sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

Rose e a selva de pedra


Por Márcio Calafiori

— Alô, boa-tarde! Por favor, o Sr. Márcio.

— É ele, pode falar.

— Alô, Sr. Márcio, quem fala aqui é a Rose, representante do Banco XXX.

— Pois não...

— Tudo bem?

— E com você?

— Tudo ótimo! Mas com o senhor está melhor ainda, não?

— Por quê?

— Cinquenta e cinco anos, muita vida pela frente...

— Quantos anos mais você acha que eu vou viver? Seja sincera, Rose.

— Ha, ha, ha... Eu não sou vidente, mas sei que o senhor acaba de se aposentar. Que boa notícia, a melhor do ano!

— De fato, é uma boa notícia, sim. Mas como é que você sabe disso, Rose?

— Ah, a *Dataprev enviou todos os seus dados para nós, eles costumam passar a lista dos novos aposentados para a rede bancária.

— Com você eu posso desabafar, Rose, pois me parece uma moça confiável. Por que a Previdência divulga esses dados? Isso não deveria ser sigiloso? Como aposentado, estou indignado e perplexo.

— Ah, não fica chateado, Sr. Márcio, eles sempre divulgam essa lista... Estou com a sua memória de cálculo bem aqui na tela do meu computador. Interessante...

— O quê?

— ...o senhor foi aposentado com tudo isso, quase o teto?

— E daí, Rose? Acabei me tornando um sujeito caro demais, pois só bebo chá importado.

— Ha, ha, ha... Eles fizeram uns acertos aqui, deixa eu verificar... Ah, é a diferença do que lhe pagaram a menos em novembro e dezembro, quando o senhor ainda recebia o auxílio-doença. Ah, tem dinheiro para o senhor receber imediatamente! Quer saber quanto?

— Rose, eu já fui ao banco e raspei tudo.

— O quê? O senhor não perde tempo, hein?

— Sou rápido no gatilho, Rose!

— Ah... a sua agência bancária é no Itararé, em São Vicente! Eu morei anos em São Vicente. Conhece a Praia do Gonzaguinha?

— Você morou no Gonzaguinha?

— Não, eu morava mais afastada, mas gostava de pegar praia no Gonzaguinha. Que visual lindo, que tempo bom... Ah, que saudade...

— O visual combinava com o seu biquíni, Rose?

— Ha, ha, ha... Agora eu moro aqui nesta selva de pedra, São Paulo. Sabe, Sr. Márcio?...

— Pois não...

— O Banco XXX quer dar para o senhor, para o senhor iniciar a sua nova vida, trinta e quatro mil, quatrocentos e cinquenta reais. O que me diz?

— Como assim? Eu fui sorteado? Não acredito! Me belisca, Rose!

— Ha, ha, ha... Não, Sr. Márcio... Eu quero dizer que agora o senhor pode fazer consignado, e nem precisa se preocupar, pois a Previdência Social já desconta do seu benefício as parcelas do empréstimo. O senhor aceita os trinta e quatro mil, quatrocentos e cinquenta reais e depois a quantia vem subtraída mensalmente, aos pouquinhos, e com a taxa de juros bem abaixo da que é praticada no mercado, pois se trata de consignado. O senhor nem vai sentir o impacto, eu garanto. O Banco XXX reservou essa oportunidade única para o senhor. Que tal?

— Não sei, Rose... O que você me recomenda?

— A minha sugestão é que o senhor pegue o empréstimo, pois ele já é seu, basta apenas me ligar.

— Não me tenta, Rose!

— Não tem erro! Anote o meu telefone: (11) XXXXXXXX. Se outra menina atender, mande me chamar. Trabalho das 15 às 21 horas. E vá curtir, vá viajar, Sr. Márcio, aproveite, pois a vida é curta! E eu aqui nesta selva de pedra...

— E vou gastar essa grana toda sozinho, Rose?

— Sr. Márcio, me liga... Pega o empréstimo e me liga...

— Tá falando sério, Rose?

* Dataprev: Empresa de Tecnologia e Informação da Previdência Social.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

O Manifesto caiçara



É impossível ter certeza e não me arriscaria a responder ou julgar o entendimento delas, mas tenho fé que cerca de 100 pessoas testemunharam, no último sábado, no Teatro do Sesc, em Santos, um sinal de mudança. Como se o teatro, endereço ocular de grandes espetáculos, discretos fracassos, artistas de raro talento e celebridades alçadas e perdidas nas coxias, percebesse que naquela noite renascia uma cultura. Na enésima reinvenção de si mesma, energizada pela persistência em se manter na frente de batalha.

O teatro observou o parto normal – com a inerência das dores – de uma lenta metamorfose nas entranhas de Santos. E a duas quadras do mar, laço de amor que empurrava artistas de variadas origens à iluminação do palco.

No espetáculo “Percurtindo Mundos – Poéticas para um novo tempo”, o capitão da nau é o multi-instrumentista Márcio Barreto. Mais do que talentoso, ele é um manifestante político. Parece uma criança que se diverte por horas dentro da bagunça organizada do quarto, onde somente ela sabe onde ficam os brinquedos e até onde se pode viajar. 



Inquieto e aglutinador, Márcio conduziu a embarcação, repleta de músicos e poetas, com ares de corsário, flexível ao balanço das marés de vanguarda, ágil em adaptar o navio às alterações de curso enquanto saqueava as novas poéticas que surgiam no navegar do espetáculo.

