sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

Encontro com a mãe


Ele sempre seguia o fluxo. Era uma forma de não ser visto, mas também significava a fórmula para ser aceito. Considerava-se comum, normal mesmo, enquanto sonhava em ser reconhecido como alguém diferenciado. Naquela noite, manteve a coerência do rebanho. De branco, foi até a praia. Tomou um gole de champanhe e exalou simpatia, inclusive com os parentes de língua solta.

Quando chegou a hora das sete ondas, tirou os chinelos e andou até a beira do mar. Sentiu-se como aquelas crianças do interior na praia, não pela euforia, mas pela sensação de ser um alien na própria terra, novato diante da maresia.

Pulou a última onda com a cabeça longe dali. Mal sabia se saltara sete vezes. Acompanhou a mulher ao lado. Se ela errou nas contas, paciência. A ceia o esperava. Esbanjaria conversa fiada, temperada com algum conhecimento de almanaque e, assim que baixassem a guarda, sumiria à francesa. Obrigação social cumprida.

Caminhou uns 15 metros e viu uma senhora, sentada de pernas cruzadas, de vestido azul claro. Ela estendeu a mão direita. Maldita hora em que manteve contato visual. Erro grave quando se encontra com mendigos.

Ela segurou no braço dele e disse:

— Não se preocupe. Não quero seu dinheiro que, aliás, você não tem. Diga isso aos dois bancos que costumam te telefonar todos os meses.

Mesmo com o susto, ele conseguiu rebater:

— Como a senhora sabe?

— Uma mãe sempre sabe, sempre sente o sofrimento de seu filho.

— A senhora tem muitos filhos? Deixaram a senhora aqui sozinha?

— Quem te disse que estou sozinha? Estou cercada deles. A maioria se lembra de mim apenas quando precisa. Nesta época do ano, prometem mais do que político em campanha. Promessas quase sempre impossíveis diante de uma estrada sem curvas, previsível.

Quando viu, estava sentado ao lado dela. Era o sinal para cortar o papo. Puxou o fone de ouvido e ameaçou se levantar, quando ela falou:

— Filho, não adianta se alimentar deste barulho. Ele não cala o silêncio do vazio. Você finge se isolar, mas continua dependente.

— Dependente do quê, senhora?

— Viciado no rebanho. Deseja a diferença, mas digere o igual. Sua vida, meu filho, é mais adestrada que uma praça de alimentação. Você, como muitos de seus irmãos, come o que vê e, por isso, só acredita no que conhece.

— Boa palavra. A senhora não me conhece!

— A mãe sempre conhece seus filhos.

— A senhora se julga minha mãe?

— E eu te espero aqui, à beira do mar, ainda que não me veja. Ainda que não me sinta. Quem garante que você retorne sempre que entra no mar?

— Mas eu não entro nesta água suja.

— O mar está além da água. E a sujeira não está na areia ou entre as ondas. A sujeira reside na forma como nos entendemos com ele.

Ele se cansou. Entendendo ou não, ele tinha uma certeza: não precisava de uma nova mãe. Ainda mais uma que o deixava sem respostas. Levantou-se, se despediu com boa noite e acenou para a senhora.

Andou mais uns 20 metros e encontrou a irmã.

— Mana, tive um papo maluco com uma senhora logo ali. A mulher cismou que era minha mãe.

— Onde? Só se ela se perdeu na multidão. Ou saiu correndo.

— Correndo? Com aquela idade? Ela estava ali, de vestido azul claro.

— Ah, tá. Então, você viu Iemanjá?

— Iemanjá? Não acredito no que não vejo. Sou como São Tomé.

— Nunca viu nossa mãe na igreja?

— Confessar? Comunhão? Missa? Jamais.

— Quem falou disso? Vá e veja a imagem de Nossa Senhora. Talvez sinta a conversa com nossa mãe. O nome dela, aliás, é o que menos importa.

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