sábado, 29 de junho de 2013

O elefante sofre!


A decadência de um símbolo nos anos 80

O Teatro Coliseu, em Santos, nasceu para sentir dor. Não consegue, há 20 anos, se libertar do que parece ser uma sina: sofrer, oscilar entre o falso glamour e o abandono. Se não bastasse a decadência que o levou à condição de cinema pornô nos anos 80, o Teatro Coliseu vivencia todas as etapas que constituem a trajetória de um elefante branco. 

Entre as fases paquidérmicas, podemos citar: a) obras cujos custos se multiplicaram; b) avanços e retrocessos com mudanças de governo; c) isolamento de quaisquer políticas públicas para o setor cultural; d) mais de uma década para a entrega da reforma; e) serviços incompletos que exigem consertos e fechamento para novos trabalhos; f) reabertura com a maioria dos eventos para a elite a preços salgados; g) metamorfose imperfeita que o torna ícone de um bairro que fingiu passar por revitalização.

A Prefeitura de Santos anunciou, na última sexta-feira, o início das obras para ressuscitar o velho elefante. Os trabalhos começaram esta semana. Trata-se da troca do sistema de ar-condicionado, a cargo da empresa Franz. Depois, serão feitas obras no telhado, nas mãos da Inaplan, empresa de engenharia que, entre outros serviços, atuou na reforma da Bolsa do Café, também no Centro de Santos.

A reabertura está marcada para abril de 2014, exatamente um ano após o fechamento melancólico, quando a administração municipal se deu conta de o lugar não possuía o Auto de Vistoria do Corpo de Bombeiros (AVCB). E a nova gestão levou três meses para perceber que quase todos os 44 extintores se encontravam vencidos.

Francamente, sabemos que – em política – nada é de graça. Sempre há custos, e não somente financeiros. A história de que duas empresas, a Franz (em parceria com a Odebrecht) e a Inaplan (com apoio do Grupo Mendes), vão gastar R$ 2 milhões na reforma do Teatro provocou curiosidade. A Franz vai arcar com R$ 1,2 milhão. A Inaplan, com R$ 800 mil. Algumas dúvidas:

1) As duas empresas, Franz e Inaplan, vão gastar R$ 2 milhões numa obra e não receberão nada em troca. Se as empresas não serão pagas pelos serviços, de que maneira elas serão compensadas? Isenção de impostos? Desconto em Imposto de Renda? Direito de administração do local? Nada foi cogitado ou explicado.

2) Por que as empresas se interessaram em trabalhar no Teatro Coliseu, ainda que não recebessem nada? Mais do que isso, injetando R$ 2 milhões. Imagem? Marketing? Não é uma parceria, termo que pressupõe troca (ou esforço conjunto) entre as partes para finalidade comum?

3) Uma das empresas, a Franz, está – segundo a Prefeitura – reformando a fachada do Paço Municipal, obra com custo de R$ 3,6 milhões. O Teatro Coliseu entrou no pacote de serviços? Supondo que seja isso, por que a Inaplan gastaria os outros R$ 800 mil para a reforma do Teatro?

4) A Odebrecht e o Grupo Mendes vão dar suporte para as duas empresas, conforme divulgou a Prefeitura. Por quê? O que ganham com isso? Qual será o retorno para os dois gigantes, um nacional, o outro regional?

5) Depois que as obras estiverem prontas, a Franz ainda dará dois anos de garantia para o sistema de ar-condicionado. A outra empresa, Inaplan, garante a manutenção do telhado por cinco anos. As empreiteiras também vão arcar com estes custos a título de “parceria”?

A obra, ao custar mais R$ 2 milhões para consertar o que deveria ter sido feito antes, não vai provocar nenhuma investigação? A Prefeitura de Santos vai deixar como está? A obra foi entregue na gestão anterior, com a conversa fiada de restauração. Qualquer estudante de História, ao olhar para a fachada ou andar pelo salão de entrada, percebe que ali aconteceu uma reforma, e não uma restauração, que pressupõe fidelidade às características originais.

Pela reação da gestão atual, em abril, o histórico da obra é página enterrada. O prefeito Paulo Alexandre Barbosa determinou silêncio de todos os secretários e assessores sobre o assunto, depois de uma matéria de duas páginas e meia sobre a obra no jornal A Tribuna, que não voltou mais no tema.

Apenas o presidente de CET, Antônio Carlos Gonçalves, secretário de Obras e de outras pastas com nomes parecidos nos últimos 16 anos, deu explicações. Se continuou no Governo até o momento, significa que o prefeito se deu por satisfeito com os argumentos, ainda que tenha que recorrer às duas empresas e engolir o fechamento de mais um ano do lugar.