Assistir ao Percutindo Mundos é entender que se está diante de um processo singular. É um traçado que rasga as linhas óbvias da cultura de massa. Se o maestro Gilberto Mendes é a inspiração, o mar interpreta o fio condutor dos olhares, talvez o que mais os aproxime dentro do palco.

O mar reside nas palavras dos poetas convidados, ao vivo ou por suas criações. Gente como Ademir Demarchi, Marcelo Ariel, Márcio Barreto, Madô Martins, Flávio Viegas Amoreira, Regina Alonso, Narciso de Andrade, Roldão Mendes Rosa, Martins Fontes, Vicente de Carvalho e Rui Ribeiro Couto.

O mar está nas mãos do pianista Antônio Eduardo, que navegam pelo piano a traçar obras que homenageiam a terra caiçara. O mar que regurgita sons nas mãos do percussionista Felipe Faustino e nas cordas de Bruno Davoglio e Robson Peres.

O mar é um peixe hospedeiro que cola nos movimentos de corpo de Célia Faustino, a única mulher em cena, hábil em transpirar os poemas como extensões de sua dança. Ou seria o contrário?

Este grupo resiste e insiste em nos indicar que é possível fisgar, limpar e digerir uma cultura local, impregnada de experiências pessoais, porém atenta à dinâmica social e política do litoral. Esta cultura caiçara em gestação (luto contra a tentação da palavra “nova” pelo reducionismo do rótulo) é coletiva, embora respeite as individualidades artísticas, num diálogo horizontal.

A coletividade, no entanto, não se resume à reunião de artistas no palco. Ela só existe por conta de uma intersecção que exige a criação social, como uma sessão de jazz que incorpora o som das ondas da baía.

Neste parto coletivo, o público é também pai e mãe. Como na imagem acima, que registra o embarque de parte da plateia no palco do Sesc, cúmplice em recriar dança e música que havia acabado de vivenciar. 

A próxima escala é a Pinacoteca Benedito Calixto. No próximo sábado, acontece o III Sarau Santista, às 16 horas. É mais uma página para a celebração cultural (e revolução política) que começa a se desenhar, a seu próprio caminhar caiçara, na cidade.

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

Bem vindos à ilha da Utopia



Por Natássia Massote

Em Utopia, de Thomas Morus, as pessoas vivem em uma comunidade harmônica, são pacíficos, amáveis e respeitáveis. Não há propriedade privada, todos trabalham poucas horas por dia – mas o suficiente para a produtividade local. Os moradores não usam jóias, os metais “preciosos” são brinquedos para crianças. Aliás, para os pequenos é ensinado a cultivar a terra e a valorizar a educação artística.

Embora o livro de Morus fosse uma crítica ao renascimento cristão europeu, escrito em 1516, podemos tirar lições para os dias atuais e correlacionar com modos de vida e celebração alternativos. E é em uma ilha, precisamente em Cananéia, São Paulo, que vivi meus dias de Utopia.

Entre os dias 27 de dezembro e 03 de janeiro, Ilha Comprida recebeu o festival de cultura, música e arte alternativa – AHO. Idealizado por núcleos conhecidos de festivais trance, o espaço inspirou e expirou a vida em comunidade, de alegria, cumplicidade e amizade.

A música era a principal atração e o festival contou com duas pistas. A principal de trance: um coração pulsante. Da aceleração à desaceleração, a energia impulsionava os pés sujos de lama, em ritos de transcedência, em cumplicidade com os sons rítmicos, com a natureza e com a música psicodélica. Aliás, da psicodelia se tira as experiências mais profundas de vida, dá cores a uma vida rotineira e cansativa em preto e branco. 





A outra pista era uma miscelânea cultural – pois, em Utopia, a diversidade é intrínseca. De dia, o público era contemplado com sons étnicos, chill out, reggae. E, durante a noite, dava espaço ao low beats. Essa pista tinha a forma de um globo, e passava o sentido de globalização – globalização musical, cultural, artística e humana.

Além da música, a arte, como mãe, mostra orgulhosamente seus outros filhos. Rituais na fogueira, espaço de cura, aulas de yoga na praia, festejos da comunidade local, capoeira: uma programação cultural riquíssima, que nos faz lembrar de valores outrora esquecidos, de notar a riqueza na multiculturalidade, da produção regional a mundial, na interconexão a que tudo isso leva.

E as crianças? Em Utopia, as crianças despertavam a arte dentro de si, a sua expressão divertida como humano. Na breve Utopia do final de ano, as crianças brincavam, dançavam, pintavam, plantavam árvores. Havia o lindo o projeto de ensinar sustentabilidade – não a tachada pela mídia – aos pequenos. A cada semente que plantavam, a cada desenho que faziam, a cada escrita que liam, as crianças aprendiam uma nova ideia de coletividade e humanidade – no sentido do que “eu humano” sou nessa grandiosa Terra.

Mesmo com a forte chuva, o vento, a lama, as pessoas viviam alegres. Em nenhum outro lugar fiz tanta amizade, vi tantos sorrisos receptivos e generosidade. São histórias de vida – histórias de pessoas que não se importavam em falar “Bom dia”, em emprestar um copo, em oferecer um gole de água ou de contar a sua história. Nos campings, vi uma grande família que, mesmo se conhecendo ali, estava disposta a celebrar a união e o amor como se conhecessem há gerações. 


Vivi e senti o desapego. O desapego das comunicações, a falta do telefone, da internet, do transporte. O desapego do conforto, da cama que acomoda, do banho que esquenta. O desapego dos pés protegidos. O contato diário, contínuo, do seu pé na lama, na areia, na pista – bendito os pés que permitiam a dança mágica. 

