sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

Bem vindos à ilha da Utopia



Por Natássia Massote

Em Utopia, de Thomas Morus, as pessoas vivem em uma comunidade harmônica, são pacíficos, amáveis e respeitáveis. Não há propriedade privada, todos trabalham poucas horas por dia – mas o suficiente para a produtividade local. Os moradores não usam jóias, os metais “preciosos” são brinquedos para crianças. Aliás, para os pequenos é ensinado a cultivar a terra e a valorizar a educação artística.

Embora o livro de Morus fosse uma crítica ao renascimento cristão europeu, escrito em 1516, podemos tirar lições para os dias atuais e correlacionar com modos de vida e celebração alternativos. E é em uma ilha, precisamente em Cananéia, São Paulo, que vivi meus dias de Utopia.

Entre os dias 27 de dezembro e 03 de janeiro, Ilha Comprida recebeu o festival de cultura, música e arte alternativa – AHO. Idealizado por núcleos conhecidos de festivais trance, o espaço inspirou e expirou a vida em comunidade, de alegria, cumplicidade e amizade.

A música era a principal atração e o festival contou com duas pistas. A principal de trance: um coração pulsante. Da aceleração à desaceleração, a energia impulsionava os pés sujos de lama, em ritos de transcedência, em cumplicidade com os sons rítmicos, com a natureza e com a música psicodélica. Aliás, da psicodelia se tira as experiências mais profundas de vida, dá cores a uma vida rotineira e cansativa em preto e branco. 





A outra pista era uma miscelânea cultural – pois, em Utopia, a diversidade é intrínseca. De dia, o público era contemplado com sons étnicos, chill out, reggae. E, durante a noite, dava espaço ao low beats. Essa pista tinha a forma de um globo, e passava o sentido de globalização – globalização musical, cultural, artística e humana.

Além da música, a arte, como mãe, mostra orgulhosamente seus outros filhos. Rituais na fogueira, espaço de cura, aulas de yoga na praia, festejos da comunidade local, capoeira: uma programação cultural riquíssima, que nos faz lembrar de valores outrora esquecidos, de notar a riqueza na multiculturalidade, da produção regional a mundial, na interconexão a que tudo isso leva.

E as crianças? Em Utopia, as crianças despertavam a arte dentro de si, a sua expressão divertida como humano. Na breve Utopia do final de ano, as crianças brincavam, dançavam, pintavam, plantavam árvores. Havia o lindo o projeto de ensinar sustentabilidade – não a tachada pela mídia – aos pequenos. A cada semente que plantavam, a cada desenho que faziam, a cada escrita que liam, as crianças aprendiam uma nova ideia de coletividade e humanidade – no sentido do que “eu humano” sou nessa grandiosa Terra.

Mesmo com a forte chuva, o vento, a lama, as pessoas viviam alegres. Em nenhum outro lugar fiz tanta amizade, vi tantos sorrisos receptivos e generosidade. São histórias de vida – histórias de pessoas que não se importavam em falar “Bom dia”, em emprestar um copo, em oferecer um gole de água ou de contar a sua história. Nos campings, vi uma grande família que, mesmo se conhecendo ali, estava disposta a celebrar a união e o amor como se conhecessem há gerações. 


Vivi e senti o desapego. O desapego das comunicações, a falta do telefone, da internet, do transporte. O desapego do conforto, da cama que acomoda, do banho que esquenta. O desapego dos pés protegidos. O contato diário, contínuo, do seu pé na lama, na areia, na pista – bendito os pés que permitiam a dança mágica. 

Vi e me emocionei nos rituais dos índios Pataxós. Eles, os descendentes dessa terra, que nunca mostraram rancor por nossos antepassados se alocarem aqui. Eles, que tanto nos ensinam sobre a vida e a nossa obrigação, ligação e função com a natureza. Eles, que nos oferecem aprendizados tão ricos quanto os mais renomados filósofos. E, no Ano Novo, no início da Nova Era, fui contemplada com o belíssimo ritual. E nessa celebração, vi o público, esses jovens da chamada geração Y, dançando juntos, no mesmo ritmo, como esses herois da geração indígena, esquecida e quase exterminada.

Voltando a pista de trance, vi os mesmos índios dançando a música eletrônica. Acredito que eles sentem uma grande complacência com o estilo de som – aliás, os índios sempre pregaram a trasncendência, o som ritmado, o contato com a natureza e o que dela vem. Presenciando tudo isso, pessoas de todo os país, com suas bagagens de vida, suas diferenças e pensamentos, em união máxima de celebração, eu posso dizer: eu estava na ilha de Utopia. 


Abaixo trecho de Utopia, de Thomas Morus: 


“A natureza, dizem os utopianos, convida todos os homens a se ajudarem mutuamente e a partilharem em comum do alegre festim da vida. Este preceito é justo e razoável, pois năo há indivíduo tăo altamente colocado acima do gênero humano que somente a Providência deva cuidar dele. A natureza deu a mesma forma a todos; aqueceu-os todos com o mesmo calor, envolve todos com o mesmo amor; o que ela reprova, é aumentar o próprio bem estar agravando a infelicidade de outrem. 

Algumas vezes o prazer dos sentidos năo provém das funçơes animais que reparam os órgăos esgotados, ou os aliviam de uma exuberância penosa; mas pelo efeito de uma força interior e indefinível que comove, encanta e seduz; tal é o prazer que nasce da música.

Esta moral é boa, é má? É o que năo discutirei; năo tenho tempo para tanto e năo é, aliás, necessário ao meu objetivo; faço apenas história e năo uma apologia. O que é certo para mim é que o povo da Utopia, graças às suas instituiçơes, é o primeiro de todos os povos, e que năo existe em parte alguma república mais feliz."

6 comentários:

Adriane Gomes disse...

Guerra nas estrelas... a Republica da mudança!

Yog disse...

Muito bom, viva o Trance

Lucas disse...

Simplesmente demais, voltei no tempo para dentro de meus dias de Aho 2012/2103

guifdias disse...

Perfeito! Traz todas lembranças que vivemos no festival...
E demonstra bem como não precisamos de muito para criarmos ótimas lembranças!

Rabana disse...

Bem vindos ao nosso mundo! tentamos trazer isso pra selva de pedra todos os dias, nos olhares, nos gestos, em quem somos, seres humanos, e estamos vivos!

Geraldo Varjabedian disse...

Impressão minha, ou você atirou num coelho e acertou um elefante? Ao contrário de várias interpretações que dão a "Utopia" uma cara exclusivamente delirante, imaginária, quase psicodélica, você pegou a veia da contestação. Afinal, é uma obra extremamente crítica, subversiva. Encaixa como luva à proposta de sustentabilidade, justamente, porque não estamos criando um mundo paralelo, nem rompendo com este, mas transformando o que recebemos segundo nossa energia... Aho!, garota! Parabéns! Grande sacada!