quarta-feira, 24 de abril de 2013

Um panetone (meio) solidário


Dona Nair pegou licença de 90 dias. Ganhou uma luxação no joelho direito ao ser atingida por um carro – na verdade, uma manobra muito parecida com a da Ana Maria Braga, mas com motorista dentro – na saída do banco. Aos 82 anos, ela acha que, desta vez, terá um descanso merecido. 

— Depois de 30 anos no prédio, ainda tenho que limpar bosta destes ratos com asas. Puta que pariu!

As palavras eram quase idênticas todos os dias, sempre por volta das dez e meia da manhã, quando varria o vão livre entre os dois prédios onde trabalha. Ela jamais esperou solidariedade das pombas, mas aprendeu – nos últimos tempos – a não contar também com alguns roedores bípedes, vestidos de grifes de segunda linha e com carros financiados em vários anos.

Desde que sofreu o acidente, ninguém a telefonou. Dona Nair reclamou como de praxe, mas nada a aborrece tanto como o presente de Natal que recebeu de uma das moradoras. Não consegue se esquecer do pacote. O episódio se transformou em símbolo dos 30 anos de convivência e escravidão remunerada.

Na semana anterior à festa, Dona Nair começou a esbravejar que nunca ganhava nada de presente do condomínio. Nem uma lembrancinha. Um pingente de 30 anos de casa que fosse. Sequer um obrigado por tantos anos de serviço. Quanto mais perto da data, mais alta e frequente era a lamentação. Pombas e Natal eram irmãos de lamúria.

No dia 23 de dezembro, no final da manhã, o interfone da zeladoria tocou. Era a moradora do 36A, que pedia à Dona Nair que subisse ao apartamento. Tinha uma surpresa. Como Dona Nair lavava uma das garagens, pediu meia hora de prazo. A moradora respondeu que sairia para almoçar e deixaria uma encomenda na porta do 36A.

Depois de meia hora, Dona Nair subiu os dois lances de escada, viu a sacola, colocou-a debaixo do braço e retornou para seu banquinho, no térreo. Era hora do almoço, poderia abrir o pacote com calma.

Esquentou a marmita no microondas, comeu com gosto e resolveu ver o conteúdo. Finalmente, alguém ressuscitava o espírito natalino. Desmembrou o papel, abriu o pacote e não entendeu. Encostou a laranja de sobremesa e resolveu ler o bilhete em anexo. “Dona Nair, que este presente simbolize a solidariedade do Natal. Boas Festas!”

Dona Nair olhou para o presente outra vez. O panetone, de uma marca vagabunda, estava pela metade. Comido, partido ao meio, roído, incompleto. Ao ver Marcelo, o outro faxineiro, passando pelo corredor, perguntou:

— Você ganhou algum presente da mulher do 36A?

— Não, a senhora ganhou?

— Nada, nada. Esquece.

Dona Nair jurava que Marcelo seria o dono da outra metade. Foi a primeira explicação. Imaginou que a moradora quisesse agradar os dois e estava em economia de guerra. Teorizou também que algum vizinho pudesse ter roubado 50% do panetone. Até que leu, no saquinho plástico, o nome da marca e entendeu: “a vagabunda ganhou esta merda, experimentou, não gostou e resolveu passar o panetone roído pela metade para mim”.

Dona Nair se levantou, pegou uma caneta na mesinha do quartinho e escreveu no verso do papel. “Dona Laura, obrigado pelo presente, mas não passo fome. Se a senhora comeu a metade, é porque precisa da outra. Bom Natal!”

Esperou até o final da tarde, subiu lentamente os dois lances de escada e deixou a encomenda na porta da moradora do 36A. Saiu de férias e curtiu as festas em casa. Depois, se acidentou. Até hoje, quando olha para o joelho, acredita em praga de reveillon daquela perua meio solidária.

sábado, 13 de abril de 2013

O termômetro da economia



Ele aguçou minha misericórdia. Sempre popular, suportou a acusação de se tornar elitista. Insistiu em encalhar para demarcar território nos pontos de venda. Canalizou e assumiu a responsabilidade pelo chororô dos feirantes. Apavorou consumidores ao alcançar R$ 18 o quilo.

Um amigo meu, ao colocar quatro deles na salada, se sentiu sócio de Eike Batista na exploração de um fruto raro. E caro! O tomate, alvo de piadas nas redes sociais, é comparado a anéis de brilhantes. Às vezes, pode até matar se transportado em carro-forte para o supermercado.