O Teatro Coliseu sofreu com os sucessivos reajustes de custos, que encareceram a obra quatro vezes em dez anos. São R$ 20 milhões que não o transformaram em um ponto luxuoso, e sim num edifício cheio de feridas.

Por que o Ministério Público, que adora se envolver em questões polêmicas, segue em silêncio diante de um dos maiores escândalos de obras públicas da cidade? A Akio, empreiteira responsável pela obra, ficava em Salvador e fechou as portas. Ninguém se interessou em conversar com os antigos proprietários da empresa?

Espero que essas dúvidas, apenas as iniciais, sejam um mal entendido, fruto de falta de curiosidade de meus colegas jornalistas ou esquecimento da Prefeitura de Santos. O Teatro Coliseu não merece mais dor.

sexta-feira, 14 de junho de 2013

Escravos da maratona


Encontrar outras pessoas no dia-a-dia, sem o desejo de conversar com elas, envolve duas estratégias para evitar contato. A primeira delas é antiga e mecânica. Basta perguntar “tudo bem?” sem diminuir o ritmo da passada. A tática também inclui contato visual mínimo.

Do outro lado, virá uma resposta não menos automática, nem sempre seguida de interrogação. O encontro casual de mínimo interesse mútuo significa somente o resquício de civilidade que esconde nossas selvagerias nos detalhes cotidianos.

A segunda estratégia finge ser um pouco mais amável, mas, no fundo, se limita a atender às nossas necessidades de parecermos bem. No caso, de parecermos ocupados, atarefados, reconhecidos; acima de tudo, importantes.

Eis a resposta: “Na correria!”. Se quiser ênfase na imagem de operário-padrão, acrescente: “Na maior correria!!!”

Adoramos a aparência de produtivos. Realmente, trabalhamos demais e pagamos um preço alto por isso, enquanto recebemos de menos. É a lógica do sistema econômico. Só que não há grandes novidades. Mas, na era da imagem, nos sentimos na obrigação de parecermos úteis, cheios de compromissos e, ao mesmo tempo, necessitamos assassinar o ócio.

Um amigo paulistano reclamava que, aos domingos, desejava ficar em casa sem fazer nada, como um lagarto ao sol. A esposa o arrastava para alguma atividade física no Parque do Ibirapuera. No final das contas, ele não queria ver ninguém e muito menos ser visto. Na prática, percebia que a esposa se sentiria culpada se não houvesse algo a realizar, além de alardear o feito para as pessoas com quem conviviam.

A correria precisa de publicidade. Não basta correr, tem que gritar durante a maratona. O marketing pessoal, uma das perversões da aparência, é fundamental para que o sujeito construa uma aura de imprescindível. O manto do insubstituível envolve contar aos outros – que parecem poucos interessados em ouvir – as realizações do capítulo anterior de nossas vidas, mesmo que a narrativa seja sem graça e previsível, como a maior parte do tempo em quaisquer biografias.

Correr demais implica em perda de audição. Perdemos – se é que tivemos – a capacidade de dialogar, de se interessar por aquilo que o outro tem a dizer. Fingimos ouvir, enquanto pensamos nos próximos itens da lista de afazeres. Aliás, muitos morreriam se perdessem a tal da check list (denominar em inglês valoriza o objeto, claro).

A conversa se transforma em dois monólogos, por vezes repetitivos porque as obrigações se assemelham, e as pequenas diferenças se perdem no excesso de saliva gasta. O diálogo, como elemento de aprendizado ou simples troca de ideias, está morto.

Optamos, quando escravos da produtividade, em subir no ranking da quantidade de pontos, o que reduz à vala comum as cenas especiais da nossa existência ordinária. Corremos, mas será que vivemos? Aceleramos, mas será que entendemos o que se passa conosco? Entre a lebre e a tartaruga, ficamos com quem ao deixarmos de refletir sobre os caminhos?

Na propaganda da correria, os fatos não necessitam de comprovação. Vale o discurso, prevalece o espelho da autorreferência. É o caso de uma ex-colega de trabalho que nunca podia ajudar na realização de tarefas. Ela sempre alegava que a correria a atrapalhava até que se descobriu que o corre-corre não saia do triângulo casa-academia-casa do namorado. A propaganda enganosa só pôde ser combatida com o silêncio, diante da real crença de que as tarefas a consumiam.

No último domingo, o jornal Folha de S. Paulo publicou matéria sobre a última moda em empresas dos Estados Unidos. Trabalhar em cima de esteiras faz com que os empregados mantenham a produtividade e se mantenham em forma. Os médicos – como agravante - atestam a prática como saudável.

