sábado, 28 de dezembro de 2013

Um homem (in)coerente





O cantor Celso Lago, uma das maiores vozes da história de Santos, faleceu neste sábado, no Hospital Guilherme Álvaro, onde estava internado há 10 dias. Ele sofria de câncer no pulmão. O velório será na Beneficência Portuguesa. O sepultamento, no Cemitério do Saboó, às 16h30 deste domingo.  


Ouvi Celso Lago em diversos lugares, de navio de cruzeiro a bares, do Museu do Café ao Teatro Guarany, sempre com um rico repertório e interpretação sensível e única. 

Em homenagem a Celso Lago, republico este texto - sem alterações - escrito em março de 2012. Como maior reconhecimento, o agradecimento e um abraço do cantor naquela oportunidade. Celso, muito obrigado por todas as vozes que habitaram em você.

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Celso Lago é um cantor que teima em ser incoerente. Ao vê-lo pela primeira vez, é compreensível confundi-lo com um soul man ou com um sujeito adepto de repertório mais agressivo, de voz que exige timbres mais altos no limiar do barulho. Um cantor perfeito para os fiéis de baladas onde se é impossível conversar. No máximo, aderir à competição de berros ao pé do ouvido entre frases dispersas.

Com quase um metro e 90 de altura e o corpo de quem faria a segurança do próprio show, Celso Lago interrompe as conversas de mesas de bar quando abre a primeira música. De um homem predestinado a se impor pela força, ele exala a delicadeza dos sábios. Quem o acompanha pelos botecos, restaurantes, casas de shows, teatros e até navios de cruzeiros se silencia para compreender o paradoxo com o microfone em mãos.

Revi Celso Lago em seu território. Só o conheço ali, no palco. Pompa e circunstância não existem. Como um operário musical, basta um banco, uma pasta com partituras e um músico ao lado, seja ao piano de um navio ou ao violão de Bheto Alves, parceiro de vida noturna em boteco. Ao fundo, um cenário imaginário que se transforma após os aplausos de continue, por favor.

Como muitos seguidores, sai de casa para assisti-lo. Seu território, um boteco na esquina de duas vias de trânsito intenso, numa quinta-feira qualquer. A voz de Celso calou – para prazer de seus ouvintes em coro e olhares fixos – o ruído linear da vida moderna entrecortada por semáforos.

O cantor, reconhecido no microcosmo do palco que aproxima público e voz e anula o bate-papo paralelo das mesas, parece carregar a música popular brasileira nos ombros. Talvez sejam as costas largas de quem sangra a fragilidade de Djavan e transpira a delicadeza de Emílio Santiago na potência corporal de Tony Tornado.

Celso Lago é um craque discreto. Reverencia quem o agradece pela poesia em voz alta e engata uma conversa pós-show com quem se chega perto dele para dizer obrigado. A riqueza de repertório permanece latente nas análises musicais e nas escolhas e pedidos atendidos em mais uma noite única.

A discrição do craque mora na habilidade do crooner. Em navios de cruzeiro, Celso sabe que está a serviço da música. Contentar-se, mesmo que provisoriamente, com o anonimato é a compreensão mais profunda do papel do artista. Nos navios, a impressão é de que o cantor pode prescindir de si para que a música de outro, em absoluto, prenda a respiração de quem o ouve.

A postura é inabalável também em estúdio. No CD Prisma, lançado no ano passado, Celso divide a interpretação com Larissa Finocchiaro, mais a participação de Renato Braz. Em Prisma, Celso é feito de vidro, no limite da ruptura em cacos, dando vida ào lirismo de Bruno Conde. É um trabalho que reivindica ser ouvido várias vezes, para que possa ser honesto com as múltiplas leituras possíveis, na voz, na letra, na melodia, e no casamento coletivo entre elas.

Em Santos, Celso está proibido de ser mais um. Nos botecos e outras praças, seus pares, amigos e ouvintes ocasionais descobrem – cedo ou no final da noite – que a casa está sempre aberta a versatilidade da MPB. O motivo é que o intérprete, capaz de dar às escolhas alheias variações que jamais comprometeriam a versão original, ao mesmo tempo que nunca soariam como imitações clonadas ou histriônicas.

Celso Lago nos enganará mais uma vez neste sábado, dia 24 de março. Fingirá ocupar o palco do Teatro Guarany com a estampa física para preenchê-lo com a suavidade que mascara a força de sua voz. Celso se apresentará ao lado de Nadja Soares no show “Chico Buarque em três tempos – mulheres, crônicas e política”.

Infelizmente, Chico não encontrará Celso. Não vai testemunhar um intérprete alcançar as flores na violência da ditadura. Mas poderia ver o cantor de aparência improvável enriquecer seus clássicos com a coerência de quem sempre consegue parir, sem dor, uma nova via musical.

quinta-feira, 28 de novembro de 2013

O velho e o garoto


Tenho 39 anos. Sou jornalista desde 1992, quando cobri uma eleição para a Prefeitura de Santos, cidade onde moro, no litoral de São Paulo. Sempre me considerei um profissional de sorte, não apenas por trabalhar em bons lugares e ter ficado desemprego somente por 15 dias neste período, mas também por estar cercado de jornalistas talentosos, muitos deles meus professores, dentro e fora da universidade. 

Ultimamente, tenho me sentido um jornalista velho. Não se trata de biologia, muito menos de mentalidade, o pior dos sintomas que cercam a velhice. Aprendi, desde a graduação, a necessidade de atualização constante e a busca por solidez e renovação cultural. O estudo se tornou diário, de certa maneira um vício prazeroso que serve como entendimento para a sobrevivência na profissão.

Velho não significa obsoleto. Velho significa que enfrento dificuldades cada vez maiores para exercer minha profissão, o que demanda esforços mais agudos para superá-las. São obstáculos que transitam entre os valores clássicos que norteiam o Jornalismo e a observação de práticas cotidianas.

A profissão enfrenta uma fase difícil, de sucateamento da atividade, em parte por nossa responsabilidade, porque não soubemos lidar com as mudanças no tratamento da informação. Permitimos que nosso papel comprasse uma passagem rumo à substituição, à dispensa nos processos vorazes de mídia.

A outra parte do que me incomoda fica na conta das empresas, que açoitam seus profissionais na corrida por fazer mais com menos gente. A trajetória de informatização das redações – inevitável dentro de um contexto muito mais amplo, claro – resultou na industrialização definitiva da notícia, na padronização de conteúdos, na perversidade do jornalismo copia-e-cola e na ditadura da superficialidade justificada pela ilusão do tempo real.

Neste caso, multiplicam-se relatos de colegas que adulteram o horário da publicação para justificar o furo de um, dois minutos. Talvez tenham que reaprender o que seria furo jornalístico. 



Neste cenário, vejo jornalistas recém-formados com salários de R$ 800 a R$ 1300 em assessorias de imprensa. Produtores de TV que recebem R$ 1500, em média. Assisto também a colegas que, depois de 20, 25 anos de profissão, ainda lutam – com risco à saúde - para pagar as contas, rebolam diante do gerente da agência bancária e se arrastam exaustos por dois, três empregos.

Sinto-me velho porque olho para os lados e não enxergo sequer discussões sobre a sobrevivência da profissão. Viramos o personagem de Chaplin, que parafusa sem pensar na linha de montagem? Testemunho jornalistas acomodados, satisfeitos com a “morte” da reportagem. Muitos veteranos lavam as mãos diante de focas que insistem em produzir matérias sem se levantar da cadeira. Isso me lembra a briga de profissionais da Folha de S.Paulo com Paulo Francis que, certa vez, escreveu um texto apenas observando da janela. Hoje, talvez falte até a janela.

Sinto-me, eventualmente, como se fosse um dinossauro diante do inverno glacial que se aproxima quando me queixo da metamorfose das entrevistas. Entrevistas que são, na verdade, questionários, listas de perguntas enviadas por e-mail, in box de Facebook ou quaisquer outros recursos tecnológicos semelhantes.

A ironia é que nunca tivemos tantas possibilidades de entrevistar. As distâncias caíram a zero. Basta usar um simples programa como Skype para conversar com um sujeito em qualquer endereço. O telefone, antes um símbolo da preguiça jornalística, virou mérito em várias redações porque possibilita a réplica do repórter, o debate como qualquer entrevista merece e exige.

O sucateamento do trabalho jornalístico perfura a entrevista em sua essência. A velhice que traz a rabugice de quem procura – e por vezes não encontra – os detalhes sensoriais do repórter. A matéria que nos indica cheiros, detalhes visuais, gestos e demais características corporais da fonte, a profundidade que bons repórteres nos dão de presente, como analistas técnicos de perfis e biografias. 



A percepção de que muitos de nós, jornalistas, fomos atropelados pelo trem digital cresceu nos últimos anos. Como lição elementar, percebo um processo em curso, a transição que nos tortura com a crueldade da lerdeza. Como antídoto, adaptei-me de várias maneiras para jamais perder o poder de indignação, único combustível que previne contra a morte jornalística.

Deixei o mecanicismo das redações diárias e fui para a docência. Voltei ao mercado como colaborador de várias publicações para combater a repetência de conteúdos que costuma rondar a sala de aula. Diversifiquei modelos de texto e tipos de veículos para refrescar e experimentar.

Hoje, enxergo com clareza que talvez a próxima fronteira seja a criação e a militância no Jornalismo independente. Muitos estudiosos repetem o mantra de que o Jornalismo está fadado à venda de conteúdos, custeados de forma unitária pelos leitores. Uma história por uma moeda, quem sabe?

Estas mudanças conseguem, de tempos em tempos, me rejuvenescer, como cremes milagrosos que enganam paliativamente as rugas e outras marcas do tempo. Um dos remédios de eficácia comprovada é mergulhar no poço de informações e fisgar aqueles colegas que ainda militam no Jornalismo no qual tempo e tamanho do texto servem à importância da história a ser contada. Colegas que compreendem – sem precisar de autopromoção – que o Jornalismo se faz com cutucões e senso críticos aos velhos caciques, coronéis, engravatados e espécies correlatas.

Encontro refúgio em repórteres como Eliane Brum, Daniela Pinheiro, Leonardo Sakamoto, Caco Barcellos, Paulo Vinicius Coelho, Cristian Carvalho Cruz ou em experiências como a Agência Pública e a ONG Repórter Social. Ou nos livros-reportagem, último refúgio do reportariado que habita os galhos mais altos da árvore.

