terça-feira, 19 de março de 2013

Entre estatuetas e divas, a drenagem linfática

Exibição no Cine Roxy / Foto: Carlos Oliveira

Sempre adorei o ritual de ir ao cinema. Desde a primeira vez que vi sozinho um filme, Superman 3, aos 10 anos, no antigo Cine Iporanga, entendo o cerimonial pré-sessão como essencial para o espetáculo. Uma espécie de trailer protagonizado pelo espectador. Chocolates, garrafa d’água, copo de refrigerante, os trailers tradicionais, as recomendações de segurança e as saídas de emergência, o silêncio programado, que inclui os celulares emudecidos, tudo é parte do enredo a ser vivido. 

Passei nos últimos meses por duas experiências em que este ritual quase precisou de legendas, por conta de mudanças no cenário, mas ainda assim prevaleceram os passos previsíveis de um preâmbulo repetido. O que mudou foi o conteúdo da tela branca. E confesso que me surpreendi com a reação das arquibancadas; perdão, das poltronas acolchoadas.

O primeiro ato foi assistir – e cobrir, como jornalista – a final da Copa dos Campeões da Europa. Nem precisei acionar o passaporte comunitário. Assisti à vitória do Chelsea, nos pênaltis, contra o Bayern de Munique com casa cheia.

Torcedores dos dois lados conviveram de maneira pacífica numa das salas do Cine Roxy. Os mais jovens, que defenderam por vezes o time inglês em muitos campeonatos de videogame, eram Chelsea desde sempre. Entre os mais velhos, o saudosismo de antigos ídolos do futebol alemão, muitos da época em que a TV Cultura transmitia as partidas da Bundesliga aos sábados pela manhã.

No entanto, a vivência mais divertida foi acompanhar a festa do Oscar no cinema. Pode parecer redundante, mas ver a premiação numa sala onde muitos dos concorrentes são exibidos é completamente diferente de testemunhar via televisão na sala.

De fato, somente a presença de dois mestres de cerimônia – Gustavo Klein e Waldemar Lopes – e de 300 pessoas na platéia para suportar quatro horas de piadas sem graça do apresentador, discursos repetitivos dos premiados e certas cafonices tradicionais do evento. Não há meio termo: ou você insiste ou você desiste. Não existe controle remoto – ou melhor – controle algum sobre o que se passa a sua frente.

Klein e Lopes se completavam na condução de sorteios e de informações extras sobre os concorrentes ao longo dos intervalos comerciais da transmissão. Melhores do que qualquer zapping frenético, ambos seguraram a plateia nas cadeiras e, às vezes, involuntariamente, aguçavam o público, que reagia com respostas nada politicamente corretas, ao contrário de muitos momentos da cerimônia norte-americana.

Em um dos sorteios, o felizardo levaria para casa uma drenagem linfática. Deveria ser uma sortuda, mas não é que ganhou um sujeito. Ele desceu os degraus envergonhado. Waldemar Lopes ainda ponderou que o ganhador poderia presentear a namorada. Até que veio o grito lá de cima, daqueles que nasceram para preencher o pequeno intervalo de silêncio:

— Drenagem linfática para homem? Só se for no saco!

Um sujeito ao meu lado gargalhou o resto do intervalo comercial. Nem o apresentador do Oscar – ou seu urso Ted – talvez pensasse em algo tão automático quanto grosseiro.

O Oscar, marcado pela consagração dos roteiristas, também teve várias apresentações de reconhecidas vozes femininas. De Adele a Catherine Zeta Jones, todas eram recebidas pela anônima voz que brotava na última fila.

— Divaaaaa!!!

Ao subir ao palco para receber o prêmio de melhor roteiro original, Quentin Tarantino quase ouviu o grito, desta vez adaptado pelo mesmo ator:

— Divooooo!!!

Assistir ao Oscar no cinema é como acompanhar Chelsea e Bayern, em várias finais. Nas poltronas, torcedores de vários filmes, com aplausos e vaias para craques e pernas-de-pau, conforme o nível de paixão (ou repulsa) pelo ator, atriz, diretor, ou película preferida. Os Miseráveis viraram favoritos, até para aqueles que aderiram ao fã-clube improvisado (e obrigatório) de Hugh Jackman, temendo a sonora vaia da torcida organizada que parecia filha da revolução, ainda que francesa. 

