segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Os 50 anos da cartilha da lavagem cerebral



Por Márcio Calafiori

Um dos grandes lançamentos de 2012 é a edição especial de 50 anos do Laranja Mecânica, de Anthony Burgess, pela Aleph. Mas dizer isso é pouco. Uma das coisas que me levam a pegar um livro é o seu aspecto físico. Algumas vezes faço questão de comprá-lo por causa do formato e outras em função do design, no que este apresenta de belo, criativo ou empolgante. O Laranja Mecânica que tenho em mãos é tudo isso. 

Olhando a sobrecapa, com a garrafa de moloko no fundo laranja, lembrei logo dos trabalhos de Andy Warhol. O autor do projeto gráfico, de inspiração pop, é Pedro Inoue. A edição de arte é sensacional: extremamente bem cuidada, detalhista, com a presença psicodélica do laranja e mais as ilustrações de Angeli, Dave McKean e Oscar Grillo.

Além do esmero gráfico, a edição traz páginas originais anotadas e desenhadas, uma entrevista e ensaios inéditos de Burgess. Nestes, além de explicar o significado da expressão laranja mecânica e a origem da obra, o autor inglês aborda a polêmica insistente que começou dez anos depois da publicação do livro — fenômeno que só ocorreu por causa do filme de Stanley Kubrick.

Desde 1962 Laranja Mecânica vinha cultivando cada vez mais leitores que ficavam impressionados com a história do pequeno Alex e seus druguis ladrões, drogados e assassinos. Mas até o surgimento do filme, em 1971/1972, Burgess era um autor que conseguia exercer em paz o seu ofício, segundo ele, inofensivo. Laranja Mecânica não seria nem mesmo o seu livro predileto, talvez até o de que menos gostasse. 

Escreveu-o assim como produziu outros mais, em série, preocupado em ganhar dinheiro, a fim de deixar a mulher numa situação financeiramente confortável, já que ele, Burgess, fora diagnosticado como portador de um tumor no rassudok e logo, logo estaria morto. Mas o diagnóstico revelou-se falso e o autor só veio a falecer em 1993.

Os ensaios tratam ainda da visão de Burgess sobre o efeito da religião em sua vida pessoal — era católico —, e a violência praticada pelos jovens, que chegou a ser acusado de incentivar. Claro, o autor fala também do filme de Kubrick, ao qual assistiu num cinema de Nova Iorque, disputando aos empurrões uma fila imensa.

Burgess louvou o filme, embora jamais perdesse a oportunidade de ironizar Kubrick, pois o considerava tão autor de Laranja Mecânica quanto ele. Neste aspecto, existe algo fundamental que talvez Kubrick não soubesse quando decidiu filmar o livro ou então não se interessou em saber: existe a versão inglesa da obra, com o capítulo final que Burgess escreveu, redimindo Alex, e a versão americana, que cortou este capítulo por considerá-lo uma concessão que não tem nada a ver com a distopia proposta ao longo de Laranja Mecânica, uma das mais importantes da literatura do século 20. Kubrick filmou a versão americana, reduzida, e o filme e o livro fizeram história.

Antes da tradução de Fábio Fernandes para a Aleph, eu havia lido a de Nelson Dantas para a Artenova (1972), que é a mesma da Ediouro (1994). Portanto, ao saber por um amigo do lançamento da edição comemorativa de Laranja Mecânica, a primeira coisa que perguntei foi se o tradutor era outro, pois a Aleph já lançara uma edição anterior, em 2004, e eu não gostara do nome dado a um dos druguis de Alex: Tosko.

Dantas chama este mesmo personagem de Tapado. Pois eu preferia Tapado. Só por esse detalhe fiquei com má vontade em relação àquela edição da Aleph. Agora, pensando bem, Tosko é de fato uma solução muito boa encontrada pelo tradutor Fábio Fernandes — que é o mesmo desta edição de 50 anos — para definir o maltchik boçal, da gangue de Alex.

No aspecto editorial me frustrei apenas de que a grande repercussão da obra de James Joyce na de Anthony Burgess tenha ficado um tanto quanto pálida nos preâmbulos da obra. Comentei com o mesmo amigo que me falou sobre o lançamento do livro e ele me respondeu que a influência de Joyce está em toda a obra de Burgess, e não apenas em Laranja Mecânica. Ok. 

Mas a influência mais visceral de Joyce em Burgess está no uso dos neologismos, das gírias, da pesquisa intensa da fusão de palavras, na criação da linguagem nadsat, de tudo, enfim, que fez Laranja Mecânica ser o que é. Gostaria de ver isso explicado com menos pressa nesta belíssima edição da Aleph. Penso que um leitor se ganha assim — pois um livro sempre leva a outro e outro e outro.

Falei antes que Laranja Mecânica teve duas versões, a inglesa e a americana, com finais diferentes. As edições brasileiras, desde sempre, trazem a versão inteira, de acordo com o final que o Burgess enfatizou a respeito de Alex, um garoto de treze anos violento, mas de extremo bom gosto, cultor de Beethoven.

E em todas figura o dicionário da linguagem nadsat, falada pelos personagens. O autor era contra a inclusão disso nas edições da obra. Jamais lhe deram trela. Mas o seu argumento para que o glossário seja desprezado pelo leitor merece ser considerado: entender a linguagem nadsat, composta de palavras russas misturadas com inglesas, sem recorrer à tradução seria como sofrer a violência ao qual Alex se submete em troca da liberdade.

Assim, de acordo com Burgess, Laranja Mecânica funciona como uma cartilha sobre o que é a lavagem cerebral. Neste aspecto, seguindo o que autor pensou, eu mesmo teria sofrido o processo atroz da lavagem, pois pouco recorri ao glossário. Tanto que no texto que você acaba de ler utilizei um pouco de nadsat. Se não reparou nisso, o manipulador Anthony Burgess iria adorar.

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