envolve um pedaço pequeno – mas profundo – da história cultural de Santos. Olho para aquele espaço, tombado pela engenharia arenosa, e não pelo patrimônio arquitetônico, e enxergo lembranças deste e do século passado, da minha biografia, dos meus amigos, de grandes músicos.

Nunca fui frequentador assíduo do Torto. Imaginei que pudesse ser uma vantagem, pois me apegaria menos ao vê-lo sofrer em praça pública. Estupidez a minha, porque vivência não se mede em quantidade de acordes. Em todas as ocasiões há enredos especiais, que ganham mais corpo ao tentar entender porque um bar agoniza pela intransigência, pela burocracia, pela falta de vontade política.

Entrei no Bar Torto pela primeira vez há cerca de 20 anos. Era quase um ritual universitário, de passagem etílica-musical, de transgressão ao senso comum da cultura pasteurizada, de revolução individual com a exposição a novos repertórios e novas linguagens. Os mais velhos em idade musical arrastavam os novatos, num ato de solidariedade, traduzido em injeções cavalares e sem antídoto de cultura brasileira.

Ali, não aconteciam censuras ou restrições. O Brasil musicado, multifacetado e contraditório se espalhava pelas paredes e canalizava pelo palco apertado, pelas conversas de pé de ouvido, pelas referências lado B, lado C dos riscados vinis, e tão preciosas naquele esconderijo entre imobiliárias e academias de ginástica.

O Torto sempre foi múltiplo e versátil como qualquer banda que mereça respeito. E assim tratava seus visitantes. Lembro-me, por exemplo, do amigo que abriu os olhos para a cultura caiçara depois de três horas lá dentro. De cabelos quase até a cintura, camiseta preta e barba longa, ele se enquadrava voluntariamente como representante do figurino rock pesado.

Saiu de lá como novo rebento do matrimônio entre seu gênero preferido e a arte dos Secos e Molhados, casamento celebrado pelo sacerdote Ney Matogrosso em voz e ausência física. Nunca mais voltou. Mergulho ainda mais no metal, por outros motivos. Só que nunca mais deixou de ouvir grupos nacionais.

Voltei ao Torto no ano passado. Uma terça-feira à noite, dia em que Santos – após a meia-noite – se aproximava de terra arrasada dos filmes apocalípticos. Naquela portinha, quase na orla da praia, entrei para ver o projeto Futuráfrica, maternidade de ícones circunstanciais de uma democracia musical, sintetizadas em DJs por acidente. Naquela terça-feira, o crítico Chico Marques, velho amigo de outras enseadas, era o criador.

Para mim, mais uma noite de saudades. Encontrei amigos. Dancei com minha namorada pela primeira vez. Não poderia prever que, meses depois, os burocratas resolveriam fazer seu trabalho. Corrigindo, exercitar o poder pela caneta que os emprega.

Na semana retrasada, o Sesc abrigou três shows que reforçam a resistência do Torto em morrer pelas mãos da inanição política. Ingressos esgotados por gerações diferentes, com instrumentos em mãos ou de olho no palco, desta vez menos acanhado, mas não menos combativo ou dispersivo.

Testemunhei uma das passagens de som. Ao ver os músicos, voltei ao canal 4 sem passar por lá. Depois de alguns segundos, meus filhos me disseram: “Pai, vamos!” Bem que poderia ser para olhar a cidade. Uma cidade que, muitas vezes, dá saudades em seus detalhes essenciais.

Obs.: Texto publicado originalmente na coluna Entrelinhas Caiçaras, no site Culturalmente Santista. 

domingo, 4 de agosto de 2013

A mulher silenciosa


Visitar uma UTI durante 40 dias te obriga a criar mecanismos que driblem o sofrimento, a angústia da espera, a frieza dos equipamentos que viram extensões do paciente. O principal deles é conhecer histórias de gente que, se compartilham ou amenizam dor, também funcionam como pílulas da humanidade que teima em resistir à neutralidade das paredes, símbolos de um espaço desconectado do tempo. 

Conheci Jaqueline, a auxiliar de enfermagem com dois filhos adolescentes e feliz por vestir suas roupas mais antigas, em combinações que ignoram as acusações de cafonice. Vi médicos como a doutora Karen que, em tempos de virose como palavra de ordem médica, se emociona quando assiste à recuperação ou à morte de seus pacientes.

Tive o prazer de conversar com Dona Eliana, senhora de um metro e meio, peso mínimo e cabelos brancos raspados à máquina dois, que lutava diariamente pela recuperação do marido, cujas pernas foram amputadas.

