terça-feira, 23 de julho de 2013

O Grande Amor (Para L.)


Nunca consegui escrever sobre o amor. Pareceria pretensiosa demais a tentativa de encaixar, de enquadrar uma explicação tão particular quanto indecifrável. Também me sinto incompetente porque sempre acreditei que minhas palavras sairiam insuficientes, flertando com o cafona, com o piegas. 

Pensava que o amor seria missão para os poetas. Eu, no máximo um cronista, ficaria no meu canto, observando pessoas e lugares, relatando sentimentos mais mundanos, agarrados à leveza do cotidiano. Claro, um tipo de poesia, mas um irmão caçula diante da intensidade de quem colhe o amor no campo do abstrato. Não poderia me intrometer em um lugar onde não saberia como pisar, como me mover sem esbarrar nas cristaleiras que mobíliam o amor.

No canto deste cenário, lá no fundo, resiste ainda a crença de que atitudes valeriam mais dos que as palavras. A racionalidade, olha, é capaz de nos tornar estúpidos e cegos. Quando a vigilância do pensamento fraqueja, podemos perceber que as palavras existem justamente para isso: explicar os atos, esmiuçar o conjunto de percepções que temos na vida, conosco e com os outros, principalmente aqueles que amamos, no limite da dor. A rima, neste caso, jamais foi circunstancial. Dói porque é forte e nos sacode. Não dói porque machuca.

Não vou escrever sobre o amor. Mas vou escrever sobre o Grande Amor. Sobre aquela pessoa que, quando se junta a nós, muda nossa vida, como formiguinha que persiste em carregar folhas com o vento cortante no rosto. Altera nossos rumos porque nos ensina sem notar. Altera nossos caminhos porque nos reconstrói sem intenções pedagógicas.

Não consigo conceber uma biografia sem um Grande Amor. Sem este Grande Amor. Ela é parte de mim, numa simbiose saudável, que me diz o quanto podemos ser importante juntos, e quebradiços como marionetes quando sozinhos. As marcas aparecem não apenas no corpo, mas insistem em gritar por onde andamos.

Vejo meu Grande Amor todo o tempo. Não se trata de comportamento obsessivo, que beira o patológico. Só quem convive com um Grande Amor sabe que ele nasceu para te acompanhar, que nos lembra de que somos crianças no sentido mais lúdico que o termo pode possuir. Brincar, sem culpas. Viver, sem o dedo indicador das restrições. Ela, a mulher com quem desejo envelhecer, me transformou numa espécie de médium, que conduz e vê seu espírito em todos os endereços.

Não faço a menor ideia de como nasce um Grande Amor. Não tenho a receita, desconheço a fórmula, não arrisco perder tempo procurando em biblioteca. O Grande Amor se materializa quando a fissura parece ser a próxima fronteira da nossa trajetória. Mas ele está ali, pronto para te dar a mão quando caímos e não enxergamos perspectiva de se levantar.

O Grande Amor tranca no armário todos os sentimentos que teimam em rodeá-lo. Coloca o orgulho em seu devido lugar. Encarcera as mesquinharias, as fraquezas que decorrem da nossa falta de nobreza nas relações humanas. Algema a estupidez que se manifesta pelos erros, pelos silêncios inoportunos, pelas palavras irresponsavelmente ditas.

Amar alguém é sentir os lugares por onde nos arrastamos em lágrimas ou caminhamos com a cabeça em pé. Mas também é o desejo de visitar os lugares que ela nunca conheceu conosco. Imaginar, fantasiar são as ferramentas de quem cultiva um jardim, de quem luta para protegê-lo, consciente de que o excesso de sol pode feri-la amanhã. Ou quando ficamos surdos diante do barulho da tempestade que se avizinha. Ainda assim, readubamos a terra, ajeitamos as plantas e deixamos que as costas aguentem o tranco do que nos cortará e nos fará sangrar.

O Grande Amor não está na primeira página. Ele sobrevive nas vírgulas, no rodapé das páginas menos lidas. Ali, ele guarda o que podemos – no ponto de sofrimento – retirar como chave para abrir uma nova porta e encontrá-lo outra vez. O Grande Amor nos devolve a chave, como quem nos diz: “Olha o que vai fazer com ela.” Não é professoral, proibitivo. É preventivo porque ama.

O Grande Amor é tão importante que nos faz escrever. Como se fosse necessário registrar em palavras escritas e impressas o que já está publicado dentro de nós. Mas ele compreende a necessidade de que palavras impressas são nosso grito de benção. De redenção. De reconstrução.

O Grande Amor se torna insuportável na ausência. Saudade não é sentimento eventual, é contínuo em poucos minutos de falta. Ele nos mata pela negação, do tempo, do espaço, do desejo. Desejo incessante pelo abraço, pelo beijo, pelo toque, pela sedução, pelo sexo.

Poderia dizer que tenho pena de quem nunca o conheceu. Mas não. Não posso cometer um ato de arrogância ao insinuar que o Grande Amor faltou a alguém. É que, às vezes, não o identificamos, simplesmente porque nos distraímos na janela.

Creio - e me agarro a todas as boias – que não entro nesta lista. Meu Grande Amor tem nome, sobrenome, endereço, qualidades e defeitos. Em palavras impressas, com o valor que repele o banal e tira seu peso, posso medir os dedos e escrever: Eu te amo!

2 comentários:

Beth Soares disse...

Estou sem palavras... mas será que existem?

(L)ila

Mariana Carvalho disse...

Professor,de todas as suas crônicas essa você simplesmente mandou muito bem! Maravilhosa a forma como descreve um Grande Amor, e só quem o sente pode dizer, é exatamente assim.

Boa sorte com seu Grande Amor!