Depois de 21 anos, posso me sentir velho de vez em quando, mas ainda não desejo o coma ou a aposentadoria por invalidez, muito menos esperar para morrer atrás de um computador, após a leitura das últimas em cinco ou dez linhas esculpidas com a pressa mal remunerada.

terça-feira, 12 de novembro de 2013

Livro conta a vida de pessoas com doenças incuráveis

A obra foi publicada pela norte-americana Amazon

Discutir a possibilidade da morte é um tabu presente em inúmeras culturas. Rituais servem para aliviar o temor, mas também para amenizar as dores de quem poderá partir em breve. Numa sociedade que se alimenta do rejuvenescimento e da beleza, falar abertamente sobre doenças incuráveis representa uma barreira para muitas pessoas, inclusive médicos. 

As jornalistas Beth Soares e Jéssika Nobre conseguiram saltar este muro de silêncio e contar a vida de quatro mulheres da Baixada Santista. Em comum entre elas, enfermidades que podem apenas ser tratadas, jamais curadas, e o desejo imenso de viver.

Destas histórias nasceu Até o Fim, livro-reportagem publicado em edição independente, por meio da norte-americana Amazon. Beth Soares e Jéssika Nobre conviveram com as donas de casa Eguimar Mendes, Silvia Gonçalves, Sandra Coutinho e a veterinária Fabíola Perroni, além dos familiares delas.

Das quatro mulheres, uma delas, infelizmente, faleceu antes da publicação do livro. No entanto, todas sempre encararam doenças incuráveis com bom-humor e se negaram a assumir o confortável papel de vítima.

O livro Até o Fim também traz a experiência dos médicos Franklin Rodrigues, Ricardo Tavares e Ana Claudia Arantes que, ao abordarem o tema cuidados paliativos, tiveram que vencer o preconceito e a descrença, e hoje realizam trabalhos de sucesso.

A obra é originalmente um Trabalho de Conclusão de Curso de graduação em Jornalismo, pela Universidade Santa Cecília, em Santos (SP). O trabalho levou um ano para ser escrito, recebeu nota máxima, com publicação sugerida pela banca avaliadora.

Até o Fim teve apoio de três jornalistas: André Rittes, como orientador, Marcus Vinicius Batista, como revisor, e André Azenha, autor do Prefácio da obra.

O livro pode ser comprado pela internet, no endereço eletrônico Create Space.


sexta-feira, 8 de novembro de 2013

O rei é o dono da história?

Roberto Carlos falou, mas não disse nada
(Foto: reprodução/Rede Globo)

Assisti, na semana passada, às entrevistas do cantor Roberto Carlos, no Fantástico, e do escritor Paulo Cesar de Araújo, no Roda Viva, da TV Cultura. Paulo escreveu a biografia “Roberto Carlos em detalhes”, proibida de circular desde 2007, após acordo entre a editora Planeta, que publicou o livro, e o cantor.

Segundo o jornal Folha de S.Paulo, Roberto Carlos teria pedido a entrevista, e não a Rede Globo. O cantor enfrenta uma crise de imagem, associada ao autoritarismo e à censura. Cabe salientar que a jornalista Renata Vasconcelos fez as perguntas necessárias sobre a polêmica em torno das biografias não autorizadas, liberdade de expressão e direito à privacidade.

Roberto Carlos fez o que se esperava dele. Nunca disse não, escorregou por todos os lados e, na prática, manteve a opinião, ainda que dita de maneira mais leve, para enganar os apressados, muitos deles jornalistas.

O cantor disse que não era contra as biografias não autorizadas, desde que houvesse um acordo entre biógrafo e biografado. Se precisa de acordo, é óbvio que se trata de autorização, de salvo conduto para que se escreva sobre pessoas públicas.

Roberto Carlos usou seus colegas medalhões da MPB para atender aos próprios interesses. O Movimento Procure Saber, que reúne Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Djavan e Milton Nascimento, entre outros artistas, nasceu para discutir direitos autorais. No Brasil, o sistema de pagamentos (e de fiscalização) é mais bagunçado do que saída de show.

Roberto Carlos foi quem levou a discussão sobre o artigo 20 do Código Civil para o grupo. Foi ele quem ressuscitou o debate sobre liberdade de informação e privacidade, depois que a Associação Nacional dos Editores de Livros entrou na Justiça para forçar a queda do artigo.

O rei tentou redesenhar os fatos novamente quando disse que proibiu a circulação do livro porque era o único recurso daquela época. E que poderia conversar a respeito. Driblando as palavras, o cantor sabe que o artigo é o mesmo recurso jurídico disponível. Ele não vai liberar o livro.

O escritor Paulo César de Araújo repetiu o que Roberto Carlos dissera anos atrás. O rei é adepto da turma do “não li e não gostei”. O cantor nunca leu o livro que escreveram sobre ele. Aliás, a obra é fruto de 15 anos de pesquisas, pode ser encontrada na Internet, não divulga informações além das já publicadas (muitas presentes em letras do próprio cantor) e, no saldo, valoriza a importância o rei na cultura nacional. O foco da obra é apontar Roberto Carlos como fator de influência em movimentos culturais como a Tropicália.

Paulo César contou que o problema entre os dois era dinheiro, os lucros em torno do livro. Nada mais sintomático. No final da entrevista ao Fantástico, Roberto Carlos disse que começou a gravar depoimentos para uma autobiografia. Faltava alguém para escrevê-la.

O cantor explicou que ele é o único que pode contar a própria história. Ele tem o direito de fazê-la, mas daí entender que o rei é soberano absoluto sobre informações públicas soa arrogante, narcísico e controlador.

A História jamais é única. Mas, às vezes, tenta-se enterrar o óbvio. Nada mais infantil do que acreditar em verdades dogmáticas. Roberto Carlos tem como propriedade a versão da própria vida, o que não o exime de manipulá-la e pintá-las com cores mais fortes ou leves.

Cerca de 11 mil exemplares de “Roberto Carlos em detalhes” descansam há seis anos em um galpão custeado pelo cantor. Ali, reside o exemplo material de como podemos reproduzir a Inquisição. A lista de obras proibidas está aí. Falta apenas acender o fósforo para, paradoxalmente, iluminarmos as trevas à luz da fogueira.

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

O rato que se chamava beagle

Imagem cedida pelo entrevistado

Um amigo me apresentou um conhecido que tinha trabalhado perto de onde o autor deste depoimento mora. Depois do que aconteceu no Instituto Royal e do impacto na imprensa, ele resolveu falar sobre sua vida. Entendeu também que era o momento de se abrir, depois de certo distanciamento do calor dos fatos. Mesmo assim, foram dois dias de negociação até que ele aceitasse gravar uma conversa comigo. 

Abaixo, o depoimento do rato que, com medo de represálias de colegas, cientistas, ativistas e até celebridades, pediu para ser chamado de beagle, em homenagem a um amigo que fez durante o período em cativeiro. Preferi publicar em formato de depoimento para ser fiel às palavras dele, entremeadas por crises de choro e sorrisos nervosos.

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“Estava tudo em silêncio. A noite é sempre uma quietude só. Acho que era noite. Parece um cassino ou shopping porque nunca sabemos se é dia ou noite. Moramos num lugar afastado, que permite ouvir e admirar nossos amigos que voam lá fora. Sonhos todas as noites que posso voar. Até as baratas, que saem à noite para comer o que sobra, têm uma vida melhor do que a nossa. Elas podem simplesmente escolher.

Então, quando vi aquele monte de gente estranha entrando no Instituto, pensei: a cavalaria chegou. Não adianta, sempre penso as coisas da vida com os animais como personagens. Assim como as crianças, fico seguro. Alivia minha condição. Um colega de caixa de vidro jura que é maldição. Outro falou na semana retrasada em destino antes de desaparecer no corredor para um novo teste. Nunca mais voltou. Quem sabe está solto por aí?

As fofocas sobre o que fazem conosco variam entre medicamentos para salvar nossos donos das doenças e cremes e xampus para salvá-los da feiura. Estúpidos. Sempre tentam escapar da morte em vez de viver. E me usam, logo eu, que sempre vivi – desde que me conheço por rato de laboratório - exatamente no endereço onde morrerei.

Invejo meus primos dos esgotos. Vivem sujos, são odiados, se escondem para alcançar o amanhã. Mas são livres, comem o que quiserem, transam com quem desejarem, parem as ninhadas de qualquer jeito e convivem com seus filhotes. As marcas e cicatrizes que carregam nasceram das experiências com o mundo. As minhas são escolhidas por outros e suas agulhas.

(Depois de chorar por três minutos, “beagle” volta a falar) Mas não estou aqui para me lamentar. Estou aqui para me ajudar e a meus conterrâneos. Quem sabe alguém se sensibiliza e nos trata como uma espécie, e não como roedores de segunda classe?

Naquela noite, acordei com um barulho ensurdecedor. Havia demorado para dormir porque sabia que, no dia seguinte, levaria injeções, ficaria inchado e cheio de dores. São as experiências em prol da ciência, seja lá o que isso for. Escuto os homens de branco conversando sobre como somos úteis para combater diabetes, câncer e uma série de outras doenças. Eles morrem disso. A diferença é que sabem do que vão morrer. Nós, cobaias, descobrimos em espírito – se é que eles existem. Poderíamos pelos menos receber um aviso.

A barulheira assustou todo mundo. Os beagles, nossos vizinhos simpáticos, dóceis e ingênuos, se agitaram. Muitos latiram de medo. Outras pensaram que era hora de brincar. Para nós, ratos, a pergunta de toda hora: outras experiências?

De repente, vidros quebrados, portas arrombadas, gritos e correria. Rebelião? Fuga em massa? Não entendia. O cara da caixa de vidro ao lado, que chegara um dia antes, olhava para mim com olhos maiores que o formato da cabeça. Estava apavorado. Fiquei em silêncio. Era melhor observar e dar o bote, se possível. Vai que a liberdade me premiava naquela noite.

Era um bando de gente. Mulher, homem, jovem, velho, todo mundo começou a carregar os cachorros. Os beagles faziam aquela cara de sempre. Aqueles rostos bobinhos e aconchegantes de quem é fofinho e amado. Tenho inveja mesmo. Os caras são privilegiados. Também tenho pêlos, rabo, dentes. Posso ser uma gracinha. Se meus primos hamsters ganham rodinhas e correm para ganhar comida, por que não posso ter o mesmo privilégio? Não pedi para ser cobaia.