Deixei a sala às duas e meia da manhã, satisfeito com a noite de cinema. Nunca havia visto uma festa do Oscar inteira. Permanece chata, arrastada e previsível. Mas há tempos não me divertia tanto numa sala de cinema. A vitória de Argo, confesso, fez figuração diante das quatro horas de bom humor, proporcionadas por um elenco de 300 pessoas com mediação, mas sem qualquer script.

sexta-feira, 15 de março de 2013

Paz ao Chorão


Ao me encontrar na sala dos professores, Luiz Gustavo – um colega de trabalho – foi taxativo: “Você precisa escrever sobre o Chorão!” Respondi que o assunto era importante, mas só conhecia as músicas principais, que tocavam nas emissoras segmentadas de rock. 

Comecei a ler sobre o músico na imprensa. E, obviamente, mudei de ideia. Alerto que este texto não é sobre o Chorão; ao menos, diretamente. É sobre o que se faz com a imagem dele e, principalmente, como se tortura psicologicamente familiares e amigos com doses cavalares de especulação, mais algumas miligramas de irresponsabilidade. 

Em termos criminais, o cantor é vítima. E deveria ser tratado como tal. Com que direito peritos divulgam fotos do apartamento e do corpo? Ninguém se preocupou em questionar o procedimento, que rasga os manuais técnicos da polícia. Os peritos quiseram fazer média com a imprensa? Ou apimentar, de forma irresponsável, a sede de sangue?

Chorão era uma figura pública e também deveria ser tratado como tal. Parece ingenuidade em tempos nos quais a fronteira entre público e privado se esvaiu, mas não podemos encarar a exposição de situações-limite como natural. Até porque envolve um processo artificial de construir e legitimar personagens.

Criamos uma espécie de código perverso, no qual as figuras famosas perdem seus direitos de privacidade assim que ser tornam conhecidas. Exercitamos nossa morbidez em construir teses sobre a vida alheia, de modo que também nos reconfortamos em preservar nossos mundos ordinários. Podemos expor nossas vidas em fotos e declarações irrelevantes nas redes sociais, desde que as reações sejam compatíveis com o universo de sonhos.

Nessa ciranda movida à hipocrisia, ficamos indignados quando sofremos críticas ou quando nos tornamos alvos das línguas soltas que acreditamos ter amarrado com nossas fantasias de pertencimento e reconhecimento.

Transformamos a vida alheia a partir de contornos de dramaturgia de banca de jornal. As causas biológicas da morte de Chorão ficaram presas no pé da última página. O sofrimento de um sujeito que dava sinais sólidos de dependência química se tornou nota de rodapé. Para muitos, só reforçou ideias pré-concebidas que se sustentam em intolerância e moralismo.

O que prevalece é a eleição instantânea de heróis e vilões. O músico foi santificado. Não cabe a mim discutir o valor da obra dele. Mas me soa apressado colocá-lo em um falso panteão onde residiriam Cazuza e Renato Russo, como fez um apresentador de TV. Qual o critério de escolha? Ter também uma banda de rock e morrer cedo?

A lógica esquizofrênica desta mídia afobada por audiência inclui elevar à vilania – sem assumir que o fez – a ex-mulher do cantor. Graziela Gonçalves, em questão de horas, entrou em metamorfose e saiu como a megera que provocou uma depressão em Chorão quando se separou dele.

Nasce, neste ponto, o capítulo seguinte, com o choque de versões. Muitos desfiando tratados filosóficos, muitas opiniões a partir de teorias conspiratórias. E pouco esclarecimento sobre um homem de 42 anos, com recursos e cercado de gente, que alcançou um patamar devastador de dependência química.

A depressão foi diagnosticada? Por que não recebeu o tratamento adequado? Um jornalista chegou a dizer que, ao trabalhar com Chorão, concluiu que ele sofria de transtorno bipolar. Um psiquiatra nato, talvez.

