quarta-feira, 31 de julho de 2013

Zuleica e Terezinha


Zuleica e Terezinha se encontraram na semana passada. Elas não se viam desde o réveillon. O último encontro foi festivo, claro, e aconteceu na praça em frente ao Aquário Municipal de Santos. As duas retornavam da praia, onde assistiram à queima de fogos.

Além dos desejos de praxe, as duas conversaram sobre netos, família e do momento em que todos se reuniram. Resolveram caminhar juntas, alternando diálogos entre si e com parentes que as acompanhavam. Eram vizinhas na rua Roberto Sandall e só descobriram a proximidade geográfica um ano antes.

Zuleica e Terezinha eram vizinhas de janela, no décimo andar, embora morassem em prédios diferentes. Eventualmente, uma ouvia a outra, mas sem possibilidades de réplica, discussão ou fofoca. O banheiro do apartamento de Terezinha podia ser visto pela janela de um dos quartos do imóvel de Zuleica.

Aí entra certa responsabilidade minha. Eu as apresentei. Zuleica era minha mãe. Terezinha, minha colega de trabalho na Universidade Católica de Santos. A professora e a futura aluna se viram vizinhas.

Confesso que não consigo acreditar em coincidências. Até simpatizo com acasos, mas como algo folclórico, um pouco distante da vida concreta e real. Balancei na semana passada, quando comecei a pensar nas semelhanças entre Zuleica e Terezinha.

Mais do que dar aulas na Universidade Aberta da Terceira Idade, onde minha mãe estudava, Terezinha se entendia com Zuleica pela visão de mundo. Ambas concordavam ideologicamente, vamos dizer assim, se sentiam atraídas pelas mesmas novelas políticas e criticavam de maneira parecida os mesmos atores e atrizes pelas canastrices do poder.

Zuleica e Terezinha vibravam com os protestos nas ruas. Para Terezinha, um retrato que ressuscitava as memórias de uma vida estudantil na qual ela sangrou como filha da PUC. Para Zuleica, um novo desenho que a permitia refletir sobre o que a professora-vizinha falara tanto em sala de aula. “Se não estivesse velha, estaria nas ruas”, me disse uma noite.

Na UTI, minha mãe me pediu que reunisse todo o noticiário sobre os protestos. Leu uma pequena parte do material e sorriu quando soube que as tarifas de ônibus foram reduzidas ou congeladas.

Até de corintianismo ambas sofriam. Zuleica era mais comedida, é verdade, mas percebia – assim como Terezinha – que o Corinthians vivia capítulo único de sua história, em São Paulo ou no Japão. Terezinha azucrinava seus colegas professores, principalmente os palmeirenses, que tinham que engolir o segundo rebaixamento em dez anos.

O Corinthians, muitas vezes, era pauta de conversas com ambas, em cenários diferentes, inclusive nas caronas que Terezinha me dava justamente para visitar minha mãe na rua Roberto Sandall.

Zuleica e Terezinha morreram na mesma noite, dia 23 de julho de 2013. Tinham a mesma idade, 68 anos. Ambas tentaram se refazer de distintos problemas de saúde. Viveram momentos ruins, deram sinais de recuperação e pioraram novamente. As duas faleceram na Santa Casa de Santos.

No dia seguinte, os dois velórios aconteceram no mesmo endereço, o Memorial Necrópole Ecumênica. Foi a primeira imagem que vi, no telão informativo das cerimônias. As duas ficaram lado a lado, separadas apenas por uma parede. Elas me entregaram esta crônica de presente, pensei.

Zuleica descansava na sala 1. Terezinha, na sala 2. Receberam dezenas de visitantes comuns. Ambas desejaram a cremação, que aconteceu no mesmo lugar, com diferença de duas horas.

Ainda duvido dos acasos e das coincidências, mas não assino embaixo. Até porque ambas serão homenageadas em missa conjunta, nesta quarta-feira, na capela da instituição onde compartilharam conhecimento e opiniões políticas.

