sábado, 13 de abril de 2013

O termômetro da economia



Ele aguçou minha misericórdia. Sempre popular, suportou a acusação de se tornar elitista. Insistiu em encalhar para demarcar território nos pontos de venda. Canalizou e assumiu a responsabilidade pelo chororô dos feirantes. Apavorou consumidores ao alcançar R$ 18 o quilo.

Um amigo meu, ao colocar quatro deles na salada, se sentiu sócio de Eike Batista na exploração de um fruto raro. E caro! O tomate, alvo de piadas nas redes sociais, é comparado a anéis de brilhantes. Às vezes, pode até matar se transportado em carro-forte para o supermercado.

O caqui, coitado, tentou se aproveitar da fama alheia e acabou preso por falsidade ideológica quando quis ser o primo rico. O tomate é o chuchu dos militares durante a ditadura, que carrega nas costas o peso da inflação e da carestia, palavra de quem abandonou o legume quase sem gosto há 30 anos.

Não acredito que o vilão da economia seja o tomate. Na minha microeconomia, o personagem que simboliza a vida mais cara é o misto quente. Fui adepto do bauru, mas como contém tomate e alface, ficou confortável justificar a mudança para a iguaria mais simples.

O misto quente é o quebra-galho de quem passa a maior parte do dia fora de casa. E sofre de preguiça para comer melhor. Vale por uma refeição – que os nutricionistas não nos leiam – e costumava custar pouco. Dava para pagar com moedas. Mas a cidade onde moro, Santos, optou por se transformar numa das cinco mais caras do país em alimentação. Em alguns tipos de refeição, o município está no topo da lista.

Churrascarias, paellas, pratos com camarão e certas pizzarias são utopias de salivação. E constato que até o sanduíche base da pirâmide econômico-alimentícia virou o meu tomate particular.

Na última semana, por exemplo, fiz um tour misto quente. Quase uma pesquisa nacional de preços ao consumidor. O resultado é uma diferença de até 100% no preço do meu fast-food favorito.

Em uma das universidades onde trabalho, há quatro cantinas. Tenho uma de preferência, que fica perto da piscina. Ali, como um misto quente simples, mas feito com cuidado pelas senhoras que me atendem. Ele custa R$ 4 e me garante uma protuberância abdominal provisória por uma hora e meia, duas horas, o tempo de aula.

Uma vez por semana, lancho em uma padaria em outro bairro, a Pompéia. Enquanto minha filha está na aula de inglês, espero lá, um lugar para ler e comer sem pressa. Assim, me convenço que posso degustar, sem fazer empréstimo bancário, o sanduíche de presunto e queijo 50% mais caro.

Honestamente, não me incomodo em pagar R$ 6, pois a quantidade de fatias dos dois frios é mais generosa do que na concorrente acadêmica. De fato, um exercício de autoengano para retornar na semana seguinte e valorizar também minha face metódica.

O susto com a selvageria econômica e gastronômica aconteceu em outra padaria, no bairro do Boqueirão. Não entrava nela há uns dois anos. Sai com minha filha da consulta médica e, com fome, entramos no lugar mais perto. Estratégia de guerrilha quando se vê uma garota de 10 anos com a barriga murcha às nove horas da noite.

Sentamos, pedimos dois mistos e um suco de laranja. Parecia instinto ou – quem sabe? – premonição. Vamos dividir o suco, filha, porque aqui teremos os bolsos espremidos como a laranja que nos alimentará. Ou talvez fosse o inconsciente, que recuperava na memória o trocadilho feito por uma amiga com o nome do comércio: caríssima.

Dei duas mordidas no sanduíche e olhei para a comanda. Colado nela, um papel com a conta: R$ 20,50. Olhei para os preços na parede e me senti testemunha e vítima de um assalto em andamento. O suco custava R$ 4,50. Sobravam R$ 16. Dividido por dois, a sentença matemática e de falência: R$ 8 era o preço de um misto quente.

