quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

Os vizinhos democratas


José e Paulo são vizinhos. Como manda a boa educação, cumprimentam-se todos os dias, ou melhor, nos últimos dias, desde que José se mudou para o novo endereço. Um bom dia ou um simples olhar de aprovação é suficiente.

Embora um nunca tenha perguntado ao outro, a diferença de idade se manifesta a olhos vistos. Inchado, José está na faixa dos 40, mas aparenta 15 anos a mais. Paulo tem 32, está acima do peso, mas – dizem – com feições de 25, se fizer a barba, privilégio raro para o novo vizinho.

Ambos moram na avenida Pedro Lessa, um dos principais corredores comerciais de Santos. Suas moradias se distanciam, no máximo, 150 metros uma da outra. A residência de Paulo é um apartamento em um prédio de três andares. José mora num imóvel com apenas uma parede, o muro de uma escola municipal, sujeito aos humores do clima.

Paulo divide a moradia com duas pessoas, esposa e filha. José também tem dois familiares, mal lembra seus nomes e sabe que a separação virá após a primeira briga, causada por falta de comida ou bebedeira. A solidariedade é o mecanismo de união.

As duas “casas” têm eletrodomésticos. Para José, falta televisão, mas acompanha notícias e músicas pelo surrado rádio de pilha. Ambos se indignam com o aumento no salário dos deputados federais. Mas José é incapaz de mensurar 91% de “subsídio”. Paulo se revolta, pois votou em um deles. José nem se lembra em quem votou. Deixou de ser eleitor há 15 anos, quando sumiu das estatísticas oficiais.

Os dois fazem – na medida do possível – três refeições diárias. O almoço e o jantar, por exemplo, são preparados da mesma maneira, na boca de um fogão. O aparelho de Paulo é elétrico. José construiu o seu, composto por duas pedras e uma latinha entre elas, que serve para sustentar a panela.

Ambos freqüentam o mesmo supermercado. Paulo é medido pelo poder de compra e, por isso, recebe tratamento de cidadão. José é visto pelo que veste, que denuncia o bolso vazio e a falta de cidadania. Um circula entre os corredores. O outro os imagina do lado de fora.

A rotina profissional é parecida. Trabalham cerca de oito horas por dia. Paulo chega de terno e gravata ao escritório, que ameniza o calor com os aparelhos de ar-condicionado. Ele aparece nas estatísticas da economia formal. José atua no estilo home office, com a mesma roupa de ontem e anteontem e talvez consiga aliviar o calor com a brisa da avenida Portuária. A carteira de identidade o denomina como trabalhador, ainda que gasta pelo tempo e carcomida nas pontas.

Paulo está de férias. Viajará para a casa da sogra, em Minas Gerais. São 800 quilômetros de estrada, 12 horas de carro e R$ 500 de despesas. José desconhece este ritual. Nunca saiu da cidade. Jamais viu tanto dinheiro. Se quiser andar por Santos, o carro que possui dependerá da força de suas pernas.

Um desconhece a história do outro. Nunca dialogaram. Todos os dias, apenas se cumprimentam mecanicamente, sem pensar se este gesto ocorrerá amanhã. José pode se mudar ou ser enxotado dali. Embora não pareça, ambos vivem no mesmo país, costumeiramente chamado de democrático.

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