Mais do que jogar dados, a missa é uma manifestação de amor de quem conviveu com elas durante muitas tardes. De fato, as semelhanças vão atrair Zuleica Maria de Oliveira e Almeida Batista e Terezinha Ayub Pellizzari mais uma vez para um encontro festivo entre elas, talvez só delas, de muita conversa, sempre com muito a dizer a todos nós. Não será última, mas a próxima aula.


terça-feira, 30 de julho de 2013

O jardineiro fiel

O sofá é o último símbolo de um tempo que virou jardim

Rinaldo, até dois anos atrás, era um aposentado. Não era o clássico inativo ativo brasileiro, que compõe rendas, faz bicos e apela para empréstimo consignado. Ele tinha feito carreira em escalões mais baixos da Codesp. Desde o último dia de trabalho, nunca mais voltou ao Porto de Santos. Aposentou-se de tal forma que os dias se resumiam à garagem do prédio onde mora desde que se casou há 35 anos. 

Embora resida na avenida Pedro Lessa, um dos principais corredores de comércio da cidade, Rinaldo só vende a própria paradeza. Para cortar as raízes da garagem, outras duas moradias: o boteco do outro lado da avenida e as compras de última hora na vendinha.

Como facilidade, os dois endereços ficam na mesma calçada, o que é o paraíso para quem ora por uma viagem só. Rinaldo se transformou no homem dois em um, desde que a esposa tivesse paciência para esperar pela entrega da lata de tomate depois que a garrafa de cerveja secasse.

As conversas de Rinaldo também flertavam com a inércia. Era papo de boa gente, simpática e disposta a ajudar com sacolas de compras, empurrar carro que não pega, cuidar dos netos alheios. Só que não saia do repertório “Hoje vai chover”, “Hoje está calor”.

A previsão do tempo funcionava como pauta única para todos os visitantes, moradores e até desconhecidos que tocavam o interfone de um dos apartamentos. Alguns moradores o cumprimentavam em movimento para evitar que o comentário climático virasse um quadro de meteorologia de telejornal.

Se dissesse que Rinaldo cansou da vista da garagem, mancharia a dignidade do sujeito. Ele continua por lá, todos os dias, mas mudou de vida há dois anos. Não bebe mais. Teme pela saúde. Só o cigarro segue como companheiro de vigilância no térreo.

A nova profissão nasceu quando ele ficou impedido de atravessar a avenida. Nada de boteco ou vendinha. Abandonar a cevada foi efeito colateral. Ele ficou incomodado com o canteiro que dividia a vida dele. As duas pistas da avenida viraram um depósito de lixo informal, renovado a cada 24 horas a partir da passagem do caminhão coletor.

Rinaldo entendeu que, se plantasse mudas ou colocasse vasos, o lixo desapareceria. Quem o conhecia acreditou que era um passatempo para fugir da garagem. Quem estava de passagem o olhava como se fosse o louco do bairro. Ele recebeu um único apoio. O pastor de uma igreja a 200 metros do prédio de Rinaldo resolveu colaborar e promover o milagre da multiplicação do jardim.

A novidade provocou comentários, mas sem ajuda extra. A história alcançou este cronista, que a publicou no jornal. Outro jornalista leu sobre Rinaldo e o episódio foi parar na TV. O aposentado, agora, era jardineiro. O jardineiro, agora, era a celebridade do mundo de duas quadras.

Comerciantes meteram a mão no bolso. Vizinhos arranjaram novas mudas. A esposa e os filhos falaram com orgulho do urbanista da família. O jardim dobrou de extensão. Os moradores mais sensíveis, que lamentaram a perda de um abacateiro e de outras árvores frutíferas nos últimos anos, viram nele uma esperança de ressurreição da velha rotina interiorana.

Rinaldo não ligou para o assédio. Falou disso só uma vez, e com vergonha. E entendeu que a casa de ferreiro não poderia ter espetos de pau. Até poderia, desde que segurassem novas plantas. Chamou um vizinho também aposentado e eventual colega de instituto informal de meteorologia. Pintaram as pilastras, a caixa do correio e o abrigo do medidor de água. Tudo de branco. Comprou vasos, arranjou outros na vizinhança.

Os carros, que ocupam o centro da garagem, ganharam a companhia de dez vasos, de meia dúzia de espécies diferentes. Todos os vasos também foram pintados de branco, com restos de tinta de reformas inacabadas no prédio. Ninguém reclamou. Como cereja do bolo quente, conseguiu com o vizinho um sapo e um caracol, daqueles que aguardam pelos anões para amarrar o cenário do jardim.