Ninguém nos pegava. As caixas de vidro pareciam invisíveis. Comecei a correr, guinchar, pular. Por que não me levavam na fuga? Sou mais leve que os beagles. Sou branco, que simboliza pureza e limpeza. Prometo não morder, pensei.

(Nova crise de choro. Soluçava como se tivesse perdido um parente próximo ou um amigo. Passa as patas nos olhos, respira fundo e sinaliza que vai falar novamente) Não me entenda mal. Um ponto não justifica o outro. O mundo não é assim. Branco ou preto. Queria a liberdade tanto quanto os beagles. Por que não tivemos chance? Levei mais de uma semana para entender. Quando entendi, resolvi falar sobre isso publicamente.

A questão não é o beagle pelo beagle. Eles mereceram sair. Mas tudo depende, tudo passa pelos homens, os que nos aprisionam e os que nos soltaram. É a relação emocional deles com os bichos. Ninguém leva um rato para passear. Ninguém fala conosco como se fôssemos seus filhos. Ninguém nos compra roupinhas, casinhas, pastas de dentes e outras invenções. Não somos exibidos por nossos donos em praça pública em dia de caminhada oficial. Não temos status. Não ganhamos nomes, seja Rex ou de gente mesmo, o que explica bastante coisa, acho. Não somos animais domésticos. Muito menos temos apelidos fofuchos como “melhores amigos do homem”.

A relação é de amor e também de egoísmo. Os beagles, afortunados, foram escolhidos como caixa de amor e de carências humanas. Percebi que não tem nada a ver com experiências. A bioética é só um pano de fundo para que os homens falem deles próprios. Se não fosse assim, por que compram xampus e cremes de empresas que nos matam? Por que – quando doentes – tomam qualquer remédio com promessa de milagre, mesmo que tenham custado nossas vidas?

Continuo aqui cumprindo minha pena por um crime que não sei qual é. Uma amiga barata, mais intelectualizada, me contou de um escritor que escreveu sobre elas. Achei pretensiosa. Kafka, eu acho que é o nome do sujeito. Falo isso porque me sinto em outro livro dele. Não li, claro. Dois cientistas falaram dele uma vez e gravei porque o nome do escritor soou engraçado. E gostei da história. Acho que se chama O Processo. Não sei o que fiz.

Meu sonho? Meu sonho é um dia poder ir ao cinema, daqueles de shopping center mesmo. Por razões óbvias, comprar um saquinho de pães de queijo e assistir a um desenho animado. Pode ser a nova versão de Ratatouille (aquele cara come bem!) ou uma reprise do Mickey Mouse. Eles são nossos heróis. Passamos suas sagas e aventuras de pai para filho aqui dentro. É uma forma mais saudável de suportar a vida entre caixas de vidro e agulhas.”

terça-feira, 29 de outubro de 2013

Os velhos morreram de overdose


Não acredito na expressão Terceira Idade. Não utilizo, por desconfiar da ilusão da má fé, os termos Melhor Idade. Idosos, para mim, é somente mais uma arma politicamente correta, capaz de esconder os problemas reais e maquiar a velhice. 

A vida nos envelhece. Ficamos velhos. Mas envelhecer está além dos muros da redundância biológica. Conheço pessoas com mais de 70 anos que tem uma vida mais agitada do que a minha. E conheço gente que se julga adulta por conta da carteira de identidade, mas que pensa e se comporta como se a Idade Média tivesse acabado ontem.

Tornar-se velho é mais do que tempo maior para recuperação de atividade física. É mais do que falta de fôlego para fazer o que fazíamos na semana passada. A velhice irreversível ataca mentalidade, valores, perspectivas de mundo. A velhice se prolifera pelas palavras e atitudes que indicam o quanto podemos nos agarrar em conceitos antigos e obsoletos.

Chico Buarque, Gilberto Gil, Djavan e Caetano Veloso envelheceram. Ficaram rígidos. Rasgaram parte do passado de lutas, residente em suas criações artísticas. Passaram a brigar pelas migalhas do artigo 20 do Código Civil, rascunho de censura dentro de uma legislação tão frankstein quanto seus argumentos publicados em jornais ou ditos na TV pela porta-voz Paula Lavigne.

Talvez influenciados pelo rei da música e do atraso, e autor desta letra mal escrita, o grupo de artistas provocou a distorção de um problema que inviabiliza a construção da História deste país. Mais do que discutir a privacidade de gente famosa, o artigo 20 pode assassinar o trabalho de historiadores, intelectuais e jornalistas. Pode enterrar qualquer caminho que nos permita se aproximar da veracidade dos fatos, ainda que sempre tenhamos versões e relatos.

É impossível não entrar na vida privada de alguém para conhecermos a personalidade pública. A vida privada é um dos principais indicativos para que possamos compreender os atos públicos, quando não nasce deles. O personagem dos holofotes é composto pelo que se foi e é dentro das torres do castelo. E, neste sentido, vida privada e fofocas são termos incompatíveis.

Dentro deste caldeirão, a turma do Procure Saber – a patota do rei Roberto, acostumado com os agrados de juízes, canais de TV e jornalistas – tenta minimizar as razões financeiras de seus atos. É parte do pacote de construção da imagem de vítimas.

A encenação esconde o que já acontece como rotina no Brasil. Produtores e diretores de cinema, além de escritores e jornalistas, são obrigados a pedir autorização para a realização de filmes e livros. Esta autorização é pedida a herdeiros; em muitos casos, coletores de dinheiro do parente falecido há décadas, com quem mal se relacionaram em vida e hoje defendem com unhas e dentes, como corretores na Bolsa de Valores.

É claro que o jornalismo e sua prima biografia abrigam preguiçosos e maledicentes. Para isso, existe legislação que prevê punições para calúnia, injúria e difamação. Há no Brasil, inclusive, uma indústria de indenizações, especializadas em casos de danos morais e materiais.

A cantora Angela Ro Ro, exemplo de quem foi massacrada pela mídia diversas vezes por conta dos escorregões privados, discordou de seus amiguinhos da MPB. Coerente, não se escondeu e foi direta: “É para isso que existem os escritórios de advocacia”.

Parafraseando Cazuza, que – por sinal – ganhou biografia e filme bajulatórios, alguns dos meus heróis morreram de overdose. Overdose de ganância e intolerância. Ironicamente, esta morte simbólica é pública e, portanto, estará na biografia deles, com ou sem autorização.

sábado, 26 de outubro de 2013

A ditadura das aspas

Sempre algo a declarar

Leio dezenas de matérias por semana. Várias delas me fazem lembrar de Fernando Collor de Mello. O senador alagoano, quando era presidente, disparou uma das frases mais fortes da história política brasileira. “Tenho aquilo roxo”. 

A declaração é um dos casos raros em que as palavras de uma fonte se transformaram em manchete de jornal. Secas. Cruas. Definitivas. A anatomia de Collor nunca me interessou. Recordo-me dele porque o Jornalismo atual caminha pelo sentido oposto das palavras de impacto.

As aspas foram banalizadas, desgastadas a ponto de tornar uma declaração irrelevante, próximo de um relatório que descansa na mesa da burocracia. O abuso tem um nome há anos, sem autoria conhecida: jornalismo declaratório, vício recorrente nas redações e nos cursos que almejam formar repórteres.

As aspas se transformaram na principal muleta de um jornalismo deficiente, aleijado pela frágil checagem, pouca quantidade de informações transmitidas, transferência de responsabilidade diante das fontes, entrevistas sem críticas, padronização de textos e inércia de sentidos do repórter.

Abusar do palavrório alheio é um mecanismo eficaz de se esconder as falhas de apuração e checagem. Falas colhidas por colegas são reproduzidas, muitas vezes, sem o devido crédito. Mais do que cópias, há a caracterização de “furto intelectual”.

O editor de um site de um grande jornal de São Paulo soube que a concorrência havia publicado matéria sobre a contusão de um jogador de futebol. Ele pediu a um dos repórteres que “reescrevesse” a matéria. O repórter ainda perguntou quem deveria ouvir. O editor reforçou a ordem para que o texto fosse reescrito. Uma maneira sutil de copiar e colar. Velocidade e audiência como desculpas do deslize ético.

O jornalismo declaratório permite a muitos repórteres, em veículos universitários ou comerciais, crerem que a informação pode ser colocada em segundo plano, como se não fosse ingrediente essencial para o exercício da profissão. Entupir o texto com blabláblá de fontes – muitas vezes, uma só – dá a impressão de que o jornalista recebeu salvo conduto para não levantar mais nada sobre o assunto ou conferir o que o entrevistado disse com suposta propriedade.

Aí entra o terceiro ponto. Quem disse que se apoiar nas declarações da fonte nos exime de responsabilidade sobre aquilo que publicamos? Talvez a lição mais perversa e promíscua do ensino de Jornalismo se apoie na frase: “Coloque na boca do entrevistado.”

Transferir a culpa pelos erros é prática recorrente de quem abriu mão do papel como intermediário entre acontecimentos e público. Depois não conseguimos entender – ou fazemos cara de natureza morta – quando percebemos que as informações passaram a ser geradas por fontes, público, construtores de imagem, assessores, fãs e outras espécies que habitam o zoológico-mídia.

Parte dos veículos atirou na lata do lixo – e se agarra na audiência pontual como justificativa – a arma que diferencia repórteres: contexto. O milagre da multiplicação das aspas contamina a capacidade de interpretação, de tradução do mundo que um contador de histórias deve carregar consigo.

Em grandes jornais brasileiros, virou moda a publicação de depoimentos. O recurso funciona quando acompanhado de uma introdução; caso contrário, permite que um auxiliar administrativo transcreva a gravação, sem indicar onde entrou o repórter nesta história. É a reprodução do eu, literalmente em primeira pessoa.

A praga das declarações em excesso também funciona como efeito colateral das entrevistas sem preparo. Vale o lema: “Pergunto qualquer coisa, ouça o que for possível.” Fontes deitam e rolam, dizem o que querem, fogem das questões, e o resultado final é um relatório acéfalo do discurso expelido, o que inclui reprodução de jargões e gírias, ainda que o público não as compreenda. Uma editora da Baixada Santista recomendou a um de seus repórteres que não prestasse atenção nas palavras do entrevistado e que se preocupasse com a pergunta seguinte.