Vi e me emocionei nos rituais dos índios Pataxós. Eles, os descendentes dessa terra, que nunca mostraram rancor por nossos antepassados se alocarem aqui. Eles, que tanto nos ensinam sobre a vida e a nossa obrigação, ligação e função com a natureza. Eles, que nos oferecem aprendizados tão ricos quanto os mais renomados filósofos. E, no Ano Novo, no início da Nova Era, fui contemplada com o belíssimo ritual. E nessa celebração, vi o público, esses jovens da chamada geração Y, dançando juntos, no mesmo ritmo, como esses herois da geração indígena, esquecida e quase exterminada.

Voltando a pista de trance, vi os mesmos índios dançando a música eletrônica. Acredito que eles sentem uma grande complacência com o estilo de som – aliás, os índios sempre pregaram a trasncendência, o som ritmado, o contato com a natureza e o que dela vem. Presenciando tudo isso, pessoas de todo os país, com suas bagagens de vida, suas diferenças e pensamentos, em união máxima de celebração, eu posso dizer: eu estava na ilha de Utopia. 


Abaixo trecho de Utopia, de Thomas Morus: 


“A natureza, dizem os utopianos, convida todos os homens a se ajudarem mutuamente e a partilharem em comum do alegre festim da vida. Este preceito é justo e razoável, pois năo há indivíduo tăo altamente colocado acima do gênero humano que somente a Providência deva cuidar dele. A natureza deu a mesma forma a todos; aqueceu-os todos com o mesmo calor, envolve todos com o mesmo amor; o que ela reprova, é aumentar o próprio bem estar agravando a infelicidade de outrem. 

Algumas vezes o prazer dos sentidos năo provém das funçơes animais que reparam os órgăos esgotados, ou os aliviam de uma exuberância penosa; mas pelo efeito de uma força interior e indefinível que comove, encanta e seduz; tal é o prazer que nasce da música.

Esta moral é boa, é má? É o que năo discutirei; năo tenho tempo para tanto e năo é, aliás, necessário ao meu objetivo; faço apenas história e năo uma apologia. O que é certo para mim é que o povo da Utopia, graças às suas instituiçơes, é o primeiro de todos os povos, e que năo existe em parte alguma república mais feliz."

Carta ao Raul


Caro secretário de Cultura de Santos, Raul Christiano, 

Fiquei esperançoso com sua nomeação para a Secretaria. Na política de distribuição de cargos, sempre há o risco de aventureiros no comando de serviços públicos. Você também se cercou de um segundo escalão com credenciais, diferentemente de algumas pastas, hoje castigadas por conta de contratações estranhas. O grupo de apoio deve ter competência técnica, inclusive para sustentar seu posto, que enfrenta arranjos e obstáculos políticos. 

Artistas e simpatizantes, de maneira geral, reagiram positivamente à escolha do seu nome. Muitos conhecem seu tempo de militância na literatura, como poeta e como jornalista, e suas preocupações com a vida cultural da cidade. É um bom começo, mas o passado e o espírito de corpo evaporam assim que você assina o primeiro despacho e se transforma em vidraça.

Todos esperam aperfeiçoamentos no setor e te cobram com a devida polidez. Entre eles, os que temem perder benesses construídas por relacionamentos nos porões do poder. É tempo de esperar, pois ainda não dá para conhecer como se alimentam os choques de egos nas coxias.

Imagino que você tenha consciência do quanto terá que ser paciente, articulador e, principalmente, criativo. Não se faz nada na cultura sem dinheiro. E sua pasta não integra a lista dos novos ricos. A Secretaria de Cultura é tradicionalmente uma das áreas com menor orçamento. Alcançar 3% merece comemoração com fogos de artifício na orla da praia.

Você, como secretário de Cultura, terá que queimar suas cartas políticas para atrair gente interessada em investir na área. Alguns artistas e produtores conhecem os meandros da legislação e do contato com o setor privado e se viram – isoladamente – para parir seus projetos. O secretário é o eletricista que une os fios soltos, dá consistência à rede e evita curto-circuito pelo caminho.

A Secretaria tem a obrigação de conceber vida à cultura local pelas miudezas. Os tubarões do show business se viram normalmente. Não dependem da pasta. Até mamam de vez em quando, mas é refeição circunstancial. Eles contam com patrocínios e apoios suficientes para sobreviver. Fizeram isso até agora. Não caia na armadilha da megalomania. É suicídio político.

Além disso, acredito que seja papel da Secretaria levar as artes onde o cinza da miserabilidade é a cor predominante. Os bairros periféricos precisam de respiração artística, para conhecer os mestres locais e formar seu próprio polo de criação. Exemplos como o projeto Arte no Dique indicam o quanto é possível alterar endereços cuja infraestrutura representa artigo de luxo.

Sua estrada como secretário municipal de Cultura pode ser marcada por uma mudança de mentalidade. Mais do que redesenhar o modo de se fomentar recursos financeiros, a Secretaria precisa provocar a reflexão sobre como a sociedade local trata seus artistas. Eles apanham como cachorro sem dono. É repulsiva a ideia de que contratá-los é fazer um favor a eles. Nas entrelinhas, prevalece a ideia de que cultura deve ser de graça. Para o público, quase sempre. Para o artista, apenas oxigênio não coloca comida na mesa.

