sexta-feira, 1 de março de 2013

O caga-regras



Ele é uma espécie presente em todas as cadeias alimentares. Não muda de cor como os camaleões, mas sabe evitar a presença de predadores. Pelo contrário, os transforma em hospedeiros. A simbiose torna o caga-regras imagem e semelhança do superior hierárquico no trabalho, do professor na universidade, do parente com a conta bancária mais inchada.

O caga-regras pode ser confundido com o puxa-saco, mas apenas pertencem à mesma família biológica. O puxa-saco finge lutar por dividendos curtos, benefícios que não implicam em grandes esforços. Qualquer resto de almoço serve como nutriente para se manter pendurado logo abaixo do umbigo alheio.

O caga-regras quer o prato principal. Deseja a ponta da mesa. Ambiciona pagar a conta, desde que determine o cardápio de seus próprios borra-botas. O negócio do caga-regras é definir a dinâmica da cadeia alimentar, controlar a evolução da espécie.

Augusto era um deles, se gabava de ser impecável. Amava a perfeição, idolatrava a regularidade, desprezava os erros alheios, já que os próprios equívocos eram impossíveis de acontecer. Em sua empresa, a organização deixaria corado o mais exigente dos analistas corporativos. Pagava em dia, cumpria os direitos trabalhistas, respeitava fornecedores e atendia clientes como se estivessem no sofá de casa.

Os empregados deveriam ser a ovelha Dolly do chefe. Comportamento e aparência andavam de mãos dadas, traduzidas no uniforme irretocável, no sorriso amarelado no rosto, no cabelo curto – para os homens -, ou preso – para as mulheres.

Augusto não suava. Camisa e calças alinhadas, pontualidade de invejar ingleses. A mesa dava sinais de que seu dono pertencia ao clube dos obsessivos. Lápis e canetas separados. Suporte para papéis de entrada. Suporte para papéis de saída. Cadernetas alinhadas, todas identificadas com adesivos. Ocorrências. Ideias. Eventos. Todas da mesma cor, da mesma marca, compradas na mesma papelaria.

Augusto sempre sorria, até quando humilhava. Orgulhava-se de manter o bom humor até nas horas difíceis. Não chorou na morte da mãe. No fundo, ele a odiava por obrigá-lo a cumprir todas as tarefas da vida escolar. Augusto não suporta leite com pêra até hoje por conta da infância.

— Tome até o final. Tomeee! Tem várias vitaminas. Assim, você nunca terá gripe!

Sorria a cada vez que se lembrava da causa mortis da mamãe: pneumonia. A desgraçada não cumpria as próprias regras.

O caga-regras escondia um único defeito. Corrigindo, dificuldade. Injusta falta de reconhecimento ou cegueira dos medíocres, ele repetia para si em frente ao espelho enquanto ajustava milimetricamente a gravata.

Augusto não laçava ninguém. As mulheres eram uma fronteira intransponível. Não sabia como se aproximar, falava demais, julgava a candidata ainda no aquecimento. Jamais jogara a preliminar, quanto mais a final de campeonato. Para Augusto, elas não estão prontas. Liberais demais, fruto de um tempo em que os valores se perderam. Ditado (que virou norma) de mamãe.

Mas o caga-regras estava diferente na quinta-feira. Ninguém notou, mas alguns deslizes aconteceram no trabalho. As cadernetas desalinhadas, um lápis fora do lugar; a mente distraída na empresa, com a fantasia da noite reconstituída e memorizada antes mesmo de acontecer. Planejava tudo, até os diálogos e ... os novos diálogos, conforme as opções de resposta.

Ela era mulher ideal, respeitaria todas as suas vontades, ouviria seus mandamentos do politicamente correto. Estaria sempre à espera, como hoje. A mulher que ele ganhara de presente estava acima daquelas que o atormentavam nos sites de relacionamento. Não mentiria sobre si mesma. Construiria uma história a seu lado. Econômica, não estaria interessada em seu dinheiro.

Quando o relógio gritou 19 horas, trancou a sala e voou correndo para casa, claro que respeitando os limites de velocidade. Multa mancharia seu prontuário. Estava tudo do script, mas Augusto estava apreensivo com uma dúvida que o aporrinhara o dia todo. 


Será que teria fôlego para enchê-la de ar? Não falharia no primeiro encontro. Passou numa loja e comprou uma bomba, para pneu de bicicleta.

Um comentário:

Cristiano Lima disse...

Sensacional Professor.

Realmente não há como não identificar pessoas assim em nosso meio, acho que todos nós temos um certo "caga-regras" dentro de nós, não em todos os sentidos, mas sim em certas áreas.

Parabéns pelo texto!