As aspas entregam, acima de tudo, quem somos e como fazemos Jornalismo. Muitos repórteres poderiam trabalhar descalços porque jamais gastariam sola de sapato, parafraseando Ricardo Kotscho. O carpete ou o piso frio das redações não provocam arranhões, unhas quebradas ou calos.

As aspas, na prática, camuflam a ausência dos demais sentidos do repórter. Mas como ele poderá exercitá-los se não vê o entrevistado? Como sentir cheiro ou tatear em ambientes que ele desconhece porque não saiu da redação? Matérias impregnadas de declarações indicam, em outras situações, o pior: nem por telefone houve conversa. O repórter enviou lista de perguntas (um questionário, sejamos francos) e recebeu as respostas, prontas para a construção final do texto insípido, incolor e inodoro.

O formato do Jornalismo declaratório é filhote bastardo da padronização do texto nas redações. É óbvio que existem veículos que preservam e valorizam o texto autoral. Mas, via de regra, sobressai o repórter-robotizado, sujeito que não sente, não se espanta, não se emociona. Apenas repassa, tecnicamente, a indiferença.

As aspas são elementos coadjuvantes da reportagem. Indicam o alicerce da matéria: gente! Uma frase de um entrevistado reforça a trajetória narrativa do repórter. Mas o que tenho visto, como instrumento rotineiro, é a sucessão de frases das fontes que, juntas, chegam a somar dois parágrafos ininterruptos. Ou seja: oito, dez linhas sem uma sentença de conexão elaborada pelo jornalista. A matéria virou um boletim de ocorrência enfeitado e perfumado?

As aspas representam, claro, apenas um tom da aquarela de desvios no jornalismo contemporâneo. Mas elas são sintomas da falta de um pouco de cor para muitos jornalistas quando se sentam para escrever. Seria uma pitada de roxo nas palavras?

quarta-feira, 25 de setembro de 2013

O aniversário


Hoje é meu aniversário e resolvi me dar um presente. Descartei mulheres de camiseta molhada em jaulas, carros off-road, viagens ao paraíso, livros proibitivos e outros desejos incontidos de consumo. A prudência e a culpa se uniram e derrubaram o calor juvenil. As dores no bolso latejaram ao primeiro sinal de fraqueza. O regime é de avareza forçada. 

Dispensei loucuras de comportamento. Nada de substâncias em pílulas, por inalação, por seringas, copos e outros objetos mais convencionais. Nada de maratonas sexuais ou relações da dar inveja ao Circo du Soleil.

A racionalidade derrotou a nostalgia de tempos que iludem a mente e entristecem o corpo. O prazer é cada vez mais curto – embora selecionado e profundo -, mas a recuperação caminha como um paquiderme em capítulos derradeiros.

A idade, vítima da ditadura do relógio e das convenções sociais, insiste em me colocar numa encruzilhada. Não se trata de pavor diante da velhice que a matemática é incompetente em medir. Equações numéricas são dispensáveis aos olhos e aos conteúdos que calças e camisas se esforçam em esconder.

Não escondo os números. São 39 anos. Poderia dar a volta olímpica, acenar para a torcida, pegar um tufo do gramado como lembrança e pendurar as luvas furadas na porta do armário. “Fui desistido” do futebol na metade deste caminho. Mesmo assim, perguntas óbvias reaparecem, como se feitas ao jogador em final de carreira:

— Qual é a diferença?

— Como é ficar mais velho?

— Você se prepara para a crise dos 40?

As respostas flutuam entre o não e a ausência de significados. Fugir da idade para quê? Até porque não posso explicar a crise dos 30. Não a tive. A tempestade dos 35 é teoria para as revistas de comportamento. Projetar os próximos anos com gráficos econômicos é ótimo que fique com os economistas. A diferença entre estes marcos (perdoe o trocadilho) é zero, para me aproveitar dos números antes de descartá-los.

Também não vou me agarrar nos clichês de que a cabeça é jovem dentro do corpo em processo de mumificação. A mente se adapta, a identidade se modifica, o sujeito é outro, com resquícios e influências do passado. Aproveito-me desta concepção para manter a lucidez. E por uma questão de prazer, mesmo. Mais vantajoso.

Durante muitos anos, em meu aniversário engoli a besteira de que era data de balanço. Hoje, deixo para as Lojas Americanas, Casas Bahia e outros que podem baixar as portas uma vez por ano, lamber as feridas e sorrir com os lucros. Aprendi que é mais saudável encarar balanço contínuo. O namoro com a psicologia, dentro e fora do consultório, me ensinou a necessidade de discutir a relação comigo em freqüência maior. Poupa surpresas e acelera dividendos.

O dia de balanço implicava em permanecer sozinho. Escrever este texto é uma prova em contrário. Dividir com outros, conhecidos ou não, tem a vantagem de construir novas portas, abertas para interpretações múltiplas. E com o filtro adequado no ato de que escrever é também reescrever a partir da escrita presente na leitura do outro.

O aniversário é uma data das desculpas esfarrapadas e necessárias. Fortalece meus próprios acordos, recria amizades queridas, reaproxima afetos que se distanciaram com a escravidão do tempo galopante. É o dia das boas notícias, das gargalhadas, dos abraços e beijos em quem te quer bem.

É também o dia dos cumprimentos de obrigação, das lembranças oportunistas, dos apertos de mãos de quem te tolera no lugar errado na data errada. Ossos do ofício dos relacionamentos entre seres estranhos que se intitulam humanos.

O aniversário não me força a aderir à felicidade full-time, a ânsia de bem-estar contínuo e artificial. Mas posso me aproveitar para alimentar uma guerra civil com o modelo de prazer contínuo, de desprezo dos sentimentos. O aniversário, como bomba H, é a transgressão calculada, vivida sem a culpa impetrada pelas regras jamais estabelecidas por nós.

Entendo a data como uma recusa às promessas. Não é possível transgredir – de leve, de leve – e montar um rosário de metas. É a culpa em formato de lista estéril. As promessas de segunda-feira, nascidas para morrer no dia seguinte.

Aproveito o dia para me cercar de quem merece meu afeto e que doam o seu mundo sem a obsessão do utilitarismo. Amor e amizade são incompatíveis com objetivos racionalmente calculados. A ida sem a volta.

Em aniversários anteriores, tinha o ritual de ir à praia sozinho. Ou melhor, acompanhado de um livro. Abandonei a tradição. Enxerguei – em um lapso de maturidade – que a tradição é combustível essencial ao ponto de merecer seguidas repetições. Esvaziei e remontei, sem perceber, a origem do ritual, com prazer.

O auto-presente de aniversário saiu de graça. Escrever sobre o assunto me obrigou a pisar no freio, pensar em pessoas queridas, reafirmar o quanto são protagonistas de um enredo em curso. Sem balanços, auditorias, reuniões internas, memorandos e outros badulaques burocráticos.

A crônica é para mim, hoje, a expressão mais singela do que posso sentir e compartilhar, ainda que faltem o brigadeiro, a cerveja, as bolinhas de queijo, as coxinhas e o bolo. Esta quebra de contrato – que o médico não me ouça – é pessoal e intransferível. A multa? Promessa de segunda-feira.

O Alasca é aqui!


Thaís Fernandes, na Ilha de Urubuqueçaba
(Foto: Marcos Piffer)

Texto publicado originalmente na revista Guaiaó, na seção Praia e Eu, número 5. 

Quando pensam em cinema, pessoas comuns sonham em estar na pele dos personagens preferidos. Quando respiram cinema, pessoas incomuns transportam o filme para suas histórias. Thaís Fernandes poderia ser a versão feminina de Chris McCandless, o jovem de “Na Natureza Selvagem”, dirigido por Sean Penn, mas incorporou a essência do filme ao próprio roteiro de vida. 

O primeiro sinal está na coxa direita dela. É uma das oito marcas que contam cenas da trajetória desta mulher que saiu do Brasil aos 26 anos para aperfeiçoar o inglês. As letras esculpidas na pele indicam que fronteiras são meras descrições em mapas de viagem.

Após cinco anos na Austrália e mochilão pela Ásia e Europa, Thaís sossegou por um mês na Argentina. Ficou na casa de familiares de Quilmes Romina, amiga que vive na Oceania. Em terras portenhas, Thaís não resistiu às lições de McCandless. Resumiu sua forma de ver o mundo na oitava tatuagem: “rather than love than faith than fairness give me the true.” A frase pode ser traduzida como: “melhor do que o amor, do que a fé, do que a justiça, me dê a verdade.”

A tatuagem, porém, foi editada. A palavra dinheiro sumiu da versão original por ser figurante no modo de vida dela. Todos na família têm tatuagens. Thaís fez a primeira aos 18 anos, o nome dos pais em japonês.

Desenhar no corpo também marca a relação com as irmãs Cynthia e Priscila. As três tatuaram uma pimenta no braço direito. Cynthia enfrenta um momento delicado de saúde, motivo essencial para segurar Thaís no Brasil.

Thaís descobriu há cinco anos – assim como McCandless - que precisava procurar seu próprio Alasca. Quando encontrou o paraíso, já estava viciada na vida solitária na estrada. “No Brasil, o ônibus é minha cama.” Poucas vezes viajou acompanhada. A rota pela Ásia foi feita sozinha. “Minha companhia é muito boa.”

No Vietnã, hospedou-se em um albergue com 26 rapazes. O único obstáculo foi a infecção intestinal que pegou no Cambodja. “Fui para o hospital de mototáxi. Fiquei três dias internada.”

Thaís, hoje com 31 anos, alimenta uma certeza: a Austrália é o Alasca dela. O endereço é Cotteshoe, com 200 mil habitantes, onde morou por três anos e meio. Lá, fez faxina, lavou louça e trabalhou como garçonete. “Tenho mais amigos lá do que aqui.”

Uma semana antes de deixar a Austrália, conheceu um novo personagem. O casamento com o mar se deu via prancha de três metros de comprimento e remo. Quando chegou ao Brasil, Thaís usou uma prancha emprestada por três meses, até comprar a sua, azul e roxa.

Remar é também um ato quase solitário. Mas a prancha pode ser um palco flutuante, com repertório de Bob Marley a Djavan. No início do ano, cruzou com um senhor num caiaque. “Você fala sozinha?” Thaís respondeu que cantava. O senhor repetiu o clichê de quem canta os males espanta.