A face mais nociva da província é acreditar que santo de casa não faz milagre. Assim, qualquer coisa serve. Pelo contrário. Os artistas precisam de formação, de espaços (ressuscite o Teatro Rosinha Mastrângelo, por favor!) e de remuneração adequada. Talvez você consiga matar o cinismo de quem comemora o sucesso de artistas fora daqui, sem se lembrar de que isso ocorre por esforço próprio e que o êxodo é compulsório por falta de alicerces. 

Nós nos conhecemos há quase duas décadas. Você foi um dos meus primeiros chefes no Jornalismo. Nos últimos anos, costumamos nos encontrar em programas de rádio para debater questões públicas da região. Aliás, é diálogo que a classe cultural deseja. Até porque sei que você carrega consigo a premissa de que a Cultura não é uma caixa-preta enterrada em cofre.

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

Um poema perigoso


Por Márcio Calafiori

O militante de esquerda deve acusá-lo de traidor e de pequeno-burguês, se é que essa terminologia existe ainda; o conservador, ao contrário, com certeza terá ímpeto de esfregar na cara do primeiro esquerdista que lhe cruzar o caminho o livro de Roberto Ampuero, Nossos anos verde-oliva, da Benvirá. No entanto, em ambas as situações, o leitor estará errado. Pois antes de ser político o romance autobiográfico do escritor chileno é um tratado sobre a desilusão.

Tudo começou quando ele militava na Juventude Comunista, organização que apoiou o presidente Salvador Allende em sua tentativa de instaurar o socialismo no Chile. Em 11 de setembro de 1973, liderados por Augusto Pinochet, os militares tomaram o poder. Acuado e sem saída, Allende teria se matado com um tiro na cabeça. 

Perseguidos sem trégua — os presos políticos apareciam boiando no rio Mapocho com sinais de tortura e balaços na nuca —, os militantes que tiveram a sorte de não caírem prisioneiros fugiram do país. O estudante Ampuero foi um deles — pediu asilo na Alemanha Oriental.

Morando agora num alojamento universitário em Leipzig, com refugiados políticos de outros países, o jovem idealista, leitor de Max e Lênin, sonha em retornar para o Chile. As notícias, porém, não são animadoras. Pinochet impôs uma ditadura sanguinária, rancorosa. 

Circulando na cidade alemã, o rapaz conhece Margarita, uma cubana linda, de olhos verdes, filha do comandante Ulises Cienfuegos (personagem real, mas com nome fictício). Só bem mais tarde, e já casado, é que ele descobrirá que o sogro é chamado pelas costas, até mesmo pelos partidários, de Charco de Sangue. 

Nos anos iniciais da revolução o papel que este desempenhou, como homem de confiança de Fidel, foi o de matar às centenas os que se opunham ao regime, os chamados contrarrevolucionários, sem que isso lhe pesasse na consciência. Daí a alcunha. O antigo comandante terá ainda um peso enorme na vida de Ampuero.

Pressionado por Cienfuegos a se mudar para Cuba, a única condição que lhe permitirá casar com Margarita, o rapaz se rende aos fatos. A partir daí o relato se adensa. Pouco a pouco o leitor vai submergindo na composição dos detalhes de como o ideal político é suprimido, de tal modo que a vida agora é um enredo medonho, inventado por Kafka ou por Orwell. 

Uma das epígrafes de Nossos anos verde-oliva é o trecho de um poema de Heberto Padilla, um dos intelectuais cubanos perseguidos por Fidel e que também é personagem do livro: Não esqueças, poeta./ Em qualquer lugar e época/ em que fizeres ou sofreres a História,/ sempre estará a espreitar-te algum poema perigoso.

Travada na engrenagem dominada por sujeitos espertos que conseguem usufruir o que o poder proporciona de aprazível e de luxuoso — estes jamais deixam de lado o discurso marxista, é claro —, a existência de Ampuero se torna um poema perigoso. Ingênuo, ele custa a crer que a linda Margarita, com o apoio do pai, é capaz de tudo a fim de garantir para si o cargo que tanto almeja na Federação de Mulheres de Cuba. 

Na ilha, o homem só adquire importância, e ainda assim relativa, se fizer parte de alguma agremiação política. O dia a dia é submetido pelas palavras de ordem, pelos discursos, pela concordância, pelo culto à personalidade, pela hipocrisia, pela delação, pelo medo e até pelo ato extremo do suicídio. 

Não era nada disso que o jovem Ampuero sonhara um dia. De sã consciência quem seria contra o ideal da igualdade, do ser humano irmanado? É então que o narrador descobre dolorosamente: a política é aquilo que não se vê.

Estudante de Letras, avesso às armas e ainda por cima amigo de um poeta maldito, Ampuero passa a ser desacreditado na organização onde milita em Havana, denominada Juventudes Comunistas do Chile. Da noite para o dia conhecidos seus somem. A versão é a de que podem estar lutando em algum conflito longínquo em que Cuba tem interesse. Mas nunca se sabe e jamais se toca em assuntos dessa gravidade sem ser duramente advertido. 

Ao redor, tudo o mais contribui para o pesadelo: o calor, a umidade pegajosa, a pobreza, as filas intermináveis, a falta de gêneros alimentícios, a cerveja morna e o rum vagabundo, as constantes campanhas de Fidel para tentar recrudescer na alma de cada cidadão — melhor dizendo, de cada companheiro — o compromisso com a revolução.

Nem seria preciso dizer: Nossos anos verde-oliva é proibido pelo governo castrista. No entanto, isso não significa que a autobiografia do escritor chileno não circule clandestinamente na ilha. 