Que Chorão descanse em paz! E os que realmente se importavam com ele, também! Mas preparem-se: ainda não se colocou na mesa o dinheiro, via exploração contínua da obra dele. Uma novela, claro, à revelia do protagonista.

quarta-feira, 13 de março de 2013

A morte das maçãs


A cor do cenário estava diferente hoje pela manhã. O choque não deveria acontecer, pois já sabia que ali vigorava o luto. Mesmo passando de ônibus, dois segundos foram suficientes para que eu estranhasse aquele vermelho descolorido, que marca a impessoalidade das madeiras compensadas. 

Por baixo do arco-íris de frutas, brotava a cor insípida da madeira artificial que costuma proteger obras e terrenos. Madeira que serve para iniciar ou encerrar uma história. De canto, o tom amarelo de uma caixa de melões, última safra da barraca de frutas da praça Caio Ribeiro Moraes Silva, em frente ao Sesc, em Santos. Ali, apodrecia e se descascava uma paisagem amadurecida desde a década de 80 no imaginário dos santistas.

Dois homens e uma mulher recolhiam, de faces amarelas, mas de temor, tudo o que restava de um ponto tradicional. Para muitos clientes, a melhor salada de fruta da cidade, que matava a fome de final de noite. Para mim, o lugar que saciava o desejo de um copo metade mate gelado, metade abacaxi. Endereço que remetia afetivamente ao dia ensolarado de praia, ainda que à noite.

A barraca, assim como sua irmã na esquina do Canal 4 com a avenida Epitácio, precisa sumir do mapa. A ameaça é a multa diária de R$ 1 mil, valor incompatível com o estilo de vida de um vendedor de frutas. As barracas se juntam a outras laranjas de mesmo saco, que representam o final de uma época resistente à plastificação dos alimentos. As barracas de frutas 24 horas, assim como as dos canais 1, 2 e 6, foram varridas para as páginas internas do anuário de abusos de poder.

A Prefeitura se sentou sobre a justificativa da lei que a própria decretou. A proibição vale desde 20 de fevereiro. Quais interesses foram atendidos? Quais concorrentes foram beneficiados? Quem foi consultado para que esta decisão fosse tomada?

As perguntas são óbvias quando nos vemos diante de mais um ato que se caracteriza pela nebulosidade da injustiça, que se veste por justificativas de palavras gastas e vazias. A Prefeitura prometeu reavaliar a Campanha das Frutas. Em outras palavras, enterrou a ideia numa das gavetas do purgatório da burocracia. Até que se esqueçam das barracas ou que elas virem mais um ícone de nostalgia numa cidade acinzentada.

Santos, por vezes, se fantasia de cosmopolita. Adora se agarrar no Porto, em seu time de coração e na proximidade da Capital para sustentar uma pose que mal se mantém em pé quando se chega perto. O provinciano pretensioso sempre se desnuda nos detalhes, assim como uma barraca de frutas classificada como mancha na paisagem. Por mais que se cubra de mangas compridas, as tatuagens provincianas escapam pelos furos da camisa.

Santos, quando aceita medidas como esta, se parece com aquelas cidades interioranas, modelo Sucupira, que pararam na velhice do tempo de suas lideranças. Num município com 20% da população acima de 60 anos, velhos são as jovens lideranças, coniventes com medidas que desmontam tradições a troco de razões frágeis como frutas que caem do pé.

Para centenas de consumidores, as barracas de frutas eram a última parada antes de chegar em casa. Seja para um lampejo de vida saudável. Seja para um bate-papo sem futuro, mas de rico presente. Seja a garantia de um café de manhã diversificado, que dispensava a padaria como primeiro compromisso do dia. 

Se, na barraca do Sesc, eu resolvia a sede com o mate que alimentava a memória recente da praia, na barraca do Canal 4, comprava as melhores maçãs da cidade. Uma delas era eleita a companheira para a caminhada de meio quilômetro até em casa. Tenho saudades destes rituais que abandonei por meses e que não poderei repeti-los por conta de quem prefere degustar frutas de outra natureza.

sexta-feira, 1 de março de 2013

O caga-regras



Ele é uma espécie presente em todas as cadeias alimentares. Não muda de cor como os camaleões, mas sabe evitar a presença de predadores. Pelo contrário, os transforma em hospedeiros. A simbiose torna o caga-regras imagem e semelhança do superior hierárquico no trabalho, do professor na universidade, do parente com a conta bancária mais inchada.

