sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Roberto, Álvaro e talvez Francisco



Roberto e Álvaro não se conhecem. Não viveram na mesma cidade. Roberto – na verdade, Robert – era inglês. Migrou para o Brasil com a esposa, descendente de alemães. Ao chegar no Porto de Santos, resolveu ficar na cidade. Morou durante anos em uma chácara na Ponta da Praia, onde hoje seria o Aquário Municipal. 

Álvaro era médico e um peregrino por natureza. Nasceu em Vassouras, no Rio de Janeiro. Estudou medicina na Bahia. Em 1896, atravessou o Oceano Atlântico e desembarcou na França, onde estudou técnicas de raio-X com Madame Curie.

De volta ao Brasil, Álvaro fixou-se no Rio de Janeiro e se tornou pioneiro na radiologia e na radioterapia no país. Chegou a ser condecorado pelo então presidente da República Artur Bernardes. Mesmo um viajante de carteirinha, é bem provável que Álvaro jamais tenha visitado Santos.

Roberto, por sua vez, não tinha jeito nem vontade de viajar pelo mundo. Preferia a vida de uma cidade ainda impregnada pela atmosfera rural. Não fez grandes descobertas científicas ou recebeu medalhas de políticos de alto calibre. Mas isso não o torna menos importante que o colega carioca.

Roberto e Álvaro acabaram unidos por dois laços. O primeiro deles foi a política. São os políticos que decidem, por inúmeros motivos, quem merece a imortalidade geográfica. Quem merece viver a posteridade numa placa pendurada no poste da esquina.

Roberto Sandall e Álvaro Alvim viraram nomes de rua. A primeira fica na Ponta da Praia. Neste caso, homenagem dupla, pois a rua ao lado se chama Inglaterra, seu país de origem. Álvaro Alvim fica no Embaré e serve de ligação entre as avenidas Epitácio Pessoa e Pedro Lessa.

Outro laço é o Natal, que os tira do anonimato viário do resto do ano. Em dezembro, as duas ruas ganham status de vias congestionadas e de ponto de atração para turistas e nativos. A metamorfose acontece ao anoitecer, quando filas de carros e flashes de câmeras alteram a rotina pacata dos moradores.

A rua Roberto Sandall é composta por 14 prédios. Todos iluminam as entradas e as árvores. Alguns estendem a decoração para fachadas e apartamentos. A rua já ganhou prêmios pela identidade visual e é alvo de crônicas como esta há quase 20 anos.

A rua Álvaro Alvim se destaca pelas casas. São decorações independentes que, em conjunto, transformam a via numa alameda de luzes, personagens natalinos e cores além das tradicionais do período.

Na última semana, quando cruzei a rua, vi vários carros parados e pessoas reunidas na calçada. O primeiro pensamento foi: “houve um acidente.” Na iminência de ser absorvido pela curiosidade mórbida e pelo “antes ele do que eu”, me perguntei: “mas cadê as viaturas?”. O trânsito estava travado por conta das luzes natalinas em várias casas.

Santos poderia retomar os concursos de Natal, que premiavam as melhores decorações até alguns anos atrás. Mas as duas ruas deveriam ser proibidas de concorrer pela tradição e pelo notório saber. Caso contrário, os videntes do fim do mundo seriam capazes de acertar os vencedores.

Roberto e Álvaro costumam provocar inveja e admiração. “Por que minha rua não é assim?”. Talvez consumido pela dúvida, um religioso começou a se mexer. Frei Francisco Sampaio já mobilizou alguns vizinhos, donos de casas sobrepostas recém construídas. Eles investiram pesado nas mudanças de suas residências, principalmente perto do Canal 5. Ali, motoristas e pedestres começam a sair do transe e a olhar para os lados e para cima.

De fato, quem poderia resistir à pressão da fé, principalmente em tempos natalinos? Até os freis carregam uma pontinha de inveja.
 

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