Hoje, depois de um mês, Rinaldo intercala dois assuntos: o clima e as plantas. É claro que ambos se cruzam e garantem cinco minutos de boa prosa, a única coisa interiorana numa avenida que cheira a porto. Os anões ainda não apareceram, mas meu filho – com seu metro de altura – faz o pequeno papel, pois fica louco para brincar com o sapo e o caracol cada vez que atravessa a garagem. 

* Texto publicado originalmente na coluna Entrelinhas Caiçaras, no site Culturalmente Santista.

terça-feira, 23 de julho de 2013

O Grande Amor (Para L.)


Nunca consegui escrever sobre o amor. Pareceria pretensiosa demais a tentativa de encaixar, de enquadrar uma explicação tão particular quanto indecifrável. Também me sinto incompetente porque sempre acreditei que minhas palavras sairiam insuficientes, flertando com o cafona, com o piegas. 

Pensava que o amor seria missão para os poetas. Eu, no máximo um cronista, ficaria no meu canto, observando pessoas e lugares, relatando sentimentos mais mundanos, agarrados à leveza do cotidiano. Claro, um tipo de poesia, mas um irmão caçula diante da intensidade de quem colhe o amor no campo do abstrato. Não poderia me intrometer em um lugar onde não saberia como pisar, como me mover sem esbarrar nas cristaleiras que mobíliam o amor.

No canto deste cenário, lá no fundo, resiste ainda a crença de que atitudes valeriam mais dos que as palavras. A racionalidade, olha, é capaz de nos tornar estúpidos e cegos. Quando a vigilância do pensamento fraqueja, podemos perceber que as palavras existem justamente para isso: explicar os atos, esmiuçar o conjunto de percepções que temos na vida, conosco e com os outros, principalmente aqueles que amamos, no limite da dor. A rima, neste caso, jamais foi circunstancial. Dói porque é forte e nos sacode. Não dói porque machuca.

Não vou escrever sobre o amor. Mas vou escrever sobre o Grande Amor. Sobre aquela pessoa que, quando se junta a nós, muda nossa vida, como formiguinha que persiste em carregar folhas com o vento cortante no rosto. Altera nossos rumos porque nos ensina sem notar. Altera nossos caminhos porque nos reconstrói sem intenções pedagógicas.

Não consigo conceber uma biografia sem um Grande Amor. Sem este Grande Amor. Ela é parte de mim, numa simbiose saudável, que me diz o quanto podemos ser importante juntos, e quebradiços como marionetes quando sozinhos. As marcas aparecem não apenas no corpo, mas insistem em gritar por onde andamos.

Vejo meu Grande Amor todo o tempo. Não se trata de comportamento obsessivo, que beira o patológico. Só quem convive com um Grande Amor sabe que ele nasceu para te acompanhar, que nos lembra de que somos crianças no sentido mais lúdico que o termo pode possuir. Brincar, sem culpas. Viver, sem o dedo indicador das restrições. Ela, a mulher com quem desejo envelhecer, me transformou numa espécie de médium, que conduz e vê seu espírito em todos os endereços.

Não faço a menor ideia de como nasce um Grande Amor. Não tenho a receita, desconheço a fórmula, não arrisco perder tempo procurando em biblioteca. O Grande Amor se materializa quando a fissura parece ser a próxima fronteira da nossa trajetória. Mas ele está ali, pronto para te dar a mão quando caímos e não enxergamos perspectiva de se levantar.

O Grande Amor tranca no armário todos os sentimentos que teimam em rodeá-lo. Coloca o orgulho em seu devido lugar. Encarcera as mesquinharias, as fraquezas que decorrem da nossa falta de nobreza nas relações humanas. Algema a estupidez que se manifesta pelos erros, pelos silêncios inoportunos, pelas palavras irresponsavelmente ditas.

Amar alguém é sentir os lugares por onde nos arrastamos em lágrimas ou caminhamos com a cabeça em pé. Mas também é o desejo de visitar os lugares que ela nunca conheceu conosco. Imaginar, fantasiar são as ferramentas de quem cultiva um jardim, de quem luta para protegê-lo, consciente de que o excesso de sol pode feri-la amanhã. Ou quando ficamos surdos diante do barulho da tempestade que se avizinha. Ainda assim, readubamos a terra, ajeitamos as plantas e deixamos que as costas aguentem o tranco do que nos cortará e nos fará sangrar.

