quarta-feira, 31 de julho de 2013

Zuleica e Terezinha


Zuleica e Terezinha se encontraram na semana passada. Elas não se viam desde o réveillon. O último encontro foi festivo, claro, e aconteceu na praça em frente ao Aquário Municipal de Santos. As duas retornavam da praia, onde assistiram à queima de fogos.

Além dos desejos de praxe, as duas conversaram sobre netos, família e do momento em que todos se reuniram. Resolveram caminhar juntas, alternando diálogos entre si e com parentes que as acompanhavam. Eram vizinhas na rua Roberto Sandall e só descobriram a proximidade geográfica um ano antes.

Zuleica e Terezinha eram vizinhas de janela, no décimo andar, embora morassem em prédios diferentes. Eventualmente, uma ouvia a outra, mas sem possibilidades de réplica, discussão ou fofoca. O banheiro do apartamento de Terezinha podia ser visto pela janela de um dos quartos do imóvel de Zuleica.

Aí entra certa responsabilidade minha. Eu as apresentei. Zuleica era minha mãe. Terezinha, minha colega de trabalho na Universidade Católica de Santos. A professora e a futura aluna se viram vizinhas.

Confesso que não consigo acreditar em coincidências. Até simpatizo com acasos, mas como algo folclórico, um pouco distante da vida concreta e real. Balancei na semana passada, quando comecei a pensar nas semelhanças entre Zuleica e Terezinha.

Mais do que dar aulas na Universidade Aberta da Terceira Idade, onde minha mãe estudava, Terezinha se entendia com Zuleica pela visão de mundo. Ambas concordavam ideologicamente, vamos dizer assim, se sentiam atraídas pelas mesmas novelas políticas e criticavam de maneira parecida os mesmos atores e atrizes pelas canastrices do poder.

Zuleica e Terezinha vibravam com os protestos nas ruas. Para Terezinha, um retrato que ressuscitava as memórias de uma vida estudantil na qual ela sangrou como filha da PUC. Para Zuleica, um novo desenho que a permitia refletir sobre o que a professora-vizinha falara tanto em sala de aula. “Se não estivesse velha, estaria nas ruas”, me disse uma noite.

Na UTI, minha mãe me pediu que reunisse todo o noticiário sobre os protestos. Leu uma pequena parte do material e sorriu quando soube que as tarifas de ônibus foram reduzidas ou congeladas.

Até de corintianismo ambas sofriam. Zuleica era mais comedida, é verdade, mas percebia – assim como Terezinha – que o Corinthians vivia capítulo único de sua história, em São Paulo ou no Japão. Terezinha azucrinava seus colegas professores, principalmente os palmeirenses, que tinham que engolir o segundo rebaixamento em dez anos.

O Corinthians, muitas vezes, era pauta de conversas com ambas, em cenários diferentes, inclusive nas caronas que Terezinha me dava justamente para visitar minha mãe na rua Roberto Sandall.

Zuleica e Terezinha morreram na mesma noite, dia 23 de julho de 2013. Tinham a mesma idade, 68 anos. Ambas tentaram se refazer de distintos problemas de saúde. Viveram momentos ruins, deram sinais de recuperação e pioraram novamente. As duas faleceram na Santa Casa de Santos.

No dia seguinte, os dois velórios aconteceram no mesmo endereço, o Memorial Necrópole Ecumênica. Foi a primeira imagem que vi, no telão informativo das cerimônias. As duas ficaram lado a lado, separadas apenas por uma parede. Elas me entregaram esta crônica de presente, pensei.

Zuleica descansava na sala 1. Terezinha, na sala 2. Receberam dezenas de visitantes comuns. Ambas desejaram a cremação, que aconteceu no mesmo lugar, com diferença de duas horas.

Ainda duvido dos acasos e das coincidências, mas não assino embaixo. Até porque ambas serão homenageadas em missa conjunta, nesta quarta-feira, na capela da instituição onde compartilharam conhecimento e opiniões políticas.

Mais do que jogar dados, a missa é uma manifestação de amor de quem conviveu com elas durante muitas tardes. De fato, as semelhanças vão atrair Zuleica Maria de Oliveira e Almeida Batista e Terezinha Ayub Pellizzari mais uma vez para um encontro festivo entre elas, talvez só delas, de muita conversa, sempre com muito a dizer a todos nós. Não será última, mas a próxima aula.


5 comentários:

Anônimo disse...

Lindo, emocionante e carinhoso.

professora marina disse...

Maravilhosa sua crônica e emocionante... Parabéns!!!

Arminda Costa disse...

ah querido Marcão, um presentão divino... conhecendo a Terezinha deve estar na torcida por um mundo melhor!!! Junto com sua mae querida!!!
grande abs

Marlene disse...

Marcus, jamais imaginei ver um fato de mistério tão profundo! Sua mãe viveu uma vida feliz, mas merecia ganhar uma irmã para acompanhá-la em outras jornadas. Com certeza irão se divertir e a Zuleica manterá aquele sorriso carinhoso que ela sempre teve.
Adorei seu gesto de amor, produzindo esta bela crônica.
Forte abraço...

Antonio disse...

Caro professor:uma homenagem singela de um filho carinhoso...não tempreço!

O eterno aluno