O caqui, coitado, tentou se aproveitar da fama alheia e acabou preso por falsidade ideológica quando quis ser o primo rico. O tomate é o chuchu dos militares durante a ditadura, que carrega nas costas o peso da inflação e da carestia, palavra de quem abandonou o legume quase sem gosto há 30 anos.

Não acredito que o vilão da economia seja o tomate. Na minha microeconomia, o personagem que simboliza a vida mais cara é o misto quente. Fui adepto do bauru, mas como contém tomate e alface, ficou confortável justificar a mudança para a iguaria mais simples.

O misto quente é o quebra-galho de quem passa a maior parte do dia fora de casa. E sofre de preguiça para comer melhor. Vale por uma refeição – que os nutricionistas não nos leiam – e costumava custar pouco. Dava para pagar com moedas. Mas a cidade onde moro, Santos, optou por se transformar numa das cinco mais caras do país em alimentação. Em alguns tipos de refeição, o município está no topo da lista.

Churrascarias, paellas, pratos com camarão e certas pizzarias são utopias de salivação. E constato que até o sanduíche base da pirâmide econômico-alimentícia virou o meu tomate particular.

Na última semana, por exemplo, fiz um tour misto quente. Quase uma pesquisa nacional de preços ao consumidor. O resultado é uma diferença de até 100% no preço do meu fast-food favorito.

Em uma das universidades onde trabalho, há quatro cantinas. Tenho uma de preferência, que fica perto da piscina. Ali, como um misto quente simples, mas feito com cuidado pelas senhoras que me atendem. Ele custa R$ 4 e me garante uma protuberância abdominal provisória por uma hora e meia, duas horas, o tempo de aula.

Uma vez por semana, lancho em uma padaria em outro bairro, a Pompéia. Enquanto minha filha está na aula de inglês, espero lá, um lugar para ler e comer sem pressa. Assim, me convenço que posso degustar, sem fazer empréstimo bancário, o sanduíche de presunto e queijo 50% mais caro.

Honestamente, não me incomodo em pagar R$ 6, pois a quantidade de fatias dos dois frios é mais generosa do que na concorrente acadêmica. De fato, um exercício de autoengano para retornar na semana seguinte e valorizar também minha face metódica.

O susto com a selvageria econômica e gastronômica aconteceu em outra padaria, no bairro do Boqueirão. Não entrava nela há uns dois anos. Sai com minha filha da consulta médica e, com fome, entramos no lugar mais perto. Estratégia de guerrilha quando se vê uma garota de 10 anos com a barriga murcha às nove horas da noite.

Sentamos, pedimos dois mistos e um suco de laranja. Parecia instinto ou – quem sabe? – premonição. Vamos dividir o suco, filha, porque aqui teremos os bolsos espremidos como a laranja que nos alimentará. Ou talvez fosse o inconsciente, que recuperava na memória o trocadilho feito por uma amiga com o nome do comércio: caríssima.

Dei duas mordidas no sanduíche e olhei para a comanda. Colado nela, um papel com a conta: R$ 20,50. Olhei para os preços na parede e me senti testemunha e vítima de um assalto em andamento. O suco custava R$ 4,50. Sobravam R$ 16. Dividido por dois, a sentença matemática e de falência: R$ 8 era o preço de um misto quente.

Não dava para devolver. Pelo menos, o meu sanduíche. O da minha filha, nem pensar. Não pretendia torná-la vítima ou cúmplice duas vezes, fosse um roubo, fosse uma gafe paterna. Terminamos de comer, paguei a conta e me limitei a comentar como era caro o lugar. Imagine se tivesse escolhido um sanduíche com tomate!

Dois dias depois, entrei numa franquia de fast-food e pedi uma salada. Digeri a tese de que poderia me vingar do vermelhão. Consumidor é como um jogador em cassino: pode ter pequenas vitórias, mas a banca sempre vence no final. Da máquina de videopôquer à máquina registradora.

Olhei para o prato individualizado, onde apareciam quatro rodelas de tomate, além de verduras, frango e queijo. Quando vi a conta, entendi: o tomate montara uma quadrilha, que me roubava novamente. Mas, na prática, o recado do tomate era outro: os R$ 20 indicavam que ele era peixe pequeno, um aperitivo. De fato, comer é, na minha cidade, um ato supérfluo; e dieta; uma prevenção para não entrar no cheque especial ou estourar o cartão de crédito.