Formada em Direito e Marketing, Thaís trabalha hoje como agente de carga em Santos. O stand-up paddle é o passaporte para flertar com a natureza selvagem, três vezes por semana. Como um longa-metragem, as sessões terapêuticas duram três horas, com início às 18h30. É uma viagem a outro paraíso, na praia do Sangava, às vezes estendido à Ilha das Palmas ou ao Saco do Major. “É da água que eu apreendo paz de espírito.”

No cinema onde a tela é o horizonte, o mar interpreta o desfecho para esta mulher que adora reprisar os capítulos de intimidade com a natureza. Sem este roteiro, o corpo e a mente reclamariam do final trágico, protagonizado pelo mau humor. “Aí, nem eu me suporto. Sou 2 mil volts.”


quinta-feira, 29 de agosto de 2013

A bela e a fera

Wanessa Simons - foto: Marcos Piffer

Texto publicado originalmente, na seção Praia e Eu, na revista Guaiaó, número 4. 

O tamboréu é um esporte de hipóteses. A primeira delas indica que a modalidade, trazida por imigrantes italianos no pós-guerra, é um terreno masculino. A suposição seguinte nos aponta para um jogo praticado por ex-atletas, muitos com vitórias e derrotas também acumuladas na região abdominal.

O tamboréu também costuma ser visto como um esporte que se aproxima da recreação, em que competitividade é personagem coadjuvante. E a quarta hipótese se constitui no comportamento que você, leitor, manifestou até o momento: paciência. Longas trocas de bola e pontos com minutos de duração marcam as partidas à beira da praia ou no saibro (terra batida) de clubes como Portuários, Internacional, 2004 e Portuguesa Santista.

A moça na foto acima está realmente em seu habitat. Ali, ela vem demolindo – há quatro anos – adversários de ambos os sexos, assim como derruba na areia todas as premissas que cercam o tamboréu.

Wanessa Alonso Teixeira Simons, de 39 anos, é uma dona-de-casa que descobriu o esporte genuinamente santista durante o treino numa academia. Convidada por uma amiga, ela resolveu conhecer o mundo dos tambores, que mal prestava atenção enquanto corria na beira do mar. No primeiro dia, um sábado, o desempenho foi um desastre. “Não acertava uma bola na quadra. A única coisa boa é que mostrei aptidão por jogar com os dois braços”.

Em duas semanas, ela foi inscrita no primeiro torneio. Ficou em segundo lugar. “No começo, era difícil. Chorava de raiva, em casa, quando perdia.”

Hoje, é uma das melhores jogadoras da região. Em 2010, terminou o ano como primeira colocada no ranking da categoria B. No ano seguinte, promovida à categoria A, fechou a temporada também no topo da lista.

A partir de 2013, jogar entre mulheres deixou de ser prioridade. Ela e a parceira Simone Almeida disputam as categorias D e C, no masculino. “É mais fácil lidar com homens. Não tenho a mesma paciência com elas.”

Paciência é palavra-chave para entender Wanessa e a forma dela jogar tamboréu. Ela joga como fundista, normalmente responsável por bolas defensivas e por cadenciar a partida. Wan, como é chamada pelos colegas, se tornou “fundista atacante”, pela força dos golpes e pela velocidade com que deseja concluir os pontos. “Se pudesse ganhar só no saque, estaria bom.”

A performance a levou à França, para participar do Mundial, em 2011. O Brasil faturou o título na categoria B. Na França, as quadras têm 80 metros de comprimento por 20 de largura, o dobro da versão brasileira. O tamboréu é maior, com alça e de nylon. “Não gostei. Não houve tempo de adaptação.”

Wanessa é perfeccionista. Treina às terças e joga nos finais de semana e feriados, inclusive machucada. Numa partida recente, jogando com homens, machucou o tornozelo e permaneceu até o final. “Deixar a quadra reclamando de dor, entre eles? Não quero ser meia boca. Quero ser a boca inteira.”

Os exercícios diários cobraram o preço. Wanessa passou a temer por lesões por stress. Ao procurar um profissional especializado, no final de 2012, a vida e o jogo mudaram. Ganhou em equilíbrio e paciência na quadra. Reduziu a carga de treinos diários, que incluíam corridas e duas horas de academia.

O tamboréu significa, para ela, a extensão de casa. A filha Gabriela, de 13 anos, e o sobrinho Victor, de 14, praticam o esporte. O marido Paul Simons se tornou jogador e também disputa torneios. Ele, por sinal, é o pior adversário. “Paul acerta bolas impossíveis quando joga contra mim. Na quadra, não há casamento.”

Em 2011, os dois se enfrentaram, em duplas, no Ipê Open, em São Paulo. A partida valia vaga para a semifinal. Quando conta sobre os jogos, Wanessa usa gestos para reproduzir os golpes. “Quadra lotada. Todo mundo quer ver marido e mulher como adversários.”

Até hoje, não se conforma que, após vencer o primeiro set e com 8 a 6 no segundo, ela e Simone permitiram que o marido e o parceiro virassem a disputa. Final: 2 sets a 1. A indignação aumentou porque Paul e o parceiro foram eliminados na fase seguinte. “Ainda bem que meu marido é calmo.”

Wanessa, com o novo ritmo de treino, está em metamorfose. Mas ainda cultiva alguns hábitos. Não abandona o tradicional tamboréu de madeira, mais pesado e que exige mais força do que os tambores de rede. E segue na obsessão de decidir os pontos no fundo. É o recado de quem se recusa a matar a fera que existe dentro de si. “Jogo como um ogro. Sou a Fiona deste esporte.”

sábado, 24 de agosto de 2013

A mesa de seis lugares


Texto publicado, originalmente, mas em versão mais enxuta, na revista Sanatório Geral. 

Os 20 anos naquele trabalho esculpiram a imagem de Silvana. Lidar com dependentes químicos e, principalmente, com os burocratas que fingem entender de dependentes químicos a tornaram uma mulher respeitada na repartição. Até os inimigos a respeitam, mesmo que por medo dos gritos, da língua afiada, das relações com os personagens das madrugadas em albergues e abrigos. Os maledicentes a chamavam de mulher de rua, quando na verdade sabiam que ali trabalhava uma mulher das ruas. 

Silvana se alimentava do biótipo de gente independente. Gozava com a tensão alheia. Quase uma feminista de sutiã queimado em praça pública. Com duas filhas pré-adolescentes, mora em casa própria, nunca levou desaforo de chefia, sempre escolheu onde trabalhar.

O pai das garotas, dizem nos corredores, foi expulso de casa, se refugiou na loja. Nas palavras dele. Mas é uma quitandinha bem mequetrefe. Dorme nos fundos e só aparece na casa dela para trepar. Na verdade, ela o come, sussurrou outro dia uma ex do Juarez.

Ontem, Silvana chegou à seção suando frio. Bateu a porta, o que assustou as duas colegas. “Não falem comigo que hoje eu não tô boa!” Já era hora do almoço e Silvana tinha enforcado a manhã toda.

Naquela sala, a ordem é se proteger do mundo lá fora, das intrigas do andar de baixo, das sacanagens de parentes, um mundo de confidências que sustentava a relação de desequilíbrio constante no trabalho.

A verdade é que Silvana estava afogando manhãs, estendendo almoços, saindo mais cedo e chegando mais tarde. As colegas falaram em depressão, pensaram em crise no casamento, cogitaram divórcio, especularam sobre tóxico (sim, para uma delas drogas era isso, e com pronúncia em ch: tóchico!).

Dia de suor frio era o sinal de que o trem chamado Silvana precisava encostar ali. E abrir os vagões para descarregar. A mulher necessitava ligar o megafone emocional e ser exorcizada. Uma das colegas fechou a janela – já conhecia os gritos de desabafo. A outra fechou e passou a chave na porta. Ressuscitou até a velha placa pendurada na maçaneta: reunião!

Silvana foi direto ao ponto. “Quando ia sair para pagar uma conta, Juarez me encheu o saco por causa do meu vestido e comprei uma mesa de seis lugares.” As colegas se olharam e uma delas perguntou: “Pera aí, o que tem a ver, conta, Juarez e mesa de seis lugares?”

Embora esbaforida, Silvana conseguiu explicar a maior parte da história. Juarez passou na casa dela logo cedo. Aliás, descobriram que ele fazia isso todo dia, logo depois que as filhas saiam para a escola. Geralmente, ele encoxava – ou encurralava mesmo – Silvana na pia da cozinha. Queria completar o café da manhã.

Silvana nunca recusava. Temia que ele não voltasse no dia seguinte. Ou que transformasse os fundos da quitanda em sede de aventuras. Juarez, satisfeito, sempre era carinhoso no pós-trepada. Ela entendia como compensação porque o marido nunca pagara uma conta naquela casa. Nem no almoço de domingo o sujeito coçava o bolso.

A briga começou quando ela disse que precisava justamente pagar uma conta. Quando a viu de vestido preto, Juarez vomitou: “tá parecendo uma vagabunda logo cedo. Vai arrumá homi no banco?”

Silvana manteve a coerência e fuzilou como na repartição. Palavrões como aperitivo para o almoço. Marido para fora novamente. E viu quando a vizinha fofoqueira puxou a cortina e se escondeu. A vizinha ajudaria a manter a fama de má da rainha Silvana.

Quando ela respirou, uma das colegas conseguiu, gaguejando, engatar a pergunta: “Tá, Silvana, e onde entra a mesa?”

Silvana abriu a carteira. Separou os documentos básicos como RG e CPF. E despejou na mesa seis cartões de crédito. “Boneconas, já estourei cinco. Hoje, acabei com o último. Cada um deles tem limite de cinco paus.”

As colegas, em metamorfose sertaneja, cruzaram as vozes como dupla de sucesso. “Cinco mil? Cinco mil reais?”, disparou uma delas no agudo.

Silvana respirou para explicar. “Este chegou ontem. E comprei uma mesa de seis lugares. Madeira boa. Quatro mil reais. Vou pagar em 24 vezes. Se tô fudida agora, imagina na Copa!”

Enquanto passavam a tarde fazendo contas. Silvana foi desembuchando. Comprou um contêiner de tranqueiras, sabe-se lá por causa das brigas, do sexo mal resolvido ou de um olhar atravessado das adolescentes. Se juntasse tudo, pareceria um daqueles caminhões de prêmios da TV.

Cada filha tinha um tablet. Ela tinha um notebook mais duas mochilas para evitar assédio de ladrões. TV de 42 polegares e outros eletrodomésticos de última geração. A soma de tudo se aproximava de um carro “popular”, como os prometidos nos carnês de capitalização.