Publicada em 1999, só agora foi editada no Brasil. O autor a definiu de “romance autobiográfico” porque muitos que figuram em suas páginas estão vivos ainda. Estes tiveram os nomes inventados. Já os personagens históricos aparecem com os nomes verdadeiros.

No fim dos anos 1970, ao cair em desgraça em Cuba ao renunciar à organização na qual atuava, o desamparado Ampuero se põe a refletir: “Em que momento havia se posto em movimento aquele círculo infernal que me fizera naufragar na ilha e me impedia de fugir dela? A única coisa que eu havia desejado era uma pátria melhor.” Eis aí a desilusão, o sentido exemplar da obra.

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Os 50 anos da cartilha da lavagem cerebral



Por Márcio Calafiori

Um dos grandes lançamentos de 2012 é a edição especial de 50 anos do Laranja Mecânica, de Anthony Burgess, pela Aleph. Mas dizer isso é pouco. Uma das coisas que me levam a pegar um livro é o seu aspecto físico. Algumas vezes faço questão de comprá-lo por causa do formato e outras em função do design, no que este apresenta de belo, criativo ou empolgante. O Laranja Mecânica que tenho em mãos é tudo isso. 

Olhando a sobrecapa, com a garrafa de moloko no fundo laranja, lembrei logo dos trabalhos de Andy Warhol. O autor do projeto gráfico, de inspiração pop, é Pedro Inoue. A edição de arte é sensacional: extremamente bem cuidada, detalhista, com a presença psicodélica do laranja e mais as ilustrações de Angeli, Dave McKean e Oscar Grillo.

Além do esmero gráfico, a edição traz páginas originais anotadas e desenhadas, uma entrevista e ensaios inéditos de Burgess. Nestes, além de explicar o significado da expressão laranja mecânica e a origem da obra, o autor inglês aborda a polêmica insistente que começou dez anos depois da publicação do livro — fenômeno que só ocorreu por causa do filme de Stanley Kubrick.

Desde 1962 Laranja Mecânica vinha cultivando cada vez mais leitores que ficavam impressionados com a história do pequeno Alex e seus druguis ladrões, drogados e assassinos. Mas até o surgimento do filme, em 1971/1972, Burgess era um autor que conseguia exercer em paz o seu ofício, segundo ele, inofensivo. Laranja Mecânica não seria nem mesmo o seu livro predileto, talvez até o de que menos gostasse. 

Escreveu-o assim como produziu outros mais, em série, preocupado em ganhar dinheiro, a fim de deixar a mulher numa situação financeiramente confortável, já que ele, Burgess, fora diagnosticado como portador de um tumor no rassudok e logo, logo estaria morto. Mas o diagnóstico revelou-se falso e o autor só veio a falecer em 1993.

Os ensaios tratam ainda da visão de Burgess sobre o efeito da religião em sua vida pessoal — era católico —, e a violência praticada pelos jovens, que chegou a ser acusado de incentivar. Claro, o autor fala também do filme de Kubrick, ao qual assistiu num cinema de Nova Iorque, disputando aos empurrões uma fila imensa.

Burgess louvou o filme, embora jamais perdesse a oportunidade de ironizar Kubrick, pois o considerava tão autor de Laranja Mecânica quanto ele. Neste aspecto, existe algo fundamental que talvez Kubrick não soubesse quando decidiu filmar o livro ou então não se interessou em saber: existe a versão inglesa da obra, com o capítulo final que Burgess escreveu, redimindo Alex, e a versão americana, que cortou este capítulo por considerá-lo uma concessão que não tem nada a ver com a distopia proposta ao longo de Laranja Mecânica, uma das mais importantes da literatura do século 20. Kubrick filmou a versão americana, reduzida, e o filme e o livro fizeram história.

Antes da tradução de Fábio Fernandes para a Aleph, eu havia lido a de Nelson Dantas para a Artenova (1972), que é a mesma da Ediouro (1994). Portanto, ao saber por um amigo do lançamento da edição comemorativa de Laranja Mecânica, a primeira coisa que perguntei foi se o tradutor era outro, pois a Aleph já lançara uma edição anterior, em 2004, e eu não gostara do nome dado a um dos druguis de Alex: Tosko.

Dantas chama este mesmo personagem de Tapado. Pois eu preferia Tapado. Só por esse detalhe fiquei com má vontade em relação àquela edição da Aleph. Agora, pensando bem, Tosko é de fato uma solução muito boa encontrada pelo tradutor Fábio Fernandes — que é o mesmo desta edição de 50 anos — para definir o maltchik boçal, da gangue de Alex.

No aspecto editorial me frustrei apenas de que a grande repercussão da obra de James Joyce na de Anthony Burgess tenha ficado um tanto quanto pálida nos preâmbulos da obra. Comentei com o mesmo amigo que me falou sobre o lançamento do livro e ele me respondeu que a influência de Joyce está em toda a obra de Burgess, e não apenas em Laranja Mecânica. Ok. 

Mas a influência mais visceral de Joyce em Burgess está no uso dos neologismos, das gírias, da pesquisa intensa da fusão de palavras, na criação da linguagem nadsat, de tudo, enfim, que fez Laranja Mecânica ser o que é. Gostaria de ver isso explicado com menos pressa nesta belíssima edição da Aleph. Penso que um leitor se ganha assim — pois um livro sempre leva a outro e outro e outro.

Falei antes que Laranja Mecânica teve duas versões, a inglesa e a americana, com finais diferentes. As edições brasileiras, desde sempre, trazem a versão inteira, de acordo com o final que o Burgess enfatizou a respeito de Alex, um garoto de treze anos violento, mas de extremo bom gosto, cultor de Beethoven.