O Grande Amor não está na primeira página. Ele sobrevive nas vírgulas, no rodapé das páginas menos lidas. Ali, ele guarda o que podemos – no ponto de sofrimento – retirar como chave para abrir uma nova porta e encontrá-lo outra vez. O Grande Amor nos devolve a chave, como quem nos diz: “Olha o que vai fazer com ela.” Não é professoral, proibitivo. É preventivo porque ama.

O Grande Amor é tão importante que nos faz escrever. Como se fosse necessário registrar em palavras escritas e impressas o que já está publicado dentro de nós. Mas ele compreende a necessidade de que palavras impressas são nosso grito de benção. De redenção. De reconstrução.

O Grande Amor se torna insuportável na ausência. Saudade não é sentimento eventual, é contínuo em poucos minutos de falta. Ele nos mata pela negação, do tempo, do espaço, do desejo. Desejo incessante pelo abraço, pelo beijo, pelo toque, pela sedução, pelo sexo.

Poderia dizer que tenho pena de quem nunca o conheceu. Mas não. Não posso cometer um ato de arrogância ao insinuar que o Grande Amor faltou a alguém. É que, às vezes, não o identificamos, simplesmente porque nos distraímos na janela.

Creio - e me agarro a todas as boias – que não entro nesta lista. Meu Grande Amor tem nome, sobrenome, endereço, qualidades e defeitos. Em palavras impressas, com o valor que repele o banal e tira seu peso, posso medir os dedos e escrever: Eu te amo!

segunda-feira, 22 de julho de 2013

O ronco de boa noite


Consegui frear e engolir as palavras antes que escorregassem pela língua. “Filho, vou sempre te proteger.” Não sei explicar minhas motivações nem porque tive vontade de pronunciar a frase. Talvez seja a fase sensível, na qual você se agarra em detalhes, dialoga pelas entrelinhas, chora pelos cantos, briga com os próprios fantasmas e sorri com as conversas improváveis. 

Vini, como qualquer criança de 3 anos, precisa de rituais para adormecer. Quando estamos na casa dos meus pais, deitamos lado a lado. Fico com a cama de solteiro. Ele, com a cama de baixo.

Assim que deitamos, Vini jura que está sem sono, mas me pede para cobri-lo. Damos o beijo de boa noite e fazemos o combinado: passear, brincar, jogar bola, tomar sorvete, qualquer coisa que será esquecida no dia seguinte, atropelada por outros acontecimentos tão ou mais importantes. Ou que será feita mesmo, sem que o combinado seja mencionado. O acordo é selado com um aperto de mão, um discurso de eu prometo e outro beijo.

Como último passo, digo: “Eu te amo!” “Eu também te amo, pai!” Confesso que é reconfortante ouvi-lo, mesmo que a resposta seja automática. Para mim, é rigorosamente irrelevante que meu filho de 3 anos desconheça o significado das palavras.

Engraçadas, poéticas, confortáveis, quaisquer palavras são a existência concreta de alguém que você não conseguirá observar sempre. Você as carrega, como rastros que te marcam, ainda que seus autores existam para cumprir o clichê profético da vovó. “Nós os criamos para o mundo.”

O ritual não termina num capítulo só. Ainda não é a hora de dormir. Vini pede, como qualquer criança de 3 anos, se pode dormir na minha cama. Pedido aceito, ele joga as cobertas de lado, sobe na minha cama e se deita sobre o meu braço direito. Não dura 30 segundos, um minuto, ele me pede como se tivesse formigas na bunda. “Pai, posso dormir na minha cama?”

Vini escorrega para a cama de baixo, repetimos o ritual das cobertas, do aperto de mão, do beijo, desta vez sem combinações. A pilha desliga na sequência.