Quando a calculadora estava ofegante, saiu o veredito do conselho. Se não fizesse mais dívidas ou qualquer compra no cartão, ou seja, se não comesse mais e deixasse de pagar as contas da casa, ainda assim teria uma prestação de cinco mil reais até o final do ano. O dobro do salário dela.

Ninguém perguntou coisa alguma. Silvana se antecipou. “O que vou fazer? A mesa, não devolvo. E Juarez não vai pagar nada, senão vai pensar que pode mandar no meu quintal. Tem pinto, mas não é galo.”

Uma das colegas se encorajou e disse baixinho. “Quebre os cartões, Silvana.”

Ela catou a bolsa, beijou as duas e abriu a porta. “Gente, preciso sair mais cedo hoje. Falta um arranjo de mesa. Já imaginou se o Juarez ou as meninas reparam que a mesa tá vazia? Vão achar que sou uma vagabunda, uma desleixada em casa.”

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

Meninas negras não brincam com bonecas pretas

Gravação do clip Falsa Abolição. Foto: Dino Menezes

Joyce Fernandes, com seu nome de certidão de nascimento, é uma anônima no movimento Hip-Hop. É um fantasma entre MCs e compositores de rap. Ninguém sabe quem é ou ouviu falar dela. 

Quando entra em sala de aula diariamente, a professora Joyce é uma celebridade entre seus alunos, não apenas pelas suas roupas, que dançam entre a cultura africana e frases de denúncia ao racismo no Brasil. Joyce altera o cotidiano dos estudantes nas aulas de História, no Colégio Exemplo, no Humaitá, em São Vicente. Lá, ela os presenteia com palavras firmes, politizadas, coerentes com a rapper que aflora além dos muros da escola.

A questão é que, desde maio, tanto a artista como a professora não entendem direito o que está acontecendo. Joyce Fernandes, a Preta Rara, agradece sempre, sorri até para quem não conhece, mantém a serenidade e a educação que a fazem uma dama em um mundo dominado pelos homens.

Entre julho e a primeira metade de agosto, Preta Rara subiu ao palco 15 vezes para shows. Cantou com Criollo, um dos principais representantes do rap atual no país, em maio, no Sesc de Santos. Conheceu, há 30 dias, um de seus ídolos, Afrika Bambaataa, que levou para casa uma versão do Trabalho de Conclusão de Curso (TCC), pesquisa sobre a história do rap na Baixada Santista.

Ao dividir o palco com Criollo, Preta Rara viu o mar se abrir. Recebeu o convite para gravar o primeiro clip, ao lado da parceira Negra Jack. As duas formam a Tarja Preta, a primeira dupla de rap feminina da região. O convite foi cristalizado na apresentação seguinte, em um ato das Mães de Maio.

Em duas semanas, a primeira reunião com a turma da Conceituall Estúdio, responsável pelas gravações. Falsa Abolição, uma das primeiras músicas da Tarja Preta, se transformou em clip após quatro dias de filmagens em vários locais, entre escolas de teatro e casas noturnas. Parte das gravações aconteceu na Zona Noroeste e reuniu cem mulheres. O clip é o filho que ambas aguardaram por cinco anos. 


Escute a faixa Falsa Abolição!

Preta Rara, assim como Negra Jack, tinha várias credenciais para derrapar na curva. Mas ela tem a mania de andar pelos caminhos mais longos. Estes desvios teimosos provam que profecias sociais não passam de charlatanices futuristas.

Joyce trabalhou pela primeira vez aos 13 anos. O emprego não era remunerado. Na prática, um trabalho voluntário para auxiliar a mãe, que limpava banheiros em quiosques da orla da praia. O pai trabalhava para os Correios.

Antes de ser Preta Rara, a aluna Joyce Fernandes passou por escolas públicas e se tornou a primeira da família a alcançar o ensino superior. Formou-se em História na Universidade Católica de Santos, em 2011. Sua apresentação de TCC alterou o cotidiano da instituição por uma noite. Mais de 60 pessoas se espremiam na sala 315, muitas de pé, para ouvir a trajetória do rap caiçara, com direito à música no final da apresentação.

Preta Rara e a parceira Negra Jack se conheceram numa locadora que frequentavam, na Área Continental de São Vicente. A rivalidade fruto da desconfiança hoje é uma relação fraterna, umbilical. E as escolhas de ambas as uniram para contornar um cardápio de preconceitos e intolerância.

As duas residem em bairros de periferia, cercadas pela ausência de infra-estrutura e, por vezes, reféns de surtos de violência. Ambas são negras e vieram de famílias pobres. Optaram por demonstrar sua identidade cultural nas roupas e nos cabelos. Eram cartões de visita que agiam, involuntariamente, como para-raios de gente que se julga civilizada.

Preta Rara, certa vez, aguardava para atravessar a rua em São Vicente, quando um carro parou perto dela. Ela se aproximou do veículo, na certeza de que seria alguém em busca de informação. Com cabelos dread e vestida com roupas de origem africana, ouviu da passageira: “Macumbeira!”

O rosário de preconceitos também aconteceu no mundo do rap. Elas integram uma lista restrita de mulheres que começam a desbravar um terreno controlado por homens. Muitos artistas do movimento Hip-Hop, aliás, ainda insistem em exercícios contínuos de machismo em seus clips e, principalmente, em suas letras.

Preta Rara e Negra Jack também sofreram com provincianismo. Se Preta hoje coleciona apresentações dentro e fora da Baixada Santista, ainda recebe – eventualmente – convites nos quais cachê é palavra proibida. Música como sinônimo de caridade, não para movimentos sociais, que elas atendem com prazer, mas para pessoas que lucram na bilheteria. Em São Paulo e no interior do Estado, o rap complementa a renda de professora. 

Preta Rara e Negra Jack, a Tarja Preta

Depois de conseguiram espaço no palco, as duas tiveram que provar que as temáticas de suas letras também eram importantes manifestos sociais. Discutiam o passado histórico da mulher brasileira, falavam de amor, colocavam na parede o machismo, o consumismo e a exploração do corpo feminino. Nadavam na corrente contrária à ostentação material e, por vezes, à violência urbana.

Preta Rara, neste momento, voa sozinha. Negra Jack teve uma filha, Isadora, e está em licença maternidade. A menina, inclusive, faz uma participação especial no clip Falsa Abolição, envolvida nos braços da mãe.

O reconhecimento de anos de trabalho estará materializado em dezembro, quando Preta Rara colocará na rua seu primeiro CD solo, Audácia. A primeira música de trabalho, Conto de Fadas, está disponível na Internet. Nos próximos 30 dias, Preta se apresenta em São Paulo, Santos, Campinas e Marília.

Preta Rara, durante a semana, permanece Joyce Fernandes, a professora de História. Nos finais de semana e eventuais noites de segunda à sexta, Joyce cede o lugar à rapper preta em sua plenitude.

O dinheiro, apertado para as contas do mês, ainda está no ensino, mas a satisfação de ter voz e o discurso de lucidez social não desgrudam da mulher que, independentemente do nome, reverteu um rosário de prognósticos que insistiam em tentar derrotá-la.

Obs.: Texto publicado originalmente na coluna Entrelinhas Caiçaras, no site Culturalmente Santista. 

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

Saudades do bar democrático

Uma noite de Vitrolada

A sinceridade de meu filho de 3 anos é impregnada, muitas vezes, de sabedoria singela, de quem descreve o detalhe com requintes de normalidade. Sempre que andamos de ônibus, fato frequente, gosto de perguntar a ele algo que luto para preservar com quase 40 anos. Quando pergunto o que ele está vendo pela janela, a resposta é direta: “Pai, estou vendo a cidade.” E começa a descrevê-la para mim. 

O momento de orgulho paterno deságua em melancolia quando caminho pelo Canal 4, bem perto da orla da praia. Não consigo explicar, mas tenho a mania de olhar para a direita e procurar pelo Bar Torto. Tenho comigo que deve ser saudade. Saudade dos amigos, saudade da juventude, saudade das experiências.

Dói olhar para a placa, aquela que indica a atração da noite, e engolir silêncio. A nostalgia machuca para quem mastiga a escuridão que envolve um pedaço pequeno – mas profundo – da história cultural de Santos. Olho para aquele espaço, tombado pela engenharia arenosa, e não pelo patrimônio arquitetônico, e enxergo lembranças deste e do século passado, da minha biografia, dos meus amigos, de grandes músicos.

Nunca fui frequentador assíduo do Torto. Imaginei que pudesse ser uma vantagem, pois me apegaria menos ao vê-lo sofrer em praça pública. Estupidez a minha, porque vivência não se mede em quantidade de acordes. Em todas as ocasiões há enredos especiais, que ganham mais corpo ao tentar entender porque um bar agoniza pela intransigência, pela burocracia, pela falta de vontade política.

Entrei no Bar Torto pela primeira vez há cerca de 20 anos. Era quase um ritual universitário, de passagem etílica-musical, de transgressão ao senso comum da cultura pasteurizada, de revolução individual com a exposição a novos repertórios e novas linguagens. Os mais velhos em idade musical arrastavam os novatos, num ato de solidariedade, traduzido em injeções cavalares e sem antídoto de cultura brasileira.

Ali, não aconteciam censuras ou restrições. O Brasil musicado, multifacetado e contraditório se espalhava pelas paredes e canalizava pelo palco apertado, pelas conversas de pé de ouvido, pelas referências lado B, lado C dos riscados vinis, e tão preciosas naquele esconderijo entre imobiliárias e academias de ginástica.

O Torto sempre foi múltiplo e versátil como qualquer banda que mereça respeito. E assim tratava seus visitantes. Lembro-me, por exemplo, do amigo que abriu os olhos para a cultura caiçara depois de três horas lá dentro. De cabelos quase até a cintura, camiseta preta e barba longa, ele se enquadrava voluntariamente como representante do figurino rock pesado.

Saiu de lá como novo rebento do matrimônio entre seu gênero preferido e a arte dos Secos e Molhados, casamento celebrado pelo sacerdote Ney Matogrosso em voz e ausência física. Nunca mais voltou. Mergulho ainda mais no metal, por outros motivos. Só que nunca mais deixou de ouvir grupos nacionais.