Quem nos aproximou, neste caso, foi uma das irmãs dela, que se chamava Zuleica, o mesmo nome de minha mãe. Uma semelhança que nos ajudou a resistir à rotina diária de hospital. Triste saber que o marido de Dona Eliana faleceu meia hora depois de mais uma visita. 

Dona Hilma me chamou a atenção no primeiro dia dela na UTI. Não recebeu visitas. A ausência se repetiu pelos três dias seguintes. Sem parentes ou amigos. Uma mulher inconsciente, entubada, com uma história em fragmentos, que não podia ser contada por ela mesma. Seria reconstituída por depoimentos esparsos nas duas semanas seguintes. 

A UTI, por mais dolorosa que seja, sempre está repleta de visitantes. Dois para cada paciente, sem revezamento. Gente que sonha com o quarto do hospital, como um hotel de cinco estrelas que indica o afastamento, mesmo que temporário, da pior notícia possível. Alimentar-se de sopa e assistir à qualquer lixo na TV são luxos dignos de pacotes de viagem. 

A cama sem acompanhantes me aproximou de uma das auxiliares de enfermagem, conversa que se estendeu no dia seguinte, em corredores e elevadores do hospital. Dona Hilma foi encontrada na rua. Sofria de derrame pleural, alteração na membrana que reveste os pulmões. Três dias antes da internação, parecia ser uma gripe forte. 

O que derrubara Dona Hilma era comum em moradores de rua. O frio e os lugares insalubres castigavam os pulmões como o colchão de papelão surra as articulações e a coluna. No caso dela, com o agravante do vício em crack. Vício que a fez vender a casa para pagar dívidas com traficantes. Vício que a afastou dos familiares.

No quinto dia, Dona Hilma recebeu a irmã, que recebera a notícia 48 horas antes. Passaria a visitá-la a cada dois ou três dias. Não era falta de tempo ou excesso de compromissos. Era falta de dinheiro para as passagens de ônibus. Aliás, falta era uma palavra que rondava Dona Hilma. Falta de perspectivas na UTI. Falta de uma moradia se saísse do hospital. 

Quando familiares de um paciente perguntaram a uma das enfermeiras sobre o que Dona Hilma precisava, ouviram de imediato: “Falta tudo! Ela precisa de tudo!” Na tarde seguinte, eles duplicaram os mesmos produtos que levavam para a UTI: fraldas geriátricas, cremes, pasta de dente e outros produtos de higiene pessoal.

Dona Hilma receberia apenas outro visitante nas duas semanas seguintes. Alex vestia roupas simples, geralmente uma bermuda e uma camiseta de mangas compridas. Nos pés, um chinelo gasto, da mesma cor que os calcanhares rachados. Era magro, com barba por fazer e cabelos à moda de Dona Eliana, tão brancos e raspados quanto os dela. 

Alex não encontrava Dona Hilma há meses, depois que ela se tornara nômade. A visita era a gratidão de quem recebera ajuda numa fase da vida. Não se sentia à vontade para dizer algo a ela. Não é que não acreditava num dos conselhos básicos da UTI: a crença de que os pacientes, ainda que sedados ou em coma, ouvem e compreendem as vozes dos visitantes. 

Alex, na verdade, não sabia o que dizer. Estar ali era suficiente para que Dona Hilma entendesse o obrigado tardio. Alex também não falava com os médicos durante os boletins diários. As informações soavam repetitivas e técnicas em demasia para uma paciente sem melhora aparente. As únicas palavras se emendaram em frases curtas, inaudíveis para mim, ao receber a visita da assistente social. 

Encontrei Dona Hilma pela última vez em 23 de julho, quando eu e meu pai entramos na UTI, também pela última vez para ver minha mãe. Deitada, entubada, Dona Hilma permaneceu em silêncio. 

Cinco horas depois, retornamos à UTI para recebermos a notícia de falecimento de minha mãe. Não precisamos entrar. Ficamos no corredor.

Quando a enfermeira trouxe a sacola de pertences, apenas produtos de higiene pessoal, meu pai só pôde dizer: “Deixe para aquela senhora, por favor!”

— Quem?, perguntou a enfermeira. 

— A senhora do Box 10. A Dona Hilma! 

Foi o que consegui completar. Nada de mais nisso, somente o mínimo de humanidade num lugar onde as paredes brancas derrubam o espaço, o tempo ... e as pessoas.