Acreditei, por ingenuidade, que não repetiria com Vini minha sina de pai. Percebi, quando Mariana nasceu, há quase 11 anos, que jamais dormiria do mesmo jeito. Não me refiro às madrugadas de amamentação – não minhas, claro, mas era o sujeito do transporte infantil. Não me refiro às neuroses de pai de primeira viagem, que seguia até o berço para verificar se minha filha respirava. Ou o pai dos sustos, que julgou ter um ladrão no apartamento, só porque a filha resolveu abrir a geladeira de madrugada para tomar água.

Depois de 11 anos, ainda aguardo pela utopia da hibernação. Sei que nunca mais terei uma noite completa de sono. Só mudam as fases deles, meus métodos, e as preocupações com ambos. Ainda virão as madrugadas das baladas, as viagens, as festas, adaptações que sempre serão tanto prazerosas por vê-los crescer como preocupantes por não conseguir protegê-los de tudo.

De fato, aplico uma injeção de racionalidade para me convencer que eles estarão preparados para ultrapassar o batente da porta de saída. Porém, a dose é sempre insuficiente para quem, no fundo, crê que pode (ou poderia) dar um passo a mais. É a máxima de mãe: “Eles são livres, desde que você saiba onde estão.”

Nesta noite, não prometi a proteção impossível ao meu filho. Como compensação, sem saber o porquê, entreguei o eterno naquele momento. “Vini, eu te amo.” Como abandono da resposta mecânica, ele emitiu um pequeno ronco e me abraçou como quem se aconchegava para me surpreender mais uma vez. 

A cama seria uma só, pelo menos por parte da noite. Depois deste texto, ele escorregaria para a cama de baixo, porque preciso descansar um pouco, até o próximo “pai, quero fazer xixi.”

sexta-feira, 12 de julho de 2013

A matemática da UTI

A UTI é um lugar de espera. Depois de quase um mês visitando-a diariamente, você aprende que a UTI é também um endereço onde a humanidade mede forças com a matemática. Paciência, resignação, indignação e solidariedade são elementos de resistência contra os números que preenchem as paredes brancas, os corredores beges e as luzes 24 horas. 

Minha mãe, por conta de um enfarto e de complicações respiratórias provocadas pela chamada pneumonia de UTI, está internada há 26 dias. Para encontrá-la, apenas meia hora de visita diária para duas pessoas, sem revezamento, tão comum nos quartos de hospital.

A espera e a matemática marcam todas as etapas do ritual de visitação. Os números do relógio apontam, com o rigor de estação de trem, o horário de entrada. No térreo do hospital, a repetição dos mesmos números: a carteira de identidade, o número da ala. Recebemos o adesivo que estampa no peito o número do lugar para onde iremos, guia para os ascensoristas, e o número do registro daquele dia.

17h30 é a precisão numérica que determina a presença de todos os visitantes no corredor do 3º andar. Levo jornais e revistas para combater a espera. Ler distrai e me faz esquecer a passagem matemática do tempo. Neste caso, tão arrastada quanto a percepção de uma criança na sua primeira viagem de carro. A visita, de fato, nunca chega.

No entanto, as palavras dos jornais são flexíveis demais para derrotar a exatidão numérica. Notícias são abandonadas pela metade quando o relógio grita por atenção. Três minutos atrasados. Hoje, estourou 18 minutos. É a quarta vez esta semana. O ar do corredor onde todos compartilham sofrimentos pesa nas costas. Sei que sairei dali exausto, como se tivesse ficado um dia inteiro sem dormir.

Quando uma das portas se abre, todos se reúnem em semicírculo, forma geométrica que nos mostra que a lista de nomes será recitada. A voluntária do dia ou uma das enfermeiras dita os nomes dos pacientes. Entramos de dois em dois, vestimos os aventais descartáveis, e formamos uma linha de números em frente à pia.

Todos ali são iguais diante do mesmo ritual: despejar o sabonete em uma das mãos, lavá-las em água corrente, retirar o papel que as enxugará, apertar a alavanca na lata de lixo e despejar ali o papel encharcado e em decomposição. Tão obrigatório quanto mecânico e silencioso.

Dali, é atravessar o corredor até o leito de quem anda sobre a linha do estado grave. Depois da saudade resolvida por sorrisos paliativos e palavras calculadas, os olhos percorrem o maquinário que preservam, prolongam ou empurram o paciente para uma nova vida, uma vida fora dali, no paraíso do quarto ou da enfermaria.

