sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

Carta ao Raul


Caro secretário de Cultura de Santos, Raul Christiano, 

Fiquei esperançoso com sua nomeação para a Secretaria. Na política de distribuição de cargos, sempre há o risco de aventureiros no comando de serviços públicos. Você também se cercou de um segundo escalão com credenciais, diferentemente de algumas pastas, hoje castigadas por conta de contratações estranhas. O grupo de apoio deve ter competência técnica, inclusive para sustentar seu posto, que enfrenta arranjos e obstáculos políticos. 

Artistas e simpatizantes, de maneira geral, reagiram positivamente à escolha do seu nome. Muitos conhecem seu tempo de militância na literatura, como poeta e como jornalista, e suas preocupações com a vida cultural da cidade. É um bom começo, mas o passado e o espírito de corpo evaporam assim que você assina o primeiro despacho e se transforma em vidraça.

Todos esperam aperfeiçoamentos no setor e te cobram com a devida polidez. Entre eles, os que temem perder benesses construídas por relacionamentos nos porões do poder. É tempo de esperar, pois ainda não dá para conhecer como se alimentam os choques de egos nas coxias.

Imagino que você tenha consciência do quanto terá que ser paciente, articulador e, principalmente, criativo. Não se faz nada na cultura sem dinheiro. E sua pasta não integra a lista dos novos ricos. A Secretaria de Cultura é tradicionalmente uma das áreas com menor orçamento. Alcançar 3% merece comemoração com fogos de artifício na orla da praia.

Você, como secretário de Cultura, terá que queimar suas cartas políticas para atrair gente interessada em investir na área. Alguns artistas e produtores conhecem os meandros da legislação e do contato com o setor privado e se viram – isoladamente – para parir seus projetos. O secretário é o eletricista que une os fios soltos, dá consistência à rede e evita curto-circuito pelo caminho.

A Secretaria tem a obrigação de conceber vida à cultura local pelas miudezas. Os tubarões do show business se viram normalmente. Não dependem da pasta. Até mamam de vez em quando, mas é refeição circunstancial. Eles contam com patrocínios e apoios suficientes para sobreviver. Fizeram isso até agora. Não caia na armadilha da megalomania. É suicídio político.

Além disso, acredito que seja papel da Secretaria levar as artes onde o cinza da miserabilidade é a cor predominante. Os bairros periféricos precisam de respiração artística, para conhecer os mestres locais e formar seu próprio polo de criação. Exemplos como o projeto Arte no Dique indicam o quanto é possível alterar endereços cuja infraestrutura representa artigo de luxo.

Sua estrada como secretário municipal de Cultura pode ser marcada por uma mudança de mentalidade. Mais do que redesenhar o modo de se fomentar recursos financeiros, a Secretaria precisa provocar a reflexão sobre como a sociedade local trata seus artistas. Eles apanham como cachorro sem dono. É repulsiva a ideia de que contratá-los é fazer um favor a eles. Nas entrelinhas, prevalece a ideia de que cultura deve ser de graça. Para o público, quase sempre. Para o artista, apenas oxigênio não coloca comida na mesa.

A face mais nociva da província é acreditar que santo de casa não faz milagre. Assim, qualquer coisa serve. Pelo contrário. Os artistas precisam de formação, de espaços (ressuscite o Teatro Rosinha Mastrângelo, por favor!) e de remuneração adequada. Talvez você consiga matar o cinismo de quem comemora o sucesso de artistas fora daqui, sem se lembrar de que isso ocorre por esforço próprio e que o êxodo é compulsório por falta de alicerces. 

Nós nos conhecemos há quase duas décadas. Você foi um dos meus primeiros chefes no Jornalismo. Nos últimos anos, costumamos nos encontrar em programas de rádio para debater questões públicas da região. Aliás, é diálogo que a classe cultural deseja. Até porque sei que você carrega consigo a premissa de que a Cultura não é uma caixa-preta enterrada em cofre.

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