O caga-regras pode ser confundido com o puxa-saco, mas apenas pertencem à mesma família biológica. O puxa-saco finge lutar por dividendos curtos, benefícios que não implicam em grandes esforços. Qualquer resto de almoço serve como nutriente para se manter pendurado logo abaixo do umbigo alheio.

O caga-regras quer o prato principal. Deseja a ponta da mesa. Ambiciona pagar a conta, desde que determine o cardápio de seus próprios borra-botas. O negócio do caga-regras é definir a dinâmica da cadeia alimentar, controlar a evolução da espécie.

Augusto era um deles, se gabava de ser impecável. Amava a perfeição, idolatrava a regularidade, desprezava os erros alheios, já que os próprios equívocos eram impossíveis de acontecer. Em sua empresa, a organização deixaria corado o mais exigente dos analistas corporativos. Pagava em dia, cumpria os direitos trabalhistas, respeitava fornecedores e atendia clientes como se estivessem no sofá de casa.

Os empregados deveriam ser a ovelha Dolly do chefe. Comportamento e aparência andavam de mãos dadas, traduzidas no uniforme irretocável, no sorriso amarelado no rosto, no cabelo curto – para os homens -, ou preso – para as mulheres.

Augusto não suava. Camisa e calças alinhadas, pontualidade de invejar ingleses. A mesa dava sinais de que seu dono pertencia ao clube dos obsessivos. Lápis e canetas separados. Suporte para papéis de entrada. Suporte para papéis de saída. Cadernetas alinhadas, todas identificadas com adesivos. Ocorrências. Ideias. Eventos. Todas da mesma cor, da mesma marca, compradas na mesma papelaria.

Augusto sempre sorria, até quando humilhava. Orgulhava-se de manter o bom humor até nas horas difíceis. Não chorou na morte da mãe. No fundo, ele a odiava por obrigá-lo a cumprir todas as tarefas da vida escolar. Augusto não suporta leite com pêra até hoje por conta da infância.

— Tome até o final. Tomeee! Tem várias vitaminas. Assim, você nunca terá gripe!

Sorria a cada vez que se lembrava da causa mortis da mamãe: pneumonia. A desgraçada não cumpria as próprias regras.

O caga-regras escondia um único defeito. Corrigindo, dificuldade. Injusta falta de reconhecimento ou cegueira dos medíocres, ele repetia para si em frente ao espelho enquanto ajustava milimetricamente a gravata.

Augusto não laçava ninguém. As mulheres eram uma fronteira intransponível. Não sabia como se aproximar, falava demais, julgava a candidata ainda no aquecimento. Jamais jogara a preliminar, quanto mais a final de campeonato. Para Augusto, elas não estão prontas. Liberais demais, fruto de um tempo em que os valores se perderam. Ditado (que virou norma) de mamãe.

Mas o caga-regras estava diferente na quinta-feira. Ninguém notou, mas alguns deslizes aconteceram no trabalho. As cadernetas desalinhadas, um lápis fora do lugar; a mente distraída na empresa, com a fantasia da noite reconstituída e memorizada antes mesmo de acontecer. Planejava tudo, até os diálogos e ... os novos diálogos, conforme as opções de resposta.

Ela era mulher ideal, respeitaria todas as suas vontades, ouviria seus mandamentos do politicamente correto. Estaria sempre à espera, como hoje. A mulher que ele ganhara de presente estava acima daquelas que o atormentavam nos sites de relacionamento. Não mentiria sobre si mesma. Construiria uma história a seu lado. Econômica, não estaria interessada em seu dinheiro.

Quando o relógio gritou 19 horas, trancou a sala e voou correndo para casa, claro que respeitando os limites de velocidade. Multa mancharia seu prontuário. Estava tudo do script, mas Augusto estava apreensivo com uma dúvida que o aporrinhara o dia todo. 


Será que teria fôlego para enchê-la de ar? Não falharia no primeiro encontro. Passou numa loja e comprou uma bomba, para pneu de bicicleta.