E em todas figura o dicionário da linguagem nadsat, falada pelos personagens. O autor era contra a inclusão disso nas edições da obra. Jamais lhe deram trela. Mas o seu argumento para que o glossário seja desprezado pelo leitor merece ser considerado: entender a linguagem nadsat, composta de palavras russas misturadas com inglesas, sem recorrer à tradução seria como sofrer a violência ao qual Alex se submete em troca da liberdade.

Assim, de acordo com Burgess, Laranja Mecânica funciona como uma cartilha sobre o que é a lavagem cerebral. Neste aspecto, seguindo o que autor pensou, eu mesmo teria sofrido o processo atroz da lavagem, pois pouco recorri ao glossário. Tanto que no texto que você acaba de ler utilizei um pouco de nadsat. Se não reparou nisso, o manipulador Anthony Burgess iria adorar.

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

Guia de Apoio aos Anônimos



O filósofo contemporâneo (e deputado federal, nas horas vagas) Paulo Maluf é um grande criador de frases. Muitas delas são atribuídas a ele, talvez pela relação com a prática política. Outras são rejeitadas por este senhor octogenário, mesmo diante de uma gravação da própria voz.

Uma das sentenças mais famosas – e folclóricas – creditadas a ele, e de que Maluf assume a autoria, é "Falem mal mas falem de mim", muito embora a autoria seja de outro. "Falem mal mas falem de mim", é canção de Mário Pinto e Ataulfo Alves, sucesso na voz de Aracy de Almeida, nos anos de 1930, quando Maluf ainda usava calças curtas.

A sentença deixou de ser um clichê somente entre políticos, espalhou-se por celebridades e outras subespécies de mídia e agora contaminou as redes sociais. A febre do reconhecimento para ontem faz com que muita gente caia na armadilha das polêmicas de um dia e tenha uma opinião fragilizada sobre tudo, parafraseando alguém bastante lembrado por aqui.

Para domar as tentações virtuais, estou divulgando o Guia de Apoio aos Anônimos, criado por especialistas que – obviamente – preferem não se identificar. Trata-se de uma publicação de autoajuda com o propósito de combater a autoexposição que conduz à autoflagelação na internet. O Guia se baseia na fórmula que dissolve a profecia apropriada por Maluf. São doses cavalares de indiferença, que levará o leitor à irrelevância, ao anonimato absoluto.

A primeira regra consiste em não se posicionar sobre reality shows. Não assuma para si nenhuma das brigadas de incêndio. Entrar para a seita que demoniza o programa em idade adolescente e mentalidade infantil significa elevar a audiência dele. E mentir para si mesmo, quando você descobrir que sabe de cor e salteado o nome de todos os integrantes da casa.

Jamais participe de correntes, listas de assinaturas, campanhas pró-bichinhos exóticos e outras cruzadas para retirar produtos da mídia do ar ou condenar pseudocelebridades que se manifestaram, com superficialidade, sobre qualquer assunto que juravam conhecer. Quanto maior o blá-blá-blá, mais numerosas as chances de se criar produtos com base no original (que já é uma cópia!).

Se o teu jogador preferido mudar o corte de cabelo ou arranjar outra mulher, silêncio monástico. Nem uma linha a respeito. Nem 140 caracteres de sabedoria. Assim, você pode evitar que outras pessoas cometam crimes contra os próprios filhos no barbeiro ou desejem a mulher que jamais terão, ainda que bebam um galão de cerveja e alucinem visualmente na vida noturna.

Caso seu amigo, peguete, parente ou seguidor de rede social (que podem ser todos na mesma pessoa) resolva postar fotografias de refeições, contenha a fome de curtir, comentar ou compartilhar. Ele saberá que você se consome de inveja enquanto dilacera em menos de dez minutos aquele almoço por quilo clonado cinco, seis vezes na semana. O vácuo na resposta o deixará salivando por conta da indiferença gastronômica. Quem sabe ele entra de dieta?

Ah, o mesmo vale para viagens. Você nunca vai conhecer o lugar ao vivo. Falar na cidade da sua avó, no interior, como réplica, soa como despeito, além de não ser paradisíaca. Caso contrário, sua avó não moraria lá! E não minta! A desculpa de que as fotos queimaram não cola.

Saudações como bom-dia, boa-noite e afins devem ser ignoradas. Não são para você! Qual é a chance de ele falar contigo entre os 1.529 amigos do Facebook? Ainda mais que, quando se esbarram na rua, ele (ou ela) não te cumprimenta? Lembre-se: facers é o sobrenome que não consta na sua certidão de nascimento, seja no cartório, seja no seu apelido na internet.

Se pretende impressionar alguém com arroubos de inteligência, evite as frases prontas de romancistas, filósofos e poetas. Provavelmente não foram eles que as escreveram. Se o fizeram, o contexto é outro. E não tem como você provar que leu. Jamais, nunca, cite trechos do Guia de Apoio aos Anônimos. Só em casos promocionais, que disseminam com maior rapidez a picaretagem, e as vendas, deste almanaque.

A fundação, cujo nome será mantido em sigilo, pede que não me estenda mais. Até porque o candidato a best-seller ainda é inédito. Apenas um conselho: se a urticária virtual dominar suas extremidades e você não suportar a ânsia de legitimação alheia, siga o mesmo filósofo citado no início deste texto quando precisa ser defender: “Nada a declarar.”