A única queixa dos empregados, contentes com a aparência de produtivos e saudáveis, é que não dá para escrever direito em cima do equipamento, que vem adaptado com uma mesa. A ironia é que estes sujeitos, literalmente, podem dizer – quando encontram alguém – que vivem na “maior correria.”

quarta-feira, 5 de junho de 2013

Cinema alemão: prazer em ver

Foto: André Azenha

Cinema e futebol não costumam render bons casamentos. Quando as histórias não são deficientes, os atores – pernas de pau por natureza – não ajudam os diretores nas filmagens. Muitas histórias de craques – que renderiam ótimos roteiros – acabam reduzidas a tramas de opiniões e caminhos controversos, como Garrincha e Heleno. 

Talvez seja um problema de perspectiva. Talvez a bola seja indomável para decorar as falas e obedecer às táticas dramatúrgicas. Ou o caso de se inverter o jogo. Em vez de levar o cinema ao futebol, trazê-lo – como espetáculo – à tela branca numa sala escura.

Fui pelo segundo ano consecutivo assistir à final da Liga dos Campeões da Europa em uma sala de cinema. No caso, o Cine Roxy, em Santos. Numa tela de 12 por 6 metros, é a simulação mais próxima possível de um estádio. A sensação é quase a de uma arquibancada, claro que com cadeiras bem mais confortáveis do que em estádios brasileiros.

Este ano, a final entre Bayern de Munique e Borussia Dortmund foi vista em 52 salas, em 28 cidades. A transmissão, em 3D, foi da ESPN Brasil.

No ano passado, estive lá a trabalho e me impressionei com todo o cenário. Este ano, fui como espectador e pude ver do mesmo ângulo que os 350 torcedores que lotaram a sala número 5.

Confesso que pensei no jogo como uma experiência antropológica. Na minha estupidez pseudo-intelectual, testemunhei um concerto de primeiro nível. A festa começa meia hora antes da partida. Enquanto pipocas, copos de refrigerantes e garrafas de água se ajeitam, o gramado do estádio de Wembley, na Inglaterra, serve de campo de batalha para duas hordas germânicas, numa reprodução pós-moderna da Alta Idade Média.

O balé, empurrado pela música-tema da Liga, é o aperitivo do jogo de pernas sincronizado que veríamos 30 minutos depois. Uma relação de perde-ganha que nos permite sonhar com um empate perpétuo de mágico futebol, desde que o jogo prosseguisse a doses homeopáticas de emoção. No final, os guerreiros com premonição futebolística desmembraram três flâmulas, uma de cada time, mais a da bola da competição. A precisão alemã com a pontualidade britânica inglesa.

A final entre Bayern de Munique e Borussia Dortmund não poderia ser incoerente com a preliminar. Partida decidida aos 43 minutos do segundo tempo. Jogo épico, no qual vilões e heróis mudam de manto conforme os lados do campo se alteram. 

O líder da tropa vermelha foi o holandês Robben, marcado para perder, destinado a vencer. O atacante jogou fora dois gols no primeiro tempo, para destroçar os amarelos de Dortmund a dois minutos do final.

Como a realidade sempre massacra a ficção, o futebol no cinema se justificava como filme, incluindo a surpresa que aparece durante a exibição dos letreiros finais. Diferente do ano passado, quando o Chelsea arrastou o Bayern para o terror dos pênaltis e na exaustão de um roteiro superior a três horas.

Mas o capítulo à parte está sentado nas cadeiras. Em 2012, a divisão era evidente. Além dos uniformes, a sala de cinema era compartilhada por gente do século passado e torcedores filhos do videogame.

Os alemães eram sujeitos acima de 30 anos, muitos saudosos das transmissões na TV Cultura na década de 80. Esta década, aliás, é anterior ao nascimento da maioria dos torcedores do Chelsea, que passaram a amar os ingleses pela TV a cabo, Internet e,principalmente, pelos jogos da Fifa.

Herdeiros do simulacro, os torcedores do Chelsea correram em direção à tela de cinema quando os ingleses ganharam o torneio. A simulação sem reparos, em 3D. Um jogo fechado da Fifa em tempo real.

Em 2013, a sala também dava a impressão de estar partida em dois. O problema é detectar os torcedores no escuro. As vozes se misturavam a cada defesa de Neuer, do Bayern, ou a cada gol perdido por Robben. A vibração dos gols foi de mesma intensidade. Gol se fala em qualquer idioma. E, alemães à caráter, ninguém correu desta vez. Apenas sorrisos e aplausos.

De fato, a Liga dos Campeões da Europa é um espetáculo em qualquer endereço, com ou sem óculos pretos, em qualquer língua. 

Obs.: Texto publicado originalmente no site Cinezen.