quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

Um poema perigoso


Por Márcio Calafiori

O militante de esquerda deve acusá-lo de traidor e de pequeno-burguês, se é que essa terminologia existe ainda; o conservador, ao contrário, com certeza terá ímpeto de esfregar na cara do primeiro esquerdista que lhe cruzar o caminho o livro de Roberto Ampuero, Nossos anos verde-oliva, da Benvirá. No entanto, em ambas as situações, o leitor estará errado. Pois antes de ser político o romance autobiográfico do escritor chileno é um tratado sobre a desilusão.

Tudo começou quando ele militava na Juventude Comunista, organização que apoiou o presidente Salvador Allende em sua tentativa de instaurar o socialismo no Chile. Em 11 de setembro de 1973, liderados por Augusto Pinochet, os militares tomaram o poder. Acuado e sem saída, Allende teria se matado com um tiro na cabeça. 

Perseguidos sem trégua — os presos políticos apareciam boiando no rio Mapocho com sinais de tortura e balaços na nuca —, os militantes que tiveram a sorte de não caírem prisioneiros fugiram do país. O estudante Ampuero foi um deles — pediu asilo na Alemanha Oriental.

Morando agora num alojamento universitário em Leipzig, com refugiados políticos de outros países, o jovem idealista, leitor de Max e Lênin, sonha em retornar para o Chile. As notícias, porém, não são animadoras. Pinochet impôs uma ditadura sanguinária, rancorosa. 

Circulando na cidade alemã, o rapaz conhece Margarita, uma cubana linda, de olhos verdes, filha do comandante Ulises Cienfuegos (personagem real, mas com nome fictício). Só bem mais tarde, e já casado, é que ele descobrirá que o sogro é chamado pelas costas, até mesmo pelos partidários, de Charco de Sangue. 

Nos anos iniciais da revolução o papel que este desempenhou, como homem de confiança de Fidel, foi o de matar às centenas os que se opunham ao regime, os chamados contrarrevolucionários, sem que isso lhe pesasse na consciência. Daí a alcunha. O antigo comandante terá ainda um peso enorme na vida de Ampuero.

Pressionado por Cienfuegos a se mudar para Cuba, a única condição que lhe permitirá casar com Margarita, o rapaz se rende aos fatos. A partir daí o relato se adensa. Pouco a pouco o leitor vai submergindo na composição dos detalhes de como o ideal político é suprimido, de tal modo que a vida agora é um enredo medonho, inventado por Kafka ou por Orwell. 

Uma das epígrafes de Nossos anos verde-oliva é o trecho de um poema de Heberto Padilla, um dos intelectuais cubanos perseguidos por Fidel e que também é personagem do livro: Não esqueças, poeta./ Em qualquer lugar e época/ em que fizeres ou sofreres a História,/ sempre estará a espreitar-te algum poema perigoso.

Travada na engrenagem dominada por sujeitos espertos que conseguem usufruir o que o poder proporciona de aprazível e de luxuoso — estes jamais deixam de lado o discurso marxista, é claro —, a existência de Ampuero se torna um poema perigoso. Ingênuo, ele custa a crer que a linda Margarita, com o apoio do pai, é capaz de tudo a fim de garantir para si o cargo que tanto almeja na Federação de Mulheres de Cuba. 

Na ilha, o homem só adquire importância, e ainda assim relativa, se fizer parte de alguma agremiação política. O dia a dia é submetido pelas palavras de ordem, pelos discursos, pela concordância, pelo culto à personalidade, pela hipocrisia, pela delação, pelo medo e até pelo ato extremo do suicídio. 

Não era nada disso que o jovem Ampuero sonhara um dia. De sã consciência quem seria contra o ideal da igualdade, do ser humano irmanado? É então que o narrador descobre dolorosamente: a política é aquilo que não se vê.

Estudante de Letras, avesso às armas e ainda por cima amigo de um poeta maldito, Ampuero passa a ser desacreditado na organização onde milita em Havana, denominada Juventudes Comunistas do Chile. Da noite para o dia conhecidos seus somem. A versão é a de que podem estar lutando em algum conflito longínquo em que Cuba tem interesse. Mas nunca se sabe e jamais se toca em assuntos dessa gravidade sem ser duramente advertido. 

Ao redor, tudo o mais contribui para o pesadelo: o calor, a umidade pegajosa, a pobreza, as filas intermináveis, a falta de gêneros alimentícios, a cerveja morna e o rum vagabundo, as constantes campanhas de Fidel para tentar recrudescer na alma de cada cidadão — melhor dizendo, de cada companheiro — o compromisso com a revolução.

Nem seria preciso dizer: Nossos anos verde-oliva é proibido pelo governo castrista. No entanto, isso não significa que a autobiografia do escritor chileno não circule clandestinamente na ilha. 

Publicada em 1999, só agora foi editada no Brasil. O autor a definiu de “romance autobiográfico” porque muitos que figuram em suas páginas estão vivos ainda. Estes tiveram os nomes inventados. Já os personagens históricos aparecem com os nomes verdadeiros.

No fim dos anos 1970, ao cair em desgraça em Cuba ao renunciar à organização na qual atuava, o desamparado Ampuero se põe a refletir: “Em que momento havia se posto em movimento aquele círculo infernal que me fizera naufragar na ilha e me impedia de fugir dela? A única coisa que eu havia desejado era uma pátria melhor.” Eis aí a desilusão, o sentido exemplar da obra.

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