Não dava para devolver. Pelo menos, o meu sanduíche. O da minha filha, nem pensar. Não pretendia torná-la vítima ou cúmplice duas vezes, fosse um roubo, fosse uma gafe paterna. Terminamos de comer, paguei a conta e me limitei a comentar como era caro o lugar. Imagine se tivesse escolhido um sanduíche com tomate!

Dois dias depois, entrei numa franquia de fast-food e pedi uma salada. Digeri a tese de que poderia me vingar do vermelhão. Consumidor é como um jogador em cassino: pode ter pequenas vitórias, mas a banca sempre vence no final. Da máquina de videopôquer à máquina registradora.

Olhei para o prato individualizado, onde apareciam quatro rodelas de tomate, além de verduras, frango e queijo. Quando vi a conta, entendi: o tomate montara uma quadrilha, que me roubava novamente. Mas, na prática, o recado do tomate era outro: os R$ 20 indicavam que ele era peixe pequeno, um aperitivo. De fato, comer é, na minha cidade, um ato supérfluo; e dieta; uma prevenção para não entrar no cheque especial ou estourar o cartão de crédito.

2 comentários:

Anônimo disse...

Numa cidade onde se paga mal, quem pode explora e ferra mais ainda o trabalhador. Depois, tudo vira desculpa para aumentar o preço, tudo vira oportunismo e desonestidade. A industria do "Lucra Lucra" está cada vez mais ativa na região, haja vista que tem "patrão" pagando uma merda de salário abaixo até do mínimo, e não registra como desculpa e cita até mesmo "plano de carreira" dentro de uma empresa, cuja a verdade é o velho pão e circo, uma linda forma de ludibriar o pobre trabalhador que terá dias melhores. Com a miséria que ganha, nem um mistinho quente dá mais, quanto mais um tomate no almoço ou jantar.

Isso é reflexo da politica que vendeu a cidade e faz dela uma cidade com os dias contados para sua falência. Querem apostar ou alguém ainda duvida?

Todo dia assassinam árvores em nome da indústria da construção civil. Até Buffet recém reformado arranca árvores em frente seu estabelecimento, 4 delas, e ninguém falou nada. Se você arranca de sua casa uma condenada, sabedor de que ela irá cair e causar grandes estragados a qualquer momento, ninguém permite.

Acabei indo além, muito além do que deveria. Mas é que estou cansado de uma cidade que vive da mentira, onde o verdadeiro santista está indo embora e eu já nem sei mais quem é o dono daquela velha padaria, ou quem é o vizinho da esquina.

E o cidadão comum que já não tem dinheiro para nada, terá que comprar passagem antecipada se quiser um dia não tomar chuva e precisar pegar um ônibus de repente.

Que cidade é essa?

Antonio disse...

Caro Professor, pensei que era só eu que apelava para um Bauru quando bate aquela fome fora de hora. Degustei nos mais diversos lugares, entre bares, lanchonetes, restaurantes, padarias e até em uma sanduicheria aqui no canal 3. Hoje o preço não me permite degustar todos os dias, mas o que revolta é que o preço dos frios subiu mais de 100% em alguns locais em menos de um ano. E, sabem por que? Pasmem...as marcas de queijo prato de primeira, que é o ideal para o sabor do Bauru são distribuídas na região por um único representante, que cobra preços diferentes para cada cliente, dependendo da quantidade pedida. Assim, se o cliente é uma padaria de Bairro, coitado do dono, paga um absurdo por 4 ou 5 peças (+ ou - 10 Kilos) que é o máximo que pode estocar para uma semana, enquanto para as redes de Supermercados e mini mercados, o preço baixa para até 50%. Por que um único distribuidor? Qual o motivo dos laticínios não venderem direto aos pequenos varejistas? Fica claro que para eliminar custos de entrega, os laticínios preferem vender a sua produção a um único distribuidor, e esse distribuidor cobra o preço que bem entender por um produto que ele não gastou um centavo para produzir. Isto é legal? No mínimo, é imoral. Será que esta situação só acontece em Santos? É somente o queijo que tem essa safadeza embutida no preço? Quanto esse distribuidor paga de impostos? O eterno aluno.