Fazemos cálculos no piloto automático. Os batimentos cardíacos estão melhores do que ontem. A pressão mudou, ligeiramente mais alta, talvez, mas dentro do normal. O ritmo respiratório diminuiu um pouco. Tudo fora de contexto, mas útil para nos colocar como parte daquele universo.

Olho no relógio de parede, que anda matematicamente ao contrário, na visão de quem espera pelo boletim diário do médico, além de torcer para que as leis do tempo se alterem e permitam uma visita mais longa. Se lá fora o tempo deveria encurtar, na UTI qualquer rabicho de segundo é alegria.

Os olhos escapam para as camas da mesma ala. Minha mãe convive com mais três leitos. Neste tempo, pacientes mudam de rosto, de cor da pele, de origem geográfica, de enfermidades. Mais detalhes seria invadir a vida de alguém que já foi invadido por tubos, agulhas e outros instrumentos médicos.

Observo os números das máquinas alheias, sem esperar por conclusões, sem me lembrar de dados anteriores. Uma observação que, na prática, se desfaz em si mesmo. Nem a luz vermelha piscante foge de ser mastigada pela rotina de remapear um espaço que se tornou familiar.

As mudanças, claro, não são matemáticas. São humanas, quando se vê que o colega de UTI não é mais o mesmo. Mudanças, na maioria dos casos, representam – infelizmente – notícias ruins e definitivas. E pequenas vitórias quando se sabe que alguém levou mala, cuia, soros e dietas especiais para o quarto. Nunca mais o veremos, mas ele induz o nascimento da pergunta: seremos os próximos?

Independentemente do destino, na UTI não se comenta sobre o destino alheio. Não parece ser somente uma postura ética, mas também uma forma de não se cutucar o sofrimento. Não é momento de dividir dores, e sim de separá-las em compartimentos particulares. Comentários, só da porta para fora, ainda que superficiais.

Quando a enfermeira de lenço vermelho na cabeça surge no final do corredor, não há ordem que altere o produto. Os números do relógio são implacáveis. Meia hora. Fim de visita. Usamos regras de arredondamento, tentamos alterar os fatores para que possamos ficar mais alguns minutos. São outros olhares, outro beijo, outro aceno de mão, novas (repetidas) palavras de conforto que combatem a impotência diante de um tratamento no qual sua voz de visitante é igual a zero. Dizer eu te amo é ato de resistência.

A saída de UTI é calculada. O caminho de quem fez e refez contas durante quase um mês. Tomar o elevador. Virar à esquerda. Arrancar o adesivo do peito e entregá-lo ao porteiro. Às vezes, um gole de água no bebedouro para espantar a secura das expectativas. Disparar porta afora para respirar e arrancar as tabelas e os gráficos da dor que pressiona a coluna.

O ritual seguinte é digitar números e avisar as pessoas próximas de que a equação fechou por mais um dia. E tentar, com operações elementares, programar as próximas 24 horas. Até às 17h30 de amanhã.

Conviver com a UTI é um exercício matemático, no qual torcemos para que o resultado autorize novas contas na folha de papel. Subtraimos da memória os corpos que saem embalados em lençóis, que dividirão o peito de parentes e amigos em pedaços. Apagamos da memória para que, no fundo, nos sintamos aliviados porque a notícia ruim não nos alcançou.

Ao sairmos de lá, sempre no início da noite, somamos o tempo de permanência na esperança de que ali a vida de minha mãe se multiplique. Entre tantas contas, aprendemos a prestar atenção em todas as fases da equação que nos empurra adiante, com os olhos fixos no resultado final. Doidos para que as operações possam ser repetidas no dia seguinte, com a espera da alta e o alívio da liberdade matemática.

Tenho que reconhecer. Humanidade e matemática não são antagonistas. A matemática me permite racionalizar a dor, mas também me coloca de pé, refazendo os limites da contabilidade humana.

terça-feira, 2 de julho de 2013

A boca virgem


Ainda não tenho 40 anos, para sonhar com a perda da virgindade, como pregam as comédias do cinema norte-americano. Também não tenho dinheiro suficiente para desejar - como 20º e tanta plástica - a reconstituição da primeira vez, como prometeu a modelo de fama carnavalesca e coleção de cirurgiões. Existe, é claro, uma barreira anatômica para que eu volte à pureza dos contos de fada. Até porque o momento é muito mais lobo derrotado pelos três porquinhos do que Cinderela. 

