segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

Não se dê ao trabalho de responder essa mensagem


Por Márcio Calafiori*  

O e-mail funcionou para mim como o bilhete de entrada no mundo tecnológico e virtual. Digo isso porque sempre me integrei às novidades com atraso e invariavelmente duvidando de tudo, não atinando de imediato para a importância definitiva das coisas. É um defeito meu. Estou quase sempre por fora.

Lembro que na época do videocassete o meu discurso ultrapassado era a favor do culto ao cinema. “O videocassete jamais irá substituí-lo. O cinema é um ritual inabalável”, eu dizia convicto, ao esnobar a novidade. Quando finalmente resolvi comprar um videocassete, em 2002, comentei a aquisição com um conhecido num balcão de padaria. Ele se fez de desentendido:

“Você comprou o quê? Um DVD?”

“DVD?”

“É, DVD. Não ouviu falar? Videocassete já era.”

De fato. Pouco depois as videolocadoras começaram a liquidar os estoques de filmes VHS e os cinemas do Gonzaga — a chamada Cinelândia — ficaram reduzidos ao Roxy. Acomodado na minha tricheira tentei resistir, mas era cada vez mais difícil conseguir locar as fitas superadas. E o pior: como cúmulo da eficiência, o Panasonic bacana que comprei não aceitava qualquer material. 

Eu alugava um filme VHS na Paradiso — a única locadora em Santos que ainda mantém esse tipo de acervo —, chegava em casa louco para assisti-lo e o aparelho se recusava a rodar. Uma vez fiquei tão puto que cheguei a esmurrá-lo. Nem lembro como me livrei daquilo. Já existe algo mais novo que o DVD? Por favor, alguém me responda antes que eu dê a próxima bola fora.

Ah, sim, o e-mail. Lembro bem — a galera adorou a novidade e tudo era motivo para que a nossa caixa postal ficasse entupida de ois, mensagens espirituais e piadas sem graça. Claro, como ferramenta o e-mail servia também — e serve ainda — para fazer coisas legais. Mas algo me diz que ao insistir em usá-lo estou de novo por fora. 

Mesmo assim, preservo o hábito de me corresponder com amigos, colegas e conhecidos por e-mail. De uns dois anos para cá, são poucos os que se dão ao trabalho de me responder. Recentemente, enviei o seguinte recado a um amigo: “Meu caro, segue abaixo o link do YouTube com o filme completo do Nelson Pereira dos Santos sobre a música do Tom Jobim. Ah, não se dê ao trabalho de acusar o recebimento desta mensagem porque sei que não fará isso mesmo. Como sempre, estarei falando sozinho. Mas não se melindre: você apenas está inserido no contexto atual da indiferença.” 

Curta e grossa, a resposta que recebi foi: “Não é indiferença, é preguiça.”

Outra vez debati com um colega sobre as boates em São Paulo que tocavam bossa nova nos anos 1960. De súbito, ele se pôs a querer lembrar o nome de uma em que o Johnny Alf se apresentava. Não conseguiu. Ao chegar em casa, peguei o livro do Ruy Castro — Chega de saudade — A história e as histórias da bossa nova — e consultei o índice onomástico. 

Eis o texto que enviei ao colega: “Meu caro, fiz um levantamento das boates paulistanas que tocavam bossa nova. Veja se consegue se lembrar daquela que não lhe veio à mente na lista que segue abaixo. Colhi os nomes das casas no livro do Ruy Castro. O Johnny Alf tocou na maioria delas.”

Ele não me respondeu. Ao reencontrá-lo, fui direto ao assunto:

“Recebeu a mensagem que te mandei?”

“Ah, recebi, sim.”

“E por que não me respondeu?”

“Porque eu não respondo qualquer coisa. Caso contrário, vou passar o dia inteiro ocupado com mensagens.”

“Mas a minha mensagem não era qualquer coisa! Foi uma discussão que tivemos e que me dei ao trabalho de pesquisar.”

Ele ficou roxo de vergonha. Mas não se desculpou. Conversando um dia desses com uma amiga por telefone, interpelei-a:

“Já te mandei três mensagens e você não me respondeu. Não usa mais e-mail?”

“Por que você não usa o Facebook, como todo mundo? É mais fácil.”

Segui o conselho. Dias depois lhe mandei uma mensagem pelo “Face”, desta vez pedindo um favor. Fiquei igualmente sem resposta. Talvez eu esteja ressabiado ou me tornado um chato tremendo. Mas será mesmo? Ao replicar uma mensagem que recebi faz pouco, fiquei surpreso com a reação espontânea da garota: “Você não sabe o quanto eu fico feliz em escrever algo para alguém e receber uma resposta tão grande. As pessoas andam muito monossilábicas”, ela escreveu. 

Ah, então existe algo sólido no ar. Os especialistas nos fenômenos culturais insistem em dizer que o que considero falta de educação e até mesmo grosseria se chama desumanização. Recuso-me a aceitar essa terminologia apocalíptica. No entanto, é bom ressaltar que estou quase sempre por fora.

3 comentários:

Anônimo disse...

Muito bom, professor! Está de parabéns. As mais de sete horas por dia que passam por aqui, supostamente no "face", não servem para responder sequer uma mensagem. É a inutilidade humana de mãos dadas com a preguiça de ser alguém.

Thaís MM disse...

Conheço essa menina que gosta de mensagens grandes rsrs. Muito bom texto. Acredito que todo mundo que gosta de escrever pra amigos e conversar se identifica.

Rodrigo Pysklyvicz disse...

Olá, o senhor acha que ninguém usa mais email?