Voltei ao Torto no ano passado. Uma terça-feira à noite, dia em que Santos – após a meia-noite – se aproximava de terra arrasada dos filmes apocalípticos. Naquela portinha, quase na orla da praia, entrei para ver o projeto Futuráfrica, maternidade de ícones circunstanciais de uma democracia musical, sintetizadas em DJs por acidente. Naquela terça-feira, o crítico Chico Marques, velho amigo de outras enseadas, era o criador.

Para mim, mais uma noite de saudades. Encontrei amigos. Dancei com minha namorada pela primeira vez. Não poderia prever que, meses depois, os burocratas resolveriam fazer seu trabalho. Corrigindo, exercitar o poder pela caneta que os emprega.

Na semana retrasada, o Sesc abrigou três shows que reforçam a resistência do Torto em morrer pelas mãos da inanição política. Ingressos esgotados por gerações diferentes, com instrumentos em mãos ou de olho no palco, desta vez menos acanhado, mas não menos combativo ou dispersivo.

Testemunhei uma das passagens de som. Ao ver os músicos, voltei ao canal 4 sem passar por lá. Depois de alguns segundos, meus filhos me disseram: “Pai, vamos!” Bem que poderia ser para olhar a cidade. Uma cidade que, muitas vezes, dá saudades em seus detalhes essenciais.

Obs.: Texto publicado originalmente na coluna Entrelinhas Caiçaras, no site Culturalmente Santista. 

domingo, 4 de agosto de 2013

A mulher silenciosa


Visitar uma UTI durante 40 dias te obriga a criar mecanismos que driblem o sofrimento, a angústia da espera, a frieza dos equipamentos que viram extensões do paciente. O principal deles é conhecer histórias de gente que, se compartilham ou amenizam dor, também funcionam como pílulas da humanidade que teima em resistir à neutralidade das paredes, símbolos de um espaço desconectado do tempo. 

Conheci Jaqueline, a auxiliar de enfermagem com dois filhos adolescentes e feliz por vestir suas roupas mais antigas, em combinações que ignoram as acusações de cafonice. Vi médicos como a doutora Karen que, em tempos de virose como palavra de ordem médica, se emociona quando assiste à recuperação ou à morte de seus pacientes.

Tive o prazer de conversar com Dona Eliana, senhora de um metro e meio, peso mínimo e cabelos brancos raspados à máquina dois, que lutava diariamente pela recuperação do marido, cujas pernas foram amputadas.

Quem nos aproximou, neste caso, foi uma das irmãs dela, que se chamava Zuleica, o mesmo nome de minha mãe. Uma semelhança que nos ajudou a resistir à rotina diária de hospital. Triste saber que o marido de Dona Eliana faleceu meia hora depois de mais uma visita. 

Dona Hilma me chamou a atenção no primeiro dia dela na UTI. Não recebeu visitas. A ausência se repetiu pelos três dias seguintes. Sem parentes ou amigos. Uma mulher inconsciente, entubada, com uma história em fragmentos, que não podia ser contada por ela mesma. Seria reconstituída por depoimentos esparsos nas duas semanas seguintes. 

A UTI, por mais dolorosa que seja, sempre está repleta de visitantes. Dois para cada paciente, sem revezamento. Gente que sonha com o quarto do hospital, como um hotel de cinco estrelas que indica o afastamento, mesmo que temporário, da pior notícia possível. Alimentar-se de sopa e assistir à qualquer lixo na TV são luxos dignos de pacotes de viagem. 

A cama sem acompanhantes me aproximou de uma das auxiliares de enfermagem, conversa que se estendeu no dia seguinte, em corredores e elevadores do hospital. Dona Hilma foi encontrada na rua. Sofria de derrame pleural, alteração na membrana que reveste os pulmões. Três dias antes da internação, parecia ser uma gripe forte. 

O que derrubara Dona Hilma era comum em moradores de rua. O frio e os lugares insalubres castigavam os pulmões como o colchão de papelão surra as articulações e a coluna. No caso dela, com o agravante do vício em crack. Vício que a fez vender a casa para pagar dívidas com traficantes. Vício que a afastou dos familiares.

No quinto dia, Dona Hilma recebeu a irmã, que recebera a notícia 48 horas antes. Passaria a visitá-la a cada dois ou três dias. Não era falta de tempo ou excesso de compromissos. Era falta de dinheiro para as passagens de ônibus. Aliás, falta era uma palavra que rondava Dona Hilma. Falta de perspectivas na UTI. Falta de uma moradia se saísse do hospital. 

Quando familiares de um paciente perguntaram a uma das enfermeiras sobre o que Dona Hilma precisava, ouviram de imediato: “Falta tudo! Ela precisa de tudo!” Na tarde seguinte, eles duplicaram os mesmos produtos que levavam para a UTI: fraldas geriátricas, cremes, pasta de dente e outros produtos de higiene pessoal.

Dona Hilma receberia apenas outro visitante nas duas semanas seguintes. Alex vestia roupas simples, geralmente uma bermuda e uma camiseta de mangas compridas. Nos pés, um chinelo gasto, da mesma cor que os calcanhares rachados. Era magro, com barba por fazer e cabelos à moda de Dona Eliana, tão brancos e raspados quanto os dela. 

Alex não encontrava Dona Hilma há meses, depois que ela se tornara nômade. A visita era a gratidão de quem recebera ajuda numa fase da vida. Não se sentia à vontade para dizer algo a ela. Não é que não acreditava num dos conselhos básicos da UTI: a crença de que os pacientes, ainda que sedados ou em coma, ouvem e compreendem as vozes dos visitantes. 

Alex, na verdade, não sabia o que dizer. Estar ali era suficiente para que Dona Hilma entendesse o obrigado tardio. Alex também não falava com os médicos durante os boletins diários. As informações soavam repetitivas e técnicas em demasia para uma paciente sem melhora aparente. As únicas palavras se emendaram em frases curtas, inaudíveis para mim, ao receber a visita da assistente social. 

Encontrei Dona Hilma pela última vez em 23 de julho, quando eu e meu pai entramos na UTI, também pela última vez para ver minha mãe. Deitada, entubada, Dona Hilma permaneceu em silêncio. 

Cinco horas depois, retornamos à UTI para recebermos a notícia de falecimento de minha mãe. Não precisamos entrar. Ficamos no corredor.

Quando a enfermeira trouxe a sacola de pertences, apenas produtos de higiene pessoal, meu pai só pôde dizer: “Deixe para aquela senhora, por favor!”

— Quem?, perguntou a enfermeira. 

— A senhora do Box 10. A Dona Hilma! 

Foi o que consegui completar. Nada de mais nisso, somente o mínimo de humanidade num lugar onde as paredes brancas derrubam o espaço, o tempo ... e as pessoas. 


quarta-feira, 31 de julho de 2013

Zuleica e Terezinha


Zuleica e Terezinha se encontraram na semana passada. Elas não se viam desde o réveillon. O último encontro foi festivo, claro, e aconteceu na praça em frente ao Aquário Municipal de Santos. As duas retornavam da praia, onde assistiram à queima de fogos.

Além dos desejos de praxe, as duas conversaram sobre netos, família e do momento em que todos se reuniram. Resolveram caminhar juntas, alternando diálogos entre si e com parentes que as acompanhavam. Eram vizinhas na rua Roberto Sandall e só descobriram a proximidade geográfica um ano antes.

Zuleica e Terezinha eram vizinhas de janela, no décimo andar, embora morassem em prédios diferentes. Eventualmente, uma ouvia a outra, mas sem possibilidades de réplica, discussão ou fofoca. O banheiro do apartamento de Terezinha podia ser visto pela janela de um dos quartos do imóvel de Zuleica.

Aí entra certa responsabilidade minha. Eu as apresentei. Zuleica era minha mãe. Terezinha, minha colega de trabalho na Universidade Católica de Santos. A professora e a futura aluna se viram vizinhas.

Confesso que não consigo acreditar em coincidências. Até simpatizo com acasos, mas como algo folclórico, um pouco distante da vida concreta e real. Balancei na semana passada, quando comecei a pensar nas semelhanças entre Zuleica e Terezinha.

Mais do que dar aulas na Universidade Aberta da Terceira Idade, onde minha mãe estudava, Terezinha se entendia com Zuleica pela visão de mundo. Ambas concordavam ideologicamente, vamos dizer assim, se sentiam atraídas pelas mesmas novelas políticas e criticavam de maneira parecida os mesmos atores e atrizes pelas canastrices do poder.

Zuleica e Terezinha vibravam com os protestos nas ruas. Para Terezinha, um retrato que ressuscitava as memórias de uma vida estudantil na qual ela sangrou como filha da PUC. Para Zuleica, um novo desenho que a permitia refletir sobre o que a professora-vizinha falara tanto em sala de aula. “Se não estivesse velha, estaria nas ruas”, me disse uma noite.

Na UTI, minha mãe me pediu que reunisse todo o noticiário sobre os protestos. Leu uma pequena parte do material e sorriu quando soube que as tarifas de ônibus foram reduzidas ou congeladas.

Até de corintianismo ambas sofriam. Zuleica era mais comedida, é verdade, mas percebia – assim como Terezinha – que o Corinthians vivia capítulo único de sua história, em São Paulo ou no Japão. Terezinha azucrinava seus colegas professores, principalmente os palmeirenses, que tinham que engolir o segundo rebaixamento em dez anos.

O Corinthians, muitas vezes, era pauta de conversas com ambas, em cenários diferentes, inclusive nas caronas que Terezinha me dava justamente para visitar minha mãe na rua Roberto Sandall.

Zuleica e Terezinha morreram na mesma noite, dia 23 de julho de 2013. Tinham a mesma idade, 68 anos. Ambas tentaram se refazer de distintos problemas de saúde. Viveram momentos ruins, deram sinais de recuperação e pioraram novamente. As duas faleceram na Santa Casa de Santos.

No dia seguinte, os dois velórios aconteceram no mesmo endereço, o Memorial Necrópole Ecumênica. Foi a primeira imagem que vi, no telão informativo das cerimônias. As duas ficaram lado a lado, separadas apenas por uma parede. Elas me entregaram esta crônica de presente, pensei.

Zuleica descansava na sala 1. Terezinha, na sala 2. Receberam dezenas de visitantes comuns. Ambas desejaram a cremação, que aconteceu no mesmo lugar, com diferença de duas horas.