Minha virgindade é somente oral. Ou melhor, bucal. Ao colocar aparelho nos dentes, me sinto obrigado a rever conceitos sobre a vida. Nascem as perguntas mais elementares. O que posso comer? Como? Quando?

Comer virou um ato monástico. Olhar para a geladeira ou para a despensa de prateleira única e refletir, como se estivesse diante de uma barraca de feira. É duro? Vai dar trabalho para mastigar? E para escovar os dentes depois? Não há impulso. Só conformismo.

Do monastério à paranoia. Cheguei a me lembrar do tempo em que as pessoas de aparelho entravam numa escala evolutiva e se aproximavam de cavalos. Com freios e tudo. Pensei em discrição. Nada de ferrinhos coloridos. Transparência na vida. Com o fim do lapso, as lembranças foram substituídas por preocupações mais práticas e mundanas.

Minha irmã foi direta. “Você vai ter que beijar diferente!” Bom, se beijar ainda está garantido, vale o esforço de carregar o ferro. Mas e se o clima esquentar? A última coisa que desejo é deformar as expressões faciais de minha namorada. Relações sadomasoquistas não são meu forte.

A boca virgem poderá apimentar o relacionamento. Recomeçar é sempre interessante, com novos horizontes e outros clichês românticos. Que a criatividade seja uma nova parceira. Até porque certos exercícios ainda podem ser feitos, com adaptações. Movimentos que nunca se esquece, mais vívidos do que andar de bicicleta, e com a vantagem de ser bem mais prazeroso.

Minha namorada me alertou. “Você vai babar muito quando dormir!” A previsão de Mãe Beth (Dinah) foi furada. Não babei. Ou pelo menos não localizei a enxurrada entre travesseiros e lençóis. Pelo contrário. Precisei de água, por sentir a boca ressecada. Os dentistas deveriam, neste caso, ganhar uma ajuda de custo dos nefrologistas. Rins funcionando às mil maravilhas.

Os dentistas também deveriam receber uma comissão dos endocrinologistas. E amostras grátis de fabricantes de sopas, cogumelos, sachês de proteínas e outras poções milagrosas para emagrecer. Os aparelhos não são apenas arreios. São instrumentos medievais que te impedem de comer nos primeiros dias. A masmorra culinária ao alcance da boca.

Maria Angélica, a dentista, recomendou 20 minutos sem comer. Fui falsamente exemplar. Esperei uma hora para quebrar o lacre com uma batata frita, modelo Elma Chips. Peguei uma do saco da minha filha. Um espécime pequeno, para teste. Em segundos, a dúvida: onde estava a batata?

Não conseguia localizá-la entre dentes, aparelho, céu da boca, língua e outros integrantes que lotavam a boca naquele momento. Tive que abri-la e perguntar à minha filha, na fila do caixa de um supermercado lotado. “Está presa no dente?” “Não, pai, você já engoliu.”

O mico gastronômico veio acompanhado da lição de alguém mais experiente. Minha filha, com três meses de carcaça na boca, é uma veterana, que tentou me acalmar, quando disse que a boca parecia pesada. “Pai, é assim mesmo! Depois, acostuma.”

Ainda acredito, apesar de que este preconceito entrou em mastigação, que aparelhos dentários pertencem às pessoas mais jovens, muitas delas virgens, de fato. Mas tive que aceitá-lo por uma questão de saúde, não estética. Poderia perder os dentes quando envelhecesse por conta de uma enfermidade na gengiva.

Paciência, melhor boca virgem agora do que banguela ou um deserto em alguns anos. Em vez de vida amorosa renovada, me tornaria estrela de cremes para dentaduras ou outros acessórios. Um modelo daquelas fotos antes e depois que povoam os programas da tarde na TV.

A única coisa concreta é que a cadeira de dentista me espera nos próximos dias para a retirada dos quatro dentes do siso. Sempre desconfiei que amor e sofrimento, prazer e dor andavam de braços dados. Aliás, recomendo que os dentistas também recebam contribuição dos conselheiros sexuais e - por que não? – de lojas de sex shop.