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

O plantador de sementes


Quando você tem o primeiro filho, o amor te corta sem anestesia, no limiar da dor insuportável. Quando o segundo filho chega, nasce a certeza de que as noites de sono nunca mais serão completas. Quando ambos estão juntos, cresce a confirmação de que dois braços significam trabalhar no limite do descontrole. Quando eles estão com você, a convicção de que cada experiência deve ser vivida, de que cada fase exige adaptação sua para acompanhá-los.

Vinicius está com três anos. Fala como se fosse personagem de desenho animado. Absorve palavras como se o Bob Esponja estivesse encarnado nele. Armado de teias imaginárias, adora se apresentar como Ben 10 ou Homem-Aranha. Quando você o chama, costuma dizer: “Estou a caminho!” Ou quando vê um grupo de jovens na rua: “pai, os caras estão nos seguindo?”

Ao te contar uma história, pede confirmação: “Você entendeu?” Outro dia, contente, disse para a avó: “Vovó, você é muito aquática.” Uma ligeira gafe do computador em carregamento acelerado.

Na semana passada, sentamos para ver um filme. Era Lôrax, uma animação com mensagem ecológica. Conta a história de um menino que vive numa cidade artificial, onde o ar fresco é vendido em frascos. Irrequieto, o garoto escapa da cidade e descobre um senhor que vive isolado no meio de uma terra arrasada, cinzenta e estéril. Ali, é convencido pelo senhor que precisa buscar a última semente e plantar uma árvore no meio da cidade.

Acompanhamos a história com refrigerante e pipoca, como mandam as regras do ritual. No final do filme, Vinicius estava agarrado ao balde de pipoca, catando as sobreviventes em meio ao monte de milho que não havia estourado.

Peguei o balde e guardei comigo. Ao final do filme, Vinicius se levantou e apanhou o copo de refrigerante, com dois dedos de água gelada. Era gelo derretido, final de feira. Acreditei que ele fosse tomar a água. Disse que não podia. Ele repetiu o gesto. Tornei a dizer não.

Vinicius se afastou do copo, colocou a mão dentro do balde e apanhou um punhado de milho. Virou-se para o copo e fez o movimento de jogar o milho dentro da água. Chamei a atenção dele, que me respondeu:

— Pai, vamos plantar a semente na água para virar árvore.

A gargalhada foi geral. Logo depois, as cicatrizes que não latejam. Sempre achamos que crianças pequenas, por causa das limitações de linguagem, estão entorpecidas ou ficarão indiferentes aos conteúdos que passamos para elas. Ou que a deixamos expostas, como se os efeitos correspondessem a placebos audiovisuais.

Vinicius digeriu, a seu modo e velocidade, o que o desenho se esforçava em transmitir. Com um balde de pipoca, percebeu o que muitas aulas nas escolas são incapazes de passar. E reagiu de maneira espontânea, sem estímulos forçados ou comandos que agradam adultos e os transformam em ventríloquos com amnésia.

O mais importante, no entanto, foi que ele nos apontou qual o caminho para compreender e dialogar sobre o desenho que acabamos de assistir. Coincidência ou não, no dia anterior, Mariana, minha filha de 10 anos, o havia ensinado a regar as plantas da casa. Passo a passo, a lição inclui até a troca de algumas palavras com elas.

Não sei se o menino-ecologista conectou as duas experiências, mas que as duas ideias grudaram como cola, isso é fato. Tanto que Vinicius pediu para repetir as duas coisas no dia seguinte. Quis ver o filme novamente e tratar das plantas. 

Mariana, guardiã incansável do irmão, reagiu a sua maneira. Dez minutos depois que o plantador de sementes explicou como funcionava a agricultura familiar via cinema, ela se sentou em frente ao computador e escreveu, no blog dela, sobre o filme que acabara de ver. 

Talvez Vinicius tenha conseguido plantar, sem ver, outra semente rica em desenvolvimento, que completava o verde que jamais poderia imaginar dentro da minha casa.

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

A senhora cega e as pessoas "de cor"



A Fifa finge que não dói e os casos se repetem. Na semana passada, mais dois problemas de racismo no futebol italiano. O abandono do Milan, no amistoso contra o Pro Patria, da quarta divisão, cujos torcedores xingavam o meia Kevin-Prince Boateng.

No último domingo, parte da torcida da Lazio foi abafada por vaias, após executar cânticos racistas contra o atacante colombiano do Cagliari, Victor Ibarro. A partida valia pelo campeonato nacional.

O governo italiano pediu, na última segunda-feira, medidas mais duras contra as torcidas racistas. A ministra do Interior, Annamaria Cacelieri, defendeu o gesto do Milan e a exclusão de torcedores dos estádios.

Enquanto isso, o presidente da Fifa, Joseph Blatter, novamente se fez de velha senhora. Agarrado a velhos valores, paquidérmico nas decisões, Blatter reconhece o óbvio – a delicadeza do problema -, mas a entidade permanece sem tomar medidas drásticas contra a discriminação racial no esporte. Justifica a inércia com burocracia.

Os incidentes se multiplicam pela Europa e não são novos. Houve suspensão de jogador na primeira divisão inglesa na temporada passada. Inúmeros conflitos na Copa Europeia de seleções, na Polônia e na Ucrânia, em 2012. Jogadores brasileiros foram chamados de macacos em partidas no Leste Europeu e no Campeonato Russo.

Quem não se lembra do camaronês Samuel Eto’o, que abandonou uma partida do Barcelona em março de 2006, contra o Zaragoza? O mesmo atleta foi xingado por torcedores do Cagliari, quando atuava pela Internazionale, de Milão.