Ainda duvido dos acasos e das coincidências, mas não assino embaixo. Até porque ambas serão homenageadas em missa conjunta, nesta quarta-feira, na capela da instituição onde compartilharam conhecimento e opiniões políticas.

Mais do que jogar dados, a missa é uma manifestação de amor de quem conviveu com elas durante muitas tardes. De fato, as semelhanças vão atrair Zuleica Maria de Oliveira e Almeida Batista e Terezinha Ayub Pellizzari mais uma vez para um encontro festivo entre elas, talvez só delas, de muita conversa, sempre com muito a dizer a todos nós. Não será última, mas a próxima aula.


terça-feira, 30 de julho de 2013

O jardineiro fiel

O sofá é o último símbolo de um tempo que virou jardim

Rinaldo, até dois anos atrás, era um aposentado. Não era o clássico inativo ativo brasileiro, que compõe rendas, faz bicos e apela para empréstimo consignado. Ele tinha feito carreira em escalões mais baixos da Codesp. Desde o último dia de trabalho, nunca mais voltou ao Porto de Santos. Aposentou-se de tal forma que os dias se resumiam à garagem do prédio onde mora desde que se casou há 35 anos. 

Embora resida na avenida Pedro Lessa, um dos principais corredores de comércio da cidade, Rinaldo só vende a própria paradeza. Para cortar as raízes da garagem, outras duas moradias: o boteco do outro lado da avenida e as compras de última hora na vendinha.

Como facilidade, os dois endereços ficam na mesma calçada, o que é o paraíso para quem ora por uma viagem só. Rinaldo se transformou no homem dois em um, desde que a esposa tivesse paciência para esperar pela entrega da lata de tomate depois que a garrafa de cerveja secasse.

As conversas de Rinaldo também flertavam com a inércia. Era papo de boa gente, simpática e disposta a ajudar com sacolas de compras, empurrar carro que não pega, cuidar dos netos alheios. Só que não saia do repertório “Hoje vai chover”, “Hoje está calor”.

A previsão do tempo funcionava como pauta única para todos os visitantes, moradores e até desconhecidos que tocavam o interfone de um dos apartamentos. Alguns moradores o cumprimentavam em movimento para evitar que o comentário climático virasse um quadro de meteorologia de telejornal.

Se dissesse que Rinaldo cansou da vista da garagem, mancharia a dignidade do sujeito. Ele continua por lá, todos os dias, mas mudou de vida há dois anos. Não bebe mais. Teme pela saúde. Só o cigarro segue como companheiro de vigilância no térreo.

A nova profissão nasceu quando ele ficou impedido de atravessar a avenida. Nada de boteco ou vendinha. Abandonar a cevada foi efeito colateral. Ele ficou incomodado com o canteiro que dividia a vida dele. As duas pistas da avenida viraram um depósito de lixo informal, renovado a cada 24 horas a partir da passagem do caminhão coletor.

Rinaldo entendeu que, se plantasse mudas ou colocasse vasos, o lixo desapareceria. Quem o conhecia acreditou que era um passatempo para fugir da garagem. Quem estava de passagem o olhava como se fosse o louco do bairro. Ele recebeu um único apoio. O pastor de uma igreja a 200 metros do prédio de Rinaldo resolveu colaborar e promover o milagre da multiplicação do jardim.

A novidade provocou comentários, mas sem ajuda extra. A história alcançou este cronista, que a publicou no jornal. Outro jornalista leu sobre Rinaldo e o episódio foi parar na TV. O aposentado, agora, era jardineiro. O jardineiro, agora, era a celebridade do mundo de duas quadras.

Comerciantes meteram a mão no bolso. Vizinhos arranjaram novas mudas. A esposa e os filhos falaram com orgulho do urbanista da família. O jardim dobrou de extensão. Os moradores mais sensíveis, que lamentaram a perda de um abacateiro e de outras árvores frutíferas nos últimos anos, viram nele uma esperança de ressurreição da velha rotina interiorana.

Rinaldo não ligou para o assédio. Falou disso só uma vez, e com vergonha. E entendeu que a casa de ferreiro não poderia ter espetos de pau. Até poderia, desde que segurassem novas plantas. Chamou um vizinho também aposentado e eventual colega de instituto informal de meteorologia. Pintaram as pilastras, a caixa do correio e o abrigo do medidor de água. Tudo de branco. Comprou vasos, arranjou outros na vizinhança.

Os carros, que ocupam o centro da garagem, ganharam a companhia de dez vasos, de meia dúzia de espécies diferentes. Todos os vasos também foram pintados de branco, com restos de tinta de reformas inacabadas no prédio. Ninguém reclamou. Como cereja do bolo quente, conseguiu com o vizinho um sapo e um caracol, daqueles que aguardam pelos anões para amarrar o cenário do jardim.

Hoje, depois de um mês, Rinaldo intercala dois assuntos: o clima e as plantas. É claro que ambos se cruzam e garantem cinco minutos de boa prosa, a única coisa interiorana numa avenida que cheira a porto. Os anões ainda não apareceram, mas meu filho – com seu metro de altura – faz o pequeno papel, pois fica louco para brincar com o sapo e o caracol cada vez que atravessa a garagem. 

* Texto publicado originalmente na coluna Entrelinhas Caiçaras, no site Culturalmente Santista.

terça-feira, 23 de julho de 2013

O Grande Amor (Para L.)


Nunca consegui escrever sobre o amor. Pareceria pretensiosa demais a tentativa de encaixar, de enquadrar uma explicação tão particular quanto indecifrável. Também me sinto incompetente porque sempre acreditei que minhas palavras sairiam insuficientes, flertando com o cafona, com o piegas. 

Pensava que o amor seria missão para os poetas. Eu, no máximo um cronista, ficaria no meu canto, observando pessoas e lugares, relatando sentimentos mais mundanos, agarrados à leveza do cotidiano. Claro, um tipo de poesia, mas um irmão caçula diante da intensidade de quem colhe o amor no campo do abstrato. Não poderia me intrometer em um lugar onde não saberia como pisar, como me mover sem esbarrar nas cristaleiras que mobíliam o amor.

No canto deste cenário, lá no fundo, resiste ainda a crença de que atitudes valeriam mais dos que as palavras. A racionalidade, olha, é capaz de nos tornar estúpidos e cegos. Quando a vigilância do pensamento fraqueja, podemos perceber que as palavras existem justamente para isso: explicar os atos, esmiuçar o conjunto de percepções que temos na vida, conosco e com os outros, principalmente aqueles que amamos, no limite da dor. A rima, neste caso, jamais foi circunstancial. Dói porque é forte e nos sacode. Não dói porque machuca.

Não vou escrever sobre o amor. Mas vou escrever sobre o Grande Amor. Sobre aquela pessoa que, quando se junta a nós, muda nossa vida, como formiguinha que persiste em carregar folhas com o vento cortante no rosto. Altera nossos rumos porque nos ensina sem notar. Altera nossos caminhos porque nos reconstrói sem intenções pedagógicas.

Não consigo conceber uma biografia sem um Grande Amor. Sem este Grande Amor. Ela é parte de mim, numa simbiose saudável, que me diz o quanto podemos ser importante juntos, e quebradiços como marionetes quando sozinhos. As marcas aparecem não apenas no corpo, mas insistem em gritar por onde andamos.

Vejo meu Grande Amor todo o tempo. Não se trata de comportamento obsessivo, que beira o patológico. Só quem convive com um Grande Amor sabe que ele nasceu para te acompanhar, que nos lembra de que somos crianças no sentido mais lúdico que o termo pode possuir. Brincar, sem culpas. Viver, sem o dedo indicador das restrições. Ela, a mulher com quem desejo envelhecer, me transformou numa espécie de médium, que conduz e vê seu espírito em todos os endereços.

Não faço a menor ideia de como nasce um Grande Amor. Não tenho a receita, desconheço a fórmula, não arrisco perder tempo procurando em biblioteca. O Grande Amor se materializa quando a fissura parece ser a próxima fronteira da nossa trajetória. Mas ele está ali, pronto para te dar a mão quando caímos e não enxergamos perspectiva de se levantar.

O Grande Amor tranca no armário todos os sentimentos que teimam em rodeá-lo. Coloca o orgulho em seu devido lugar. Encarcera as mesquinharias, as fraquezas que decorrem da nossa falta de nobreza nas relações humanas. Algema a estupidez que se manifesta pelos erros, pelos silêncios inoportunos, pelas palavras irresponsavelmente ditas.

Amar alguém é sentir os lugares por onde nos arrastamos em lágrimas ou caminhamos com a cabeça em pé. Mas também é o desejo de visitar os lugares que ela nunca conheceu conosco. Imaginar, fantasiar são as ferramentas de quem cultiva um jardim, de quem luta para protegê-lo, consciente de que o excesso de sol pode feri-la amanhã. Ou quando ficamos surdos diante do barulho da tempestade que se avizinha. Ainda assim, readubamos a terra, ajeitamos as plantas e deixamos que as costas aguentem o tranco do que nos cortará e nos fará sangrar.

O Grande Amor não está na primeira página. Ele sobrevive nas vírgulas, no rodapé das páginas menos lidas. Ali, ele guarda o que podemos – no ponto de sofrimento – retirar como chave para abrir uma nova porta e encontrá-lo outra vez. O Grande Amor nos devolve a chave, como quem nos diz: “Olha o que vai fazer com ela.” Não é professoral, proibitivo. É preventivo porque ama.

O Grande Amor é tão importante que nos faz escrever. Como se fosse necessário registrar em palavras escritas e impressas o que já está publicado dentro de nós. Mas ele compreende a necessidade de que palavras impressas são nosso grito de benção. De redenção. De reconstrução.

O Grande Amor se torna insuportável na ausência. Saudade não é sentimento eventual, é contínuo em poucos minutos de falta. Ele nos mata pela negação, do tempo, do espaço, do desejo. Desejo incessante pelo abraço, pelo beijo, pelo toque, pela sedução, pelo sexo.

Poderia dizer que tenho pena de quem nunca o conheceu. Mas não. Não posso cometer um ato de arrogância ao insinuar que o Grande Amor faltou a alguém. É que, às vezes, não o identificamos, simplesmente porque nos distraímos na janela.

Creio - e me agarro a todas as boias – que não entro nesta lista. Meu Grande Amor tem nome, sobrenome, endereço, qualidades e defeitos. Em palavras impressas, com o valor que repele o banal e tira seu peso, posso medir os dedos e escrever: Eu te amo!