O Milan está absolutamente correto em abandonar o campo diante de insultos racistas, embora permaneça a dúvida se a mesma medida seria tomada em partidas oficiais pelo campeonato nacional. Ao menos, um time da elite internacional resolveu se manifestar com veemência e ressuscitou o assunto na mídia.

Independentemente disso, os donos das canetas ainda fazem vistas grossas para o problema. Clubes são co-responsáveis por seus torcedores, muitos deles pertencentes a facções com trânsito livre entre dirigentes, e, por isso, merecem perder mandos de jogos, pontos e até serem suspensos de participação em campeonatos.

Como o futebol é tratado e funciona como negócio, nada mais coerente do que mexer no bolso das agremiações. Jogar com portões fechados – e sem renda – seria outra sugestão para punir os coniventes.

Racismo é um ato criminoso e deve ser visto como tal. Torcedores racistas devem ser identificados e responsabilizados criminalmente por suas ações. Seria o mesmo tratamento dado aos hooligans, que ainda se multiplicam pela Europa, mas tiveram seu raio de ação reduzido por programas de tolerância zero.

É evidente que o futebol representa um termômetro da sociedade onde está inserido. É caixa de ressonância cultural, política e econômica. Mas esta justificativa serve como instrumento de naturalidade para um tumor social que precisa ser extirpado dos estádios. E não adiantam mais comerciais de TV ou faixas de boas intenções quando jogadores entram em campo. As campanhas supostamente educativas se mostraram estéreis. 

Até quando assistiremos a declarações omissas, como a do presidente da Fifa, ou cínicas, como do presidente do Pro Patria, que ofereceu as tribunas do estádio para as pessoas “de cor”? Quer convite mais racista?

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

Encontro com a mãe


Ele sempre seguia o fluxo. Era uma forma de não ser visto, mas também significava a fórmula para ser aceito. Considerava-se comum, normal mesmo, enquanto sonhava em ser reconhecido como alguém diferenciado. Naquela noite, manteve a coerência do rebanho. De branco, foi até a praia. Tomou um gole de champanhe e exalou simpatia, inclusive com os parentes de língua solta.

Quando chegou a hora das sete ondas, tirou os chinelos e andou até a beira do mar. Sentiu-se como aquelas crianças do interior na praia, não pela euforia, mas pela sensação de ser um alien na própria terra, novato diante da maresia.

Pulou a última onda com a cabeça longe dali. Mal sabia se saltara sete vezes. Acompanhou a mulher ao lado. Se ela errou nas contas, paciência. A ceia o esperava. Esbanjaria conversa fiada, temperada com algum conhecimento de almanaque e, assim que baixassem a guarda, sumiria à francesa. Obrigação social cumprida.

Caminhou uns 15 metros e viu uma senhora, sentada de pernas cruzadas, de vestido azul claro. Ela estendeu a mão direita. Maldita hora em que manteve contato visual. Erro grave quando se encontra com mendigos.

Ela segurou no braço dele e disse:

— Não se preocupe. Não quero seu dinheiro que, aliás, você não tem. Diga isso aos dois bancos que costumam te telefonar todos os meses.

Mesmo com o susto, ele conseguiu rebater:

— Como a senhora sabe?

— Uma mãe sempre sabe, sempre sente o sofrimento de seu filho.

— A senhora tem muitos filhos? Deixaram a senhora aqui sozinha?

— Quem te disse que estou sozinha? Estou cercada deles. A maioria se lembra de mim apenas quando precisa. Nesta época do ano, prometem mais do que político em campanha. Promessas quase sempre impossíveis diante de uma estrada sem curvas, previsível.

Quando viu, estava sentado ao lado dela. Era o sinal para cortar o papo. Puxou o fone de ouvido e ameaçou se levantar, quando ela falou:

— Filho, não adianta se alimentar deste barulho. Ele não cala o silêncio do vazio. Você finge se isolar, mas continua dependente.

— Dependente do quê, senhora?

— Viciado no rebanho. Deseja a diferença, mas digere o igual. Sua vida, meu filho, é mais adestrada que uma praça de alimentação. Você, como muitos de seus irmãos, come o que vê e, por isso, só acredita no que conhece.

— Boa palavra. A senhora não me conhece!

— A mãe sempre conhece seus filhos.

— A senhora se julga minha mãe?

— E eu te espero aqui, à beira do mar, ainda que não me veja. Ainda que não me sinta. Quem garante que você retorne sempre que entra no mar?

— Mas eu não entro nesta água suja.

— O mar está além da água. E a sujeira não está na areia ou entre as ondas. A sujeira reside na forma como nos entendemos com ele.

Ele se cansou. Entendendo ou não, ele tinha uma certeza: não precisava de uma nova mãe. Ainda mais uma que o deixava sem respostas. Levantou-se, se despediu com boa noite e acenou para a senhora.

Andou mais uns 20 metros e encontrou a irmã.

— Mana, tive um papo maluco com uma senhora logo ali. A mulher cismou que era minha mãe.

— Onde? Só se ela se perdeu na multidão. Ou saiu correndo.

— Correndo? Com aquela idade? Ela estava ali, de vestido azul claro.

— Ah, tá. Então, você viu Iemanjá?

— Iemanjá? Não acredito no que não vejo. Sou como São Tomé.

— Nunca viu nossa mãe na igreja?

— Confessar? Comunhão? Missa? Jamais.

— Quem falou disso? Vá e veja a imagem de Nossa Senhora. Talvez sinta a conversa com nossa mãe. O nome dela, aliás, é o que menos importa.